sábado, 4 de maio de 2013

206. Gente gira ou O dia em que se falou do Padre Felício nos serões da D. Micá



Ontem, o serão em casa de D. Micá foi deveras sui generis. Ou então não foi tão diferente quanto o habitual, mas Constantino esteve mais atento do que é costume. Na sala formaram-se grupinhos. Num canto, junto à pintura da Paula Rego reinava a animação. O Fagundes era o centro das atenções e qualquer brejeirice que viesse do Pedro Rebocho fazia-o corar mais do que daquela vez em que foi visto cheio de nódoas, de calções e chinelas havaianas, em plenas avenidas novas, depois de Graziela lhe ter enfeitado a testa. Mas a conversa nem era para que ele se sentisse envergonhado. Afinal de contas falavam do bem estar que o incidente da traição de Graziela lhe acabou por proporcionar considerando-a mesmo, à traição, a cereja no topo do bolo. A sua vida era agora completamente diferente, toda cheia de qualidade, boa mesa, viagens aonde nunca sonhou ir, programas culturais de grande gabarito, teatro, exposições, cinema, saraus poéticos, trajava como um lorde, ele, um simples e modesto professor de Geografia, que já nem aos prontos-a-vestir espanhóis, que proliferam nos centros comercias da cidade, vai, pois que, desde que se concubinou com a quarentona mas sílfide viúva, senhora de bens, são os melhores alfaiates que lhe confecionam os fatos, as camisas são do mais fino recorte italiano e até os sapatos usam gáspeas de couro de bisonte selvagem do Alaska. E se assim não é, tal é a finura da elegância dos calcantes com que Fagundes se passeia, que ao escritor se lhe permitem estes excessos de prosa. Quem nunca fica muito à vontade com as diatribes linguísticas e o vernáculo do Pedro Rebocho, na realidade um jovem à vista dos outros dois e portanto com uma forma de estar propícia a conflitos geracionais, é o Justino Carlos. Todos ainda estamos recordados do hílare subterfúgio que usou para considerar que o amante da mulher era de facto o corno mas, no entanto, sempre que se falava de ornamentação cabeçal logo o Justino Carlos pigarreava e tentava mudar o rumo à conversa. Era por isso que naquele canto reinava a animação. Eu tentarei explicar. O Pedro Rebocho, tendo lido bem o fácies de cada um dos seus dois interlocutores, fez uma inversão de marcha e, embora o facto já fosse conhecido e a história antiga, contou, acrescentando os pontos que se acrescentam quando se contam contos, do dia em que o padre Felício fora visto galgando, numa louca correria, os degraus do portão da sacristia, já aparamentado para a eucaristia dessa manhã aos “ai que ele me mata, ai que o homem me quer matar, ai que está louco” tropeçando na sotaina, derrapando nas esquinas das ruas, topando com as biqueiras dos sapatos nos lancis dos passeios, o pai da Sebastiana, atrás do padre Felício, com uma espingarda de caçar pardais, disparando chumbinhos a torto e a direito, sem lhe acertar nem matando passarinhos “ai desgraçado que me desgraçaste, ai desgraçado que te desgraço eu” e a Sebastiana a correr atrás dos dois “ai paizinho que se desgraça, ai paizinho nos desgraça a todos” e o pai, virando a cabeça e olhando por cima dos ombros, sem nunca parar de correr “ai que te calas já, meretriz, que me envergonhas” e repetiu sem saber que mais ais haveria de gritar “ai que te calas já, meretriz, que me envergonhas” até que o padre Felício se estatela numa poça de água, o pai de Sebastiana bate com a cabeça numa oliveira e a Sebastiana sem saber o que fazer, se acudir ao padre com quem se andava a desgraçar ou acudir ao pai a quem andava a envergonhar, “ai quem me acode que eles se matam?!” e reforçando, ao ver os dois pelo chão, “ai quem me acode que eles estão mortos!?”. Fica o escritor a perguntar a ele próprio que graça é que isto teve para que aqueles três pacóvios quase se engasguem de tanto rir, pelo que decidiu passar aos outros grupos da sala.

E como o texto já vai longo ficará para o próximo capítulo contar-vos do que falava o meu célebre amigo Eduardo Aragão, encostado ao aparador de laca, numa erudita cavaqueira com a Filomena Carlos, mulher de Justino Carlos e o Columbano Queiroz que exclamava alto e bom som “Meu caro Eduardo que grande declamador que o amigo me saiu, mas que grande poeta” e insistia com mais que isto e mais que aquilo, no meio das frases, sabendo nós que ele não pronuncia o Q nem o C, quando este se pronuncia com a valência do Q. Façam então o favor de reler a frase anterior que se encontra devidamente identificada com as respetivas aspas para entenderem o que quero dizer. 


