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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

248. O dono da bola - #17. O interturmas na Universidade



Foi um jogo histórico. Era o último jogo da fase de grupos e bastava-nos uma vitória. Qualquer que fosse o resultado pois 1 a 0 já era o suficiente e seguiríamos em frente. Era o nosso último ano no Técnico e nunca a nossa equipa tinha passado em primeiro lugar a fase de grupos. Era aquela a nossa grande chance e logo contra, se não a mais fraca, uma das mais fracas equipas do torneio. Tínhamos ganho, até com surpresa,

a Providência Divina, nunca ouviste falar? Parece que não…

a outras que não esperávamos, mas naquela altura até jogávamos bem, tínhamos uma boa linha. Começamos logo a carregar. Alugávamos o nosso meio campo nem que fosse para fazer uma feira.

nunca se saíram bem os vendilhões do Templo…

Os tipos nem tocavam na redondinha. As oportunidades surgiam atrás de oportunidades e o golo estava eminente. A confiança era enorme. O nosso guarda-redes era um mero espectador.

!fia-te na Virgem, fia-te na Virgem e não corras e vais ver onde vais parar!

Fizemos deles gato-sapato até que, uma bola perdida, um pontapé para a frente apanhando-nos em contrapé e toma lá que é para aprenderes,

eu não digo, eu não digo?...

os gajos marcam um golo. Estávamos a perder por um a zero mas isso não nos afetou o ânimo.

isso dizes tu. Faço ideia a tremedeira que por lá ia…

Em cada bola que chutávamos parecíamos querer explodir num tremendo grito de golo. Mas a bola teimava em queimar os postes ou o guarda-redes deles defendia tudo e quando não era ele a defender as bolas bateriam num defesa.

- E agora já acreditas na Providência Divina?
- Eu nunca deixei de acreditar…
- Ah não?
- Não. Só não percebo ainda porque é que fomos desprotegidos!

Até que às tantas, penalti! Penalti a nosso favor, ainda havia tempo. A segunda-parte tinha começado agora mesmo. A recuperação era possível. O Jorge foi marcar e… falhou.

entraram em campo sobranceiros, só podia ser. Sabes o que é humildade?

Deceção total. Tinha sido naquele momento ou nunca. Qual nunca, qual quê!

- Neste aspeto tens razão. A esperança é sempre a última a morrer
-Deixas-me acabar a história, ou não?
- Acaba lá. Mas olha que estou com um mau pressentimento
- És um agoiro!

Vamos mas é ganhar isto! Vamos? E continuamos a mandar bolas aos postes, outras salvas in extremis, o tempo a passar e acabamos o jogo perdendo por um a zero. Caímos exaustos no chão. Foi ali o meu último jogo num torneio interno do Técnico. Era o meu 5º ano e algumas semanas mais tarde terminaria o curso.

domingo, 4 de novembro de 2018

243. O dono da bola - #14 Matadourense


1

Decorria o ano de 1973 e a Câmara Municipal de Almada organizava os 1ºs Jogos Juvenis de Almada, os primeiros e os últimos, cuja direção fora dada, por convite da CMA ao estimado e, infelizmente já falecido, Adelino Paiva de Moura, conhecido normalmente por Adelino Moura, uma das grandes figuras do desporto do Concelho e, porque não, do País. Com a revolução do 25 de abril de 1974, provavelmente pela conotação desta iniciativa com uma CM do antigo regime ou, talvez, porque depois do 25 de abril também se massificou o desporto escolar e popular e se criaram eventos desportivos nas mais diversas áreas, não voltou a realizar-se a que foi, até essa data, a maior manifestação desportiva para jovens no Concelho de Almada e uma das maiores de Portugal.

