sábado, 28 de janeiro de 2012

93. Ismael (18) - Francisca, essa magana!


Parece que temos novidades, disse o Inspetor Ismael Sacadura Flores, mal acabou de chegar e ainda antes de cumprimentar o jovem Espinheira que, enquanto comia uma sandes de torresmos e bebia uma schwepps de ananás, não tirava os olhos do livro de capa preta. Depois de pendurar o sobretudo no bengaleiro e também o chapéu de feltro, esfregou as mãos uma na outra, soprou-as fazendo-lhes chegar ar quente acabado de fabricar no seu próprio interior e interjeicionou, incha que está frio! O jovem Espinheira (que é o mesmo senhor Espinheira a quem já me referi em tempos, mas noutra época), assentou que sim com a cabeça. Em todo este entretanto, aproximou-se o galego Ismael Gúsman trazendo numa mão um pequeno prato onde ainda fumegavam dois pastéis de bacalhau e na outra uma taça de tinto, que era preciso aquecer as entranhas ao inspetor. Depois de perguntar ao jovem Espinheira se precisava de algo mais, retirou-se e foi ter dois dedos de conversa com a Fernandinha. Ouviu-se-lhe ainda de fundo falar em Sebastião, na expressão poucas-vergonhas e outros sussurros que poderão não ter interesse para a narrativa. Desembuche lá, Espinheira, que não tenho o dia todo, rematou o inspetor Sacadura.

Temos aqui na página doze, uma referência que não sei se lhe interessa, disse o Espinheira hesitante, pois estava com pouca vontade de entrar por ali. Pois eu confesso-lhe, Espinheira, que poucas foram as páginas onde consegui decifrar mais do que três palavras seguidas, confessou efetivamente o inspetor Ismael Flores. Continua então Espinheira, a páginas doze, diz a Francisca que “o doutor Ismael ben-Avraham vivia com os seus pais nos Alpes Austríacos, longe dos negócios da família ben-Avraham da parte do pai e da família Baruch da parte da mãe”. Conta ela também, informa o Espinheira, que “os pais do doutor foram muito mal tratados por uns italianos suíços, ou suíços italianos de Lugano, muito próximos dos camisas negras”. Não esclarece as ligações desta família suíça com a bailarina italiana Isabela, morta, como sabe senhor inspetor, com sete facadas, aqui mesmo no número quarenta e três desta Rua dos Correeiros, observa e muito bem, segundo palavras do próprio inspetor, o jovem Espinheira. Só se for lá para a frente quando eu conseguir decifrar esta espécie de hieróglifos, dando alguma esperança ao inspetor Sacadura. Ah, esqueci-me de dizer que temos aqui uma nota de rodapé, nesta mesma página doze, dizendo que  “o tio, Ishmail Baruch perdeu dois irmãos, duas cunhadas, vários sobrinhos e um filho durante a depuração nazi”. E mais não diz por enquanto.

Em seguida, num só fôlego, Espinheira, depois de saltar para a página oitenta e oito leu, em voz alta, para grande espanto de todos, inclusive do Rogério que tinha chegado e discretamente se sentado na sua mesa de canto,  A disceptação teve o seu epílogo. Estava decidido. Como bom dendrófobo dirigir-me-ia para o deserto. Ele caminharia para os antípodas. Sentia-me fatigado de ser sempre apoucado nas minhas decisões. Assumiria de uma vez por todas o meu eremitismo. O badano, já cambado, haveria de suportar as duas ou três horas que me faltavam para chegar ao destino. Quando as adelfas e as carvalhinhas começaram a rarear nas margens do caminho, o dia abaçanava. A alimária alentecia e nem os golpes de butuca a fariam mover. Paramos. Coligi os escassos haveres, cobri-me com um bedém, com o qual me tinha abispado antes da partida, sentei-me ao velho jeito índio, as pernas cruzadas uma sobre a outra e adormeci. A minha mente extenuada achapuçava-se de sonhos. Abentesmas albípedes cujas restantes partes corporais se não viam, bandarreavam no meu espírito deixando-me azabumbado. Como seria possível em lugar tão ermo me sentir cercado. Acordei abruptamente. Autócnes de aspeto boçal faziam a festa. Nunca na vida tinham deparado com tão alva tez. Com as mãos enrugadas esbarbavam-me o capote como que se inteirando da minha condição de real. 

Fernandinha não entendeu patavina da récita, Ismael Gúsman gritou lá de dentro do balcão que os passarinhos estavam prontos se podia servi-los já ou esperavam mais um pouco, Rogério coçou a cabeça e o inspetor Ismael Sacadura Flores, ainda um pouco perplexo, com os olhos meio esbugalhados apenas conseguiu dizer, que essa Francisca era um poço de surpresas. Então ela escrevia contos e nós não sabíamos de nada? Pois vou querer seguir essa história. E, com as mãos em concha soprou-as de novo com ar quente.

24 comentários:

  1. Sinto-me meia azambumbada, com a mente a aventar de achapuçados e terríficos pesadelos.

    Na minha mesa do canto oposto, à qual o Rogério se sentou, olho na direcção da Fernandinha, que após dezoito longas e extenuantes noitadas, ficámos tão amigas como unha e carne.
    Dirijo-lhe um leve esgar semelhante a um sorriso um pouco escarninho, logo seguido de um piscar de olho seu e um ligeiro erguer do queixo indicando-me a mesa do Rogério, para onde de imediato olho, ainda a tempo de o ver coçar a cabeça com um ar um tanto ou quanto almareado.

