quarta-feira, 7 de março de 2012

110. Ismael (33) - Capítulo 4



Na página noventa e três, Francisca continua a desenvolver o seu conto a que eu, abusivamente, vou chamando o “Conto das ilhas de lá”, sendo que o capítulo quatro não destoa dos três primeiros e espero que continue. O jovem Espinheira, contratado para lhe decifrar o manuscrito, com uma parca avença que apenas lhe dá para as passagens desde a Quinta do Conde à Rua dos Correeiros e para comprar uns morangos de Sintra, numa carroça parada em Cacilhas, junto ao Farol, sim porque naquele tempo ainda havia o pequeno, mas muito doce, morango de Sintra, estava preparado para começar a ler.

Alguns dos leitores deste que será um potencial livro a ser vendido um ano depois de editado na Feira de Corroios por um ou dois euros, para desempatar dinheiro à editora, começaram a ler estas páginas já a procissão ia no adro. Por outras palavras, já Ismael se tinha introduzido nas minhas histórias e já o contista Constantino tinha inventado um crime na Baixa Pombalina da cidade de Lisboa. Se no meio das suas histórias, o tipo que assina estas prosas tivesse começado a escrever um Tratado de Economia defendendo o neoliberalismo como o futuro da globalização, não sei se Francisca estaria à altura de dar pistas ao Espinheira para que este ajudasse alguém a decifrar hieróglifos mas talvez viesse, um dia, a ter a sorte de ser convidado para Ministro. Mas talvez não fosse tão confuso e não baralhasse tanto os seus leitores, nem a moça que um dia encontrou num café. Principalmente porque no meio de um Tratado de Economia de carater neoliberal o “Conto das ilhas de lá” não faria sentido e a Fernandinha não seria tão roliça já que o tempo é, efetivamente, de vacas magras. De qualquer maneira, se a tasca de Ismael não tivesse já sido substituída por uma hamburgueria americana franchisada ou fechada para especulação imobiliária, ainda se comeria lá um caldinho verde e uma sandes de ovo ao balcão e uma bica para rebater, que é assim que a classe média em decadência se alimenta nos pequenos intervalos para almoço que lhe são concedidos. Ah, estava a esquecer-me. E um copo de água da torneira, que sai mais em conta.

Estava o Constantino nos seus pensamentos futuristas, quando, como que por magia,  o inspetor Ismael Sacadura Flores lhe fez estalar dois dedos, a saber, o polegar com o médio, mesmo à frente do seu nariz e lhe perguntou, mas você quer ouvir o que a Francisca escreveu, ou não quer? E foi com a boca cheia que o contista, que mastigava um panado de porco numa bola de mistura, com um esguicho de condimento de mostarda, que por pouco não lhe sujava a camisa e bebia uma imperial (reparem como se não fosse por magia, cronologicamente isto seria impossível, a não ser que o puto Constantino, que ainda usava fraldas já se metesse nos álcoois, quanto muito estaria a mamar um biberon de leite de vaca, com um babete à frente), ficou de olhos vidrados na beleza da escrita de Francisca. Abrindo o manuscrito na página noventa e três e socorrendo-se de uma pequena cábula em papel quadriculado, com desenhos e traduções, o jovem Espinheira leu. À sua roda, Ismael, Fernandinha, Rogério e Sacadura mantinham-se em silêncio. Já não sei hei-de dizer que o contista também estava presente ou se se tinha ausentado a fim de mudar a fraldinha mijada. Efeito das bejecas, pensarão alguns. O jovem Espinheira, com toda a certeza, posso-vos afirmar, estava lá e leu.

