terça-feira, 23 de julho de 2019

249. A minha avó Emília e as cegonhas






- That's one small step for a man, one giant leap for mankind.

- O que é que ele disse filho? – perguntou-me a minha avó Emília.

Eu ainda não dominava a língua inglesa para fazer uma tradução exata do que Neil Armstrong acabava de dizer e além disso as condições sonoras da transmissão não eram as melhores. A minha Schaub Lorenz não raro necessitava de umas palmadas para que as válvulas estabilizassem e aquele scroll vertical acalmasse. Ainda assim respondi:

- Disse que era um feito muito importante para todo o mundo.

Foi desta maneira que acabei por explicar, em palavras simples, à minha avó Emília que, nos seus setenta e seis anos de idade se aguentou firme, ela e eu, a ver a chegada do homem à Lua, o que Armstrong dissera. A minha avó não sabia ler, nem escrever, mas era de uma inteligência incontestável. Obviamente em muitos casos, limitada às suas vivências o que não contraria a famosíssima tese de Ortega y Gasset, mas ainda assim, nem um só momento duvidou de que o homem tinha chegado à Lua. O que ela afirmava bastas vezes, é que receava o que poderia acontecer por eles andarem a “mexer” lá em cima.

Mas ao contrário da da minha avó, era voz corrente a de que o homem não tinha ido à Lua e que aquilo era tudo inventado pelos americanos. Não me admiravam essas afirmações. Estávamos no terceiro quartel do século XX, um século que viu nascer o avião a jato, a televisão, o computador. Era muita coisa num século só. E de que daí nascessem teorias da conspiração, ficções para vender livros e documentários não me espantou nada. O pior não era esse tempo. O pior é hoje. O pior é que ainda há quem afirme que a Terra é plana. E têm seguidores. Um dia destes ainda os vamos ver em manifestações para exterminar as cegonhas com o fim de controlar a demografia. Ai não tarda, não.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

248. O dono da bola - #17. O interturmas na Universidade



Foi um jogo histórico. Era o último jogo da fase de grupos e bastava-nos uma vitória. Qualquer que fosse o resultado pois 1 a 0 já era o suficiente e seguiríamos em frente. Era o nosso último ano no Técnico e nunca a nossa equipa tinha passado em primeiro lugar a fase de grupos. Era aquela a nossa grande chance e logo contra, se não a mais fraca, uma das mais fracas equipas do torneio. Tínhamos ganho, até com surpresa,

a Providência Divina, nunca ouviste falar? Parece que não…

a outras que não esperávamos, mas naquela altura até jogávamos bem, tínhamos uma boa linha. Começamos logo a carregar. Alugávamos o nosso meio campo nem que fosse para fazer uma feira.

nunca se saíram bem os vendilhões do Templo…

Os tipos nem tocavam na redondinha. As oportunidades surgiam atrás de oportunidades e o golo estava eminente. A confiança era enorme. O nosso guarda-redes era um mero espectador.

!fia-te na Virgem, fia-te na Virgem e não corras e vais ver onde vais parar!

Fizemos deles gato-sapato até que, uma bola perdida, um pontapé para a frente apanhando-nos em contrapé e toma lá que é para aprenderes,

eu não digo, eu não digo?...

os gajos marcam um golo. Estávamos a perder por um a zero mas isso não nos afetou o ânimo.

isso dizes tu. Faço ideia a tremedeira que por lá ia…

Em cada bola que chutávamos parecíamos querer explodir num tremendo grito de golo. Mas a bola teimava em queimar os postes ou o guarda-redes deles defendia tudo e quando não era ele a defender as bolas bateriam num defesa.

- E agora já acreditas na Providência Divina?
- Eu nunca deixei de acreditar…
- Ah não?
- Não. Só não percebo ainda porque é que fomos desprotegidos!

Até que às tantas, penalti! Penalti a nosso favor, ainda havia tempo. A segunda-parte tinha começado agora mesmo. A recuperação era possível. O Jorge foi marcar e… falhou.

entraram em campo sobranceiros, só podia ser. Sabes o que é humildade?

Deceção total. Tinha sido naquele momento ou nunca. Qual nunca, qual quê!

- Neste aspeto tens razão. A esperança é sempre a última a morrer
-Deixas-me acabar a história, ou não?
- Acaba lá. Mas olha que estou com um mau pressentimento
- És um agoiro!

