quinta-feira, 29 de novembro de 2018

246. O dono da bola. #15 - Quiaios team e a origem do nome de Lisboa


Foi por causa do Maia Brás que a nossa equipa de futebol, no interturmas da Náutica, se chamou Quiaios Team. O Maia Brás, apelido deste nosso amigo, e tal como era conhecido na Escola Náutica Infante D. Henrique, era natural de Quiaios.

Contou-me um dia, que o nome da sua terra provinha de uma evolução fonética utilizada, durante a chamada reconquista cristã, por um soldado de Afonso Henriques, o nosso D. Afonso I, que ao descortinar escondidos nos ramos de uma oliveira, a celebríssima oliveira de Quiaios, uns quantos guerreiros mouros, terá gritado – Aqui há-os! Aqui há-os! E daí Quiaios.

Quiaios Team, quiçá a pior equipa que alguma vez tenha participado num interturmas da Escola Náutica. É verdade!  A nossa turma de Máquinas estava recheada de craques, mas era uma cagona. Sim uma cagona, porque tinha a mania. Eram só futebolistas de eleição, alguns altos e outros altos e loiros, alguns que sabiam fazer muitas fintas, um outro que jogava no Oeiras! Tudo muito bom, tudo escolhido a dedo, tudo muito habilidosos… infelizmente, digo infelizmente porque eu também pertencia à turma, mas não à equipa e tive pena, eles não passaram da cepa torta. Quanto a nós, o Quiaios Team, ficamos em último, contudo com muita honra.

Conta lá isso bem de ficarmos em últimos e com muita honra…
Dois de nós não podíamos fazer parte da “equipa da turma”, a dos craques pois, como andávamos no Técnico ao mesmo tempo, não estávamos lá quando se formou a linha, disse um, o dono da equipa, mas que por pudor não digo aqui o nome. Tretas! Bullshit! Mas não, não nos ficámos. Ah, isso não. Fomos à procura de malta.

O Barreto que era muito alto

- Futebol, o que é isso?

só sabia jogar basquete. Pegava numa bola de futebol e lançava-a ao cesto. E depois ria-se.
O Nuno não era muito alto, mas era o companheiro do Barreto a jogar basquete e amigo de família, ambos retornados de Moçambique, já se conheciam de Lourenço Marques, sabia o que era uma bola de futebol, mas não sabia como chutá-la.
O Acácio que também sobrou de outra turma, que embora gostasse de jogar futebol também era mais basquete. Acho que chegou ainda a jogar oficialmente.
O Rui e eu também alinhamos, nos dias que não tínhamos obrigações no Técnico e, finalmente,
o Maia Brás que era o guarda-redes, sem técnica, sem saber quando ir à bola, mas corajoso, ficando muitas vezes com as mãos a escaldar quando a bola aparecia com mais força. E foi assim que levamos cabazadas atrás de cabazadas até que um dia decidimos colocar o autocarro à frente da baliza. Mas isso ficará para outro dia.

É pá hoje foi pequenino!

E foi.


No dia que o meu amigo e colega de quarto na residência da Escola Náutica me contou como surgiu o nome de Quiaios, inventei, por analogia, a origem do nome de Lisboa. Embora sem a ficção que coloquei no texto seguinte, foi assim que acabamos a conversa do dia e apagamos a luz, porque às oito da manhã iriamos ter um teste de motores. Aqui partilho então a explicação que lhe dei da origem do nome da nossa Capital.

