quarta-feira, 18 de julho de 2018

230 . O dono da bola - #1 Muda aos seis, acaba aos doze



Passeio-me de braço dado com a minha mãe pela rua onde antes fora uma azinhaga. A nossa azinhaga. Dos valados, onde em garoto íamos às pichas de gato, raízes doces das azedas e do muro da quinta do Plantier, só recordações. Impossível era, mais de cinquenta anos depois, ainda haver vestígios. Depois vieram os prédios, primeiro do lado direito para quem caminha na direção oeste-leste e depois do lado esquerdo, um dos quais acabou por ser erigido sobre o pátio onde cresci, sobre o pátio da minha infância. Nos primeiros prédios ainda moraram, a saber, um colega da escola primária e mais tarde filho de vereador, um primo meu também e onde se estabeleceu uma mercearia / lugar de frutas cuja primeira caixeira-dona encontrei por acaso numa excursão, em Trás-os-Montes. Em Almada é que eu não a via, exatamente há cinquenta e dois anos. Coincidências do caroço, como dizia uma tia minha, já falecida. Não me lembro do teu colega, comentava a minha querida e octogenária mãe e acrescentava, Como é que este rapaz se lembra disto tudo? quando lhe disse o nome do dono da mercearia e a relembrei que no prédio onde morou a prima Helena tinha também uma barbearia. Dos donos da mercearia lembrava-se ela muito bem e até sabia o nome das filhas e dos filhos que eram muitos. E quando falámos do muro da quinta e de uma abertura que dava da azinhaga para a mesma, relembramos que as pessoas faziam daquele local uma montureira onde se despejava toda a espécie de dejetos domésticos a céu aberto, pois, segundo alguns, no tempo do Salazar é que era bom! Falamos do pátio onde moramos, das condições difíceis, dos anos sem eletricidade, nem água, nas casas de banho construídas por nós próprios, da oliveira de esquina que marcava a zona de casas da zona de barracas, da rua que subia da oliveira, cujo tronco saía da terra como se forre uma raiz e voltava a entrar em outro pedaço de terra rompendo o valado, ou melhor dizendo o valado é que lhe caiu em cima, a rua que subia para Almada e onde hoje há o Teatro Municipal e que passava no pátio de cima e na casa da madrinha e lembrei o nome dos vizinhos todos, os nossos, porta a porta, os de fora do pátio, os do pátio de cima e os vizinhos da minha madrinha. E aqui mãe, lembras-te o que era? perguntei fazendo-lhe um novo teste à memória. Se me lembro filho, aí não havia nada. Tinha razão. Era um descampado, um terreiro que já fora da quinta onde hoje está um jardim e onde os miúdos do meu tempo lançavam os papagaios ou talvez, com mais frequência, as estrelas, uma estrutura com três meias-canas laçadas no centro em forma de estrela, de maneira que os extremos ligados com fio uns aos outros, formando um hexágono regular que depois seria coberto a papel de seda e que eram mais fáceis de estabilizar e que subiam bem mais alto. A estrela vai alta como o… e lá saía o palavrão de um ou outro mais simplório, menos educado ou mais menino de rua, que esta boca, que uma vez se lembrou de dizer um impropério, foi ameaçada de levar com pimenta na língua e, por isso, nunca mais se atreveu, praticamente até ser adulto, a utilizar vernáculo nas suas alocuções. E era também o nosso campo de futebol, onde as balizas eram feitas com duas pedras em cada um dos topos, onde não havia linhas laterais nem linhas de fundo, o centro e as marcas de penalti não se marcavam ou não se viam e que, para chutar um castigo  máximo, como hoje se diz em futebolês, ou pénalte como se dizia na gíria da miudagem, contavam-se onze passos a partir do meio da baliza e nem era preciso haver árbitros. Mudava aos seis, acabava aos doze desde que o último golo entrasse bem rasteiro e no centro da baliza.

Foi neste terreiro que iniciei a minha arte de pontapear a bola para a frente, mas o futuro foi aquilo que se viu. É como se tivesse sido substituído antes do jogo começar.



