Quando peço
licença e me sento naquele banco corrido de madeira na venda do mestre Tomé,
que em tempos já foi carpinteiro mas que, por morte do velho Domingos Colaço,
seu pai, acabou do lado de lá do balcão a servir copos de branco e agora,
minis, que a modernidade é assim mesmo, oiço histórias que vá lá saber-se se
são verdadeiras ou não, mas que nos fazem pensar. Eu, que estou sempre a dizer
que não acredito em coincidências, tenho dias em que me sinto quase a dar a mão
à palmatória. A história que vos trago hoje compu-la a partir da narração
empolgada do Carita, que se virou para o filho do ti Manel Torrado, de quem
agora não me lembro do nome e que tem andado emigrado lá para a Bélgica «Ah não
há coincidências, não? Então toma lá esta!».
D. Cerise
era a professora primária. Senhora dos seus sessenta anos há mais de trinta que
vivia na aldeia. Uns dizem que tinha sido freira e que por mor de um amor
ardente teria quebrado os votos. Não aceite na sua terra natal, cedo viria para
Portugal e se fixara naquela aldeia raiana. Outros que era filha de emigrantes
e que por ter nascido em França logo lhe prantaram o nome de Cerise. Para
muitos lá na aldeia era a senhora professora, para outros era a francesa. Para
o senhor doutor que lá ia, de início de mês a mês e que, não se sabe porque
feitiço, passou a ir todas as semanas, D. Cerise era uma mulher doente. Para
outros era a amantizada do médico.
Anastácio
Canilhas era um miúdo que gostava de armar aos pássaros. Gostava também de
jogar à bola na eira, de arranjar bicicletas e de pescar nos barrancos e
tapadas. Canilhas era sobrenome que lhe vinha do avô, pois tinha por profissão
remendar tetos de canas. Anastácio Canilhas era aluno de D. Cerise mas aos treze
anos era já marçano na venda do velho Domingos Colaço, aos dezasseis aprendiz
de padeiro na padaria da D. Eugénia, aos vinte foi às sortes a Beja, aos vinte
e três arrumou emprego na Carris em Lisboa, aos vinte cinco regressou à terra e
foi tomar conta das alfarrobeiras do patrão Carapeto, das ovelhas, dos pomares
e da menina Genoveva a quem todos chamavam de Veva ou mais carinhosamente de
Vevinha. O que nunca lhe passou foi a mania de pescar achegãs nas tapadas.
Joaquim
Perna, era um garoto muito pacato. Se Perna que já vinha de tantas gerações,
alguma vez foi alcunha, ele não o sabe. Na escola, era o melhor aluno de D.
Cerise, passava sempre de lição e sabia de trás para a frente e de frente para
trás o primeiro catecismo. Estudou o segundo e o terceiro, fez o quarto
catecismo, a comunhão solene e o crisma. Por não se dar a grandes brincadeiras
com os outros rapazes, não tinha muitos amigos. D. Cerise, uma mulher doente,
como dizia o Dr. Armindo, todas as semanas faltava um dia às lições. Ora porque
tinha de ir ao consultório do senhor doutor, ora porque uma maldita enxaqueca
não a deixava sair de casa, outras vezes um desarranjo e ainda outras, a
espondilose não a deixava endireitar a espinha. Mas da boca de Maria Amélia, a
moça, hoje uma mulher, embora solteira e dizem as línguas da terra, ainda
virgem, que lhe faz a lida da casa e lhe é companhia nos fins de tarde
solitários e sonolentos, nunca se lhe ouviu palavra, nem mesmo quando a
vizinhança jurava a pés juntos que a porta dos fundos que dava para um amplo
quintal, mas protegido pela frondosidade da sua vegetação, rangia em dia de
médico.
Nesses dias
de ausência da professora, uns iam ajudar os pais nas hortas, outros ficavam no
átrio a jogar à bola, outros, os mais pequenos saltavam para casa onde uma avó,
uma tia mais velha ou a própria mãe, que de falta de trigo não saíra para
jorna, lhes dava café quente quando era inverno ou água da infusa quando o
calor apertava, um naco de pão e por vezes uma fatia de toucinho e os protegiam
da estiagem abrasadora ou dos ventos gelados vindos da vizinha Espanha. Joaquim
Perna só depois de se certificar que o Padre Francisco não precisava de mais
nada, mudava de roupa, que a roupa de ir à escola era sagrada, vestia una
calçanitos mais velhos e uma blusa também coçada, pegava numa vara de bambu que
já fora de seu pai e saía com Anastácio Canilhas para pescarem na tapada do Carapeto.
Eram tão amigos que um dia, quando olharam para as sacolas e viram que ambos
tinham exatamente o mesmo número de achigãs pescados, proibiram-se mutuamente
de um morrer primeiro do que o outro. E quem desobedecesse, lá no Céu teria de
pagar um pirolito ou uma laranjada ao amigo. Ao que Canilhas, rapaz mais vivido
acrescentou «para mim pode ser uma amêndoa amarga». E deram os dois em
uníssono, uma valente gargalhada.
Vevinha,
andava numa demanda louca, num desvario nunca visto, numa ânsia indescritível.