Agora que já sabem como surgiu o nome de Quiaios, fiquem a saber como nasceu o nome da nossa Lisboa. Também durante a reconquista cristã, uns diazitos após “aqui há-os” lá para as bandas da Figueira da Foz o que viria a ser Quiaios, os soldados portugueses, em consequência do entalanço do nobre Martim Moniz nas portas do Castelo e como prémio de jogo, já que nesse tempo só se pagavam como Ronaldos, os padres, os nobres, os fidalgos e os cavaleiros, com conventos, terrenos e até povoações inteiras, tiveram direito a folga. Desceram a costa do Castelo, embrenharam-se na Mouraria, ouviram ou então pensaram ter ouvido um fadista louco, beberam na tasca do Gingão, compraram pentes para os longos cabelos e pensos rápidos para cobrir uns arranhões que um ou outro mouro mais atrevido lhes tinham feito e que à conta disso acabaram por perder as cabeças, no largo que mais tarde haveria de ter o nome do nobre mártir, a uns indianos que iam a passar (houve um que comprou flores), jogaram moeda ao ar, creio que um cruzado novinho em folha, quer-se dizer novinho em cobre e prata, e saiu-lhes subir a Almirante Reis, muitos anos, mas mesmo muitos, antes do tal Almirante ter nascido. E se o carbonário ainda não tinha nascido, também o não tinha Diogo Inácio de Pina Manique o que haveria de ser Intendente do Reino e a quem lhe foi atribuído nome de Largo, por acaso durante muito tempo de má fama pela sua frequência. E é aqui que retomamos a toponímia, ou melhor dizendo de toponímia temos nós estado a falar, retomamos o tema que foi o da origem etimológica desta nossa linda capital: Lisboa. Um dos guerreiros, já com um grão na asa, pois não lhe tendo bastado o canjirão de tintol que havia virado na tasca da Rua do Capelão, ainda desrespeitou o sorteio de cruzado ao ar que os mandava para a direita e sem ninguém ver, virou-se para a esquerda, não por qualquer convicção política, mas porque alguém já lho tinha recomendado e deu um salto ao Rossio, onde entornou de seguida duas ginjinhas com elas, entornou é como quem diz, ah não que ele não sabia o que era bom, não tivesse ele passado por Óbidos quando marchou de Quiaios por aí abaixo para tomar o castelo de uma das mais belas colinas da nossa cidade. E para que não nos percamos neste relato, o dito soldado que mesmo correndo aos zigues-zagues ainda teve tempo de apanhar os seus camaradas, que se haviam distraído a olhar para umas lojas de chineses, embevecidos com os rádios transístores e uns vestidos em algodão e poliéster que estavam nas montras e por um tipo de tez morena e cabelo com brilhantina que lhes tentava vender relógios, em pleno largo do Intendente, olhando um grupo de moças, a que alguém teima em dizer que eram meretrizes, mas que se limitavam a rodar a bolsinha por um cordão enfiado no dedo indicador, gritou a plenos pulmões, embora a voz lhe tenha saído um  pouco arrastada e, diz quem assistiu, um bocado aos soluços: - Ali as boas! E pronto a evolução fonética encarregou-se do resto, os acordos ortográficos, mormente a Reforma de 1911 que acabou praticamente com o grego da nossa escrita, deu-lhe o formato final. Talvez por isso eu me tenha visto grego para vos relatar facto histórico tão relevante para a nossa portugalidade, como seja o nascimento desta Lisboa que eu amo. E se o Rei morreu, alguns anos depois e o último se finaria de morte matada em pleno Terreiro do Paço, por aqui me fico porque eu gosto mesmo é de jogar à bola.

Algumas notas finais, de frases e diálogos não introduzidos no texto para que não se perdesse o fio à meada:

- Quer frô? (pergunta feita no largo Martim Moniz por um vendedor que se julga, só alguns anos depois poder ter vindo da Índia ou do Paquistão).

- Este gajo não canta nada (frase ouvida sair de uma tasca na Rua da Amendoeira, em plena Mouraria, que levaria a uma altercação da ordem pública, mas onde os guerreiros não intervieram, não só porque estavam de folga, mas também porque de fado não percebiam nada, o que não lhes permitia tomar partido).

- Aiiii, este relógio é baratoooooo, é um rolecsiiii…
- Mas que merda é essa de rolecse?
- Não ligues pá, isso deve ser fake
- Mas eu nem sequer sei o que é um rolecse…
- Ó mano, não vês que é assim uma espécie de ampulheta, mas para trazer no pulso.
- Esquece meu, vamos mas é às putas!
Depois destas brejeirices, muito comuns entre soldados, ficou o tipo do cabelo com brilhantina e fato de fino corte a coçar a cabeça e a pensar que raio seria isso de ampulheta…

- Não achas que aquele vestidinho vermelho ficava mesmo a matar à minha Genevève?
- Olha lá, ó cruzado, lá na tua Gália não há melhor coisa que estes vestidos chineses, assim tipo um Rabanne ou um Dior?
- Se calhar, mas não tenho tido tempo de ir às compras com ela e a minha Genevève não se despe nem se veste à frente de mais ninguém que não seja cá o je.

E por fim:

- Donde é que vens com essa tosga na carola, óh guerreiro Rodrigo do Alto Minho?
- Vai chamar bêbado ao teu pai. Vê lá se queres que eu mande aqui um palavrão à moda de Barcelos.
- É pá isso não, que isso dá galo e ainda temos o resto do país para conquistar.

E assim se foram eles, direitos ao Intendente, criar o nome da cidade.

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