No entanto, cada bela tem o seu senão ou não, e para se participar nos jogos era necessário fazê-lo sob a égide de uma organização, fosse coletividade de cultura e recreio, fosse clube desportivo, ainda que, de caráter popular. E isso poderia de uma forma radical desaproveitar os “talentos” que tínhamos lá no Bairro pois, ali, os únicos clubes que existiam, ou tinham existido, eram os Unidos do Bairro e a Juventus do Valdeão que tinham equipas só para adultos e que apenas jogavam futebol nos torneios populares, aos fins de semana, fosse no campo do Ginásio, hoje campo do Beira-Mar, fosse no campo do Monte ou do Costa. Mas no Bairro havia outros talentos, havia futebol, mas também andebol, atletismo e, acreditem, até badminton.

Seguindo o velho ditado que diz que para grandes males, grandes remédios, não foi cedo, nem foi tarde para que no nosso Bairro se criasse um clube. Elaboraram-se uns estatutos, fez-se uma pequena reunião que hoje, e se calhar naquele tempo também, se chamaria Assembleia Geral de Constituição, nomeou-se um presidente que seria eu, um tesoureiro que teria de ser uma pessoa adulta e acima de qualquer suspeita e foi escolhido o Senhor Duarte da drogaria, um secretário, que salvo erro foi o Carapinha, escolheu-se a cor dos equipamentos, azul a camisola e a meia que se foi comprar a Lisboa, à Rua do Benformoso, sem números porque não havia dinheiro para esse luxo, as camisolas eram na realidade t-shirts

- Não são giras, malta?

mas que nesse tempo não se designavam assim, eram camisolas e pronto, e os calções seriam brancos, mas cada um teria de levar os que tivessem em casa porque não havia dinheiro da quotização para tanto.

-Qual é? São vinte e cinco tostões, pá. Não me digas que não podes pagar a quota…

Quanto às chuteiras para o futebol alguém se encarregou de ir pedir ao Almada e ao Piedade umas sobras e lá apareceram umas quantas, não deu para todos, já bastante velhotas, com traves porque pitons seria um luxo maior do que ter números na camisola. Os que não tiveram a sorte de que algumas das chuteiras lhes servissem jogavam de ténis, quer dizer, de sapatilhas

- “As minhas são umas Sanjo já ranhosas. Quando se romperem jogo descalço”. Já não me lembro quem disse a frase mas ficou-me no ouvido
porque a malta não chamava ténis. Parece que o nome não era muito conhecido. E de ténis ou sapatilhas para os desportos de pavilhão ou corridas equipariam os atletas dessas modalidades a expensas próprias. A criação do clube carecia de alguma burocracia, mas isso, que não era impeditivo para que inscrevêssemos as nossas equipas e os nossos atletas nos Jogos Juvenis, que seria tratada mais tarde ou durante os Jogos. Acho que isso nunca foi feito, mas o clube acabou por durar ainda uns anos, na modalidade de futebol e jogando em torneios populares.

Com grande pena minha eu não pude participar nos Jogos. A idade limite era de 16 anos e eu já iria completar 18 nessa altura.

- Qual batota, qual caraças, não faço batota nenhuma. Não sou nenhum galdério. Na minha cédula ninguém mexe. Prefiro não participar. E não participei.

No entanto, como presidente, representei sempre o clube, participamos em atletismo com a Isabel Brito e com o Carapinha, a um nível elevado, com boas classificações, mas sem medalhas, no andebol onde sofremos grandes derrotas e no badminton onde um atleta nosso ganhou uma medalha de “prata”, mas cujo nome, a esta distância temporal, já não me consigo lembrar. Só sei que morava no Monte de Caparica e na nossa equipa de futebol jogava a central. Mas no badminton é que ele era craque.

E eu todo vaidoso, como presidente do clube, a acompanhar o nosso atleta, no pavilhão da D. António da Costa a recebermos – ele a receber -  a medalha de prata
E no futebol, onde passamos a primeira fase, mas no jogo a eliminar, enfrentamos, no campo de jogos do Costa da Caparica, a fortíssima equipa do Estrelas do Feijó, perdemos 4 a 3 e, claro, sentimos que fomos escandalosamente roubados. O nosso treinador era o Senhor Duarte, o da drogaria, que além de treinador e tesoureiro, era também o massagista e que sempre que um jogador caía, corria do banco com a garrafa de embrocação na mão, para o que desse e viesse.