Horas e horas sem me alimentar, atentava-me uma mesa assim. Não sabia a composição dos alimentos, mas isso não era importante. No entanto, permaneci imoto. Seria imperdoável tomar a iniciativa. Mais que imperdoável, inadequado e imbecil. O chefe tinha um ar rude, a atingir laivos de imane. Qualquer tentativa, mesmo que imaculada poderia ser considerada uma imisção nos costumes. Esperei. A cena que se seguiu foi imperdível, mesmo para um observador externo. Dois jovens, um rapaz imberbe e uma moça implume, aproximaram-se, nus. Alguns dos indígenas desviaram-se abrindo caminho para o jovem par. O que se passou de seguida é, para um leigo nos costumes, inarrável. Como que impetrando, os olhos da rapariga dirigiram-se a mim. Não teria mais de 16 anos, o que me começava a incomodar. Embora celibatário, qualquer relação que pudesse haver entre nós me pareceria ímpia. Mas, as circunstâncias, não me permitiriam impeticar com os anfitriões. Deu-me a mão e obrigou-me a levantar. Uma a uma, num ritual de sensualidade, retirou-me as vestes. Senti-me impotente para parar aquela espiral de emoções. Nunca fui casado, nunca tive filhos, mas qualquer ato que eu cometesse me acometia de incestuoso. Se alguém, da minha cultura, me visse, face a tão inusitados preparos, me acharia inábil. No entanto, o jogo iria continuar".

Ai, estou com tanto medo que a Francisca não consiga acabar este conto, suspirou Ismael Sacadura Flores. Depois, agarrou num braço da Teresa, que entretanto tinha chegado, pé ante pé, para não fazer barulho e perguntou-lhe, estás a perceber alguma coisa disto?



18 comentários:

  1. Não sei quanto a essa Teresa que chegou agora... mas eu tenho andado a voltar atrás e à frente e acho que já agarrei o fio deste novelo...*

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    1. Parabéns. Olha que não há muitos a consegui-lo :) *

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  2. Disseste uma coisa com a qual não concordo!
    É que um compêndio de neo-liberalismo é das coisas mais claras que podem existir, pois resume-se a... "saquem o que possam aos que pouco têm, que eles calar-se-ão com medo que as coisas piorem!"
    E louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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    1. Não pode ser Manuel. Se fosse só isso não me deixariam publica-lo. Tem de ter muitas páginas.

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  3. Ainda bem que eu me mantive em silêncio. Se falasse diria asneira ou qualquer coisa deslocada... é que ainda ando às voltas para me reencontrar no texto. Maldita carroça, de rodas quadradas, incapaz de calcorrear a net e as ruas da baixa.

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    1. Já sei que tens uma carroça nova, agora é dares-lhe no freio!

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  4. Ò CONSTANTINO, para quando o conto das ilhas de lá?
    do albert johnny garden?

    A TERESA chegou? quando?nã ná vi!


    Oh CONSTANTINO tu deixas-me sempre a rir sozinha quando leio os teus comentos. ó depós nao consigo tirar o sorriso da cara fico assim a modos que tonta a rir sozinha, sabes?
    e esta dos Antónios deu-me uma pancada de tosse! hihihi

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    1. AvoGi essa dos Antónios aprendi no tempo que éramos campeões olímpicos em presos e altares.

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  5. E esta que se assina Teté, que por sinal também é Teresa. diz que sim, que agora já percebeu que parte da história passada em 1956 não foi presenciada pelo Constantino, que ainda andava de fraldas e só bebia biberon. Anos mais tarde, sim, lá lhe dava nos carapaus de escabeche e noutros petiscos. E por lá, leia-se na tasca do Ismael galego!

    Se não for assim, depois tu explicas, né?

    Se pelo meio resolveres escrever um tratado de economia, aí sim, não te admires se perderes leitores... :)))

    Beijocas!

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    1. A ficção e a realidade misturadas em doses q.b.
      Um beijinho.

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  6. Imprimi os capítulos em falta e vou ler e depois volto, já que tenho andado num vai-vem:)

    Depois digo algo mais:)

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    1. Gostas mais de ler com cheiro a tinta? :)
      Beijinho.

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  7. Quem o manda andar a "atar" a torto e a direito?

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  8. Não, mas também não percebo nda dos quadros surrealistas e acho-os belos e estimulantes...

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  9. Cada vez está mais interessante e intrigante e há que ler devagar porque se não misturam-se os personagens...ai Ismael, Ismael...onde é que irás parar?

    Isto só mesmo imprimindo, juntar as folhinhas e ler de seguida...ohhhh meu amigo para quando o livro?

    Gostei imenso e tens cá uma imaginação que vou-te contar::)

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    1. Deixa cá ver se eu percebo. A qual do Ismaeis é que te referes? LOL

      Beijinho.

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