sexta-feira, 21 de setembro de 2018

238. O dono da bola - #9. O meu irmão guarda-redes


Na praceta das traseiras não havia carros. Aliás quase não havia carros em nenhuma das pracetas. Estávamos nos finais dos anos 60, início dos 70 e pouca gente tinha dinheiro para comprar carros. Um bairro onde a maioria eram operários, empregados de comércio, embarcadiços, estivadores e outros portuários, motoristas de autocarro, funcionários públicos, que na época ganhavam bastante pouco, magarefes, pescadores e um ou outro estabelecido. Assim, como hei de dizer, classe operária e baixa classe média. No bairro não havia ricos embora também não se possa dizer que fosse um bairro pobre. Mas carros havia poucos, havia muito espaço para jogar à bola, era na minha praceta, era num baldio que ligava o Bairro ao Valdeão, hoje integrando o HGO, era na própria estrada onde, amiúde, aparecia a GNR a perseguir os putos que jogavam à bola, bastas vezes a guarda a cavalo pois aquela urbanização estava implantada numa zona rural, cercada pela Quinta do Olho de Vidro, a Quinta do Cesteiro, o Valdeão, a Quinta do Malquefarte, a Quinta do Pinheiro e por aí fora que a minha memória não consegue lembrar-se de todos os nomes, eu não sou nenhum Saramago, era na praceta das traseiras e a minha mãe,

- Joga-lhes um balde água

cheia de cardos e de outras ervas que a malta pisava com os sapatos, para a transformar em campo relvado, no meu Bairro não se andava descalço e que no final até parecia mesmo um campo relvado, até aonde vai a imaginação das crianças. E lá se montava o estádio, onde hoje é um rinque cimentado, com balizas de futebol a sério e a minha mãe,

- Estou a falar a sério, manda-lhes um balde água

e redes de proteção para que as bolas não acabem nos vidros de alguma janela, e eram duas pedras a servir de baliza, quatro se contarmos que havia duas balizas e numa delas, o meu irmão do meio, o mais novo ainda era praticamente bebé, guarda-redes como se falará mais tarde, mas ali, a voar para a bola e a cair nos cardos batidos e os joelhos a baterem no chão a chegarem a casa sangrando, no entanto ele voava, parecia o Capitão América ou o SuperMan, ou para mim o melhor, o major Jaime Eduardo de Cook e Alvega, o major Alvega da revista Falcão, que saudades que tenho daqueles livros aos quadradinhos e a minha mãe,

- Vem para mesa

e eu a pedir para atrasar um  bocadinho o almoço, estava a acabar um capítulo de História ou de Geografia pois à tarde ia ter ponto, com o Falcão escondido no meio dos livros de estudo e, enquanto o major Alvega não arrasava a asa da tirania nazi dos céus de Inglaterra, eu não engolia o bife ou, mais certo, os carapaus fritos, mas não, não voava tão alto como o major Alvega porque o major Alvega voava de avião e o meu irmão Carlos voava sobre o relvado de cardos e eu frustrado porque mais uma vez, apesar da bomba, que não de um avião da RAF nem da Luftwaffe, era uma bomba saída dos pés de uma criança de catorze anos, não marcava golo, logo eu do Benfica e ele do Sporting, podia lá ser eu não marcar, quem me dera que fosse frangueiro e eu cada bola, cada golo, mas não, ele defendia mesmo bem, defendia quase tudo. Só que eu era avançado e também marcava bem mesmo ela entrava altas ou por cima da pedra que era  poste ou que fingia ser se entornava o caldo entre irmãos, rivais de clube e rivais na função, um avançado, outro guarda-redes, Foi golo, Não foi nada e eu Foi e ele Não foi e eu Batoteiro, Batoteiro és tu, Larga já a bola que a bola é minha, Querias, vem-ma cá tirar se a queres e eu ia e andava-mos à bulha e a minha mãe para aquela que via os nosso jogos pela janela da sala, tão garotos que nós éramos e acabámos por casar, já lá vão trinta e oito anos de enlace muitos de namoro, dois filhos e três netos eramos uns garotos e a minha mãe sem sonhar que alguma vez ia ser a sogra recomendava-lhe,

