quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

107. Ismael (30) - Mas afinal quem é que é esse tal Castro Ribeiro?



Francisca escreve muito bem, dizia o inspetor Ismael Sacadura Flores olhando para o jovem Espinheira, depois deste lhe ter lido a página noventa do manuscrito. O jovem paleólogo tinha conseguido decifrar a terceira parte do conto de Francisca enquanto, por outro lado, se ocupava das biografias que ela escreveu de alguns dos personagens, eventualmente envolvidos na morte por esfaqueamento da pobre corista italiana. Sete facadas é coisa que não se faz a ninguém, mas esta infeliz não conseguiu ter melhor sorte. Leia-me isso outra vez pedia, quase encarecido, o inspetor Ismael Flores ao jovem estudante de Letras e avençado do Estado, leia-me outra vez, Espinheira, que isso é tão bonito. E o Espinheira leu.

«A idiossincrasia do que parecia ser o chefe do grupo, dado que todos os restantes pareciam idolatrá-lo, criou-me a ilusão de que seria idóneo. Quando me desloquei a caminho do deserto, estava realmente convencido que o era. No entanto pequenos igarapés cortavam o terreno em quase todo o seu comprimento e em toda a sua largura, criando malhas incomensuráveis de água, o que nos obrigou a dividirmo-nos em ínfimos grupos de apenas três indivíduos mas que mal cabíamos nas igaras estacionadas em fila. Chegamos finalmente a uma pequena ilha, ao fim de mais de 12 horas de viagem sem nada comermos. Apenas um gole de água, que um dos indígenas me ofereceu, por uma única vez. Quando chegamos, o meu aspeto apresentava-me como um ser ignóbil. A ilha estava iluminada aparentando ser uma igreja natural. De repente, tive a sensação de me ter deixado iliçar. Ígneos archotes debruavam um caminho que me conduziria ao mais ignoto dos mundos. Eu, que não era da igualha destes autóctones, estava a ser convidado a sentar-me à volta de uma mesa coberta das mais exóticas iguarias. Não arranjei coragem para ilidir. Só pensava se sairia dali ileso»

É ou não é lindo, Espinheira?, confesse lá. Espinheira que não era pago para dar opiniões ou para confessar o que quer que fosse, mas apenas para decifrar os quase hieróglifos cursivos de Francisca, assentiu com a cabeça e perguntou ao inspetor se afinal queria saber alguma coisa sobre o Dr. Castro Ribeiro ou não. O inspetor Ismael Sacadura, olhou para o relógio e ao reparar que ali por perto estava o Rogério, cumprimentou-o tirando a boina basca que por vezes usava, principalmente quando estava frio. Rogério que se tinha sentado na mesa ao lado era todo ouvidos no conto de Francisca que, penso eu, narrador destes feitos, ainda poderá vir a ser uma coisa interessante. Levantou-se então o inspetor, arrastando consigo o jovem futuro licenciado em filologia românica, sentando-se ambos numa mesa mais recatada. E entre dois carapaus de escabeche e um branquinho caseiro dos lados de Torres Vedras, diz Espinheira que a páginas quarenta e oito e também sessenta e dois, Francisca se refere ao seu ex-marido nos seguintes termos.