Vamos mas é ganhar isto! Vamos? E continuamos a mandar bolas aos postes, outras salvas in extremis, o tempo a passar e acabamos o jogo perdendo por um a zero. Caímos exaustos no chão. Foi ali o meu último jogo num torneio interno do Técnico. Era o meu 5º ano e algumas semanas mais tarde terminaria o curso.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

247. O dono da bola - #16. Um autocarro em frente da baliza


O título deste texto apresenta uma expressão que se tornou popular no mundo do futebol. O seu significado é o de que uma equipa se coloca numa atitude tão defensiva, que os seus elementos ocupam todos os caminhos de acesso à própria baliza. Isto nem seria assim tão errado, poderia mesmo querer dizer que a equipa defendia muito bem se, por acaso, isso não significasse também o abdicar quase por completo de efetuar jogadas ofensivas.

Ó Pá, não te vais agora aqui pôr a explicar táticas de futebol. Os teus leitores querem ler histórias e não tretas.

A nossa equipa no interturmas da Escola Náutica não defendia bem. Também não defendia mal. A nossa Quiaios Team não defendia nada! Ele era cada tareia que tirava a barriguinha de misérias a cada equipa que nos defrontasse. Mas naquele dia, não! Naquele dia, tudo iria ser diferente.

Então vá lá, qual foi a tática?

Durante toda a semana se ouvia falar que era desta vez que íamos levar trinta. Como se fosse um jogo de andebol. Íamos jogar contra a melhor equipa do torneio. Já a nossa equipa de craques, a primeira equipa da turma, aquela de que vos falei no episódio anterior, já essa tinha sido esmagada. Agora iria ser a degola dos inocentes. Nem íamos sair do meio-campo. E pronto, é verdade, praticamente não saímos.

Ah não? Isso é que é tática? Agora sou mesmo todo ouvidos. Mas despacha-te que não tenho o dia todo…

O Rui falou com a malta. Não se usava ainda a expressão “meter um autocarro em frente da baliza”. Nem nós eramos camioneta para tanta areia. Então o melhor era esperar, mas não tão perto assim da área, obrigando-os, se quisessem, a rematar de longe e nós nunca descompensarmos. Bola cortada, era pontapé para a frente. Eles que corressem, haveriam de estoirar de cansaço. E o pessoal se perdesse por um ou dois já era como se fosse derrota para eles. Eu ouvi, mas não calei. Logo eu que só gosto de marcar golos. Defender para mim tem de ser de circunstância. O meu lugar é na frente a marcar golos. Se eu levasse uma bolada de um daqueles, levezinho como era, até dava meia volta no ar… Mas tem de ser, dizia o Rui. Se não tínhamos nenhuma chance de lhes ganhar, então também não serviríamos de chacota.

Resultou?

Por duas vezes que não recuperei. Ou porque me esquecia de ir mais atrás, ou porque a minha rotina não era aquela, ou porque a minha maneira de ser era outra, que se lixasse se levássemos dez ou trinta, era perder na mesma. E tal como os pensamentos voam também as bolas e, por duas vezes, ela me saltou na frente, eu sozinho no meio campo adversário apesar do mau estar e, reconheço, falta de solidariedade para com os meus colegas lá atrás, a levarem com a artilharia “inimiga” toda em cima. E ah! Pernas para que vos quero, bola tentadora e enquanto o “treinador” gritava, Chuta pra fora e recua!,  lá fui eu a correr direito à baliza adversária, uma das vezes desarmado in extremis e outra vez com um pontapé disparatado para as nuvens.

Ena, o que vai para aí de sofrimento e frustração…

Ele há pensamentos que ultrapassam os timings da narração. Mas a verdade é que esse foi um dos jogos mais frustrantes da minha “carreira”.  Perdemos por poucos, eu só joguei meia parte, desisti ao intervalo, não tive estofo para aquilo, o meu estômago não me deixava, era a revolta dentro de mim. Eu já não seria útil no segundo tempo. E foi verdade, não fui preciso para nada. Perdemos por poucos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

246. O dono da bola. #15 - Quiaios team e a origem do nome de Lisboa


Foi por causa do Maia Brás que a nossa equipa de futebol, no interturmas da Náutica, se chamou Quiaios Team. O Maia Brás, apelido deste nosso amigo, e tal como era conhecido na Escola Náutica Infante D. Henrique, era natural de Quiaios.

