quarta-feira, 29 de junho de 2011

46. Sorte


Só se aceitam cheques visados. Este anúncio encontrou-o numa gasolineira, algures entre a Guarda e Vilar Formoso. O pior foi que ele só reparou no aviso já quase com o depósito cheio. Iria ser o que Deus quisesse, pois cheque visado é que ele não trazia consigo. E àquela hora da noite nenhum banco lho iria visar, de certeza absoluta.

A viagem até não lhe estava a correr muito mal, maugrado ter começado apenas três dias após a data planeada devido a uma arreliadora avaria no motor, que lhe estoirou a junta da colaça e de cuja reparação ficou dependente para iniciar as férias. Também é certo que as duas noites perdidas que, obviamente, tinham sido antecipadamente reservadas, tiveram de ser canceladas à última da hora e, se bem que numa delas os proprietários da residência prescindiram do pagamento, na outra, a noite não dormida teve de ser paga integralmente. Mas não era coisa que o abatesse. De resto, nada de ruim a acrescentar, a não ser talvez o imprevisto de se ter esquecido da máquina fotográfica num banco de jardim em Coimbra e de, quando voltou para trás, já não a ter encontrado. Por coisa tão pouca, não se poderia dizer que as férias estivessem a ser muito atribuladas. Bem, terei de acrescentar que ele me referiu que enfrentou, na viagem de Seia para as Penhas da Saúde, o maior nevoeiro que já alguma vez tivesse visto em toda a sua vida e que o percurso, que tinha estimado em cerca de uma hora, acabou por demorar três. Mas disso ele não se lamentou. Apenas se mostrou mais constrangido com o facto de que, quando chegou à Covilhã, já ter sido tarde de mais e a dona da pensão onde, por recurso, marcou quarto, sem ter sido avisada, porque naquele tempo não havia telemóveis, ter cuidado de que ele já não viria e o ter alugado a outra pessoa. Mas ele só se queixou do frio. Estou a lembrar-me de que logo de manhã, quando quis partir, contou-me que tinha um pneu em baixo e que, com as mãos geladas por ter pernoitado no carro, se viu aflito para mudar a roda. Passou a manhã na Serra, onde talvez por não se ter informado, ficou admirado de esta não ter ponta de neve, desceu de novo à Covilhã onde almoçou e depois percorreu algumas aldeias bonitas a caminho da Guarda, foi a Belmonte e ao Sabugal, visitou Sortelha e andou por terras do Côa. A noite caiu cedo e seguiu em direção a Vilar Formoso. Tudo na maior paz.

Só aceitam cheques visados? Perguntou ele. A balconista confirmou. Minha senhora, estou muito atrapalhado, referiu, acabei de encher o depósito de gasolina e não tenho nenhum cheque visado. Quem ficou atrapalhada foi a balconista. Que não podia ser de maneira nenhuma. Sujeitava-se mesmo a ser despedida se aceitasse um pagamento com um cheque não visado. Ele, um homem expedito, que nunca se queixava, nem se atrapalhava com as adversidades atreveu-se a fazer-lhe uma sugestão. Minha senhora e se eu lhe pagasse em dinheiro, a senhora aceitaria? Ela aceitou.

Texto e foto do autor. Todos os direitos reservados.


24 comentários:

  1. Cada vez acredito mais que a Língua Portuguesa é mesmo traiçoeira. Não podemos tomar à letra certos anúncios. Temos mesmo que descer ao nível de quem os elabora para que consigamos a melhor interpretação dos mesmos. Quanto aos azares do fulano...é mesmo muito azar junto.
    Abraço

    (lá vou ter que meter as letras de verificação de novo...é mesmo muito azar, lol)

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  2. Caro LOL, eu bem que vos queria evitar esse incómodo. Mas quando tento entrar na opção definições o meu browser fica bloqueado e bloqueia-me também o computador. Hei-de tentar de novo.

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  3. Parece que já consegui tirar a confirmação com as letrinhas...

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  4. Tomara que o acto lhe tenha (a ele) corrido melhor do que os preliminares, senão essas férias teriam sido uma desgraceira. Que é como quem diz: que a estadia tenha compensado a viagem.
    (isto é uma piada que eu e a minha filha costumamos usar quando as coisas começam a correr mal logo no início).

    Pormenor curioso é o facto da Serra da Estrela não ter ponta de neve, estando na Covilhã um frio de rachar. Antes de chegar à Varanda dos Carqueijais e à Nave de Santo António já a serra costumava estar toda branquinha, mal começavam os primeiros indícios de Inverno.
    Mas tá bem! Sabe que o meu cunhado é da Covilhã e os meus quatro sobrinhos nasceram lá. Conheço bem toda aquela maravilhosa zona.

