sábado, 24 de março de 2012

116. Ismael (38) - Ela tem um álibi




Não se faz. Isto não se faz. Isto não se faz a uma mulher como eu. Não há direito fazerem-me isto. E fungava, e limpava os olhos rasos de lágrimas e tapava a cara. Não, mas isto não pode ficar assim, não pode. Quem é que aquele inspetor pensa que é? Pois eu vou dizer-lhe quem sou, ele vai provar do meu veneno. E fechava os dois punhos e elevava os braços aos ares com os punhos fechados e ao mesmo tempo lançava a cabeça para trás. Depois, desatava os nós do lenço preto, ajeitava o cabelo, colocava de novo o lenço na cabeça e dava-lhe dois nós. Não, não, isto não fica assim, intimar-me, ele? Interrogar-me, ele? Mas quem é que ele pensa que é, hein? Mas quem é que ele pensa que eu sou, hein? Sente-se aí minha senhora, o farsante, a tratar-me por minha senhora, quando sempre me tratou pelo meu nome próprio. Cínico! Cínico é o que ele é. E depois vem com falinhas mansas, patati, patatá, coisa e tal, que tinha que me interrogar, que não era um simples proforma, era a obrigação dele, não que eu fosse suspeita, mas porque eu poderia saber mais do que tinha referido e escrito e outras palermices sem nexo. Mas interrogar-me? E aquele desgraçado do Sacadura ainda me fala em álibis e outras coisas cretinas do género. Álibi, eu? Estava onde, minha senhora, na noite em que mataram Isabella Vicentini? Farsante! Farsante, cínico e não lhe chamo mais nomes porque é um agente da autoridade. Um pulha! Estava onde, minha senhora, na noite em que mataram a corista? Minha senhora? Minha senhora, o raio que o parta, a mim que toda a gente sabe o meu nome e ele com muito mais propriedade. E tem testemunhas disso? Testemunhas? Ai meu Deus, que eu passo-me. Então eu digo-lhe, para o processo, é claro, que passei a noite toda na Quinta do Conde (e ele sabia-o bem) e de repente pergunta-me se eu tenho testemunhas? Palerma! Ele paga-mas, ai paga-mas ou não me chame Francisca! Pois este anexo é para isso mesmo. O pulha do Ismael Sacadura Flores passa a noite comigo, na minha cama, numa casinha simples mas muito séria, na mesma rua onde, dessa sim ele devia desconfiar, onde mora uma misteriosa senhora de Trás-os-Montes, que nessa noite não pôs as pantufas em casa, desculpando-se que ouviu uns passos no andar de cima e pergunta-me por testemunhas? Pois eu não disse que ias provar do meu veneno, não disse? Então chama-me de novo à Judiciária e vais ver quem é a testemunha. És tu, meu pulha, és tu mesmo. E depois quero ver se escreves isso no processo. Dormes comigo na cama e perguntas-me se tenho testemunhas. Sabes o que é que eu te digo, meu inspetor de meia-tigela, meu Poirot de pacotilha, meu Sherlock Holmes de Sacavém, meu Gabriel Allon da Gomes Freire, sabes? O inspetor Sacadura dorme comigo na cama pelo menos uma vez por semana, o pulha, sempre naquela de que mais dia, menos dia, resolve o assunto com D. Inocência, o grande mentiroso e chama-me para depor, depois de eu lhe ter dado de mão beijada o meu manuscrito? Ele paga-mas! Paga-mas!

O jovem Espinheira que só viria a descobrir este anexo muitos anos depois, quando já não era jovem, uma vez, em conversa com o inspetor Ismael Sacadura Flores, insinuou-lhe que ele sabia muito mais sobre a Francisca do que ele dizia nos breefings sobre o caso. E, de repente, lembrou-se do dia em que o inspetor, em Cacilhas, com um embrulhinho feito pelas mãos do próprio Ismael Gusmán, o meu amigo galego dono da tasca da Rua dos Correeiros, com meia dúzia de pastéis de bacalhau e quatro croquetes de sangacho de atum, apanhou o autocarro para a Quinta do Conde.