- Se eles discutirem, manda-lhes um balde água.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

237. O dono da bola - #8. Um-contra-um


No andar por cima do meu morava uma família incompleta. Um pai viúvo e dois filhos ou, mais propriamente, um filho e uma filha. O filho, o Zé Carlos, era o meu parceiro ou, mais precisamente, o meu adversário no um para um.
O pai, figura austera e de poucas falas, subia as escadas de cabeça baixa. Bom dia, boa tarde era o mais que se retirava daquela boca e não era todos os dias. Nas mais das vezes, saía mudo e entrava calado. Não sei se o poderíamos apelidar de trombudo, de antissocial ou simplesmente de tímido. Mas para a minha pessoa, para ser verdadeiro, ou mais condicente com a realidade, tenho de o dizer que nunca foi tão macambúzio assim. À tal saudação de bom dia ou de boa tarde acrescentava quase sempre um olá e, talvez por mor do filho, sabia até o meu nome. Boa tarde vizinho dizia eu, Olá Vítor, respondia ele, e até chegava a perguntar, verdade que raramente,  Estás bom? Não tenho a certeza, apenas porque não me lembro de ver lá mais ninguém, penso que era o único que ele autorizava a entrar lá em casa para brincar com o Zé Carlos e bonomia das bonomias, autorizava a filha a ir ver televisão à nossa casa. Mas os filhos não punham, com ele, o pé em ramo verde. Se algum fazia alguma patifaria, haveria castigo pela certa o que a mim me doía por consequência. Era quando ele não deixava o Zé Carlos sair para jogarmos à bola.

O Zé Carlos era o meu companheiro no um para um. Quando fomos morar para o Bairro as pracetas não estavam arranjadas. Eram em terra batida e nem mesmo os passeios dos prédios estavam acabados. Havia calçada alternando com buracos e pedras de calçada soltas. Havia também alguns prédios inacabados embora naquela época não fosse moda os “ocupas” e, como tal, assim se mantinham até que a A Confidente pegasse neles. Dizia-se na época que os construtores, afogados em dívidas, alguns até com andares vendidos, mas sem papeis passados, o que fez com que algumas pessoas tivessem perdido o dinheiro da entrada, poupanças de uma vida, tinham fugido a salto para França para não serem presos. Outros diziam também que tinha havido negligência ou até corrupção, na altura usava-se dizer que “estavam feitos” com a Câmara Municipal, sendo que alguém se abarbataria com o dinheiro das calçadas que nunca foram feitas, a troco de fechar os olhos nas inspeções. Venha agora a saber-se porquê, tantos anos passados, isso agora não interessa para nada, siga a Marinha como se costuma dizer. A verdade é que chegamos ao 25 de Abril com as pracetas e arruamentos num estado tão deplorável que antes mesmo de se falarem por todo os país em comissões de moradores, já no meu Bairro se tinha constituído a Comissão para o Melhoramento da Pracetas, liderada pelo Jaques e de que faziam parte o Sr. Agostinho, o Ti Abreu, entre outros que já me não ocorrem à memória. Para muitos isso seria muito bom, pois nos finais dos anos sessenta, principio dos setenta já existiam alguns carros lá no Bairro, fruto de uma evolução positiva de emprego na margem sul do Tejo, com a abertura da Lisnave na Margueira em Almada e, assim, as suas viaturas escusavam de ficar atoladas, para outros seria muito melhor porque viria mesmo a ser construído, numa das pracetas, um rinque onde ainda hoje se podem fazer os jogos de futebol, no local onde no meu tempo era necessário cortar cardos e amassar ervas para jogar à bola. Além disso, o 25 de Abril já me veio apanhar com quase dezanove anos, numa altura em que nem eu, nem o Zé Carlos jogávamos à bola na nossa praceta pelo que não nos faria diferença nenhuma. Aliás, no 25 de Abril o Zé Carlos já nem morava no andar de cima. Tinha-se mudado não sei para onde.

