sábado, 8 de setembro de 2018

236. O dono da bola - #7. O tio Liberto



Comecei a ler bem novinho. Hoje isso já não é de espantar. As crianças nascem com um tablet nas mãos, manuseiam um smartphone antes de completarem o primeiro ano de idade, mandam SMS aos três anos, jogam minecraft aos quatro e aos cinco deixam um whatsapp aos pais com uma fotografia da rave no refeitório do infantário. Os tempos mudaram mas eu, que mais ao menos tenho acompanhado a evolução tecnológica e também o hábito das crianças, pai de dois e avô de três, não lastimo ter aprendido em livros e em jornais. Comecei então a ler antes dos cinco anos de idade. E antes que vos fale do tio Liberto vou-vos contar uma pequena história que se passou mais ou menos por esse tempo.

Uma doença infetocontagiosa mandou-me alguns dias para a cama de um hospital. Para evitar contágio fiquei em isolamento

- Mãe, quero ir embora

isolado aos cinco anos de idade num hospital, sem poder ver pai nem mãe, uma crueldade! Só entravam médicos e médicas, enfermeiras e enfermeiros e auxiliares de limpeza. Com a idade com que fui internado é impossível ter memórias mais consistentes, mas nunca se me desapareceram flashes. Outras coisas sei de as ouvir contar ao longo dos anos. Mas há fotografias indeléveis cá nos meus recantos da memória. E é assim que ainda hoje me lembro, sem que por isso tenha qualquer pesadelo, nem sequer sonho, de uma enfermeira

- Ai bebes, bebes…

 a dar-me uma valente bofetada por eu chorar e me recusar a tomar os comprimidos. Leram bem? Uma enfermeira deu-me uma bofetada na cara, a mim, uma criança de cinco anos de idade, porque isolado, só, sem ver os pais nem o irmão, dias seguidos, chorava e não queria tomar os comprimidos. E então foi por escrito que através de uma senhora da limpeza,

- Se eu contar, ninguém acredita

que achava muita graça de eu, tão pequenino, já saber ler e escrever, que mandei uma mensagem aos meus pais,

- Ele diz que é para o senhor ler

e foi assim que a direção do hospital tomou conhecimento e mandou substituir a enfermeira no meu quarto.

Nessa época o analfabetismo atingia o país inteiro. Oficialmente, segundo números do Estado Novo, 40% das mulheres não sabia ler nem escrever e 29% dos homens estavam na mesma situação. Na verdade, quem “andava por aí” sabia bem que estes números eram de conveniência

Salazar!| Salazar!

a realidade era muito mais penosa. Uma dessas pessoas, que não sabia ler nem escrever, era o meu tio Liberto,
- Comunista, só pode ser

a dizer que é analfabeto, só podia ser comunista, senão não diria aquilo, escolas sempre houve

O tio Liberto não era meu tio de verdade. Era meu vizinho lá no pátio, mas como era irmão da minha tia Gracinda e filho da minha avó Felismina

. Anda cá que avó dá-te as sopas

e a avó Felismina dava-me as sopas de café com leite e eu acalmava-me e ameaçava a minha mãe se ela ralhava comigo, que não eram nem minha tia, nem minha avó mas era assim que as tratava desde pequenino, então o tio Liberto também era meu tio. O tio Liberto era dos Belenenses

Belém! Belém! Belém!

naquele tempo, ali para os lados do Pombal, em Almada, aquele pessoal era quase todo dos Belenenses.

Belém! Belém! Belém!

Claro que isto de dizer quase todos é uma maneira de dizer. Era no tempo em que pontificavam no Belenenses, O Capela, o Feliciano, O Serafim Neves, o Armando Correia, o Artur Quaresma, o Manuel Andrade, o Mariano Amaro, o Vasco de Oliveira entre outros que tinham sido campeões nacionais em 1946, aliás no único título que os Belenenses conseguiram conquistar e que, durante cinquenta anos, conservaram como único campeão nacional para além de Benfica, Sporting e Porto. Mais tarde ao círculo de notáveis ainda se juntariam figuras como José Pereira, Vicente Lucas e o grande e extraordinário Matateu

- Gooooooollloooo de Matateu!

relatavam galhardamente na Emissora Nacional, não admira, portanto, a falange de apoio que durante anos os Belenenses tiveram e mantiveram.