Contou-me um dia, que o nome da sua terra provinha de uma evolução fonética utilizada, durante a chamada reconquista cristã, por um soldado de Afonso Henriques, o nosso D. Afonso I, que ao descortinar escondidos nos ramos de uma oliveira, a celebríssima oliveira de Quiaios, uns quantos guerreiros mouros, terá gritado – Aqui há-os! Aqui há-os! E daí Quiaios.

Quiaios Team, quiçá a pior equipa que alguma vez tenha participado num interturmas da Escola Náutica. É verdade!  A nossa turma de Máquinas estava recheada de craques, mas era uma cagona. Sim uma cagona, porque tinha a mania. Eram só futebolistas de eleição, alguns altos e outros altos e loiros, alguns que sabiam fazer muitas fintas, um outro que jogava no Oeiras! Tudo muito bom, tudo escolhido a dedo, tudo muito habilidosos… infelizmente, digo infelizmente porque eu também pertencia à turma, mas não à equipa e tive pena, eles não passaram da cepa torta. Quanto a nós, o Quiaios Team, ficamos em último, contudo com muita honra.

Conta lá isso bem de ficarmos em últimos e com muita honra…
Dois de nós não podíamos fazer parte da “equipa da turma”, a dos craques pois, como andávamos no Técnico ao mesmo tempo, não estávamos lá quando se formou a linha, disse um, o dono da equipa, mas que por pudor não digo aqui o nome. Tretas! Bullshit! Mas não, não nos ficámos. Ah, isso não. Fomos à procura de malta.

O Barreto que era muito alto

- Futebol, o que é isso?

só sabia jogar basquete. Pegava numa bola de futebol e lançava-a ao cesto. E depois ria-se.
O Nuno não era muito alto, mas era o companheiro do Barreto a jogar basquete e amigo de família, ambos retornados de Moçambique, já se conheciam de Lourenço Marques, sabia o que era uma bola de futebol, mas não sabia como chutá-la.
O Acácio que também sobrou de outra turma, que embora gostasse de jogar futebol também era mais basquete. Acho que chegou ainda a jogar oficialmente.
O Rui e eu também alinhamos, nos dias que não tínhamos obrigações no Técnico e, finalmente,
o Maia Brás que era o guarda-redes, sem técnica, sem saber quando ir à bola, mas corajoso, ficando muitas vezes com as mãos a escaldar quando a bola aparecia com mais força. E foi assim que levamos cabazadas atrás de cabazadas até que um dia decidimos colocar o autocarro à frente da baliza. Mas isso ficará para outro dia.

É pá hoje foi pequenino!

E foi.


No dia que o meu amigo e colega de quarto na residência da Escola Náutica me contou como surgiu o nome de Quiaios, inventei, por analogia, a origem do nome de Lisboa. Embora sem a ficção que coloquei no texto seguinte, foi assim que acabamos a conversa do dia e apagamos a luz, porque às oito da manhã iriamos ter um teste de motores. Aqui partilho então a explicação que lhe dei da origem do nome da nossa Capital.