Quando o Zé Carlos e eu descíamos, pouco antes da hora do jantar, em tempo de verão, pois está visto, que não só ainda era dia às oito da noite, como no inverno a praceta era um lamaçal, contávamos dez pés em cada ponta da praceta entre duas pedras que iriam servir de baliza. E só nós dois, de um lado para o outro, num mano a mano, onde ninguém ganhava nem perdia. Quando o pai do Zé Carlos dava um assobio ou a minha mãe se assomava à janela para avisarem que o jantar estava pronto era como se o árbitro desse por terminado o encontro. Só que o resultado passava para o dia seguinte e assim sucessivamente. Penso que o placard está em duzentos e quarenta e seis a duzentos e quarenta e cinco mas já não me lembro quem está a ganhar. A última partida foi há quase cinquenta anos.

sábado, 8 de setembro de 2018

236. O dono da bola - #7. O tio Liberto



Comecei a ler bem novinho. Hoje isso já não é de espantar. As crianças nascem com um tablet nas mãos, manuseiam um smartphone antes de completarem o primeiro ano de idade, mandam SMS aos três anos, jogam minecraft aos quatro e aos cinco deixam um whatsapp aos pais com uma fotografia da rave no refeitório do infantário. Os tempos mudaram mas eu, que mais ao menos tenho acompanhado a evolução tecnológica e também o hábito das crianças, pai de dois e avô de três, não lastimo ter aprendido em livros e em jornais. Comecei então a ler antes dos cinco anos de idade. E antes que vos fale do tio Liberto vou-vos contar uma pequena história que se passou mais ou menos por esse tempo.

Uma doença infetocontagiosa mandou-me alguns dias para a cama de um hospital. Para evitar contágio fiquei em isolamento

- Mãe, quero ir embora

isolado aos cinco anos de idade num hospital, sem poder ver pai nem mãe, uma crueldade! Só entravam médicos e médicas, enfermeiras e enfermeiros e auxiliares de limpeza. Com a idade com que fui internado é impossível ter memórias mais consistentes, mas nunca se me desapareceram flashes. Outras coisas sei de as ouvir contar ao longo dos anos. Mas há fotografias indeléveis cá nos meus recantos da memória. E é assim que ainda hoje me lembro, sem que por isso tenha qualquer pesadelo, nem sequer sonho, de uma enfermeira

- Ai bebes, bebes…

 a dar-me uma valente bofetada por eu chorar e me recusar a tomar os comprimidos. Leram bem? Uma enfermeira deu-me uma bofetada na cara, a mim, uma criança de cinco anos de idade, porque isolado, só, sem ver os pais nem o irmão, dias seguidos, chorava e não queria tomar os comprimidos. E então foi por escrito que através de uma senhora da limpeza,

- Se eu contar, ninguém acredita

que achava muita graça de eu, tão pequenino, já saber ler e escrever, que mandei uma mensagem aos meus pais,

- Ele diz que é para o senhor ler

e foi assim que a direção do hospital tomou conhecimento e mandou substituir a enfermeira no meu quarto.

Nessa época o analfabetismo atingia o país inteiro. Oficialmente, segundo números do Estado Novo, 40% das mulheres não sabia ler nem escrever e 29% dos homens estavam na mesma situação. Na verdade, quem “andava por aí” sabia bem que estes números eram de conveniência

Salazar!| Salazar!

a realidade era muito mais penosa. Uma dessas pessoas, que não sabia ler nem escrever, era o meu tio Liberto,
- Comunista, só pode ser

a dizer que é analfabeto, só podia ser comunista, senão não diria aquilo, escolas sempre houve

O tio Liberto não era meu tio de verdade. Era meu vizinho lá no pátio, mas como era irmão da minha tia Gracinda e filho da minha avó Felismina

. Anda cá que avó dá-te as sopas

e a avó Felismina dava-me as sopas de café com leite e eu acalmava-me e ameaçava a minha mãe se ela ralhava comigo, que não eram nem minha tia, nem minha avó mas era assim que as tratava desde pequenino, então o tio Liberto também era meu tio. O tio Liberto era dos Belenenses

Belém! Belém! Belém!

naquele tempo, ali para os lados do Pombal, em Almada, aquele pessoal era quase todo dos Belenenses.