À segunda-feira, logo pela manhã, o tio Liberto, na época já com uma certa idade e, portanto, já sem trabalhar, entrava pela taberna do António Marques pegava no Mundo Desportivo, lá na taberna havia sempre um ou dois jornais embora a maioria não os soubesse ler, e lia-o de ponta a ponta. E não o emprestava a ninguém enquanto eu não aparecesse ao pé dele, nem que tivesse de dar três voltas ao jornal. Eu só saía de casa quando a minha mãe me deixava, pois embora só tivesse aulas da parte da tarde tinha de ter os trabalhos de casa prontos, a tabuada na ponta da língua, as contas certinhas, a lição estudada e a história e as ciências sem falhas. E lá aparecia eu que era recebido quase já em desespero pelo tio Liberto

-  Senta-te aí, senta-te aí, diz lá o que é que eles aqui escreveram

que apontava para as legendas das fotografias e me pedia para que as lesse, sim as fotografias nesse tempo eram legendadas como que contando a sua história, sempre em primeiro lugar as fotografias do seu Belenenses[1]. E só depois de lhe ler as fotografias todas e a crónica do jogo, as declarações do treinador e as pontuações dos jogadores é que ele dobrava o jornal em quatro e me dizia

- Pronto já te podes ir embora

estás livre e lá ia eu, quase sempre a chupar um rebuçado de mentol que era a paga do tio Liberto à minha leitura para ele do Mundo Desportivo.



[1] Clube de Futebol Os Belenenses tratado pelos seus adeptos como Os Belenenses, mas também, muitas vezes, simplesmente como O Belenenses, daí no texto aparecer umas vezes no plural, outras no singular.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

235. O dono da bola - #6. A namorada também ia à bola


Um salto no tempo, um parêntesis na cronologia, futebol a dois, porque no futebol também há amor ou porque pode fazer parte dele. Comecei a namorar com a minha mulher com dezanove anos de idade, ambos já estudantes universitários. Um namoro à moda antiga. Um namoro onde para namorar se pedia namoro à namorada. Um dia, muitos anos mais tarde, perguntei ao meu filho já adolescente, Ouve lá João, como é que hoje se pede namoro a uma miúda e ele respondeu-me, Sei lá pai, não se pede ou então, é assim, é perguntar-lhe se dá para andar e eu, Pois, deve ser isso e calei-me. Nunca me teria passado pela cabeça vinte anos antes ter perguntado à Maria José, Olha lá miúda, dá para andar? Se calhar ela teria ficado a pensar se eu achava que ela tinha sido atropelada por alguma bicicleta ou, sei lá, a saltar para o cacilheiro, na pior das hipóteses e tivesse torcido um pé. Dá para andar? Não sei, se não doer…Não filhote, o que eu pai queria saber mesmo era como é que se pediria hoje em dia (naquela época em que ele era adolescente, e já agora, como é que será hoje?) a uma garota se queria namorar com ele, conversar, pensar numa vida a dois e mais tarde até casar, constituir família, estás a ver? Pois eu pedi namoro a sério e ainda me lembro como foi, mas não vou dar a receita agora. Isso já foi há muito mais de quarenta anos, parece mais mezinha caseira e eu estou aqui é para escrever sobre bola. Só que parece que deu resultado, quase meio século depois aqui estamos juntos, apesar do pai dela, quando começamos a namorar, nem de mão dada achar bem que andássemos, com dois maravilhosos filhos e, para já, três ainda mais maravilhosos netos, quem sabe se um dia destes a contabilidade esteja desatualizada. Apenas uma coisa nos separa. Já não vamos à bola um com o outro. Eu explico.