Agora que já sabem como surgiu o nome de Quiaios, fiquem a saber como nasceu o nome da nossa Lisboa. Também durante a reconquista cristã, uns diazitos após “aqui há-os” lá para as bandas da Figueira da Foz o que viria a ser Quiaios, os soldados portugueses, em consequência do entalanço do nobre Martim Moniz nas portas do Castelo e como prémio de jogo, já que nesse tempo só se pagavam como Ronaldos, os padres, os nobres, os fidalgos e os cavaleiros, com conventos, terrenos e até povoações inteiras, tiveram direito a folga. Desceram a costa do Castelo, embrenharam-se na Mouraria, ouviram ou então pensaram ter ouvido um fadista louco, beberam na tasca do Gingão, compraram pentes para os longos cabelos e pensos rápidos para cobrir uns arranhões que um ou outro mouro mais atrevido lhes tinham feito e que à conta disso acabaram por perder as cabeças, no largo que mais tarde haveria de ter o nome do nobre mártir, a uns indianos que iam a passar (houve um que comprou flores), jogaram moeda ao ar, creio que um cruzado novinho em folha, quer-se dizer novinho em cobre e prata, e saiu-lhes subir a Almirante Reis, muitos anos, mas mesmo muitos, antes do tal Almirante ter nascido. E se o carbonário ainda não tinha nascido, também o não tinha Diogo Inácio de Pina Manique o que haveria de ser Intendente do Reino e a quem lhe foi atribuído nome de Largo, por acaso durante muito tempo de má fama pela sua frequência. E é aqui que retomamos a toponímia, ou melhor dizendo de toponímia temos nós estado a falar, retomamos o tema que foi o da origem etimológica desta nossa linda capital: Lisboa. Um dos guerreiros, já com um grão na asa, pois não lhe tendo bastado o canjirão de tintol que havia virado na tasca da Rua do Capelão, ainda desrespeitou o sorteio de cruzado ao ar que os mandava para a direita e sem ninguém ver, virou-se para a esquerda, não por qualquer convicção política, mas porque alguém já lho tinha recomendado e deu um salto ao Rossio, onde entornou de seguida duas ginjinhas com elas, entornou é como quem diz, ah não que ele não sabia o que era bom, não tivesse ele passado por Óbidos quando marchou de Quiaios por aí abaixo para tomar o castelo de uma das mais belas colinas da nossa cidade. E para que não nos percamos neste relato, o dito soldado que mesmo correndo aos zigues-zagues ainda teve tempo de apanhar os seus camaradas, que se haviam distraído a olhar para umas lojas de chineses, embevecidos com os rádios transístores e uns vestidos em algodão e poliéster que estavam nas montras e por um tipo de tez morena e cabelo com brilhantina que lhes tentava vender relógios, em pleno largo do Intendente, olhando um grupo de moças, a que alguém teima em dizer que eram meretrizes, mas que se limitavam a rodar a bolsinha por um cordão enfiado no dedo indicador, gritou a plenos pulmões, embora a voz lhe tenha saído um  pouco arrastada e, diz quem assistiu, um bocado aos soluços: - Ali as boas! E pronto a evolução fonética encarregou-se do resto, os acordos ortográficos, mormente a Reforma de 1911 que acabou praticamente com o grego da nossa escrita, deu-lhe o formato final. Talvez por isso eu me tenha visto grego para vos relatar facto histórico tão relevante para a nossa portugalidade, como seja o nascimento desta Lisboa que eu amo. E se o Rei morreu, alguns anos depois e o último se finaria de morte matada em pleno Terreiro do Paço, por aqui me fico porque eu gosto mesmo é de jogar à bola.

Algumas notas finais, de frases e diálogos não introduzidos no texto para que não se perdesse o fio à meada:

- Quer frô? (pergunta feita no largo Martim Moniz por um vendedor que se julga, só alguns anos depois poder ter vindo da Índia ou do Paquistão).

- Este gajo não canta nada (frase ouvida sair de uma tasca na Rua da Amendoeira, em plena Mouraria, que levaria a uma altercação da ordem pública, mas onde os guerreiros não intervieram, não só porque estavam de folga, mas também porque de fado não percebiam nada, o que não lhes permitia tomar partido).

- Aiiii, este relógio é baratoooooo, é um rolecsiiii…
- Mas que merda é essa de rolecse?
- Não ligues pá, isso deve ser fake
- Mas eu nem sequer sei o que é um rolecse…
- Ó mano, não vês que é assim uma espécie de ampulheta, mas para trazer no pulso.
- Esquece meu, vamos mas é às putas!
Depois destas brejeirices, muito comuns entre soldados, ficou o tipo do cabelo com brilhantina e fato de fino corte a coçar a cabeça e a pensar que raio seria isso de ampulheta…

- Não achas que aquele vestidinho vermelho ficava mesmo a matar à minha Genevève?
- Olha lá, ó cruzado, lá na tua Gália não há melhor coisa que estes vestidos chineses, assim tipo um Rabanne ou um Dior?
- Se calhar, mas não tenho tido tempo de ir às compras com ela e a minha Genevève não se despe nem se veste à frente de mais ninguém que não seja cá o je.

E por fim:

- Donde é que vens com essa tosga na carola, óh guerreiro Rodrigo do Alto Minho?
- Vai chamar bêbado ao teu pai. Vê lá se queres que eu mande aqui um palavrão à moda de Barcelos.
- É pá isso não, que isso dá galo e ainda temos o resto do país para conquistar.