Nota: Este é o primeiro texto de uma série 21 pequenos contos sobre um jogador de futebol que nunca o chegou verdadeiramente a ser. Ou então não. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

229. Alguém foi enganado

Alguém foi enganado

A história que vou contar ouvi-a também assim. Para ser mais exato, ouvi-a mais ou menos assim, pois se quem conta um conto não lhe acrescenta um ponto o melhor é ficar sossegadinho, já que não faz jus ao provérbio. E é por vezes neste ponto que se acrescenta, que se dá ou se retira o dramatismo de uma situação, ora conferindo-lhe uma nota de humor, ora adicionando-lhe um não-sei-o-quê de pesar. E neste conto não vos irei defraudar, resta saber se o que vos narrar vos fará rir ou, quiçá, chorar.
Feito que foi o introito, ou quase, também eu irei meter a foice nesta seara, opinando que o conto encerra qualquer coisa de trágico. Mais tarde mo dirão se assim é ou não e isto se assim vos aprouver. Tragédia mundana que é como alguns sábios a classificam, mas que é cá um dramalhão, lá isso é inegável. Vamos então contar o nosso conto que foi para isso que fui convidado.
Estava a internet, ou melhor, o seu uso, ainda em plena aurora e já a máquina de construir enganos começava a ser oleada. Estudava o Francisco em Lisboa, rapaz pacato e de boas famílias, se bem que de não muitas posses mas, ainda assim, havia entrado na Universidade. Cursava Direito, dizia que apesar do seu curso não iria enveredar por qualquer carreira política, não tinha vocação, o que era verdade, rapaz de perfil baixo, já que o conto é em português e escusa-se o anglicismo, ficará para outra ocasião, pronto, era low-profile, seria tão somente um advogado competente, honesto e trabalhador. Para ajudar a enfrentar a dureza do curso, como qualquer jovem classe média de hoje, o Francisco tinha computador em casa e, como praticamente se pode dizer, ter computador é o principal caminho para se estar ligado com o mundo, então o Francisco tinha também internet. Mas era Francisco um rapaz normal, o computador era um instrumento de trabalho, consultava códigos, lia pareceres, revia legislação, aperfeiçoava-se na ética enfim, tudo o que um jovem estudante de Direito, mas não só, pode ter ao alcance de algumas teclas. Os seus tempos livres eram semelhantes aos tempos livres de quase todos os outros estudantes, sextas-feiras de algumas liberdades, por vezes também os sábados, uma cerveja ou um shot, desculpem, mas aqui só mesmo o anglicismo transcreve fidedignamente a coisa, de vodka ou bagaço, mas tirando isso não se lhe conheciam noites de bebedeiras ou outras más vidas, regressava sempre a casa cedo, os pais não tinham de que se preocupar.
Mas alto e para o baile! E se isto que se acaba de ler, apesar da fluência, não é um corridinho, pode ser um baile mandado pois se quem dita as voltas é o mandador, aqui o dito chama-se computador, refúgio diário do Francisco, mais ainda aos fins-de-semana, está agora explicado porque é que o rapaz, apesar de gostar da farra, regressava sempre cedo para casa e ninguém o podia acusar de vir já com um grãozinho na asa, se disse antes e se confirma, uma cerveja ou um shot e era tudo. Atinado era ele e pronto, está o Francisco caraterizado, vamos à ação que até agora foi pouca.
Ora não se pode dizer que os trabalhos escolares fossem assim tantos ou que o rapaz se empenhava exacerbadamente no seu curso, porque consulta aqui, leitura acolá, o que o Francisco mais gostava era de conversar com aquela brasileira simpática de quem um dia recebeu por e-mail a sua fotografia de rosto, tipo-passe e, mais tarde, passeando-se como uma verdadeira garota de Ipanema, olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, pelas praias do Rio de Janeiro, Ipanema, Copacabana, Angra dos Reis, num corpo escultural, dentro (?) de um reduzidíssimo biquíni, coisa pouco vista nas praias portuguesas, apesar do maravilhoso sol do nosso Algarve. Além dos predicados físicos era culta, educada, meiga e autónoma financeiramente. Dizia-se moça de posses, órfã de pai, que fora morto acidentalmente num fogo cruzado em plena avenida Brasil entre gangues rivais. E o mais importante: apaixonada! E eram tantas as palavras doces, escritas naqueles cibernéticos bate-papos que o Francisco começara a ver telenovelas apenas para poder sentir o sotaque da doçura e a sensualidade das palavras batidas naquelas teclas no outro lado do Atlântico. E eis senão quando, um belo dia que se não sabe se de chuva se de sol, recebe o nosso Francisco uma passagem de avião só de ida, Lisboa-Rio de Janeiro, oferta da sua amada, com todo o amor e carinho. Adeus meu pai, abraço minha mãe, adeus também Faculdade de Direito, adeus Lisboa, ah táxi para que te quero, aí vai o Francisco rumo à Portela, adeus Portugal, tchau a todos que o meu destino está marcado, esta é a hora.
Foi só quando viu, aquela velhinha simpática à espera dele nas saídas internacionais do Galeão, com um pequeno cartaz que dizia "Francisco, Portugal! Estou aqui!" que lhe caiu a ficha e lhe vieram à memória as palavras do pai "Estás aqui, estás a voltar". A bruxa boa, neste caso, coitadinha e apaixonada, era a vovó. A neta estava a leste. E foi aqui, com a mesma determinação do mandador que ele terá pensado: palminhas acabou, mas houve alguém que se enganou.

