segunda-feira, 11 de junho de 2012

149. Ismael (62) - Posfácio



Em primeiro lugar quero agradecer ao escritor desta coisa ter-me convidado para escrever o posfácio da dita e em segundo quero agradecer ao editor por ter permitido que o posfácio fosse inserido neste momento na obra.

Mas se o posfácio é inserido neste momento na obra não é um posfácio, poderão dizer, com muita propriedade, ou apenas pensar, obviamente, alguns leitores mais atentos. Pois então, sem vos querer tirar nadinha da razão que vos assiste, vamos cá por partes.

Agradeço ao Constantino que tanto se empenhou em escrever “Ismael um homem à margem de qualquer facada”, título provisório, já que o autor parece ainda não se ter decidido, ter-me escolhido a mim, um simples leitor de blogs, humilde até dizer chega, e incapaz de criticar pela negativa qualquer escrito, seja ele um poema, por mais satírico que seja, por tão épico que chegue a chatear, por tão lírico que me deixe cor-de-rosa só de o cheirar, por tão narrativo que me canse só de o ler, por tão dramático que não haja pedras de calçada onde não me ajoelhe e chore perdidamente, por tão bucólico que me deixe a ver passarinhos voarem sobre a minha cabeça enquanto navego em alvas nuvens à busca do meu éter, ou água oxigenada, ou betadine, quer seja uma prosa, por mais biográfica que seja, principalmente se autorizada, por mais ensaísta que seja, com cegueira ou sem lucidez, por mais diarista que seja, que até nos apeteça dizer «Ana,  francamente!», por mais histórica que seja, que nos obrigue a reviver a batalha de Trafalgar ou o desembarque na Normandia pela centésima vigésima sexta vez, por mais romanceada que seja, que faça ruborescer uma jovem adolescente ao ler lençóis de linho, rendas de bilros ou pensos diários, por mais infantil que seja, que adormeça belas moças ou faça subir em feijões em escada com gatos e sem botas. E talvez fosse porque eu não sou capaz de caraterizar negativamente nenhuma forma de escrita nem o seu conteúdo que Constantino me tenha solicitado para que eu fizesse um posfácio.

Pois meus amigos, só vos tenho que dizer, sem esquecer também as amigas, que gostei. Pois gostei. O rapaz escreve bem, é um pouco confuso por vezes, lá isso é, mas coitado, não se pode ter tudo, isto é, talento e uma mente clara. Ou se tem uma coisa ou se tem outra e não é por acaso, ah pois não, que o Einstein às vezes ia dar aulas com um peúgo de cada cor. E se calhar nem cuecas usava. Quando alguém lhe perguntava, «Sr. Einstein, o senhor hoje trás cuecas?», ele deitava a língua de fora. E não era por uma coisa nem outra que ele deixou de ser um génio. Portanto, para poder passar à parte em que vou agradecer ao editor ter aderido à minha pretensão de colocar o posfácio nesta parte do livro, tenho de repetir que gostei. Gostei, sim senhor do senhor Constantino ter introduzido o conto da Francisca, coitadinha, uma mulher que se esforçou tanto para que o crime das sete facadas se resolvesse mesmo quando já estava fraquinha das pernas, disse-me o autor, devido a uma trombose que lhe deixou os olhos roxinhos, roxinhos, como aquela couve que se come às tirinhas nas saladas e que por pouco não a matava de vez. Também gostei do autor a contar contos, se bem que pequenos, no meio da narrativa de suspense em que se transformou o já terminado mas ainda não publicado na totalidade, crime da rua dos Correeiros, onde se esfaqueou uma pobre jovem que se sabe ter sido corista no Parque Mayer, pois é verdade. Apesar desta rapsódia, gostei. A sério, pá. E o que se pode mais dizer num posfácio, se não que o livro ou o quer que seja esta coisa, está bem escrito, tem ritmo, prende o leitor à trama do crime, emociona o leitor com contos reais, como aquele em que os seus colegas, bebiam sevenápes e bicas e tinham as partes à arder por causa do Sol, o que eu me emocionei, leitores e até obriga o leitor a recorrer ao Houaiss ou ao Priberam online para entender o que Francisca quis dizer com jacular, com achapuçar ou, por exemplo, com galóli e, finalmente, dá ao leitor um sabor assim a cocktail ou a macedónia. É verdade que por vezes o escritor passa-se, como aquela vez em que fez um disclaimer a meio da prosa quando o devia ter feito no início, mas se o Constantino me escolheu para fazer o posfácio, não é exatamente aqui que o vou criticar.

