segunda-feira, 12 de março de 2012

112. Ismael (35) - Assim contado não tem piada nenhuma




Foi só quando o Espinheira, depois de ter feito umas investigações a antigos arquivos por causa de uma herança de umas casas na Baixa, veio ter comigo e me falar de um crime ao qual ele não tinha ainda encontrado o desfecho, ocorrido muitos anos antes na Rua dos Correeiros, 43, 6º andar, que as nossas relações começaram a ficar tensas. Primeiro porque o Espinheira não tinha nada que meter o bedelho onde não era chamado, já que o crime de que ele estava pretensamente a falar nunca ocorrera, uma vez ter sido uma invenção minha para o livro, que por acaso ainda não tem nome mas que estou tentado a chamar-lhe qualquer coisa do tipo “Crime à sombra de um carapau de escabeche” . Em segundo porque, indiscretamente ou por distração, poderia vir a público revelar ou insinuar quem tinha sido o assassino de Isabella Vicentini, já que quando me referiu a ausência de desfecho, frisou bem o advérbio ainda e isso estragar-me-ia o enredo. Pois assim, quase de costas voltadas, entramos na tasca de Ismael Gusmán, que era até há bem pouco tempo, um local de puro relax, um local onde todas as tensões se quebravam, um local de onde até casais desavindos saiam de braço dado e de onde outros, casais não formalmente constituídos, eventualmente adúlteros, saiam à procura de uma pensão com ou sem águas quentes e frias. Era assim como que um antro de paz e reconciliação e toda a gente sabia que não havia discussão, mau estar, tensão pessoal ou conflito protoexistencial que resistisse a um pastel de bacalhau e a um tinto das Gaeiras, em vez de um crepe de rebentos de soja e a uma coca-cola gelada, fruto da globalização, da imigração chinesa e da invasão imperialista. A velha laranjada AUA já era, a gasosa La Casera, que era muito apreciada, apesar de ser um produto espanhol, facto que muito orgulhava o meu amigo galego, dera o seu lugar à sevenape e à sepraite.  Mas na tasca do Ismael mantinha-se a tradição e ainda se podia apreciar um bom pastel de bacalhau, talvez herança dos tempos em que Fernandinha brilhava naquela cozinha e o tinto, que agora jorrava de caixas de cartão, já não era bebido em fininhos do Cartaxo, mas ainda assim, Ismael tinha garbo em vender do melhor e, se algum cliente o pedia, numa prateleira superior, a fazer lembrar o antigo terceiro anel do Estádio da Luz, deitadas para molhar a rolha, como deve ser, lá tinha ele uma boa dúzia de garrafas de vinhos DOC e VQPRD, das melhores regiões nacionais.

O dia estava fresco, era o fim de uma manhã de início de Outono, pedi dois pastéis de bacalhau e uma fatia de pão, só para fazer boquinha, mandei abrir uma garrafa de tinto da granja da Amareleja, ignorando se o Espinheira o merecia ou não, o meu amigo Ismael perguntou se íamos almoçar e eu perguntei-lhe, como resposta, o que é que era a ementa nesse dia. Ele gaguejou um pouco, começava já a desculpar-se dos tempos modernos e tal, falava em hambúrgueres e bitoques, eu abri-lhe um pouco mais os olhos do que ele estava à espera e já curvado nos seus setenta e tal anos, deu meia volta e soltou uma sonora gargalhada e, passada que não era ainda uma meia hora já nos trazia duas belas postas de bacalhau à lagareiro com batata a murro e tudo, que lá nisso, o galego nunca deixou os seus créditos por mãos alheias. E entre conversa de circunstância do tipo, o Espinheira a esfregar as mãos e a dizer que com este tempo este azeite quentinho com alho é que vai saber bem e veja lá, os chineses, não sei quê e tal e eu então disse-lhe no meio de duas garfadas, Pronto! Está decidido. E ele, o quê? E eu, já sei como resolver todo este imbróglio. E ele, como assim? E ainda acrescentou, não estou a perceber. E eu, mas primeiro tem de me dar uma garantia. E ele, oh senhor Constantino só para lhe ver esse sorriso número vinte e sete, dou-lhe todas as garantias. E eu, não brinque porque isto é coisa séria e tem que ficar combinado. E ele, combinado o quê? E eu, você não fala do crime da Rua dos Correeiros a ninguém, não menciona o nome de Isabella a ninguém, não insinua, sequer, que alguém morreu com sete facadas num sexto andar de um prédio da baixa a ninguém, não diz… E ele, interrompendo-me, está bem, mas diga lá de uma vez por todas o que me quer dizer senhor Constantino, isso nem parece seu, por aí a enrolar as coisas. E eu, pronto, não se exalte Espinheira, mas você é que é culpado por me estar sempre a interromper. E ele, desculpe, e eu, pronto, desculpado e ele, obrigado, e eu, não tem de quê, mas você garante-me o que lhe pedi e eu meto-o na história como um jovem estudante da Faculdade de Letras e avençado do Estado a colaborar com a polícia judiciária, mormente com o inspetor Ismael Sacadura Flores. E antes que ele me perguntasse como é que eu sabia que ele tinha andado a estudar na Faculdade de Letras, acrescentei, sim porque eu sei muito do seu passado e você vai ver que não se vai arrepender de fazer parte de algumas páginas do meu livro. Apertamos as mãos e acabamos de comer o nosso bacalhau à lagareiro, além de termos brindado à Isabella Vicentini e à Fernandinha, à medida que o vinho recuava na garrafa e avançava na nossa circulação sanguínea, brindamos também ao fio de ouro com uma medalhinha, ao velho Ishamil Baruch que é coxo, à idosa e misteriosa senhora de Trás-os-Montes, ao falecido Günter Freitag e às pensões com águas quentes e frias.