Belém! Belém! Belém!

Claro que isto de dizer quase todos é uma maneira de dizer. Era no tempo em que pontificavam no Belenenses, O Capela, o Feliciano, O Serafim Neves, o Armando Correia, o Artur Quaresma, o Manuel Andrade, o Mariano Amaro, o Vasco de Oliveira entre outros que tinham sido campeões nacionais em 1946, aliás no único título que os Belenenses conseguiram conquistar e que, durante cinquenta anos, conservaram como único campeão nacional para além de Benfica, Sporting e Porto. Mais tarde ao círculo de notáveis ainda se juntariam figuras como José Pereira, Vicente Lucas e o grande e extraordinário Matateu

- Gooooooollloooo de Matateu!

relatavam galhardamente na Emissora Nacional, não admira, portanto, a falange de apoio que durante anos os Belenenses tiveram e mantiveram.

À segunda-feira, logo pela manhã, o tio Liberto, na época já com uma certa idade e, portanto, já sem trabalhar, entrava pela taberna do António Marques pegava no Mundo Desportivo, lá na taberna havia sempre um ou dois jornais embora a maioria não os soubesse ler, e lia-o de ponta a ponta. E não o emprestava a ninguém enquanto eu não aparecesse ao pé dele, nem que tivesse de dar três voltas ao jornal. Eu só saía de casa quando a minha mãe me deixava, pois embora só tivesse aulas da parte da tarde tinha de ter os trabalhos de casa prontos, a tabuada na ponta da língua, as contas certinhas, a lição estudada e a história e as ciências sem falhas. E lá aparecia eu que era recebido quase já em desespero pelo tio Liberto

-  Senta-te aí, senta-te aí, diz lá o que é que eles aqui escreveram

que apontava para as legendas das fotografias e me pedia para que as lesse, sim as fotografias nesse tempo eram legendadas como que contando a sua história, sempre em primeiro lugar as fotografias do seu Belenenses[1]. E só depois de lhe ler as fotografias todas e a crónica do jogo, as declarações do treinador e as pontuações dos jogadores é que ele dobrava o jornal em quatro e me dizia

- Pronto já te podes ir embora

estás livre e lá ia eu, quase sempre a chupar um rebuçado de mentol que era a paga do tio Liberto à minha leitura para ele do Mundo Desportivo.



[1] Clube de Futebol Os Belenenses tratado pelos seus adeptos como Os Belenenses, mas também, muitas vezes, simplesmente como O Belenenses, daí no texto aparecer umas vezes no plural, outras no singular.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

235. O dono da bola - #6. A namorada também ia à bola


Um salto no tempo, um parêntesis na cronologia, futebol a dois, porque no futebol também há amor ou porque pode fazer parte dele. Comecei a namorar com a minha mulher com dezanove anos de idade, ambos já estudantes universitários. Um namoro à moda antiga. Um namoro onde para namorar se pedia namoro à namorada. Um dia, muitos anos mais tarde, perguntei ao meu filho já adolescente, Ouve lá João, como é que hoje se pede namoro a uma miúda e ele respondeu-me, Sei lá pai, não se pede ou então, é assim, é perguntar-lhe se dá para andar e eu, Pois, deve ser isso e calei-me. Nunca me teria passado pela cabeça vinte anos antes ter perguntado à Maria José, Olha lá miúda, dá para andar? Se calhar ela teria ficado a pensar se eu achava que ela tinha sido atropelada por alguma bicicleta ou, sei lá, a saltar para o cacilheiro, na pior das hipóteses e tivesse torcido um pé. Dá para andar? Não sei, se não doer…Não filhote, o que eu pai queria saber mesmo era como é que se pediria hoje em dia (naquela época em que ele era adolescente, e já agora, como é que será hoje?) a uma garota se queria namorar com ele, conversar, pensar numa vida a dois e mais tarde até casar, constituir família, estás a ver? Pois eu pedi namoro a sério e ainda me lembro como foi, mas não vou dar a receita agora. Isso já foi há muito mais de quarenta anos, parece mais mezinha caseira e eu estou aqui é para escrever sobre bola. Só que parece que deu resultado, quase meio século depois aqui estamos juntos, apesar do pai dela, quando começamos a namorar, nem de mão dada achar bem que andássemos, com dois maravilhosos filhos e, para já, três ainda mais maravilhosos netos, quem sabe se um dia destes a contabilidade esteja desatualizada. Apenas uma coisa nos separa. Já não vamos à bola um com o outro. Eu explico.