Mais tarde, como disse, a equipa de futebol do Matadourense começou a integrar malta mais velha, os mais novos também foram crescendo, começamos a entrar nos torneios populares como antes faziam os Unidos e a Juventus, entretanto já extintos nessa altura, e as taças ganhas começavam a enfeitar uma prateleira da drogaria do Senhor Duarte.

E assim se fez o Matadourense, que foi morrendo de morte natural à medida que a malta foi crescendo, casando e saindo do Bairro para outros destinos. Acho que nunca acabamos o processo burocrático, mas o que é que isso interessava? O importante era o convívio e a prática salutar do desporto.

PS. Alguns Gloriosos rapazes que jogaram pelo Matadourense: Carlos Jorge, Américo (posteriormente grande guarda-redes de Andebol), Barbosa (chegou a ser guarda-redes do Almada) e o Carlos (que treinava no Sporting e se não fosse a Lisnave poderia ter sido uma estrela)  - todos guarda-redes, mas o Carlos Jorge, já falecido, também jogava a ponta esquerda - o Augusto que era o defesa direito e dava porrada como o caraças, o Duarte Madeirense que tinha força por dois, o Terrível que era o mais magrinho de todos, o Mesquita que tinha uma grande habilidade para a finta, o Carapinha que era o mais veloz e jogava a ponta direita, o Pintaroxo, que é pintor mas cuja alcunha já vem de geração e que tem a ver com a passarada e jogou nos juniores do Piedade, o malogrado Zé Manuel Capote, que viria a ser meu cunhado, o Jorge e o Felipe Viana que são irmãos e além de eu próprio que jogava à frente e marcava muitos golos, outros de que já me não lembra os nomes.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

237. O dono da bola - #8. Um-contra-um


No andar por cima do meu morava uma família incompleta. Um pai viúvo e dois filhos ou, mais propriamente, um filho e uma filha. O filho, o Zé Carlos, era o meu parceiro ou, mais precisamente, o meu adversário no um para um.
O pai, figura austera e de poucas falas, subia as escadas de cabeça baixa. Bom dia, boa tarde era o mais que se retirava daquela boca e não era todos os dias. Nas mais das vezes, saía mudo e entrava calado. Não sei se o poderíamos apelidar de trombudo, de antissocial ou simplesmente de tímido. Mas para a minha pessoa, para ser verdadeiro, ou mais condicente com a realidade, tenho de o dizer que nunca foi tão macambúzio assim. À tal saudação de bom dia ou de boa tarde acrescentava quase sempre um olá e, talvez por mor do filho, sabia até o meu nome. Boa tarde vizinho dizia eu, Olá Vítor, respondia ele, e até chegava a perguntar, verdade que raramente,  Estás bom? Não tenho a certeza, apenas porque não me lembro de ver lá mais ninguém, penso que era o único que ele autorizava a entrar lá em casa para brincar com o Zé Carlos e bonomia das bonomias, autorizava a filha a ir ver televisão à nossa casa. Mas os filhos não punham, com ele, o pé em ramo verde. Se algum fazia alguma patifaria, haveria castigo pela certa o que a mim me doía por consequência. Era quando ele não deixava o Zé Carlos sair para jogarmos à bola.