“O Castro Ribeiro era um homem muito interessante na sua juventude. O padrinho dele, um padre de uma freguesia do concelho de Carrazeda de Ansiães, depois de ter mandado o menino estudar no Seminário Maior do Porto, ainda o enviou para Coimbra terminar o ensino liceal, dado que o Nuno, seu primeiro nome, não era dado às coisas da Igreja. Vivendo numa República, Castro Ribeiro terminou os cinco anos do curso de Direito em oito, mas entre bebedeiras e mulheres ficou-lhe uma famosa reputação de advogado honesto e competente, com escritório montado em Vila Nova de Gaia. Especializado em importações e exportações logo se deu com os maiores produtores de vinho do Porto, com as suas festas privadas e com as inevitáveis bacantes. Vinho e mulheres, mulheres e vinho. Bem me avisaram quando me casei com ele...”, lamentava-se Francisca às tantas, mas o inspetor pediu a Espinheira que saltasse as partes piegas que isso seria coisa mais falada no futuro e nada adiantaria para desvendar o crime. E assim Espinheira obedeceu, de modo que ouvimo-lo, quero dizer, ouvimo-lo não, eu é que inventei isto pois sou o narrador, mas fica bem dizer ouvimo-lo continuar, já saltando alguns parágrafos. “Contratado que foi para descobrir o que se teria passado com uma conta de um judeu famoso, de origens russas, aberta em Zurique, vem Castro Ribeiro muitas vezes a Lisboa”. Senhor Inspetor, vou agora saltar aqui umas frases que, ou são piegas ou são carnavalescas se não se importa, solicitou a permissão, o jovem Espinheira, ao inspetor encarregado por este homicídio, que todos sabemos ser Ismael Sacadura Flores. Entretanto, Ismael Sacadura Flores, pediu a Ismael Gusman, o dono da tasca da Rua dos Correeiros e meu amigo, galego de nascimento, que lhe trouxesse mais dois carapaus, com bastante molho e uma fatia de pão, enquanto Espinheira acabava de arrotar o gás de um pirolito, com sabor a limão, que tinha acabado de beber. Salte sim, Espinheira, deixe para outra ocasião as pieguices e fale-me lá dessa conta na Suíça, anuiu o inspetor ao pedido de Espinheira, sem qualquer tipo de contestação. Oh senhor Inspetor, retorquiu o Espinheira um bocado embaraçado. Se eu lhe contar tudo agora não fica nada para dar algum suspense à cena. Não acha que deveríamos deixar para depois do escabeche. É que até a mim me estão a apetecer uns carapauzinhos.

Enquanto os dois comiam, levantei-me, dirigi-me discretamente ao balcão, olhei para o decote de Fernandinha, hoje um pouco mais atrevido do que é costume, ainda mais atendendo à época e falei baixinho ao ouvido do meu amigo Ismael Gúsman. Sabe meu caro, eu suponho que aquele número atrás da medalhinha que os judeus andam à procura tem alguma coisa a ver com a conta na Suíça, o que é que você acha? E depois de o ver franzir os dois sobrolhos de uma só vez é que me atrevi a perguntar. Mas diga-me cá uma coisa amigo Ismael, o que é que isso pode ter a ver com o facto do Dr. Castro Ribeiro andar às seis da manhã, em pleno Cais do Sodré, quando a Ribeira já se enche de pescado, frutas e legumes, orégãos e flores, entre elas gladíolos e magnólias, aos gritos de “eu mato aquela puta, eu mato aquela puta”? O Ismael olhou para mim com um ar muito sério, quase como se fosse meu pai e repreendeu-me. Constantino, estamos em mil novecentos e cinquenta e seis, o menino ainda nem fez um ano de idade, isso são palavrões que se digam? É por estas e por outras que eu gosto mais de escrever ficção científicas do que romances de época. Acho que um dia destes ainda escreverei, “2087, o assassínio de uma corista em Andrómeda”.


9 comentários:

  1. É melhor intervalares mesmo com uns carapauzinhos de escabeche, que isto de andar para a frente e para trás no tempo é muito cansativo.

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    1. Oh Teresa, pois é, tem de ser assim, as histórias são um constante vaivém temporal e temos de nos alimentar.

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  2. Eh lá... isto até já mete contas na Suiça? Bem, o que mais virá por aí?

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  3. eu estive em carrazed DE ANSIÃES E NAO VI O ABADE
    KIS :=) SE CALHAR ESTAVA COM A AFILHADA DO PADRINHO

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    1. Uns não vêem o abade outros não vêem o padeiro e outros ainda ficam a ver navios.

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  4. Isto promete...
    Decote atrevido ou menino atrevido?! : )

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    1. Se calhar, o raio do rapazola também era atrevido... :)

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  5. Este vocabulário "riquíssimo" da Francisca fez-me lembrar um professor que tinha uma graça imprevisível.Um dia, um dos alunos respondendo a uma pergunta - já não me lembro o quê - utilizou uns vocábulos de alto calibre. Não se fez esperar,tocou à campainha e chamou um contínuo pedidndo-lhe para trazer o Torrinha...

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