Durante a semana eram os estudos. A Maria José trabalhava e estudava. Eu não trabalhava oficialmente pois não tinha, por bem dizer, um emprego, embora andasse de empresa em empresa a vender livros à comissão, trens de cozinha, objetos decorativos de cobre e latão, a dar explicações em casa, entre outras atividades e estudava. Não restava tempo. Aos fins de semana alternávamos. Ou cinema ou futebol, isto durante a época porque no verão as saídas eram diferentes. E aqui não era fizesse sol ou chuva. Nas semanas em que o Benfica jogava em casa, os caprichos do S. Pedro não eram relevantes, nem interferiam nas nossas decisões. Piores eram os caprichos da minha sogra, Deus tenha a sua alma em descanso. Mas mesmo esses não nos desviavam os olhos dos remates certeiros de Nené e Jordão, da inteligência e visão de jogo do Vítor Martins, do portento físico do Toni, da elegância e precisão do Humberto Coelho, da agilidade felina do José Henrique. O Estádio da Luz era o nosso destino. O que faz o amor. Ela que até torce pelos leões!

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

234. O dono da bola #5 - O meu primeiro jogo oficial

Durante toda a semana não falei de outra coisa. A minha mãe já deitava futebol pelos olhos. O meu pai, que amiúde me via jogar com os outros rapazes, não me achava nenhum Cavém, nenhum José Augusto, nenhum Jaime Graça e nem, mesmo pela altura, nenhum Simões, mas ainda assim incentivava-me. Achava-me irrequieto, mexido, cheio de vontade e na brincadeira dizia que de vez em quando eu acertava com o pé na bola. E no meio daquela converseta e da minha excitação pelo meu primeiro “jogo oficial”, lá vinham as inevitáveis perguntas sobre os deveres, o que se viria a chamar mais tarde tê-pê-cês, Então e as cópias, já fizeste as cópias? Sim, mãe, já as fiz. Mas não te vi estudar a tabuada. Já estudei, mãe, já sei a tabuada toda. Então quantos são sete vezes oito e eu São cinquenta e seis, mãe, E nove vezes quatro, Trinta e seis, mãe, com ar enfastiado e a pensar querem ver que agora vou ter de responder á tabuada toda, E a lição, Qual lição, mãe? A lição de hoje… Não é preciso, mãe, eu já sei ler aquilo, Tu só pensas é na bola, é o que é, rematava e eu ria e ia dar-lhe um beijo. Mais tarde iria aparecer lá em casa com uma taça, desenhada e recortada em cartolina, pela D. Eduarda a minha primeira professora primária, como troféu do melhor em tabuada, que a encheu de orgulho e que ainda hoje fala nisso, Ainda te lembras, filho? Lembro sim, mãe e ela, Este rapaz tem uma memória…

