quinta-feira, 27 de setembro de 2012

169. D. Micá conta contos cor-de-rosa




D. Micá conta contos cor-de-rosa. Não é o que mais me atrai nos serões em sua casa. Também não vou lá pelos seus decotes, nem pelos charutos cubanos, embora, confesso, é muito agradável estar na chaise longue, a saborear um Montecristo, enquanto o Bruninho Mendonça, com apenas oito anos de idade já toca na guitarra portuguesa a “Valsa Chilena”, que o Eduardo acompanha, zurzindo de forma exímia a sua guitarra clássica. Depois vou até ao varandim respirar sobre a noite lisboeta o prazer do puro tabaco caribenho. Infelizmente para a soiré,  o Dr. Jorge Mendonça e a Clara saem sempre antes das dez para irem deitar o Bruninho. No entanto, em contrapartida, as liberdades crescem de tom. Há até quem conte anedotas brejeiras e picantes. Já ouvimos Dona Micá dizer que se quiséssemos continuar naquele despropósito que continuássemos, mas que os charutos seriam substituídos por rebuçados de mentol e o whisky dos serões por leite com chocolate. Leite magro claro, pois Fundação que é Fundação não deixa as suas gorduras por mãos alheias. Estas tiradas da D. Micá são sempre motivo para fartas gargalhadas ou porque têm graça ou porque ninguém quer deixar ficar mal a anfitriã, numa de simpáticos engraxadores. Mas não é por nada do que vos falei anteriormente que frequento as soirées de D, Micá. Um dia dir-vos-ei porquê, mas não me parece que seja agora a melhor altura para o fazer. De quem ainda não vos falei, foi dos Mendonça. Vou aproveitar hoje para apresentá-los por duas boas razões. A primeira é porque está um calor abrasador, não se pode estar no salão e embora a D. Micá tenha aberto as largas vidraças das janelas de para em par, o melhor é estar aqui no varandim, a fumar calmamente o meu puro e a desenrolar histórias da vida dos outros. A segunda razão é porque os Mendonça já saíram, foram deitar o Bruninho e se eu tiver de falar mal deles que seja nas costas, não o haverão de saber. Quero ressalvar que, se alguma palavra sobre o casal Mendonça não for de bem a responsabilidade é da D. Micá já que foi ela quem tudo me contou, pois ela é que é uma verdadeira contadora de histórias. O Dr. Jorge Mendonça que ainda não tem quarenta anos, é já, por nós, uma pessoa muito estimada. Um veterano! Nasceu de uma família abastada de lavradores alentejanos e os pais dele, o Sr. Semião Mendonça e D. Catarina Fradinho sempre fizeram questão de ter um filho médico. Mandaram-no até, estudar para Coimbra. O pai, além de herdades a perder de vista, criava gado o que fez com que os seus conhecimentos com o Comendador não fossem fruto do acaso. E por consequência os conhecimentos de Jorge com Micá. E não só. Dizem que D. Ermelinda, nos seus hormónios dos quarenta, em tempos idos, terá tido um fraquinho pelo jovem estudante, Jorge Mendonça, mas a verdade é que o Comendador, homem acostumado a que lhe cobicem namoradas e esposa nunca dera fé disso ou nunca ligara muito. No entanto, parece que D. Ermelinda ainda sente uns calores quando o Dr. Jorge, sempre nas suas camisas de cambraia, muito bem cuidadas pela Adriana, uma criada de quem um dia narrarei o que D. Micá me contou, e nos seus fatos de muito alta qualidade e fashion quanto baste, está presente nos serões. Hoje, quando ele saiu, fiquei a pensar que aquilo não pode ser apenas do rendimento de médico do SNS. Ele trazia vestido um misto de Rosa & Teixeira com Medina Carreira que até fazia doer a vista de brilho, já para não falar na gravata C. Dior amarela. Parece que da Clara Mendonça é que a D. Micá não gosta muito. Mas cá para mim devem ser ciúmes pois consta que o Dr. Jorge, entre uns afagos na D. Ermelinda e um copo de leite com chocolate bem fresquinho, lhe chegou a cheirar a renda do sutiã. De muito perto. Muito perto mesmo. Ela nunca o disse, o que para uma contadora de histórias, parece quase inacreditável. O que ela sempre refere é que a Clara é uma pacóvia, veste mal, não combina duas peças, nem em cor nem em texturas, o cabelo é apenas arranjado em casa, não frequenta salões de cabeleireiro, não faz a manicura, chegou a dizer, numa confidência que a massagista Sissi da clínica Peles e Óleos lhe fez, que a outra não depila as partes íntimas, se isto é coisa que se diga, e que a menino Bruninho nunca vai chegar aos calcanhares de um Chainho ou de um Paredes, vejam lá, um menino que com esta idade já toca tão bem. Mas vamos ao que interessa. A D. Micá está sempre a cortar na casaca da Clara Mendonça, ora porque não estudou, «aquilo é uma burra», ora porque no outro dia lhe saltou um botão de uma camiseira simples, comprada «com certeza na Zara», dizia com desdém, «uma desleixada é o que ela é». A verdade é que Clara foi descoberta por Jorge nos seus tempos de estudante, numa daquelas festas privadas que os alunos costumam fazer à revelia dos pais que, da província, lhe vão pagando os cursos e a borga, mais conhecidas por bacanais, parece que a moça não só não tem quaisquer estudos, mas também que não se lhe é de gabar o seu porte em solteira. A própria D. Micá, diz que se não fosse por consideração ao Dr. Jorge, que é médico da mãe desde que esta veio para Lisboa, pudera digo eu, o Dr. Jorge não deve ser nenhum santo, digo eu também, e que é já, por inerência, o médico da casa, só faltando dar consultas ao Pantufa, o gato persa e ao Esticadinho, o galgo espanhol encontrado abandonado numa estrada perto de Badajoz, a Clara Mendonça não teria cabidela nos seus serões. O que faz o ciúme, digo eu mais uma vez. Quando estava a ouvir esta história, enquanto o meu primo tomava um chá de camomila em companhia de D. Ermelinda a quem não parava de gabar a filha, acho que já enfastiando a pobre, salvo seja, que de pobre nada tem, viúva do Comendador, atrevi-me a dizer-lhe «D. Micá, olhe que para a sua reputação de contadora de histórias cor-de-rosa, o quadro que pinta da Clara Mendonça, é um bocado cinzento». Ao que ela me respondeu «Negro, meu caro Constantino, negro, ainda você não sabe da missa a metade». Senti-me um pouco acabrunhado, bebi um gole de whisky, passei ligeiramente a língua pelos lábios, levantei o cálice em direção a D. Micá numa saudação complementar e fui falar com o Eduardo Aragão, um velho amigo meu e que costuma tocar guitarra clássica nos serões da filha do falecido Comendador Jovelino Azeredo. Mas dele contarei eu a história pois conheço-a muito melhor do que D. Micá.

