quarta-feira, 19 de setembro de 2012

167. Fantasmas


Chovera naquela tarde de início de outono. Tinha findado um verão quente, um estio abafado, um sem conta de dias em que as terras e as plantas não tinham recebido nem uma gota de água. O tio João Fagundes andava desesperado. Os pastos secaram como nunca tinha visto em nenhum outro dos seus sessenta e oito anos de idade e nem valia a pena tentar lançar semente à terra. As vacas estavam a ser alimentadas a ração e a feno importado e bebiam água trazida pelos bombeiros, o que para as parcas economias do tio João Fagundes estava a ser um desmesurado rombo. Estava a ser uma catástrofe. Pedir dinheiro ao banco é que ele não ia. Nunca devera nada a ninguém.

 A noite fora atribulada. O tio João não sabia se tinha dormido se tinha sonhado. Estava muito desassossegado. Por isso, naquela madrugada, o Tio João levantou-se cedo. Cedo e sobressaltado. Antes de se deitar, fez o que fazia todas as noites ao longo dos vastos meses de seca. Olhara para o céu e não tinha tido nenhum sinal de que o tempo iria mudar. Mas o raiar da manhã desmentiu a sua enorme experiência de meteorologista empírico. A noite também tinha sido agitada na vacaria e o constante balir de ovelhas e cordeiros e o ensurdecedor berrar das cabras, mesmo a horas em deveriam estar a dormir traziam pressentimentos, insinuavam que algo estaria para acontecer. O tio João também o sabia. Melhor do que ninguém. O primeiro trovão fê-lo estremecer e trouxe-lhe uma alegria mórbida. A própria pele eriçou-se como se fosse a de uma galinha. Chegou-se ao poço e fez subir o balde de madeira. Só depois se lembrou de que o poço estava seco havia meses. Quis lavar a cara abundantemente com a água fresca acabada de tirar, como fora seu costume. Hoje principalmente. Agora nem água no poço para a sua higiene tinha. Ainda assim, vazou de um dos bidons de plástico, que os bombeiros tinham enchido, para uma bacia e, com as duas mãos, deu várias chapadas de água até que se encontrasse completamente acordado. Em face de toda a secura, de toda esta escassez não deixava de ser irónico o seu pensamento:
- Temos água.
- Temos água.
Repetiu. Depois chegou o banco às vacas, pegou no balde e começou a ordenhar. Toda a manhã trovejou, mas nem uma pinga de água havia caído. Ao meio-dia a fome apertou-lhe. Cortou um naco de toucinho e outro de pão. Serviu um copo de vinho de uma garrafa que havia tirado de uma meia-pipa de zinco, que lhe serve de garrafeira. Tirou do bolso do colete aos quadrados um velho relógio que lhe pendia de um cordão vindo da segunda casa da fila de botões a contar de cima. Estava na hora.

Tio João Fagundes tinha uma sobrinha. Nunca casou, nunca teve prole e a única herdeira, se é que se pode chamar herdeira de quase coisa nenhuma, era uma sobrinha, ainda jovem. Faria hoje 18 anos. Julieta nascera de uma aventura do seu único irmão, um doidivanas de grande coração e bom humor, sempre pronto para pregar partidas, conhecido como Joaquim Mineiro, com uma moça lá da terra, que diziam ter problemas. Quis o destino e o pó das minas que a silicose ceifasse a vida de Joaquim, quando a sobrinha era ainda uma criança. A mãe de Julieta, infelizmente, não tinha condição para a criar, vivendo desde há muito tempo internada numa casa de saúde, usufruindo de uma escassa pensão por mor da morte de Joaquim, com quem, por imposição deste, quando os pulmões quase já não respiravam, casou. O tio João Fagundes assumiu todas as despesas suplementares que não fossem cobertas pela pensão do falecido irmão, bem como todos os custos da educação da sobrinha. Internou-a num colégio de meninas e proporcionou-lhe uma esmerada educação. O irmão, lá no Céu onde repousava, não iria sofrer por isso. Hoje ela faria 18 anos, já tinha idade de herdar. As três vacas leiteiras estavam tratadas, as ovelhas, fora do redil, comiam o que restava de erva seca e as cabras remoíam raízes e pequenos troncos. Ele faria o ponto de situação com o Januário Pinheiro, o filho do seu melhor amigo, aquele a quem se acostumou a confidenciar coisas da vida. Mas não tudo. Absolutamente, não tudo. Estava na hora, mas não o faria ali. Não queria que a sua imagem, pendurada no tronco de uma oliveira, ensombrasse para sempre a pequena propriedade que ainda lhe restava e que a sobrinha lhe faria o que quisesse. O pouco que tinha seria para ela. No banco já estava até uma autorização para que a menina, a partir do dia em que fizesse 18 anos, pudesse “mexer-lhe” nas economias. Ele já estava ali a mais. Aliás, os homens da terra costumavam partir bem mais cedo.