O Zé Carlos era o meu companheiro no um para um. Quando fomos morar para o Bairro as pracetas não estavam arranjadas. Eram em terra batida e nem mesmo os passeios dos prédios estavam acabados. Havia calçada alternando com buracos e pedras de calçada soltas. Havia também alguns prédios inacabados embora naquela época não fosse moda os “ocupas” e, como tal, assim se mantinham até que a A Confidente pegasse neles. Dizia-se na época que os construtores, afogados em dívidas, alguns até com andares vendidos, mas sem papeis passados, o que fez com que algumas pessoas tivessem perdido o dinheiro da entrada, poupanças de uma vida, tinham fugido a salto para França para não serem presos. Outros diziam também que tinha havido negligência ou até corrupção, na altura usava-se dizer que “estavam feitos” com a Câmara Municipal, sendo que alguém se abarbataria com o dinheiro das calçadas que nunca foram feitas, a troco de fechar os olhos nas inspeções. Venha agora a saber-se porquê, tantos anos passados, isso agora não interessa para nada, siga a Marinha como se costuma dizer. A verdade é que chegamos ao 25 de Abril com as pracetas e arruamentos num estado tão deplorável que antes mesmo de se falarem por todo os país em comissões de moradores, já no meu Bairro se tinha constituído a Comissão para o Melhoramento da Pracetas, liderada pelo Jaques e de que faziam parte o Sr. Agostinho, o Ti Abreu, entre outros que já me não ocorrem à memória. Para muitos isso seria muito bom, pois nos finais dos anos sessenta, principio dos setenta já existiam alguns carros lá no Bairro, fruto de uma evolução positiva de emprego na margem sul do Tejo, com a abertura da Lisnave na Margueira em Almada e, assim, as suas viaturas escusavam de ficar atoladas, para outros seria muito melhor porque viria mesmo a ser construído, numa das pracetas, um rinque onde ainda hoje se podem fazer os jogos de futebol, no local onde no meu tempo era necessário cortar cardos e amassar ervas para jogar à bola. Além disso, o 25 de Abril já me veio apanhar com quase dezanove anos, numa altura em que nem eu, nem o Zé Carlos jogávamos à bola na nossa praceta pelo que não nos faria diferença nenhuma. Aliás, no 25 de Abril o Zé Carlos já nem morava no andar de cima. Tinha-se mudado não sei para onde.

Quando o Zé Carlos e eu descíamos, pouco antes da hora do jantar, em tempo de verão, pois está visto, que não só ainda era dia às oito da noite, como no inverno a praceta era um lamaçal, contávamos dez pés em cada ponta da praceta entre duas pedras que iriam servir de baliza. E só nós dois, de um lado para o outro, num mano a mano, onde ninguém ganhava nem perdia. Quando o pai do Zé Carlos dava um assobio ou a minha mãe se assomava à janela para avisarem que o jantar estava pronto era como se o árbitro desse por terminado o encontro. Só que o resultado passava para o dia seguinte e assim sucessivamente. Penso que o placard está em duzentos e quarenta e seis a duzentos e quarenta e cinco mas já não me lembro quem está a ganhar. A última partida foi há quase cinquenta anos.

sábado, 8 de setembro de 2018

236. O dono da bola - #7. O tio Liberto



Comecei a ler bem novinho. Hoje isso já não é de espantar. As crianças nascem com um tablet nas mãos, manuseiam um smartphone antes de completarem o primeiro ano de idade, mandam SMS aos três anos, jogam minecraft aos quatro e aos cinco deixam um whatsapp aos pais com uma fotografia da rave no refeitório do infantário. Os tempos mudaram mas eu, que mais ao menos tenho acompanhado a evolução tecnológica e também o hábito das crianças, pai de dois e avô de três, não lastimo ter aprendido em livros e em jornais. Comecei então a ler antes dos cinco anos de idade. E antes que vos fale do tio Liberto vou-vos contar uma pequena história que se passou mais ou menos por esse tempo.

Uma doença infetocontagiosa mandou-me alguns dias para a cama de um hospital. Para evitar contágio fiquei em isolamento

- Mãe, quero ir embora

isolado aos cinco anos de idade num hospital, sem poder ver pai nem mãe, uma crueldade! Só entravam médicos e médicas, enfermeiras e enfermeiros e auxiliares de limpeza. Com a idade com que fui internado é impossível ter memórias mais consistentes, mas nunca se me desapareceram flashes. Outras coisas sei de as ouvir contar ao longo dos anos. Mas há fotografias indeléveis cá nos meus recantos da memória. E é assim que ainda hoje me lembro, sem que por isso tenha qualquer pesadelo, nem sequer sonho, de uma enfermeira