Finalmente o editor. Bem-haja senhor editor. Vossa excelência, permita-me que o trate assim, é um santo. É um santo até maior do que o nosso primeiro-ministro e do que o nosso ministro das finanças que tanto bem nos têm feito, subtraindo-nos os subsídios de férias e Natal para que a gente não gaste em porcarias como sejam o autocarro para a Costa da Caparica, ou mesmo para Fonte da Telha no verão, em que toda a gente vai poluir as praias, aproveitando até para tomar banho e pôr cremes, que é cá uma despesona e depois o nosso querido governo é que paga com a malta a gastar acima das suas possibilidades, ou gastar em outras porcarias, como sejam as broas e as passas e os brinquedos fabricados na China, pois por isso, por nos ensinarem a pouparem também para vocês, ministros, o meu grande bem-haja. Mas ia eu a dizer que o senhor editor nem sabe o bem que fez ao meu ego, principalmente ao meu, já para não falar da alegria que deu ao senhor Constantino em deixar que o posfácio aqui fosse publicado. É que como todos sabem, depois de lido um livro ninguém lê posfácios. A malta acabou, volta para estante, tira-se-lhe o marcador que serve para outro livro e siga a marinha.

Ai sim? Então siga a marinha que o próximo capítulo é que vai ser bom.


11 comentários:

  1. Melhor que os anteriores?! : )
    Ficarei a aguardar.

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    1. Quem sabe se teremos notícias do marinheiro Sebastião.

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  2. Se fosse eu o convidado para escrever o posfácio, não deixaria de dar um elogio às entradas, às tapas e às maravilhas gastronómicas que foram ajudando a suportar as partes mais sombrias da narrativa. Quando falo em partes sombrias não me refiro nem ao estilo nem ao argumento, mas àquele canto onde me sentava e onde a luz da tasca mal chegava. No resto e nos agradecimentos faria tudo igual. E porque segue a marinha, por cá passarei mais um dia... à noitinha.

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    1. Ainda vais ter que penar até começarem a pôr lâmpadas fluorescentes na tasca.

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  3. Ai sim? Então siga a Marinha e toda a tripulação, incluindo o fogueteiro!
    E sim senhor, senhor posfácionador, diga lá ao senhor Constantino, que aqui o pessoal também concorda que, ou se tem uma coisa ou se tem outra, embora haja quem consiga ter duas e às vezes três.
    Mas isto não é desfazer numa escrita ou prosa ou lá o que seja, onde até chega a haver quatro:- autor/ narrador/ escritor/editor.
    Parece quase aquele casamento lá na Beira Baixa, numa aldeola perto da Covilhã, a que eu assisti. Mataram um porco para a festa da boda. No dia seguinte andou a avó da noiva a gabar-se:
    " O casamento da minha Marta foi muito farto. Sete qualidades de carne houve: touça, lhouça, margalhouça, chouriça, nagalhiça, carne de porco e marrano".

    O próximo é que vai ser bom? Fico à espera!

    Uma beijoca e até lá.:))

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  4. Adorei o Posfácio Vitor
    encerra-se então a historia fatídica do Ismael Gusman ! e
    e como sempre volto a leituras anteriores , pra ficar discutindo com os Sacaduras ... rs intrigantes e curiosos seus personagens , claro que me confundo toda rsrs
    e nada interfere na boa leitura que faço de cada episódio.
    e claro também que me perco ness linguagem cheia de palavrinhas surreais ... tem momentos que penso que o dialeto é outro... e quase é né Vitor?rs
    deixo um abraço forte

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  5. Fizeste-me sorrir com a tua última frase...pois claro e lá serias homem para aceitares "uma advertência que pôe fim à obra"? O que acabei de ler é mais um prefácio do que um posfácio:)

    Aguardarei...mas não ponhas mais pontas no novelo:)

    Um abraço

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  6. Olá, Constantino!

    Do que li gostei muito, confessando que não sei se terei lido tudo.Aqui encontrei boa disposição e paródia servidas com muito talento, e aposto mesmo que quem mais se divertiu terá sido o Vitor...
    E fico assim à espera que seja servida a próxima dose.

    Abraço amigo.
    Vitor

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  7. E ainda dizem que já não se inventa nada... isto é que é estilo :))Isto não é um pósfácio, nem um prefácio... é um infácio.

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  8. Gostei do pósfacio, mas olhe que as entradas não estavam nada mal...

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  9. Acho que um posfácio vai sempre bem, ainda mais se não acompanhado de facadas.

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