E assim se foram eles, direitos ao Intendente, criar o nome da cidade.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

245. Pero que las hay, las hay e outros sabores - Apresentação e agradecimentos






Apresentação do livro “Pero que las hay, las hay e outros sabores” pela Dra.  Ângela Mota (*), no CSPPRG em 15-11-2018

Há dias fui ao lançamento de um livro em que um dos elementos que apresentava a obra do autor, cujo nome é Diana, começou por dizer: “Conheço a Diana desde o tempo em que todos a tratavam por Dianinha…”.

Eu não conheço o Vítor desde o tempo em que todos lhe chamavam Vitinha, mas isso não retira nem um ponto sequer do apreço e da  ternura que nutro por este homem bom, sempre pronto a contagiar-nos com o seu bom humor e a sua humanidade.

Da leitura que fiz da sua biografia posso dizer que nada acrescentou que eu já não soubesse – a sua formação em engenharia, o seu trabalho como voluntário em universidades seniores ou em instituições do género, como é o caso da Cultura Aberta, a sua ligação às redes sociais e o seu amor à fotografia, à leitura e à escrita.

A razão peça qual estamos aqui hoje prende-se com esse último amor – a escrita: O Vítor é autor de uma série de livros no âmbito do romance, da poesia e … agora contos.

O livro que hoje apresentamos chama-se “Pero que las hay, las hay e outros sabores” – um livro de contos em que Vítor Fernandes nos seduz com a sua escrita, envolvendo-nos e conduzindo-nos a um verdadeiro jardim antropológico, povoado de uma multiplicidade de personagens, tocadas pela magia da sua ficção. Magia essa que cria realidades alternativas, mas nem por isso menos reais, e que dada a sua vivacidade e humanidade se revelam capazes de nos desfiarem a revermo-nos nelas, levando-nos até a descobrir coisas sobre nós e os outros que até então desconhecíamos.

O que vem referido numa das badanas do livro dá-nos uma breve ideia da riqueza de personagens e contextos. Dentistas, fotógrafos, professores, empregados de seguros, gente rural, bruxas, poetas, endireitas, doentes… são-nos apresentados em situações tão diversas como ressuscitamentos, mortes naturais, lembranças, sonhos, esquecimentos, declarações de amor, suicídios, nostalgias e muitas muitas tentações provocadas pelo prazer da gula. Convém dizer que a escrita de Vítor Fernandes convive com muita informação gastronómica, de par com muitas referências culturais como modo de caracterizar personagens e situações.

Porém a diversidade deste livro de contos não se limita às personagens, aos contextos, aos temas. Também a estrutura dos contos é variada. Há-os curtos, muito curtos, que parecem só um “respirar” narrativo, isto é, o tempo da sua leitura não demora mais do que uma inspiração e uma expiração, e são como uma interpelação ao leitor, uma partilha, por parte do narrador, de um sentir, de uma reflexão, de uma experiência… outros há que se explanam e nos deliciam com uma prosa eivada de poesia ou humor, mas com a economia própria do conto, centrando-se num conflito que se desenrola de modo contido e onde nos deparamos, de conto para conto, com uma polifonia de narradores.

O modo directo como esses narradores iniciam os contos cativam o leitor, estimulam-no. As primeiras frases suscitam logo o seu interesse e por outro lado o modo como depois os terminam, muitas vezes com o seu quê de inesperado, abrupto, misterioso até, deixando frequentemente ao leitor várias interpretações, é motivo para que a leitura deste livro faça voar folha atrás de folha.

Porém este livro não é só um livro que se lê bem, que cativa e diverte… Num tempo em que se insinua um certo desencanto em relação à condição humana é reconfortante, direi mesmo inspirador, encontrar “olhares” como os dos narradores de Vítor Fernandes, “olhares” e “sentires”, simultaneamente ternos e irónicos, que nos fazem reflectir  e conviver com a diferença, a poesia, o humor, a inocência, o caricato, o bizarro, a bondade, dando-nos uma perspectiva plena de riqueza e optimismo sobre o ser humano.


(*) Ângela Mota é licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e antiga professora do Ensino Secundário.

Nota: A autora do texto opta pela grafia anterior ao AO de 1990.