- Ai bebes, bebes…

 a dar-me uma valente bofetada por eu chorar e me recusar a tomar os comprimidos. Leram bem? Uma enfermeira deu-me uma bofetada na cara, a mim, uma criança de cinco anos de idade, porque isolado, só, sem ver os pais nem o irmão, dias seguidos, chorava e não queria tomar os comprimidos. E então foi por escrito que através de uma senhora da limpeza,

- Se eu contar, ninguém acredita

que achava muita graça de eu, tão pequenino, já saber ler e escrever, que mandei uma mensagem aos meus pais,

- Ele diz que é para o senhor ler

e foi assim que a direção do hospital tomou conhecimento e mandou substituir a enfermeira no meu quarto.

Nessa época o analfabetismo atingia o país inteiro. Oficialmente, segundo números do Estado Novo, 40% das mulheres não sabia ler nem escrever e 29% dos homens estavam na mesma situação. Na verdade, quem “andava por aí” sabia bem que estes números eram de conveniência

Salazar!| Salazar!

a realidade era muito mais penosa. Uma dessas pessoas, que não sabia ler nem escrever, era o meu tio Liberto,
- Comunista, só pode ser

a dizer que é analfabeto, só podia ser comunista, senão não diria aquilo, escolas sempre houve

O tio Liberto não era meu tio de verdade. Era meu vizinho lá no pátio, mas como era irmão da minha tia Gracinda e filho da minha avó Felismina

. Anda cá que avó dá-te as sopas

e a avó Felismina dava-me as sopas de café com leite e eu acalmava-me e ameaçava a minha mãe se ela ralhava comigo, que não eram nem minha tia, nem minha avó mas era assim que as tratava desde pequenino, então o tio Liberto também era meu tio. O tio Liberto era dos Belenenses

Belém! Belém! Belém!

naquele tempo, ali para os lados do Pombal, em Almada, aquele pessoal era quase todo dos Belenenses.

Belém! Belém! Belém!

Claro que isto de dizer quase todos é uma maneira de dizer. Era no tempo em que pontificavam no Belenenses, O Capela, o Feliciano, O Serafim Neves, o Armando Correia, o Artur Quaresma, o Manuel Andrade, o Mariano Amaro, o Vasco de Oliveira entre outros que tinham sido campeões nacionais em 1946, aliás no único título que os Belenenses conseguiram conquistar e que, durante cinquenta anos, conservaram como único campeão nacional para além de Benfica, Sporting e Porto. Mais tarde ao círculo de notáveis ainda se juntariam figuras como José Pereira, Vicente Lucas e o grande e extraordinário Matateu

- Gooooooollloooo de Matateu!

relatavam galhardamente na Emissora Nacional, não admira, portanto, a falange de apoio que durante anos os Belenenses tiveram e mantiveram.

À segunda-feira, logo pela manhã, o tio Liberto, na época já com uma certa idade e, portanto, já sem trabalhar, entrava pela taberna do António Marques pegava no Mundo Desportivo, lá na taberna havia sempre um ou dois jornais embora a maioria não os soubesse ler, e lia-o de ponta a ponta. E não o emprestava a ninguém enquanto eu não aparecesse ao pé dele, nem que tivesse de dar três voltas ao jornal. Eu só saía de casa quando a minha mãe me deixava, pois embora só tivesse aulas da parte da tarde tinha de ter os trabalhos de casa prontos, a tabuada na ponta da língua, as contas certinhas, a lição estudada e a história e as ciências sem falhas. E lá aparecia eu que era recebido quase já em desespero pelo tio Liberto

-  Senta-te aí, senta-te aí, diz lá o que é que eles aqui escreveram

que apontava para as legendas das fotografias e me pedia para que as lesse, sim as fotografias nesse tempo eram legendadas como que contando a sua história, sempre em primeiro lugar as fotografias do seu Belenenses[1]. E só depois de lhe ler as fotografias todas e a crónica do jogo, as declarações do treinador e as pontuações dos jogadores é que ele dobrava o jornal em quatro e me dizia

- Pronto já te podes ir embora

estás livre e lá ia eu, quase sempre a chupar um rebuçado de mentol que era a paga do tio Liberto à minha leitura para ele do Mundo Desportivo.