Durante a semana eram os estudos. A Maria José trabalhava e estudava. Eu não trabalhava oficialmente pois não tinha, por bem dizer, um emprego, embora andasse de empresa em empresa a vender livros à comissão, trens de cozinha, objetos decorativos de cobre e latão, a dar explicações em casa, entre outras atividades e estudava. Não restava tempo. Aos fins de semana alternávamos. Ou cinema ou futebol, isto durante a época porque no verão as saídas eram diferentes. E aqui não era fizesse sol ou chuva. Nas semanas em que o Benfica jogava em casa, os caprichos do S. Pedro não eram relevantes, nem interferiam nas nossas decisões. Piores eram os caprichos da minha sogra, Deus tenha a sua alma em descanso. Mas mesmo esses não nos desviavam os olhos dos remates certeiros de Nené e Jordão, da inteligência e visão de jogo do Vítor Martins, do portento físico do Toni, da elegância e precisão do Humberto Coelho, da agilidade felina do José Henrique. O Estádio da Luz era o nosso destino. O que faz o amor. Ela que até torce pelos leões!

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

234. O dono da bola #5 - O meu primeiro jogo oficial

Durante toda a semana não falei de outra coisa. A minha mãe já deitava futebol pelos olhos. O meu pai, que amiúde me via jogar com os outros rapazes, não me achava nenhum Cavém, nenhum José Augusto, nenhum Jaime Graça e nem, mesmo pela altura, nenhum Simões, mas ainda assim incentivava-me. Achava-me irrequieto, mexido, cheio de vontade e na brincadeira dizia que de vez em quando eu acertava com o pé na bola. E no meio daquela converseta e da minha excitação pelo meu primeiro “jogo oficial”, lá vinham as inevitáveis perguntas sobre os deveres, o que se viria a chamar mais tarde tê-pê-cês, Então e as cópias, já fizeste as cópias? Sim, mãe, já as fiz. Mas não te vi estudar a tabuada. Já estudei, mãe, já sei a tabuada toda. Então quantos são sete vezes oito e eu São cinquenta e seis, mãe, E nove vezes quatro, Trinta e seis, mãe, com ar enfastiado e a pensar querem ver que agora vou ter de responder á tabuada toda, E a lição, Qual lição, mãe? A lição de hoje… Não é preciso, mãe, eu já sei ler aquilo, Tu só pensas é na bola, é o que é, rematava e eu ria e ia dar-lhe um beijo. Mais tarde iria aparecer lá em casa com uma taça, desenhada e recortada em cartolina, pela D. Eduarda a minha primeira professora primária, como troféu do melhor em tabuada, que a encheu de orgulho e que ainda hoje fala nisso, Ainda te lembras, filho? Lembro sim, mãe e ela, Este rapaz tem uma memória…

Naquela semana o mais importante não eram as cópias, nem os ditados, nem a tabuada, nem a lição… era a bola. A primeira classe ia jogar contra a segunda, aquele que iria ser o meu primeiro jogo oficial de todos os tempos. Quando é o primeiro é o primeiro e será sempre o primeiro não haverá hipóteses de haver novamente um primeiro pelo que dizer de todos os tempos é só uma maneira de dizer. O jogo ia ser no sábado e eu estava até com medo de não me meterem na linha porque era o mais pequenino da turma e aquilo era só para calmeirões. Mas enganei-me e foi com grande alegria que me disseram que eu ia jogar. Pudera, deve ter sido coisa da D. Eduarda, olha, olha, logo o melhor a tabuada, ficar de fora. Isso nem lembraria ao diabo.
Linha feita e eu, o Vitinha, ia jogar à defesa. À defesa? Mas eu não sei jogar à defesa, eu sei é correr lá à frente, chutar para a baliza, marcar golos, e depois correr de um lado ao outro do campo, com o punho fechado a gritar goooollllooo, como fazia o Eusébio, e os outros a correrem atrás de mim para me abraçarem, como se faz no futebol a sério e a gente via na televisão do café Marissol. A preto e branco, é claro, mas a gente sabia bem a cor da camisola do Eusébio. Não faz mal a gente ensina-te, disse o Boavida, repetente, oito anos de idade, um veterano! Era o maior da turma, mas era meu amigo e, portanto, ele ia-me ensinar a jogar à defesa. Com uma pedra riscou no chão um círculo já perto da nossa baliza e disse-me, Não sais de dentro desta linha é aqui que ficas e cortas as bolas quando eles vierem e chutas para a frente. Não percebi nada. Então eu não podia sair dali? Não podia pegar na bola correr o campo todo e chutar à baliza? Não podia ir lá à frente? Isso é que era jogar à defesa? Mas está bem, o Boavida é que era o técnico, ali na escola era o meu Bella Guttman e se ele dizia que era assim que se jogava à defesa, então seria assim que eu jogaria. O meu primeiro jogo oficial!