24 comentários:

  1. Ah, Constantino, o que tu já me fizeste rir!!!

    Depois das boas notícias que ontem recebi, estas gratificantes risadas foram a coisinha melhor que me poderia acontecer.
    Bem-hajas, por isso! :)

    Com que então o Inspector e a Francisca...eu, hein!!
    Mas olha lá, ó Constantino...não achas que esse álibi é altamente improvável? Lol

    Beijinhos.
    Desejo-te um óptimo fim de semana.

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    1. Muito feliz pelas boas notícias e satisfeito por rires de novo.
      Quanto ao álibi é esperar para vermos.
      Beijinhos.

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  2. Realmente essa Francisquinha é fresca... e o Inspector a pedir testemunhas...depois de ter estado com a pobre na sua casinha simples, onde chegou com um embrulhinho de salgados que, entre outras coisas se deve ter deliciado a comer...oh meu Deus, mas onde é que isto nos leva?*

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    1. Eu acho que ela ainda está é fresca que nem uma alface.

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  3. As vidas duplas sempre existiram e existirão... fazem parte da vida!
    Até digo que são necessárias!

    Um abraço.

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    1. É uma duplicação da crise :)
      Outro abraço para ti, Manuel!

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  4. Com as mulheres não se brinca!
    Abraço.

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  5. Relato bem interessante e apimentado! Apetece perguntar também, com a personagem:
    «Mas quem é que ele pensa que é, hein?».

    bjs

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    1. E será que lhe responde, Ana? Será, hein?
      Beijinho.

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  6. ia bem atestado com esse farnel. e se bem o pensou bem o fez
    kis .=)

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    1. Ele ía lá para levar algo de comer e comer algo... O melhor é eu ficar calado.
      Beijinhos.

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  7. Lá no meu canto, comecei por me emocionar com o pranto - sim porque tudo que o que à Francisca afligia, me atingia - mas depois, depois comecei a achar demais, um desconchavo, aquele amontoado de palavras assanhadas e bravas. O que menos gostei, quase me arrepiei, foi daquele confessar intimo de partilha da cama... a minha Francisca... e depois mais tarde saber que o Flores, pela omissão, lhe deveria favores... Vou ver mas é se fico com um grão na asa e ir esquecer tudo... direitinho a casa.

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    1. É o que dá comer pastelinhos de bacalhau na intimidade da sala de estar, com lareira e vinho tinto de Palmela.

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  8. Que pulha esse Ismael Sacadura Flores! Passa a noite com a Francisca e a interroga querendo testemunhas kkkkkkkkkkkkkk
    Mereceu o anexo colocando às claras o caso.
    Fez me rir um cadinho.
    Beijokas doces

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    1. A Francisca é um poço de surpresas. Vai ver que ela...
      Beijocas.

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  9. Que grande cara de pau, a desse inspetor! A Francisca que meta a boca no trombone, que ele merece! Testemunha, se ele estava lá partilhando o mesmo vale de lençóis? Que grande crápula!!!

    Beijocas!

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    1. Já não tem idade para isso. Ups... Ele é polícia ou bandido, vamos lá a saber...
      Beijocas.

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  10. Pois olha que a D. Francisca, para uma senhora de lenço preto na cabeça, até é muítissimo culta! Até sabe quem é o Gabriel Allon! Quem diria! Isto de onde menos se espera...
    Abraços:-)))))

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    1. Ele há pessoas que são autênticos boiões de cultura.

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  11. É óbvio que não se deve brincar com os sentimentos das mulheres! A minha aposta vai no sentido de um 'saborosíssimo' prato servido gelado pela dita senhora!

    Até já, já. : )

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  12. Duplicidade de vidas...e que "álibi"...pois é, pois é...de onde menos se espera lá vem bomba:)

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