PS. Este texto obteve uma menção honrosa na modalidade de Conto nos jogos florais de 2017 da UATI – Universidade do Algarve para a Terceira Idade, sob o pseudónimo de Padre António Vidigueira.
PPS. Este é um texto de ficção e totalmente criado pelo autor. Qualquer semelhança com pessoas, factos e locais cruzados é pura coincidência


Vítor Fernandes aka Constantino

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

228. Aquário (*)



o aquário: Chamavam-lhe chavalo. Era um misto de calão e de gíria em portunhol que se falava naquela povoação fronteiriça. O seu grande sonho era ver o mar. Não admira que fosse desejo de família. Quando nasceu nem hesitaram, pais e padrinhos estiveram sempre de acordo. Haveria de chamar-se Mário. Marinho para os mais íntimos. Chavalo para a rapaziada. Chavalo Marinho como que uma premonição. A vida para ele era uma festa. Todos os dias eram de carnaval. Juntavam-se caretos, fazia-se teatro. O teatro da vida. Veneziano, pois então, que as máscaras não tinham sido desenhadas para menos. Ele era sempre o protagonista. Montou o seu espaço. Chamava-lhe, sentimentalmente, o seu aquário. A comédia da vida, junto ao mar. Ou junto a um sucedâneo, por falta daquele. O seu aquário. Dele brotavam bolhas oxigenadas como que balões de festa ou respiração de peixes. E nem os dragões escondidos nos mentideiros como se de uma tourada sem touros se tratasse conseguiam arrefecer as águas. Eram dragões de fogo fátuo, efémeras lavaredas cuja água do seu oceano, o aquário de Chavalo Marinho facilmente extinguiam.

ele e os outros: Chavalo Marinho valia por toda a companhia - era o encenador e o ator principal - travestia peixes-macho em peixes-fêmea , fazia anémonas parecerem medusas e cantava em falsete quando a baleia branca faltava aos ensaios. Os outros eram peixes, dragões e ervas subaquáticas. Tudo para ele era mar.

o drama: Tudo aconteceu de repente. Serafim, o pai,  bêbado que nem um cacho estava possesso.  A taberna estava fechada. O delirium tremens apoderava-se-lhe dos músculos. Tinha de beber. Invadiu o teatro, introduziu a cabeça no aquário e sorveu-o de um só gole. Engasgou-se com a cabeça de um robalo errante, uma medusa cobriu-lhe a cabeça. Continuaria bêbado mas não seria careca.

epílogo: Marinho acordou. Lá fora relinchou Pégaso o seu amigo equídeo, mas não alado, era real e não marinho e o pai não estava bêbado, nem careca. Tomou o pequeno almoço e foram à pesca. No rio. O mar ficaria para mais tarde. Perguntou-lhe doce e desconfiadamente:
- Papá, os dragões existem?