Passou pela casa de Januário Pinheiro e cumprimentaram-se. O diálogo entre os dois era sempre muito profícuo e alegre, mas hoje pouco falaram. O Tio João conhecia-o desde garoto. Era o filho único do seu grande amigo Inocêncio Pinheiro, homem da mesma idade, tinham ido às sortes juntos, bebiam na mesma taberna, cantavam as mesmas modas. O seu maior desejo era que um dia, Januário, casasse com Julieta.
- Hoje vossemecê não está bom, ti João.
O tio João Fagundes não respondeu à observação do jovem Januário. Respondeu-lhe como se não o tivesse ouvido.
- Estive a tratar das vacas, ordenhei-as, dei-lhes feno e comi um naco de toucinho.
E depois rematou,
- Cheira-me que vai chover.
- Huuumm, hoje o ti João não está bom - disse-lhe Januário franzindo o sobrolho. O tio João, voltou a não ligar importância às observações do rapaz. Só lhe interessava fazer o ponto da situação, discretamente. O moço haveria de perceber, mas que não fosse logo. O velho castanheiro no cruzamento do álamo para a várzea, já estava escolhido. Por detrás ele tinha escondido um pedregulho. Era à medida. Num buraco do tronco tinha escondido a corda. Seria ao lusco-fusco.
- Sabes que quase não sei como dar de comer às ovelhas e às cabras? Hoje tive de lhes abrir o redil e deixá-las procurar. Está tudo seco.
- Lá isso está, homem. Mas ó ti João, vossemecê está-me a esconder qualquer coisa.
- Isso é impressão tua - respondeu, dando pela primeira vez atenção ao jovem amigo - Está tudo bem, não te preocupes – rematou.
Bebeu um copo de água e saiu. Januário tirou a boina e coçou a cabeça. Depois voltou a colocar a boina e resmungou entre os dentes «o ti João hoje não está bom».

No caminho, tio João Fagundes tirou o terço do bolso e começou a rezar. Sem esperança nem Fé. O tio João sempre ouvira que quem põe fim à vida de alguém não terá as bênçãos do Céu. Muito menos se for a sua própria vida. Ainda assim rezava. Rezava o padre-nosso e as avé-marias na ordem do terço. Fazia-o quase mecanicamente pois se iria cometer um pecado, que fosse só um, que de não ter rezado não se arrependeria.

Atravessou o parque que dividia os terrenos do amigo Januário Pinheiro dos terrenos da várzea. Os plátanos estavam repletos de castanho e verde numa combinação de cores a anteceder o fim. O Céu era de um cinzento carregado. Iria chover, mas agora já era tarde. Um pequeno passeio em pedra vermelha, iria, alguns minutos mais tarde, depois do grande aguaceiro, refletir os tons das árvores e as cores do céu, nessa altura, talvez já salpicado de azul. Se tivesse sorte alguém o veria antes do cair da noite. Não estava feliz por ir passar uma noite que se adivinhava de breu e chuvosa, esticado e encharcado naquele ramo. Mas era tarde. Vinha tarde, muito tarde a água.

Uma primeira gota caiu-lhe na cabeça destapada. O tio João não gostava de boinas. Tinha bom cabelo e gostava de o mostrar. Depois outra e ainda outra. A chuva começara a cair com intensidade. O tio João só acelerou o passo, quando na orla do parque que dava para os terenos da várzea, um chapéu e uma bengala jaziam no único banco daquele jardim. O coração bateu-lhe forte.
- Ó raios!
Exclamou e guardou o terço no bolso do casaco.
- Ó raios!
Exclamou de novo e parou como se fosse uma estátua. Olhou o chapéu e olhou a bengala. Olhou de novo. Ele conhecia aquele chapéu. E da bengala ele não tinha a mínima dúvida. O tio João desatou a correr em direção ao castanheiro. Pelo caminho exclamou de novo «ó raios!».

Joaquim, o seu único irmão, mais novo e mais rápido, tomou-lhe a dianteira. Pendurado pelo pescoço jazia morto e frio, suspenso num ramo do castanheiro. Um pedregulho aos seus pés. E continuava a chover. Choveu durante toda aquela tarde de início de Outono.

21 comentários:

  1. Um ótimo contador de estórias... como sempre.

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  2. Estou toda arrepiada, como se um fantasma tivesse passado por mim.
    A foto outonal completa esta história, que me deixou num estado que não consigo descrever.
    Até as frases curtas e incisivas nos mostram uma outra faceta do grande e versátil contador de histórias que tu és.
    Dar-te os parabéns, parece-me tão pouco...
    Olha, dou-te um grande abraço e o meu enorme apreço!

    Janita

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    1. Acho que vou passar às histórias cor-de-rosa :)
      Beijoca.

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  3. Às vezes, quando chove, já é tarde demais!
    Bjs

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  4. ...belíssima história...muito bem contada!

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  5. uma histoira de amor é sempre bem lida
    kis :=)

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  6. Ainda dizem que a seca no país e a seca na alma é de agora. Sempre houve só que a memória é curta demais.
    Um história bem narrada e com um final muito triste e há ou não há coincidências? Joaquim preparava o seu fim e sem saber o seu irmão adiantou-se sem qualquer aviso.

    Parabéns pela narrativa!

    Beijos

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    1. As histórias que sei, são quase todas meio tristonhas, mas é assim que mas contam e eu só reproduzo. Eu sou o narrador não é?
      Beijos

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  7. Mais uma pérola de texto

    para ler e reler

    mesmo que chova
    de preferência à chuva

    Abraço amigo

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  8. Um fantasma a zelar pelos seus? Nunca se sabe... :)

    Beijocas!

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  9. Mas que delicia de texto Vitor, tens o dom de nos envolver nas tuas palavras e transportar-nos para os locais onde podemos ver os persongens de perto.
    Parabéns!
    beijinhos
    cvb

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  10. Contrastando com outras histórias mais cómicas, desta vez, sem dúvida, a arte da escrita...gostei, como é costume.

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