    Que sorte para o nosso expedito viajante naquela estação de serviço aceitarem pagamentos em numerário..))
    Aparte esses piquenos contratempos, gostei muito de fazer esta viagem na tua companhia.

    Um abraço

    Janita

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  5. Janita, como naturalmente você e os outros leitores do blog já notaram (não vou fazer nenhuma confidência), estes contos são um misto de situações reais com ficção. O de hoje não foge à regra e para que não perca a graça (quero dizer, o que eu acho graça, eheheh) não vou dizer qual é a verdade e qual é a pintada. Além disso o protagonista não fui eu, foi ele e posso nem estar autorizado. No entanto, no inverno de há 30 anos, estava a minha mulher com uma barrigona de 7 meses, estivemos nas Penhas da Saúde com zero de neve. Início de Março de 1981. :)

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  6. Seus contos são incríveis!
    Estou adorando aprender um pouco mais de sua língua (que é a mesma minha mas mesmo assim diferente!) e costumes através de seus contos.

    Obrigada, Bjs...

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  7. Constantino, será impressão minha ou hoje está um bocadinho de candeias às avessas??

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  8. Sorte? Essa viagem parece uma sucessão de azares atrás uns dos outros, se bem que um passeio por Sortelha vale sempre a pena... :)

    Bem, mas teve sorte por ela aceitar dinheiro em vez do cheque visado! :D

    Também gostei muito da fotografia!

    Beijocas!

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  9. olha que pérola da nossa língua. lindo PASTOR( (permite-me que te trate assim)
    em dinheiro não só cheques
    ainda estou a sorrir
    kis :=)

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  10. Hehehehehehehehehe!!!...

    Esse aí deve ser o pai da paciência!...rs

    Quanto à essa de pagar com dinheiro, outro dia também me sai com essa. As moças do caixa, tem tamanha certeza que as pessoas vão pagar com cartão, que, antes que você abra a bolsa elas já perguntam: - "É débito ou crédito?"
    Aí eu também me saí com essa: - Vocês também aceitam dinheiro???
    E ela na gozação: - "Por enquanto ainda sim!"

    Onde vamos parar?...rsss

    Grande abraço pra você, amigo

    Cid@

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  11. Janita, se calhar, só um bocadinho complicado. :) mas estou bem disposto :)

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  12. Cida, é que a língua portuguesa é muito traiçoeira :)

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  13. Avó da pulguinhas, pode me chamar do mais pobre Edir Macedo que você conhece.

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  14. Teté, aquelas paragens são lindas, se bem que eu nunca lá tenha ido, ele contou-me :)

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  15. Tânia, agradeço esse elogio. Eu não me canso de aprender com vocês. Beijim.

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  16. Constantino, cá estou eu de novo. Rompo as solas a caminhar pra sua casa.
    É que só agora voltei à minha e fiquei encantada. Obrigada!
    Já conhecia, mas adorei como se o lesse pela primeira vez.
    Beijinho
    Janita

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  17. Desconcertante... sempre desconcertante!!
    Mais um texto óptimo

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  18. E nós com vcs amigo!
    Temos muito à aprender com seu povo Constantino!
    Moras em um país riquíssimo em história e cultura... Isso é uma dádiva!
    Bjssss

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  19. Olá

    Quando aqui venho sou surprenedida com os teus textos!

    Cash...cash...

    Bjs.

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  20. Olá, Constantino!

    Quando um mal vem, nunca vem só, já diz o ditado.E quanto ao cheque, fomos todos muito bem enganados...

    Um prazer ler.
    Um abraço.
    Vitor

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  21. Que parva que eu sou que demorei uma eternidade a visitar-te mesmo em casa. Encontramo-nos por aí, nos mesmos blogs, mas não me tinha dado a curiosidade e vir à origem.
    Histórias fantásticas, muito bem contadas. Esta é formidável, e bate certo. SÓ? Pois é. :D

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  22. Realmente fiquei presa ao texto e caramba uma viagem inesquecível...e o final bem surpreendente. Pois é, hoje não aceitam qualquer cheque, nem visado heheheheh

    Maravilhoso! Parabéns!

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  23. Poupou-se um posto de trabalho e só isso merece o aplauso. No entanto, nenhum deles se lembrou de usar uma palhinha passando o combustível para um bidão.

    Mas, valha a escrita e a imaginação.

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