[1] Clube de Futebol Os Belenenses tratado pelos seus adeptos como Os Belenenses, mas também, muitas vezes, simplesmente como O Belenenses, daí no texto aparecer umas vezes no plural, outras no singular.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

235. O dono da bola - #6. A namorada também ia à bola


Um salto no tempo, um parêntesis na cronologia, futebol a dois, porque no futebol também há amor ou porque pode fazer parte dele. Comecei a namorar com a minha mulher com dezanove anos de idade, ambos já estudantes universitários. Um namoro à moda antiga. Um namoro onde para namorar se pedia namoro à namorada. Um dia, muitos anos mais tarde, perguntei ao meu filho já adolescente, Ouve lá João, como é que hoje se pede namoro a uma miúda e ele respondeu-me, Sei lá pai, não se pede ou então, é assim, é perguntar-lhe se dá para andar e eu, Pois, deve ser isso e calei-me. Nunca me teria passado pela cabeça vinte anos antes ter perguntado à Maria José, Olha lá miúda, dá para andar? Se calhar ela teria ficado a pensar se eu achava que ela tinha sido atropelada por alguma bicicleta ou, sei lá, a saltar para o cacilheiro, na pior das hipóteses e tivesse torcido um pé. Dá para andar? Não sei, se não doer…Não filhote, o que eu pai queria saber mesmo era como é que se pediria hoje em dia (naquela época em que ele era adolescente, e já agora, como é que será hoje?) a uma garota se queria namorar com ele, conversar, pensar numa vida a dois e mais tarde até casar, constituir família, estás a ver? Pois eu pedi namoro a sério e ainda me lembro como foi, mas não vou dar a receita agora. Isso já foi há muito mais de quarenta anos, parece mais mezinha caseira e eu estou aqui é para escrever sobre bola. Só que parece que deu resultado, quase meio século depois aqui estamos juntos, apesar do pai dela, quando começamos a namorar, nem de mão dada achar bem que andássemos, com dois maravilhosos filhos e, para já, três ainda mais maravilhosos netos, quem sabe se um dia destes a contabilidade esteja desatualizada. Apenas uma coisa nos separa. Já não vamos à bola um com o outro. Eu explico.

Durante a semana eram os estudos. A Maria José trabalhava e estudava. Eu não trabalhava oficialmente pois não tinha, por bem dizer, um emprego, embora andasse de empresa em empresa a vender livros à comissão, trens de cozinha, objetos decorativos de cobre e latão, a dar explicações em casa, entre outras atividades e estudava. Não restava tempo. Aos fins de semana alternávamos. Ou cinema ou futebol, isto durante a época porque no verão as saídas eram diferentes. E aqui não era fizesse sol ou chuva. Nas semanas em que o Benfica jogava em casa, os caprichos do S. Pedro não eram relevantes, nem interferiam nas nossas decisões. Piores eram os caprichos da minha sogra, Deus tenha a sua alma em descanso. Mas mesmo esses não nos desviavam os olhos dos remates certeiros de Nené e Jordão, da inteligência e visão de jogo do Vítor Martins, do portento físico do Toni, da elegância e precisão do Humberto Coelho, da agilidade felina do José Henrique. O Estádio da Luz era o nosso destino. O que faz o amor. Ela que até torce pelos leões!