Acabei o jogo a chorar. Não toquei uma única vez na bola. Ninguém passou por mim e eu não saí de dentro daquela rodinha. O Boavida não era mesmo um grande treinador. Mas não deviam de passar por mim para eu cortar a bola? Ou então, não deveria eu ter saído do círculo para ir de encontro à bola? Oito a um! Oito a um! Que desastre! De um resultado assim só me lembro daquele, no dia da inauguração do Estádio das Antas, quando o Benfica foi lá, como convidado, dar oito a um ao FC Porto. Se calhar, nesse dia, não deixaram o Pinto da Costa sair de uma rodinha. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

233. O dono da bola - # 4. O dono da bola


Joga sempre, escolhe a equipa, é o capitão, nunca vai à baliza, decide quando é que é penalti ou não, se a bola está fora ou segue jogo, se a bola foi “altas”, isto é, por cima da barra imaginária da baliza e se não ganha… amua. Da próxima vez não escolhe aquela abécula do Pernas para ir à baliza, é alto, mas é um frangueiro do caraças e o Cara-de-Velho não volta a jogar na equipa dele porque é um foção, não passa a bola a ninguém. O dono da bola chega a fazer regras para ganhar legalmente.

O dono da bola, depois de lavar os dentes, vai para a cama e já com o pijama novo vestido, que a tia que mora no Cristo-Rei lhe ofereceu no Natal, reza a oração que avó lhe ensinou “Ó meu Anjo da Guarda, minha companhia, guardai minha alma, de noite e de dia. Com Deus me deito, com Deus me levanto, que seja na Graça do Espírito Santo. Ámen!” e depois, num murmúrio envergonhado, pede baixinho ao Anjo da Guarda para que não apareça mais ninguém que também tenha uma bola de catechu. É que ele não quer, por nada, ir à baliza.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

232. O dono da bola - # 3. Esta sim, era uma bola de catechu


Naquele tempo ter uma bola de catechu era um luxo. Catechu é, naturalmente, um galicismo. Provirá da palavra francesa caoutchouc que significa borracha. Mas cá entre nós as bolas de borracha são uma coisa, as bolas de catechu são outra, nós adotámos bola de catechu para designar as bolas de couro e, pronto, é assim mesmo que se conhecem, apesar de com a evolução dos materiais e das tecnologias as bolas hoje sejam totalmente sintéticas e nada tenham a ver com as bolas com que se jogava antigamente. Curiosamente, quando em condições de tempo adversas se tinha que jogar sobre poças de água ou terrenos enlameados, as bolas ficavam irremediavelmente embebidas que pareciam pesar chumbo, o que lhes consignava o epíteto de bola de “catechumbo”. Era uma perdição para qualquer criança atingir o desiderato de possuir uma bola de catechu. Sim, uma bola igual à dos federados, quer dizer, dos futebolistas a sério, daqueles que até tinham cartão com nome deles e fotografia que lhes permitia entrar à borla nos campos para ver outros jogos, desde que fossem organizados pela mesma associação. Bom, coisa difícil de explicar, mas que me fazia brilhar os olhos quando eu via o cartão de jogador do Tateu, o meu primo, isto é o filho da minha tia Gracinda, que por acaso se chamava Zé, mas que todos os conheciam por Tateu, uma abreviatura de Matateu, já que o Zé, embora sem qualquer raiz africana que lhe fosse conhecida, era um tipo muito moreno e jogava muito bem à bola. Quanto ao Matateu, esse era um jogador africano de excelência e que pontificou nos anos 50 do século passado no Clube de Futebol Os Belenenses. Já as bolas de borracha, acabaram por ser as sucessoras das velhas e artesanais bolas de trapos, com as quais eu nunca joguei, apesar de me recordar que quando ainda garoto, o meu falecido e saudoso pai me as ensinou a fazer. Mas voltemos às bolas de catechu, que um antigo e já desaparecido relator desportivo, da extinta Emissora Nacional, caraterizava como “os quatrocentos gramas de couro insuflável”.