(*) Não encontrei na net o quadro de Agostinho Santos de onde fiz a leitura supra. Fica outro da sua interessante obra.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

227. Não se grita com as mulheres, ponto!


Era uma crise do caraças lá em casa. Não havia coisa que ele fizesse em que ela se não metesse. Não era por mal, ele bem o sabia, mas aquele vício desgraçado de meter o nariz em tudo deixava-o à beira de um ataque de nervos. Se ele estava na cozinha, ela chegava e aumentava ou diminuía o fogo. Se ele fazia o refogado, ela comentava a cor do estrugido. Se ele fritava um bife, ela falava-lhe do ponto. À mesa observava a quantidade de salada que ele comia ou não comia, se tinha deixado a cebola no prato ou não, se ele deixava ou não deixava a carne agarrada ao osso das costeletas. À hora da sobremesa se ele se levantava para ir buscar cerejas ela contrapunha que também havia melão. Nos dias em que ele vestia uma camisa aos quadrados comentava que se calhar uma às riscas ficava melhor e perguntava-lhe muitas vezes porque é que não levava os sapatos castanhos em vez dos pretos. Quando o apanhava a ler perguntava-lhe se não era melhor acender a luz da mesinha de sala em vez do lustre e na casa de banho comentava-lhe o vício de dobrar o papel higiénico antes de o usar ou porque é que ele não apertava a bisnaga do creme dentífrico de baixo para cima. No dia em que lhe observou que ele ainda não tinha posto champô na cabeça e já se estava a enxaguar foi o entornar do copo. Ele deu-lhe dois berros que fizeram estremecer o apartamento e a torneira da água começou a soluçar. Debaixo de uma lágrima furtiva ela jurou que nunca mais se meteria nos assuntos dele.

Encontrou-o morto em cima da cama. Avisou-o apenas ao fim de três dias com medo de ser acusada de andar sempre a meter o bedelho onde não devia.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

226. A história de um passarinho

A história que vos trago hoje foi escrita a partir de uma proposta feita pelo José Teixeira o nosso professor de Teatro no Centro Social e Paroquial Padre Ricardo Gameiro na Cova da Piedade, Almada. A ideia de ter utilizado uma paisagem russa e o nome dos personagens serem em russo, surgiu-me devido ao facto do meu neto Daniel ter começado, por conta própria, a aprender o alfabeto cirílico e ser capaz de ler palavras escritas em russo. Portanto dedico o conto ao Zé Teixeira e ofereço-o ao Daniel. Convosco, partilho-o.