Agradecimentos:
Ao Centro Social Paroquial Padre Ricardo Gameiro – CSPPRG - pela cedência das instalações.
À Vice-presidente do CSPPRG, D. Ana Luísa Caixa, pela abertura da sessão e pelas palavras simpáticas que dirigiu ao autor.
Ao projeto Cultura Aberta, na pessoa da sua Diretora, Dra. Ana Teresa, à Alzira Gorgulho pela preparação da sala e à Profª Cecília Correia, maestrina da Tuna Sol e Dó que abrilhantou a sessão.
À Editora Emporium, em particular à Dra. Clara Simões, que comigo colaborou na elaboração física do livro numa constante presença e troca de informação.
À Dra. Ângela Mota pela apresentação da obra e do autor.
A todas e todos os meus amigos que encheram a sala na apresentação.
À minha mulher, Maria José Capote, que fez o lanche que acompanhou o Moscatel de Honra do final da sessão.
Ao meu amigo Paulo Trilho que fotografou a sessão e me ofereceu as fotos.
E por fim, mas não menos importante, aos meus estimadíssimos leitores.

domingo, 11 de novembro de 2018

244. Pausa na bola

É só para informar as minhas amigas e os meus amigos de que na próxima 5ª feira, dia 15 de Novembro às 17h30, será apresentado, na Rua Ramiro Ferrão, nº 38 - Residência Nossa Senhora da Esperança do CSP Padre Ricardo Gameiro, o meu novo livro, desta vez um livro de contos, intitulado "Pero que las hay, las hay e outros sabores".




Estão todos convidados!

domingo, 4 de novembro de 2018

243. O dono da bola - #14 Matadourense


1

Decorria o ano de 1973 e a Câmara Municipal de Almada organizava os 1ºs Jogos Juvenis de Almada, os primeiros e os últimos, cuja direção fora dada, por convite da CMA ao estimado e, infelizmente já falecido, Adelino Paiva de Moura, conhecido normalmente por Adelino Moura, uma das grandes figuras do desporto do Concelho e, porque não, do País. Com a revolução do 25 de abril de 1974, provavelmente pela conotação desta iniciativa com uma CM do antigo regime ou, talvez, porque depois do 25 de abril também se massificou o desporto escolar e popular e se criaram eventos desportivos nas mais diversas áreas, não voltou a realizar-se a que foi, até essa data, a maior manifestação desportiva para jovens no Concelho de Almada e uma das maiores de Portugal.

No entanto, cada bela tem o seu senão ou não, e para se participar nos jogos era necessário fazê-lo sob a égide de uma organização, fosse coletividade de cultura e recreio, fosse clube desportivo, ainda que, de caráter popular. E isso poderia de uma forma radical desaproveitar os “talentos” que tínhamos lá no Bairro pois, ali, os únicos clubes que existiam, ou tinham existido, eram os Unidos do Bairro e a Juventus do Valdeão que tinham equipas só para adultos e que apenas jogavam futebol nos torneios populares, aos fins de semana, fosse no campo do Ginásio, hoje campo do Beira-Mar, fosse no campo do Monte ou do Costa. Mas no Bairro havia outros talentos, havia futebol, mas também andebol, atletismo e, acreditem, até badminton.

Seguindo o velho ditado que diz que para grandes males, grandes remédios, não foi cedo, nem foi tarde para que no nosso Bairro se criasse um clube. Elaboraram-se uns estatutos, fez-se uma pequena reunião que hoje, e se calhar naquele tempo também, se chamaria Assembleia Geral de Constituição, nomeou-se um presidente que seria eu, um tesoureiro que teria de ser uma pessoa adulta e acima de qualquer suspeita e foi escolhido o Senhor Duarte da drogaria, um secretário, que salvo erro foi o Carapinha, escolheu-se a cor dos equipamentos, azul a camisola e a meia que se foi comprar a Lisboa, à Rua do Benformoso, sem números porque não havia dinheiro para esse luxo, as camisolas eram na realidade t-shirts

- Não são giras, malta?

mas que nesse tempo não se designavam assim, eram camisolas e pronto, e os calções seriam brancos, mas cada um teria de levar os que tivessem em casa porque não havia dinheiro da quotização para tanto.