13 comentários:

  1. Bom isto nem serão serões da cidade mas talvez umas reuniões de família, amigos e ... vai tudo "a talho de foice"

    Por mim deixava-me desses sítios pois: "nas costas dos outros sabemos as nossas"

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    1. Pois é Luís, mas são uns serões tão bem passados...

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  2. Claro que eu fiz a leitura dessa brilhante narrativa, rindo, e muito, né Vítor Fernandes? Sem deixar de perceber a tal da globalização, senão, vejamos:
    - charutos cubanos;
    - chaise longue (e por que não espreguiçadeira??);
    - Valsa Chilena (numa guitarra portuguesa);
    - "soirées" (por que não noite?);
    - wisky (direto das "Highlander"?);
    - Zara (não é da Espanha?);
    - Fashion (por que não, moda, estilo?);
    - Christian Dior (uma das minhas inspirações da moda, hehe)- França;
    - Badajoz (salvo engano, é um gato (?) é estrangeiro), lá da Estremadura.

    Depois de passearmos pelo mundo globalizado, aí vem-nos com essa prosa de comadres, deixando-nos todos enredados e interessados no assunto de caserna, aqui tratado, dando um aspecto pitoresco e divertidíssimo ao texto.

    Uma delícia de lê-lo!

    ;)

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    1. E eu feito cara-de-pau me introduzindo na vida dos outros. Se ao menos eu fosse lá, tomasse meu whisky, saísse de mansinho... mas não fico escutando com estes dois que a terra me há-de comer...
      Beijos globais.

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  3. Ai essa D. Micá parece ter uma língua bem afiada :)

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    1. E nem sabe quanto Luísa. Fique atenta, que ela não é só má língua. também sabe contar contos.

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  4. Gostei do serão, estive escondida no varandim, ainda bem que estava um calor de rachar-;)só tive de tapar o nariz quando chegava até mim o odor dos tais charutos cubanos, sob pena de ter de me escapulir com uma forte dor de cabeça. Seria uma pena não ouvir toda a cusquice que se viveu nessa noite, onde eu tive de reter umas sonoras gargalhadas.:))))

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    1. Serões onde ainda se fuma muito. Sabe é álcool, tabaco, mulheres... é a perdição, Manu.

      Um beijo.

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  5. Fico feliz em perceber que certas pessoas,
    como nós, têm a capacidade de reconstruir para recomeçar.
    Isso é sinal de garra e de luta, é saber viver, é tirar o
    melhor de todos os passageiros.
    Agradeço a Deus por você fazer parte da minha viagem,
    e por mais que nossos assentos não estejam lado a lado,
    com certeza,o vagão é o mesmo.
    Com saudades desejo um feliz Domingo,
    beijos na sua alma carinhosamente,Evanir.
    A Viagem..

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  6. Belos serões se devem passar em casa da D. Micá, ó Constantino!
    Só faltavam os petiscos do Ismael Gúsman para tudo ficar perfeito. Ah, e a presença da malta que frequenta a tasca do galego.
    Tu, que pareces ter uma certa ascendência sobre ela, vê lá se a convences a convidá-los, tanto mais que agora me parece serem figuras do jet set. :))

    Beijinhos.

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