птичка, o passarinho

Em tempos que já lá vão, na longínqua Rússia, junto ao mar Cáspio, havia um passarinho chamado птичка que era um passarinho rabilongo e que sempre habitou nos pomares do senhor Gervasio Gervasovich. Andava sempre de raminho em raminho, de figueira em figueira, nos ramos das oliveiras caspianas, tendo chegado mesmo, em tempos um pouco mais atrasados, a habitar um apartamento, a que ele chamava, orgulhoso, "мое гнездо", no quarto ramo a contar de cima do grande diospireiro no quintal das traseiras. Mas o senhor Gervasio Gervasovich modernizou-se muito. E um dia, quando a folha do limoeiro começou a encarquilhar e as ameixeiras e os pessegueiros se encheram de вшей que é com quem diz piolhos, o senhor Gervasio Gervasovich foi à drogaria da великая битва улица ou seja à Rua da Grande Batalha, comprou pesticidas para matar a moléstia e depois limpou muitos ramos e muitas folhas das árvores e, mesmo no meio do pomar, fez uma grande queimada. O rabilongo птичка, a quem muitos meninos também chamavam o ряби que como todos sabem quer dizer Ondinhas em russo, porque voava sempre como que fazendo ondas no ar, acabou por adoecer. Primeiro com o fumo que respirou da queimada que o ia intoxicando por completo e finalmente com o mal que lhe adveio dos químicos do senhor Gervasio Gervasovich. Até que, quase sem forças para voar, caiu desfalecido no meio do pomar do senhor Gervasio Gervasovich. Quando o homem viu o птичка ali caído, teve alguma pena pois que até tinha sido um neto que lhe ensinara o nome e pensou que ainda iria sentir saudades do seu belo canto. Mas já não havia nada a fazer... E pegando-lhe por uma asa jogou-o cerca fora para cima duma montureira. É então que a gaivota чайка, ao ver ali o птичка, a respirar tão mal, resolveu que hoje a sua refeição não seria de peixe mas sim de um belo bife de passarinho rabilongo. Prendendo-o no bico deu duas voltas no ar, e eis, senão quando, suprema das guloseimas, avistou, quase ao rebentar das ondas da praia das costas do Mar Cáspio, um grande cardume de arenques bebés. A babar do seu curvo bico e voando picado em direção ao cardume, deixou cair o passarinho птичка  no meio daquelas vagas de alva espuma. Logo ali se formou uma conferência de peixes que, ao avistarem птичка  e verificando que não se tratava nem da sua inimiga gaivota чайка, nem qualquer uma das suas irmãs, se reuniu à volta do rabilongo. Todos opinaram, pois todos achavam que eram importantes na conferência suprema de peixes já que todos eram conhecidos pelos seus nomes próprio, o carapau ставрида  e a sardinha  сардина, a lula кальмар  e o goraz лещ, a pescada хек  e o pargo порги. Mas foi o tubarão акула, de altivo porte, que fez com que todos os outros se afastassem à sua chegada, quem ditou a sentença: "Tal como vocês, seus peixes minúsculos, dizia ele que era tubarão, não gostam de ser comida das aves, também nós peixes não devemos devorar passarinhos. Assim determino que esse rabilongo moribundo, que nem sequer está morto e quem sabe ainda se venha a restabelecer, seja já enviado para terra". E foi assim que uma tainha,  de seu nome кефаль se propôs a fazer de prancha e, colocado que foi o passarinho птичка em cima da tainha кефаль pelo focinho inteligente do golfinho дельфин, lá foi o passarinho птичка  a surfar na tainha кефаль até acabar, ainda mais débil do que estava antes, nas areias da praia caspiana.  Mas o destino tem coisas que nos surpreendem e se isto que vos estou a contar não fosse verdade, até parecia mentira. Um menino russo de pele muito branquinha e cabelo loiro, que por ali estava com os seus progenitores, ele russo, ela ucraniana, a brincar no areal depois de mais um dia de aulas, em russo está de bom de ver, ao ver uma coisa estranha na areia, aproximou-se e ouviu um piar muito sumido; tão fraquinho, tão fraquinho era o piar do птичка que o menino nem acreditava que ele pudesse estar vivo. Aos gritos de Отец!, Мать!, pai, mãe, pai, mãe, por favor, Помогите! Socorro! acudam (os putos russos fazem tanta chinfrineira como os putos portugueses), conseguiram os três pegar no passarinho птичка, enfiá-lo num casaquinho de malha vermelho que a mãe tinha feito para o pai assistir no sofá aos jogos do Sport Mar Cáspio e Benfica e dar-lhe algum calor. Chegado a casa, o Aleksandr Alexandrov, assim se chamava o menino, ajudou os pais a secarem o птичка, deram-lhe água por um conta-gotas, tendo contado até dez em russo, один, два, три, четыре, etc, já que o pássaro apresentava sinais de desidratação evidentes e quando este pareceu querer retomar a respiração esmagaram alguns grãos de soja e esfarelaram um pouco de pão de trigo que tinha sobrado de véspera e estava ótimo para esfarelar. Horas depois, o nosso querido птичка já comia e já voava. Três dias depois de tanta preocupação, cuidados e afeto, quando tudo indicava que птичка  já seria o pássaro mascote da família, o passarinho rabilongo bateu asas e saiu janela fora. Todos os dias, o bom do Aleksandr Alexandrov vai ao cimo do morro perto de sua casa,  mal a campainha da escola toca para a saída, olhar para a praia para ver o seu птичка   a voar e a brincar com os tubarões.


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segunda-feira, 9 de maio de 2016

225. Os três planetinhas e o meteorito mau



Para o meu neto Daniel que faz 5 anos no próximo dia 12, uma adaptação livre da conhecida história dos Três porquinhos. Ele que é um admirador do Sistema Solar...