Naquela semana o mais importante não eram as cópias, nem os ditados, nem a tabuada, nem a lição… era a bola. A primeira classe ia jogar contra a segunda, aquele que iria ser o meu primeiro jogo oficial de todos os tempos. Quando é o primeiro é o primeiro e será sempre o primeiro não haverá hipóteses de haver novamente um primeiro pelo que dizer de todos os tempos é só uma maneira de dizer. O jogo ia ser no sábado e eu estava até com medo de não me meterem na linha porque era o mais pequenino da turma e aquilo era só para calmeirões. Mas enganei-me e foi com grande alegria que me disseram que eu ia jogar. Pudera, deve ter sido coisa da D. Eduarda, olha, olha, logo o melhor a tabuada, ficar de fora. Isso nem lembraria ao diabo.
Linha feita e eu, o Vitinha, ia jogar à defesa. À defesa? Mas eu não sei jogar à defesa, eu sei é correr lá à frente, chutar para a baliza, marcar golos, e depois correr de um lado ao outro do campo, com o punho fechado a gritar goooollllooo, como fazia o Eusébio, e os outros a correrem atrás de mim para me abraçarem, como se faz no futebol a sério e a gente via na televisão do café Marissol. A preto e branco, é claro, mas a gente sabia bem a cor da camisola do Eusébio. Não faz mal a gente ensina-te, disse o Boavida, repetente, oito anos de idade, um veterano! Era o maior da turma, mas era meu amigo e, portanto, ele ia-me ensinar a jogar à defesa. Com uma pedra riscou no chão um círculo já perto da nossa baliza e disse-me, Não sais de dentro desta linha é aqui que ficas e cortas as bolas quando eles vierem e chutas para a frente. Não percebi nada. Então eu não podia sair dali? Não podia pegar na bola correr o campo todo e chutar à baliza? Não podia ir lá à frente? Isso é que era jogar à defesa? Mas está bem, o Boavida é que era o técnico, ali na escola era o meu Bella Guttman e se ele dizia que era assim que se jogava à defesa, então seria assim que eu jogaria. O meu primeiro jogo oficial!

Acabei o jogo a chorar. Não toquei uma única vez na bola. Ninguém passou por mim e eu não saí de dentro daquela rodinha. O Boavida não era mesmo um grande treinador. Mas não deviam de passar por mim para eu cortar a bola? Ou então, não deveria eu ter saído do círculo para ir de encontro à bola? Oito a um! Oito a um! Que desastre! De um resultado assim só me lembro daquele, no dia da inauguração do Estádio das Antas, quando o Benfica foi lá, como convidado, dar oito a um ao FC Porto. Se calhar, nesse dia, não deixaram o Pinto da Costa sair de uma rodinha. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

233. O dono da bola - # 4. O dono da bola


Joga sempre, escolhe a equipa, é o capitão, nunca vai à baliza, decide quando é que é penalti ou não, se a bola está fora ou segue jogo, se a bola foi “altas”, isto é, por cima da barra imaginária da baliza e se não ganha… amua. Da próxima vez não escolhe aquela abécula do Pernas para ir à baliza, é alto, mas é um frangueiro do caraças e o Cara-de-Velho não volta a jogar na equipa dele porque é um foção, não passa a bola a ninguém. O dono da bola chega a fazer regras para ganhar legalmente.

O dono da bola, depois de lavar os dentes, vai para a cama e já com o pijama novo vestido, que a tia que mora no Cristo-Rei lhe ofereceu no Natal, reza a oração que avó lhe ensinou “Ó meu Anjo da Guarda, minha companhia, guardai minha alma, de noite e de dia. Com Deus me deito, com Deus me levanto, que seja na Graça do Espírito Santo. Ámen!” e depois, num murmúrio envergonhado, pede baixinho ao Anjo da Guarda para que não apareça mais ninguém que também tenha uma bola de catechu. É que ele não quer, por nada, ir à baliza.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