    Quando vejo o Ismael Gúsman passar com os bolinhos de bacalhau que jáfumegavam, fiquei lívida como a cal da parede pensando estar em presença de algum badano cambado fantasma, uma vez que na festa de aniversário de uma negra pantera já meio acinzentada, alguém que me vou abster de mencionar, por não ter provas de delito suficientes, havia apregoado ao quatro ventos tê-lo visto cair tremelicante e exangue .
    Influencias…

    Segredei-lhe ao ouvido algo que o fez sorrir e encaminhar-se para o canto oposto ao meu. Ao vê-lo pousar o prato na mesa, levanto-me e sigo na direcção do almareado freguês da tasca do galego, enquanto o olhar das abantesmas Espinheira e Inspector Sacadura me seguiam com ar baboso e quiçá guloso.

    Sento-me ao lado do Rogério que num gesto de grande cavalheirismo, se havia levantado e afastado a cadeira para eu me acomodar.
    Saboreando o pastel de bacalhau e bebericando o néctar da boa uva madura que nos escorregava pela goela abaixo qual dendrófobo pela areia escaldante do deserto, olhámos um para o outro e sussurrámos em uníssono:
    “ Nem eles sabem o quanto a Francisca pode ser magana”.
    Depois, soltámos ambos uma gargalhada.

    Ó Constantino, estava aí? Nem o via! Junte-se a nós!

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    1. Pois. Um dia destes ainda te vou fazer o desafio de escrevermos um blog a meias tipo como quem canta à desgarrada. Não sabes o prazer que me deu este teu comentário e também eu dei uma bela gargalhada. Magana!

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  2. Formidável! Vale muito a pena ler um texto bom como este. Conte comigo como um humilde leitor, porém de bom gosto. Abraço

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    1. Muito grato por poder contar consigo na lista dos meus leitores.

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  3. Só vou lamentar se por ocasião do lançamento do livro, eu não puder estar presente!

    ;)

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  4. Um excelente texto para começar meu Domingo.
    Vale a pena dizer poucos lê nossas postagens isso nos entristece muito.
    Um feliz Domingo beijos.
    Evanir..

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    1. Ai querida cada vez que vou no seu blog até me sinto constrangido em comentar. Você tem sempre para cima de 100 comentários em cada postagem.
      Beijos.

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  5. Excelente texto.

    Sabe a queijo, sim e é muiiiiito saudável

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    1. Tenho de experimentar. Mas quem é que consegue tirar-me os queijinhos de ovelha

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  6. Estragaste tudo com a sande de torresmos e com os bolinhos de bacalhau...
    É que eu fiquei sempre com aquele cheirinho... e perdi-me... "prontos"(adoro o prontos)!!!!

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    1. Prontos pah, já cá não está quem assou os carapaus fritos.

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  7. Certamente, o livro envolverá os leitores. Você conduz sua narrativa com sabedoria.

    Bjs.

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    1. É o objetivo. Vamos ver se consigo atingi-lo. Bjs.

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  8. Genial e é que prendes mesmo o leitor:) excepto nos "torresmos" que só o cheiro me agonia.

    Ai Fernandinha, Fernandinha ainda vais dar muito que falar/pensar:):)

    Gostei!

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    1. Nem tu imaginas o que a Fernandinha é capaz de fazer. Espera pelos próximos episódios.

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  9. Nem eu me lembro já, a motivação de ter entrado, me ter tornado freguês, intermitente, mas afeiçoado àquela gente, ao ambiente e aos odores. Naquele dia tinha decidido não comer um passarinho, pois me lembrava o espanto de uma amiga, arredada desse gosto, e do seu profundo desgosto de ver um humano comer o que de melhor a Primavera dá. Olhei para o alguidar onde os coitados, jaziam depenados, prostrados em... vinha de alhos. Ficaram-me os olhos nos torresmos que, pela primeira vez, me disputaram a Fernandinha. Estava eu a degustá los, com um copo de verde tinto, quando troquei de olhares com a Francisca, para logo de seguida me embaraçar com a sua arremetida. Levantei-me, gesto cavalheiresco em desuso, e arredei a cadeira para seu maior conforto e acolhimento. Falámos e gargalhámos, sem eu saber ao certo de quê... a Francisca, nada arisca, chamou o Constantino para se juntar. Depois da leitura do Espinheira, dos torresmos, dos sorrisos, agora a cavaqueira a três... Rica tasca, que bom ser seu freguês...

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    1. E como respondia o outro :) não comemos nós marisco que deitamos vivos na panela de água a ferver?

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  10. Como poderia a Fernandinha perceber o discurso com palavras raras de sete e quinhentos? embora, no tempo actual haveria necessidade de fazer a conversão inflacionada...pode ser que possamos usar daqui a uns tempos novamente o mesmo preçário...

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    1. maceta, os nosso governantes não falam com estas palavras e ninguém percebe o que eles dizem; passam o tempo a vir aos nosso bolsos sacar sete e quinhentos em versão euro de cada vez que falam.

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  11. Não admira que a Fernandinha não percebesse nada do que estava escrito no tal diário. Nem o inspetor. Nem praticamente ninguém, sem dicionário ao lado, se é que ajuda alguma coisinha... :)

    Beijocas!

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    1. Teté, eu com dicionário ainda sou capaz de lá ir :)

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