Os três planetinhas e o meteorito mau

Era uma vez três planetinhas que gostavam de brincar na galáxia. A sua brincadeira preferida era o jogo das escondidas. Tão depressa desapareciam e ninguém os encontrava, como apareciam, à noite, brilhantes no firmamento. Por vezes só apareciam pela metade mantendo a outra metade às escuras. Se os restantes astros não os conhecessem bem e não soubessem que quem tem cauda são os cometas e não os planetas, acabariam por dizer que se tratava de planetas escondidos com a cauda de fora. Mas não. Eram mesmo planetas.

Um dos maiores sonhos do planeta mais velho era vir a pertencer a uma constelação, mas depois de consultar muita literatura e perder horas com o iPad a ver youtubes atrás de youtubes, de maneira que até ficava com a cabeça à roda de tanto pesquisar, chegou à conclusão que a casa dele nunca poderia ser uma constelação, pois essa era a organização habitacional das estrelas e não de outros astros, mas apenas uma órbitra da qual não deveria sair sob pena de se vir a estatelar num qualquer buraco negro. Contentou-se, assim, em pertencer a um sistema planetário, girando com os seus irmãos mais novos à volta de uma grande estrela. Giravam tanto, tanto, tanto, em elípticas repetitivas e mesmo à volta deles próprios, como um gato a tentar apanhar a sua própria cauda, que por vezes chegavam a ficar com tonturas de cabeça.

 O planeta do meio sonhava ser cometa. Um dia ainda tentou fugir de casa. Sem que ninguém o visse, durante o dia, pois que à noite seria bastante notado, desde que estivesse acima da linha do horizonte e andasse na sua fase iluminada, foi, pé ante pé, ter com um asteroide amigo dele e perguntou-lhe onde é que poderia comprar uma cauda. Mas não teve sucesso. O asteroide indicou-lhe a barbearia do Sr. Tesourinhas que um dia cortou o rabo ao macaco Chico, mas este já não o tinha, pois que o barbeiro já havia trocado o rabo do macaco por um saco de sardinhas e assim, coitado, continuou a viver na sua posição intermédia, entre o planeta mais velho e o mais novinho, este sim um verdadeiro cabeça no ar, sempre na rua, sempre a tentar sair da órbitra da estrela que o iluminava, um grande desobediente, em resumo.

Pois o mais novo, um planeta engraçadinho, como são engraçadinhas as coisas pequenas, os gatos, os chinchilas, os bebés, era um doidivanas. A alegria dele era andar a brincar na rua com os cometinhas, com as estrelinhas, até mesmo com as pequeninas estrelas cadentes, sem saber o perigo que era quando os pais delas apareciam por perto e todos de mãos dadas, que é como quem diz de órbitas conectadas, cantavam em algazarra no vácuo do firmamento, sem que outros os pudessem ouvir:

"quem tem medo do meteorito mau, do meteorito mau, do meteorito mau?
quem tem medo do meteorito mau, do meteorito mau, do meteorito mau?
lá lá lá lá lá..."

Um dia, o meteorito mau aproximou-se sorrateiro, da roda que os pequenos astros faziam e onde se divertiam, mas a uma velocidade tal, que se não fosse o brilho que tinha e o calor que emanava ninguém tinha dado por ele. Foi tal a ventania cósmica que provocou, que fez com que o jovem planetinha desse duas voltas no ar saísse da sua própria órbitra, deambulasse pelo espaço durante milhões de anos e fosse cair no sistema solar. Ficou bastante para lá de Plutão, e é agora conhecido por Makemake.

Não contente com o que tinha feito o meteorito mau passou também perto da casa do planetinha do meio. Este que sempre sonhou ser cometa e voar dali para fora e, depois do que tinha visto acontecer ao seu irmão mais novo, nem hesitou. Abriu a janela e deixou-se empurrar pelos ventos provocados pela passagem do meteorito. Deu tantas voltas no ar que até a respiração lhe veio a faltar. Infelizmente para ele, apesar de ter esticado os braços, não conseguiu apanhar o rasto provocado pelo meteorito mau e foi tal o esforço que fez que acabou por desmaiar. Quando acordou encontrava-se na órbita do Sol como mais um planeta anão do sistema solar. Tinham-lhe dado um novo nome, chamava-se agora Éris e era um dos maiores planetas anões atualmente conhecidos.

