domingo, 15 de julho de 2012

157. Saudades




Regressavam de mais um festival pop em Paredes de Coura. António Cipião era um filho dos sixties, cresceu marcado por Woodstock, sabia de cor e salteado todas as canções de Bob Dylan, chegou a ter o quarto forrado com posters da Joan Baez, do Jimmy Hendrix, tocava viola elétrica, usava o cabelo comprido, quase pelo meio das costas e deslocava-se quase sempre numa Harley-Davidson já velhinha mas com os cromados sempre muito bem polidos.

Na terra era o Toy. Uns chamavam-lhe o Toy guedelhas, outros chamavam-lhe gabirú e outros, ainda que à socapa, chamavam-lhe o filho do padre. A história de criança do Toy conta-se muito rapidamente. Tinha cinco anos quando o senhor Leandro, maioral na herdade do Lima, caiu de um cavalo que tomou o freio nos dentes e, desgraçadamente, veio a bater com a cabeça numa rocha que se salientava do solo. Teve morte imediata e a D. Principilina vê-se assim viúva com um órfão de cinco de anos nos braços e com um bucho de quase sete meses. O que iria ser dela? O patrão iria pô-la fora com certeza. Quis o destino que D. Sebastiana Lima, a mulher do patrão e senhora de muita devoção, não só interviesse junto do seu marido, que de compaixão não teve que ter, já que o cavalo, por mor da queda juntamente com o maioral partiu uma perna e teve de ser abatido, o que acelerou a expulsão da prenha Principilina e de Toy, mas também junto do senhor prior a quem a esmola da família Lima era um bem a não desconsiderar. Torna-se assim a mãe de Toy na criada de D. Januário Peres e D. Januário o protetor das crianças, por favor de quem, Toy acabou a estudar num seminário em Beja e mais tarde, dada a sua pouca vocação para as coisas celestiais, no Liceu da mesma cidade. Mais tarde, quando em Lisboa se formou em engenharia agrónoma foi na escola agrícola de Évora que arranjou colocação como professor. Entre o Baixo e o Alto, o Alentejo e as coisas do Alentejo nunca lhe saíram das veias e ao Alentejo regressava naquela tarde, depois de uma semana fora, por causa do habitual programa musical no Minho.

A sempre verde paisagem minhota era um complemento para ele da seca doçura das cearas do seu Alentejo. O estudo das espécies vegetais era mais do que uma paixão ou uma obrigação profissional. Embrenhar-se por matas era acima de tudo um prazer. Com Marta, raras eram as vezes que as florestas não ficavam com o que contar. Depois de divorciado de um casamento de mais de vinte anos, com uma mulher à moda antiga, de famílias conservadoras, que durante largos anos, a troco de um complemento ao seu baixo salário como professor acabou por “vender” a própria cabeleira, vendo-se de Toy guedelhas, passar a Toy militar, graças às carecadas que amiúde lhe levavam a melena, vê-se envolvido com Marta, mais jovem do que ele cerca de trinta anos, a nova professora de biologia molecular, que rapidamente e quase à primeira vista, caiu nos braços do filho do padre.

Marta era, ao contrário de Perpétua a sua primeira mulher, uma fulana demasiado avançada. Vestia de uma forma arrojada que o calor do Alentejo não só permitia, mas também estimulava. Minissaias, decotes soberbos, dispensa frequente de soutien e outros arrojos que não vale a pena descrever, era tão terna como eternamente enamorada. Os lábios carnudos debotavam sexo, as ancas proeminentes exalavam sexo, o andar gingado fremia sexo. E Toy, já nos seus sessenta anos, não era rapaz de ficar para trás. Estava ali o par ideal que amava ao som da guitarra de Jimmy Hendrix, das vozes roucas de Janis Joplin e de Joe Cocker, do cantar trinado de Baez, do folk dos The Band, do country de Bing Crosby ou Niel Young, do rock do Blood Sweat and Tears..

Regressavam de Paredes de Coura. Ela no banco de trás da Harley com os seios salientes, diga-se em abono da verdade, colados nas suas costas, ele de braços levantados no guiador bem aberto e levantado da mota, ambos de capacete, mas ambos de madeixas ao vento, entoando Mercedes Benz e Gracias à La Vida e outras que a deslocação do ar não deixava que fossem percetíveis. Quando, para fazer descansar as ancas e os traseiros, depois de terem entrado no Alentejo, pararam na área de serviço de Vendas Novas, Marta salta da mota, Toy segue-lhe os gestos, olham um para o outro, dão um beijo bem terno e Toy pergunta a Marta,

- Sabes o que me está a apetecer agora, amor?
- Vá lá, diz tu, para não ser sempre eu a sugerir – continuou Marta, dando sequência à pergunta de Toy.
- Um gaspacho. Um gaspachinho bem fresco. Ai que saudades!

18 comentários:

  1. Está linda, gostei, só é pena dos pobres desgraçados terem que ser Alentejanos , mas pronto está bem.

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    1. E as histórias (não estou a falar em anedotas) que eu conheço com alentejanos? Espere por mais.

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  2. Eheheh, cheira-me que essa Marta vai de ter de encontrar outro parceiro mais à sua altura, que aposto que não era gaspacho que lhe estava a apetecer... :)))

    Beijocas!

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    1. A Marta adora gaspacho... antes e depois :)
      Beijocas

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  3. Ah ah ah!
    Já há tempos que não parava na blogosfera, também eu tinha saudades!

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    1. Eu tenho estado de férias, mas a blogosfera é uma das minhas paixões.

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    1. Sabias que ela toca com a Celina da Piedade? (Já agora qual é o nome dela?)

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    2. Chama-se Tânia Lopes (está no meu FB) e pertence aos Homens da Luta :-)

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  5. Gostei e também senti saudades...do gaspacho!

    "... só é pena dos pobres desgraçados terem que ser Alentejanos"

    Pobres desgraçados?? Há lá povo mais nobre e leal do que o alentejano?

    Ai, anónimo/a a tua sorte é não te identificares...vê-se bem que não és alentejano...

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    1. Janita, a anónima é uma conhecida minha e também é alentejana ahahahahah.
      Beijocas.

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  6. Estou a ver que do espírito de Woodstock o Toy só tinha o cabelo...

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  7. Naquele momento... pensei que a bela e ancuda Marta quisesse levar com o gaspacho...mas, enganei-me.

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  8. Descreveu um bonito casal Vitor só não arranje confusão e ciumeira , deixe-os por um tempo viver essa vidinha de sexo e rock in roll rs ok?
    saudade também de ti .E o Alentejo só vejo em fotografias , ah povo feliz com um horizonte a perder de vista...
    abraços Vitor
    na proxima diga lá como degustaram o tal 'gaspacho'se é que ficou só nisso ... rsrs

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  9. aumentaste as letras? ainda bem, assim nao tenho de usar a lupa
    kis :=)

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  10. A sério que pensei que lhes apeteceria uma outra coisa...

    Um abraço.

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  11. Olha eu aqui de novo, Vítor Fernandes! Passei um tempão sem das as "caras"... Tou pensando em recomeçar a leitura de toda a saga de Ismael, me perdi toda (nem GPS eu tenho).
    Enquanto não recomeço, fiquei me deliciando com a leitura desse texto, cantarolando Mercedes Benz e Gracias a la Vida... E sentindo o vento da liberdade na cara e bailoçando meus cabelos...

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  12. Se o Toy e a Marta estiverem este fim de semana em Faro, na Concentração motard talvez comam um arjamolho, que é o gaspacho de cá. :)

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