A sua casa era um corrupio, com as vizinhas a saírem e a entrarem para a
consolarem e dizerem de circunstância «vai ver que não há de ser nada». Anastácio
tinha saído para pescar. Já passava da meia-noite e do homem não havia notícia
nem mandado. Ninguém pesca naquele charco à noite, ainda mais com lua cheia,
terra de lobisomens e de outros perigos, com a guarda atrás dos
contrabandistas, os tiros que rasgavam em clarões no meio da noite, o bornal
pela certa já vazio, haveria de ter fome. E sede. Anastácio desde que conheceu
Genoveva era homem de casa e o patrão Carapeto, tinha por ele muita estima. Que
alguma coisa lhe havia de ter acontecido, isso havia. Joaquim Perna, que
conhecia o lugar como ninguém, ou melhor, tanto como o amigo, desde os tempos
da escola primária que ali pescavam juntos, já tinha feito mais de duas batidas
e nada de Anastácio. Vencido pelo cansaço e pelo medo dos sons da noite,
regressou e foi-se anichar no sino da igreja, onde fez de vigia e passou a
noite.
No adro da
igreja jazia inanimado, sem dar cor de si e esvaindo-se em sangue. «Coitadinho»,
diziam umas. «Pobrezinho», ouviam-se a outras. «Desgraçado», lamuriavam uns.
«Coisas…», sem terminar a frase balbuciavam outros. Eram duas horas naquele
início de tarde, onde uma chuva miudinha teimava em prometer que nessa noite
não haveria lua. Alguém chegou a correr com os braços no ar gritando que o
corpo de Anastácio Canilhas tinha sido encontrado no charco. Vevinha, em sua
casa, vestida de negro desde a véspera, cobria a cabeça com um lenço e deixava
cair duas lágrimas enquanto se ajoelhava junto ao nicho de Nossa Senhora. A seu
lado ardiam duas velas. O velho padre Francisco, não encontrou o Joaquim Perna
que era quem lhe tocava o sino. À falta do sacristão foi ele mesmo quem foi
tocar a rebate. Lá em cima, dormitando encostado ao sino após uma longa noite
de vigília, sem de nada se aperceber estava Joaquim Perna. O sino atingiu-o
numa fonte e Joaquim não teve pernas para se aguentar. Quando caiu no adro da
igreja, já estava morto. Anastácio morreu primeiro. Fariam as contas da aposta
daí a algumas horas. Agora era tempo de mudarem de fato.
Adorei! Moral da história: muito cuidado com as combinações feitas na infância! :)
ResponderEliminarDava para pintar um mural. A língua portuguesa...
EliminarE ainda dizem que não há sina e destino!!
ResponderEliminarUm abraço.
É o fado, Manuel.
EliminarCombinação é combinação! Será que brindaram com amêndoa amarga a reunião, onde quer que tenham ido parar? ;)
ResponderEliminarBeijocas!
Ou com pirolitos!
EliminarBeijocas.
Coincidências não há, mas o prometido é devido!
ResponderEliminarE nadica de nada acontece por acaso. Eles o prometeram, o destino o escreveu!
Com o que brindaram é que ninguém saberá. :))
Talvez o saiba Ismael Gúsman!
Linda história Constantino. Há coisas que me dão que pensar....aonde vais buscar tanta Genoveva, Cerises, Carapetos, Colaços e Canilhas, por exemplo!
Isso é que é memória...
Beijinhos, Constantino.
Deve ter sido com um pirolito :)
EliminarBeijocas.
Uma imaginação brilhante e excelente narrativa.
ResponderEliminarbj
Obrigado.
EliminarBj.
Há uma coisa que me intriga e anda há que tempos para te perguntar: Tu adaptas as histórias às fotos que já tens ou tiras as fotos a condizer com os escritos?...
ResponderEliminarSegredo? Não me faças isso! :))
Beijos.
Normalmente procuro nas minhas fotos se tenho alguma que possa ilustrar o texto. :)
EliminarBeijocas
A-DO-REI!
ResponderEliminarParabéns!
Magnífica estória, Vítor. Só fiquei curioso por saber se quem perdeu a aposta a terá cumprido...
ResponderEliminarAbraço
Brilhante texto como sempre
ResponderEliminarAi qu esina esta! e que cena também!
ResponderEliminarAi Constantino, eu deleito-me com estes textos
kis :=)
Como sempre, uma bela história. :)
ResponderEliminarQue linda história, sempre pego meu filhos para contar história do tempo de escola, eles não tem paciência de me escutar mais.
ResponderEliminarTenha uma ótima semana.
Fiquei curiosa porque fiquei sem saber se D.Cerise tinha algum caso com o médico, cusqice de mulher-;)
ResponderEliminarQuanto à morte quase simultânea dos dois amigos eu ia jurar que a esta hora estão a brindar à bonita história que contaste à conta deles.
Dizia alguém, que ambos conhecemos bem, ser a memória coisa semelhante ao novelo. Começamos a puxar uma ponta e situações, espaços, nomes e coisas ditas ficam mais presentes e, as que não chegam, servem-se da inventiva. Contavas tu a história e desenlaçava eu a minha própria memória. Senti que a Cerise era minha professora e que eu me sentava na cadeira ao lado de um dos apostadores, que lhes invejava a pescaria... o resto do que contas já é outra coisa, pois que isto de tais (lixadas) coincidências só mesmo de um contador de estórias. E das boas. E das bem escritas... Há muito que não te vinha ouvir, para castigo meu. :))
ResponderEliminarEu acredito que todos quando nascemos vimos com um destino traçado e tal como a tua história que adorei como sempre, respondo: sim há coincidências que por vezes ficamos boquiabertos:)
ResponderEliminarBeijos