232. O dono da bola - # 3. Esta sim, era uma bola de catechu


Naquele tempo ter uma bola de catechu era um luxo. Catechu é, naturalmente, um galicismo. Provirá da palavra francesa caoutchouc que significa borracha. Mas cá entre nós as bolas de borracha são uma coisa, as bolas de catechu são outra, nós adotámos bola de catechu para designar as bolas de couro e, pronto, é assim mesmo que se conhecem, apesar de com a evolução dos materiais e das tecnologias as bolas hoje sejam totalmente sintéticas e nada tenham a ver com as bolas com que se jogava antigamente. Curiosamente, quando em condições de tempo adversas se tinha que jogar sobre poças de água ou terrenos enlameados, as bolas ficavam irremediavelmente embebidas que pareciam pesar chumbo, o que lhes consignava o epíteto de bola de “catechumbo”. Era uma perdição para qualquer criança atingir o desiderato de possuir uma bola de catechu. Sim, uma bola igual à dos federados, quer dizer, dos futebolistas a sério, daqueles que até tinham cartão com nome deles e fotografia que lhes permitia entrar à borla nos campos para ver outros jogos, desde que fossem organizados pela mesma associação. Bom, coisa difícil de explicar, mas que me fazia brilhar os olhos quando eu via o cartão de jogador do Tateu, o meu primo, isto é o filho da minha tia Gracinda, que por acaso se chamava Zé, mas que todos os conheciam por Tateu, uma abreviatura de Matateu, já que o Zé, embora sem qualquer raiz africana que lhe fosse conhecida, era um tipo muito moreno e jogava muito bem à bola. Quanto ao Matateu, esse era um jogador africano de excelência e que pontificou nos anos 50 do século passado no Clube de Futebol Os Belenenses. Já as bolas de borracha, acabaram por ser as sucessoras das velhas e artesanais bolas de trapos, com as quais eu nunca joguei, apesar de me recordar que quando ainda garoto, o meu falecido e saudoso pai me as ensinou a fazer. Mas voltemos às bolas de catechu, que um antigo e já desaparecido relator desportivo, da extinta Emissora Nacional, caraterizava como “os quatrocentos gramas de couro insuflável”.

As bolas de catechu de antigamente eram um luxo, mas chegavam, algumas, de qualidade de fabrico mais descuidado a ser um empecilho à boa prática, ou como se diz hoje ao fluir nas transições ofensivas a partir da zona de construção. É que as bolas, no local de enchimento da câmara de ar, ou seja, no pipo, não eram completas. Havia que dar acesso à agulha de enchimento. E aquele pequeno círculo que não fechava a bola, era compensado por uma língua de couro mais maleável que metade cosida à bola era a outra metade enfiada entre o couro e a borracha da câmara de ar sustentando-se pela compressão que esta, a borracha sob pressão de ar, fazia contra couro da bola. Ora se a bola vazasse um pouco, esta pressão era aliviada e a língua saía de fora, pelo que era necessário voltar a colocá-la no seu sítio perdendo-se com isso algum do tempo de jogo. Além deste quiproquó havia já o referido inconveniente do peso da bola, quando ensopada em água. Ora isto era um flagelo para os pés descalços, ou mesmo de sandálias, dos miúdos lá da zona. Depois de secar, a bola acabava por ficar dura demais para os pezinhos das crianças. Portanto para os putos, mesmo para os que sonhavam ter uma bola de catechu, a bola ideal era a de borracha ou até a bola de trapos.

Mas há bolas de catechu e bolas de catechu. Quero dizer, nem todas as bolas de catechu eram iguais e no estrangeiro já havia bolas de catechu muito melhores do que as nossas. Mesmo os clubes de futebol daquela época, só os de maior poderio económico as usavam. Nas divisões inferiores jogava-se muito com bolas iguais às que descrevi. Falo do estrangeiro porque, um dia, o meu foi convidado pelo estaleiro onde trabalhava para ir fazer um curso à Suécia. Sim era um curso, mas que hoje em dia se dá o pomposo nome de “on the job training” o que significa, “não penses que vais para o bem-bom duma sala de aulas e o salário vai-te parar ao bolso no fim do mês”, ou seja, vais bulir e ao mesmo tempo aprender coisas novas. E lá foi ele, nove meses fora da mulher e dos filhos para poder ter um futuro mais risonho. Muitas cartas, muitos postais ilustrados, não raros salpicados de lágrimas sobre a tinta ainda fresca, muitas saudades, muitos beijos e surpresa das surpresas um presente chegado pelo correio, uma bola de catechu. Mas uma bola daquelas que não tinham língua. Uma bola a sério, com o pipo incorporado no couro. Uma bola que não precisava de ser ensebada para que não lhe entrasse a água, uma bola que não pesava como chumbo, uma bola que não nos deitava a língua de fora. Uma bola oficial, caraças! Leitoras e leitores, apresento-vos o novo dono da bola!