Quanto ao planeta mais velho e também mais experiente, ao ver o que acontecera aos irmãos, fora bem mais preventivo. Pediu ajuda à estrela à volta da qual girava, solicitou-lhe que ela o prendesse ainda com mais força, de tal maneira que o meteorito mau ainda tentou entrar pela cratera de um vulcão que estava no planeta a servir de chaminé mas não conseguiu. Fez tanta força, mas tanta força, este meteorito mau, que estoirou e transformou-se em milhões de partículas incandescentes. É por isso que no mês de agosto se vê nos céus um autêntico festival de estrelas cadentes.   

terça-feira, 15 de março de 2016

224. Vinte de março de um ano bissexto ou a primavera dentro de nós



Naquele dia, Jorge não acordou muito católico... a festa da véspera caíra-lhe na fraqueza pois que, por mor de um trabalho urgente e demasiado exigente, passara o dia inteiro apenas com uma hamburguesa de tofu no estômago. Saíra do escritório diretamente para casa do Pedro, onde os quatro da vida airada, companheiros de muitas peripécias e aventuras enquanto estudantes, o Pedro, o Aires, o Timóteo e ele iriam comemorar qualquer coisa que a sua cabeça, hoje demasiado confusa, não se conseguia lembrar. Bebeu álcoois das mais diversas origens e proveniências, destilados misturados com fermentados, umas tapas de requeijão e outras com trufas francesas em molho de gengibre e nozes, jogou uma partida de bridge até que Madalena, a namorada de Pedro, chegara com umas amigas, oh-lá-lá de aspeto e ousadia, e mais não se poderá contar desta noite de todos os pecados, terá de ser o próprio leitor a imaginar, se é que não está já a congeminar luxuriosos desfechos. Jorge apenas jurava que não podia ser por causa de uma noite mal passada, ou bem, conforme a perspetiva, pois dessas, iguais ou semelhantes na forma e nos conteúdos, tinha ele conta que chegasse, ultrapassando em muito as tabelas da tabuada convencional. O que o martirizava era que na cabeça dele lhe não ocorria às quantas andava, que é como quem diz, não sabia nem de data nem de hora, pois que se vivesse no campo, em vez de num arranha-céus nas Laranjeiras, isso lhe não escaparia. O galo da tia Anastácia se encarregaria de o avisar. Que raio de coisa haveria agora de lhe ter vindo á ideia... o galo da tia Anastácia há muito tinha sido consumido numa cabidela deliciosa. E quanto mais no seu cérebro se discorria em desfile, numa confusão de sambódromo, pratos, ementas e petiscos, maiores eram as voltas que se lhe dava no estômago como se fossem de bêbado as suas sensações. Abriu a janela para tomar ar e a luz radiosa de um dia azul, embora fresco de Março, feriu-lhe de imediato o olhar. Lá fora, onde a jornada ia a meio, um misto de odores a gasóleos queimados do intenso tráfego que povoa o eixo norte-sul e o cheiro enjoativo a jasmim que desponta em canteiros e beirais, preparava-se para ser o detonador. Sem mais delongas, correu desesperado para  a casa de banho, colocou a cabeça quase dentro da sanita e, num impulso convulsivo, expeliu de dentro dele, do mais profundo das suas entranhas, um ramo de malmequeres viçosos, de um branco natureza puro, pontuado no centro a amarelo-gema, como se cada cálice de malmequer fosse uma chávena de leite com vapores de neblina. Todos os anos isto lhe acontecia e o sonho, nesta noite de transição, embora de caraterísticas muito variadas, era recorrente. A primavera despertava sempre de dentro dele onde apenas o bouquet floral variava, mas este ano viera um dia mais cedo por ser um ano bissexto. E lembrou-se, escondido num sorriso dissimulado pelos olhos entreabertos e feridos de primavera, de que no passado regurgitara um ramo de rosmaninho.