Irresistível mesmo, foi, após o cafezinho e aquele bagaço de vinho verde que repetimos, o Espinheira ,já a cambalear, tirar dois caderninhos do bolso do casaco, um deles de capa preta, mostrarmos e dizer-me, este você reconhece e eu, sim esse é o manuscrito de Francisca, e ele, acertou e eu, então e outro? E ele, calma e eu? Tanto mistério porquê? E ele, já vai ver, e eu, O que é isso? E ele, é um anexo. A páginas 145, diz-me entusiasmado, Francisca refere-se a um anexo e só passados estes anos todos é que eu o vim a descobrir e nem lhe digo onde. E eu, onde? E ele, não lhe digo. E eu, diga lá. E ele, não. Pediu o seu terceiro bagacinho e só visto, porque contado não tem graça, caiu sentado no banco corrido da nossa mesa na tasca do Ismael e deixou-se adormecer sobre o anexo. Irresistível aquele momento, que só visto, pois contado não tem a mínima piada.

14 comentários:

  1. Boa, eu é que deixei a carroça e o Constantino é que vai na guita... o ritmo disto é...limpo. Os diálogos são de estalo, da qualidade do tinto...
    (tenho que lhe arranjar um editor. Tenho, sim senhor...)

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    1. Às vezes temos de ser realistas mesmo quando ficcionamos. Eu tenho muitos diálogos na vida real, parecidos com este.
      Obrigado.
      Um abraço.

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  2. e isso é crime? pedir bagaços? quem me dera a mim ter aqui um cálice desse nectar, ma so que é bom nao vai à boca do pobre
    kis :=) era sinal d

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    1. E uma cana não vai? Disfarçada de poncha é tão bom!

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  3. E eu que já me faltava uma série de capítulos para ter esta história em dia... em dia? huumm... com anexos a surgirem assim, não sei como vai ser... :))

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    1. É apenas uma questão de mais Ismael, menos Ismael. :):)

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  4. A partir do 3º pastel de bacalhau, acompanhado por um copo de três, estou semopre pronto para me concentrar em qualquer conversa... devidamente sentado à mesa e com o guardanapo ao pescoço!!

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  5. Há malta que não aguenta a bebida, uns reles 28 bagaços e metem-se logo a testar a teoria da gravidade.

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  6. Epá, também não vale a pena o Espinheira e o Constantino zangarem-se por tão pouco, que afinal história inventada não é motivo para isso! Quer dizer, exceto no caso de plágio, mas essa já é outra conversa! :)

    Mas pronto, fizeram as pazes como de costume na tasca do galego e depois, no auge do suspense, quando finalmente nos seria dado a conhecer o anexo de Francisca... PUM! ele cai de bêbado em cima do dito??? Que maldade!!! :)))

    Beijocas!

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  7. davas-lhe mais uns bagaços e logo abria-te o jogo ou seja dava com a boca no trombone, eu tb sou assim só digo depois de uns tantos 30 ou 39 daí para cima é ganho
    kis .=)

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  8. Pelo menos era bagaço de vinho verde...pinga de qualidade!Mas, se ainda existisse a laranjada AUA talvez tudo isto fosse evitado...*

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  9. Cada vez mais intrigante e nem com bagaços te disse:)

    És genial rapaz:)

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