-Qual é? São vinte e cinco tostões, pá. Não me digas que não podes pagar a quota…

Quanto às chuteiras para o futebol alguém se encarregou de ir pedir ao Almada e ao Piedade umas sobras e lá apareceram umas quantas, não deu para todos, já bastante velhotas, com traves porque pitons seria um luxo maior do que ter números na camisola. Os que não tiveram a sorte de que algumas das chuteiras lhes servissem jogavam de ténis, quer dizer, de sapatilhas

- “As minhas são umas Sanjo já ranhosas. Quando se romperem jogo descalço”. Já não me lembro quem disse a frase mas ficou-me no ouvido
porque a malta não chamava ténis. Parece que o nome não era muito conhecido. E de ténis ou sapatilhas para os desportos de pavilhão ou corridas equipariam os atletas dessas modalidades a expensas próprias. A criação do clube carecia de alguma burocracia, mas isso, que não era impeditivo para que inscrevêssemos as nossas equipas e os nossos atletas nos Jogos Juvenis, que seria tratada mais tarde ou durante os Jogos. Acho que isso nunca foi feito, mas o clube acabou por durar ainda uns anos, na modalidade de futebol e jogando em torneios populares.

Com grande pena minha eu não pude participar nos Jogos. A idade limite era de 16 anos e eu já iria completar 18 nessa altura.

- Qual batota, qual caraças, não faço batota nenhuma. Não sou nenhum galdério. Na minha cédula ninguém mexe. Prefiro não participar. E não participei.

No entanto, como presidente, representei sempre o clube, participamos em atletismo com a Isabel Brito e com o Carapinha, a um nível elevado, com boas classificações, mas sem medalhas, no andebol onde sofremos grandes derrotas e no badminton onde um atleta nosso ganhou uma medalha de “prata”, mas cujo nome, a esta distância temporal, já não me consigo lembrar. Só sei que morava no Monte de Caparica e na nossa equipa de futebol jogava a central. Mas no badminton é que ele era craque.

E eu todo vaidoso, como presidente do clube, a acompanhar o nosso atleta, no pavilhão da D. António da Costa a recebermos – ele a receber -  a medalha de prata
E no futebol, onde passamos a primeira fase, mas no jogo a eliminar, enfrentamos, no campo de jogos do Costa da Caparica, a fortíssima equipa do Estrelas do Feijó, perdemos 4 a 3 e, claro, sentimos que fomos escandalosamente roubados. O nosso treinador era o Senhor Duarte, o da drogaria, que além de treinador e tesoureiro, era também o massagista e que sempre que um jogador caía, corria do banco com a garrafa de embrocação na mão, para o que desse e viesse.

Mais tarde, como disse, a equipa de futebol do Matadourense começou a integrar malta mais velha, os mais novos também foram crescendo, começamos a entrar nos torneios populares como antes faziam os Unidos e a Juventus, entretanto já extintos nessa altura, e as taças ganhas começavam a enfeitar uma prateleira da drogaria do Senhor Duarte.

E assim se fez o Matadourense, que foi morrendo de morte natural à medida que a malta foi crescendo, casando e saindo do Bairro para outros destinos. Acho que nunca acabamos o processo burocrático, mas o que é que isso interessava? O importante era o convívio e a prática salutar do desporto.

PS. Alguns Gloriosos rapazes que jogaram pelo Matadourense: Carlos Jorge, Américo (posteriormente grande guarda-redes de Andebol), Barbosa (chegou a ser guarda-redes do Almada) e o Carlos (que treinava no Sporting e se não fosse a Lisnave poderia ter sido uma estrela)  - todos guarda-redes, mas o Carlos Jorge, já falecido, também jogava a ponta esquerda - o Augusto que era o defesa direito e dava porrada como o caraças, o Duarte Madeirense que tinha força por dois, o Terrível que era o mais magrinho de todos, o Mesquita que tinha uma grande habilidade para a finta, o Carapinha que era o mais veloz e jogava a ponta direita, o Pintaroxo, que é pintor mas cuja alcunha já vem de geração e que tem a ver com a passarada e jogou nos juniores do Piedade, o malogrado Zé Manuel Capote, que viria a ser meu cunhado, o Jorge e o Felipe Viana que são irmãos e além de eu próprio que jogava à frente e marcava muitos golos, outros de que já me não lembra os nomes.