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

234. O dono da bola #5 - O meu primeiro jogo oficial

Durante toda a semana não falei de outra coisa. A minha mãe já deitava futebol pelos olhos. O meu pai, que amiúde me via jogar com os outros rapazes, não me achava nenhum Cavém, nenhum José Augusto, nenhum Jaime Graça e nem, mesmo pela altura, nenhum Simões, mas ainda assim incentivava-me. Achava-me irrequieto, mexido, cheio de vontade e na brincadeira dizia que de vez em quando eu acertava com o pé na bola. E no meio daquela converseta e da minha excitação pelo meu primeiro “jogo oficial”, lá vinham as inevitáveis perguntas sobre os deveres, o que se viria a chamar mais tarde tê-pê-cês, Então e as cópias, já fizeste as cópias? Sim, mãe, já as fiz. Mas não te vi estudar a tabuada. Já estudei, mãe, já sei a tabuada toda. Então quantos são sete vezes oito e eu São cinquenta e seis, mãe, E nove vezes quatro, Trinta e seis, mãe, com ar enfastiado e a pensar querem ver que agora vou ter de responder á tabuada toda, E a lição, Qual lição, mãe? A lição de hoje… Não é preciso, mãe, eu já sei ler aquilo, Tu só pensas é na bola, é o que é, rematava e eu ria e ia dar-lhe um beijo. Mais tarde iria aparecer lá em casa com uma taça, desenhada e recortada em cartolina, pela D. Eduarda a minha primeira professora primária, como troféu do melhor em tabuada, que a encheu de orgulho e que ainda hoje fala nisso, Ainda te lembras, filho? Lembro sim, mãe e ela, Este rapaz tem uma memória…

Naquela semana o mais importante não eram as cópias, nem os ditados, nem a tabuada, nem a lição… era a bola. A primeira classe ia jogar contra a segunda, aquele que iria ser o meu primeiro jogo oficial de todos os tempos. Quando é o primeiro é o primeiro e será sempre o primeiro não haverá hipóteses de haver novamente um primeiro pelo que dizer de todos os tempos é só uma maneira de dizer. O jogo ia ser no sábado e eu estava até com medo de não me meterem na linha porque era o mais pequenino da turma e aquilo era só para calmeirões. Mas enganei-me e foi com grande alegria que me disseram que eu ia jogar. Pudera, deve ter sido coisa da D. Eduarda, olha, olha, logo o melhor a tabuada, ficar de fora. Isso nem lembraria ao diabo.
Linha feita e eu, o Vitinha, ia jogar à defesa. À defesa? Mas eu não sei jogar à defesa, eu sei é correr lá à frente, chutar para a baliza, marcar golos, e depois correr de um lado ao outro do campo, com o punho fechado a gritar goooollllooo, como fazia o Eusébio, e os outros a correrem atrás de mim para me abraçarem, como se faz no futebol a sério e a gente via na televisão do café Marissol. A preto e branco, é claro, mas a gente sabia bem a cor da camisola do Eusébio. Não faz mal a gente ensina-te, disse o Boavida, repetente, oito anos de idade, um veterano! Era o maior da turma, mas era meu amigo e, portanto, ele ia-me ensinar a jogar à defesa. Com uma pedra riscou no chão um círculo já perto da nossa baliza e disse-me, Não sais de dentro desta linha é aqui que ficas e cortas as bolas quando eles vierem e chutas para a frente. Não percebi nada. Então eu não podia sair dali? Não podia pegar na bola correr o campo todo e chutar à baliza? Não podia ir lá à frente? Isso é que era jogar à defesa? Mas está bem, o Boavida é que era o técnico, ali na escola era o meu Bella Guttman e se ele dizia que era assim que se jogava à defesa, então seria assim que eu jogaria. O meu primeiro jogo oficial!

Acabei o jogo a chorar. Não toquei uma única vez na bola. Ninguém passou por mim e eu não saí de dentro daquela rodinha. O Boavida não era mesmo um grande treinador. Mas não deviam de passar por mim para eu cortar a bola? Ou então, não deveria eu ter saído do círculo para ir de encontro à bola? Oito a um! Oito a um! Que desastre! De um resultado assim só me lembro daquele, no dia da inauguração do Estádio das Antas, quando o Benfica foi lá, como convidado, dar oito a um ao FC Porto. Se calhar, nesse dia, não deixaram o Pinto da Costa sair de uma rodinha.