14 comentários:

  1. Meu aro Vitor ue grande declamador ue o amigo me saiu, mas ue grande poeta!!!


    Já agora revê esta valência do Q."quendo este se pronuncia com a valência do Q."

    bijus

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    1. Minha querida, fui rever e já corrigi. Grande poetisa um beijo meu.

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  2. Se a Paula Rego lesse isto que acabei de ler... nem sei o que iria fazer. Pelo sim, pelo não, mando-lhe um "borrão":

    "... até que o padre Felício se estatela numa poça de água, o pai de Sebastiana bate com a cabeça numa oliveira e a Sebastiana sem saber o que fazer, se acudir ao padre com quem se andava a desgraçar ou acudir ao pai a quem andava a envergonhar, “ai quem me acode que eles se matam?!” e reforçando, ao ver os dois pelo chão, “ai quem me acode que eles estão mortos!?”. Fica o escritor a perguntar a ele próprio que graça é que isto teve para que aqueles três pacóvios quase se engasguem de tanto rir, pelo que decidiu passar aos outros grupos da sala."

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    1. A D. Micá, uma bem sucedida gestora de uma Fundação que lhe legou o senhor seu pai, tem um Paula Rego na parede da sala até que o Sr. Gaspar lho mande penhorar.

      Um grande abraço.

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  3. Já que estou com a mão na massa é melhor despachar-me antes que se faça tarde!

    Está a chamar-me pacóvia? ahahahah
    Foi sui generis, sim senhor, senhor Constantino. Destes serões é que eu gosto!

    Andei a colocar o colírio nos olhos e já lavei tudo com as lágrimas de riso.
    Ai, que tu me desgraças!

    O enigma da frase é que me está a transcender...

    “Meu aro Eduardo grande delamador o amigo me saiu, mas grande poeta”
    Nã percebo, explica lá isso melhor!

    Essa fotomontagem já a conhecia, daqui ou do PreDatado! O texto tinha a ver com telemóveis e chamadas interurbanas(?) relacionadas com um teu cunhado, se não estou em erro.
    Claro, em S. Francisco!:)

    Mas olha, Constantino, agora estás mais jeitoso! Mais magro; e a barba dá-te um ar de intelectual, muito sedutor.
    Quem é amiguinha, quem é??:)

    Beijoca!

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    1. Era apenas para leres sem o Q e sem os C a valer de Q, tal como fala o Columbano Queiroz, ou melhor dizendo o olumbano eiroz.

      Agora algumas coisinhas:
      - Sim foi num post anterior, não sei se aqui se no PreDatado que usei a foto e o texto era sobre uma chamada que recebi em Brooklyn. Tens boa memória.
      - Não, não é uma fotomontagem. Sou eu mesmo a dar aquele salto, fotografado pela minha filha, com a ponte de Brooklyn de fundo.
      - Em Nova Iorque

      Obrigado pelo jeitoso. Continuo com barriguinha mas gostei do elogio. Só que já cortei a barba de novo eheheheh.

      Beijocas, bom domingo.

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  4. O que eu já ri..só me lembrava da canção que anda por aí nas bocas do mundo :" ai se eu ti pego..". Ainda bem que o pai da Sebastina bateu com a cabeça na oliveira, senão tínhamos tragédia pela certa.
    Fiquei particularmente contente por saber que o Pedro Rebocho deu a volta por cima e está numa boa, há males que vêm por bem :)
    Fico a aguardar as cenas do próximo serão.

    Beijos

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    1. Manu, o Fagundes :)
      O Pedro Rebocho e a Marta Caracinha continuam bem juntinhos.
      Beijos.

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  5. E eu que ando a perder os serões de Dona Micá, Vítor Fernandes? E que grande voo, esse seu, amigo!

    ;)))

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  6. Não acredito no que tenho andado a perder! De hora em diante não perderei um capítulo que seja da saga da Sona Micá! Parabéns! :D

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    1. Volte sempre. Quiçá venha a gostar. Obrigado.

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  7. Que delicia chegar aqui e encontrar esses causo maravilhosos.
    Tenha uma ótima semana.

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  8. Meu caro Vítor, muito agradeço ter-nos finalmente dado uma espreitadela da sua forma não-literária, ou seja, carnal. E olhe que concordo com a Janita: não vejo aí obesidade que justifique a descrição que exibe no perfil. Cá por mim, deveria passar a dizer "Sonhador, utópico e demolidor" (pela sua ironia e fino sentido de humor)!
    Beijinhos

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