As bolas de catechu de antigamente eram um luxo, mas chegavam, algumas, de qualidade de fabrico mais descuidado a ser um empecilho à boa prática, ou como se diz hoje ao fluir nas transições ofensivas a partir da zona de construção. É que as bolas, no local de enchimento da câmara de ar, ou seja, no pipo, não eram completas. Havia que dar acesso à agulha de enchimento. E aquele pequeno círculo que não fechava a bola, era compensado por uma língua de couro mais maleável que metade cosida à bola era a outra metade enfiada entre o couro e a borracha da câmara de ar sustentando-se pela compressão que esta, a borracha sob pressão de ar, fazia contra couro da bola. Ora se a bola vazasse um pouco, esta pressão era aliviada e a língua saía de fora, pelo que era necessário voltar a colocá-la no seu sítio perdendo-se com isso algum do tempo de jogo. Além deste quiproquó havia já o referido inconveniente do peso da bola, quando ensopada em água. Ora isto era um flagelo para os pés descalços, ou mesmo de sandálias, dos miúdos lá da zona. Depois de secar, a bola acabava por ficar dura demais para os pezinhos das crianças. Portanto para os putos, mesmo para os que sonhavam ter uma bola de catechu, a bola ideal era a de borracha ou até a bola de trapos.

Mas há bolas de catechu e bolas de catechu. Quero dizer, nem todas as bolas de catechu eram iguais e no estrangeiro já havia bolas de catechu muito melhores do que as nossas. Mesmo os clubes de futebol daquela época, só os de maior poderio económico as usavam. Nas divisões inferiores jogava-se muito com bolas iguais às que descrevi. Falo do estrangeiro porque, um dia, o meu foi convidado pelo estaleiro onde trabalhava para ir fazer um curso à Suécia. Sim era um curso, mas que hoje em dia se dá o pomposo nome de “on the job training” o que significa, “não penses que vais para o bem-bom duma sala de aulas e o salário vai-te parar ao bolso no fim do mês”, ou seja, vais bulir e ao mesmo tempo aprender coisas novas. E lá foi ele, nove meses fora da mulher e dos filhos para poder ter um futuro mais risonho. Muitas cartas, muitos postais ilustrados, não raros salpicados de lágrimas sobre a tinta ainda fresca, muitas saudades, muitos beijos e surpresa das surpresas um presente chegado pelo correio, uma bola de catechu. Mas uma bola daquelas que não tinham língua. Uma bola a sério, com o pipo incorporado no couro. Uma bola que não precisava de ser ensebada para que não lhe entrasse a água, uma bola que não pesava como chumbo, uma bola que não nos deitava a língua de fora. Uma bola oficial, caraças! Leitoras e leitores, apresento-vos o novo dono da bola!

quarta-feira, 25 de julho de 2018

231. O dono da bola - # 2 O número da bola




Vamos começar por fazer contas. Meio tostão é metade de um tostão e um tostão são dez centavos. Dez tostões são cem centavos e, portanto, dez tostões faz um escudo. Assim, cinquenta tostões são cinco escudos e duzentos tostões são vinte escudos. Se os rebuçados custarem meio tostão cada, ou seja, dois por um tostão, vinte escudos compram quatrocentos rebuçados. É só fazer as contas. E em cada rebuçado vinha um boneco da bola.

Hoje são cromos, requintados, retratos de frame cheio, encerados, brilhantes, autocolantes, vêm em saquetas, cada saqueta com quatro cromos custa 1,00€. Um euro são mais ou menos, arredondando para baixo, duzentos escudos dos antigos que se convertidos a tostões seriam dois mil tostões o que, revertido ao meu tempo de colecionador de bonecos da bola enrolados em rebocados, a dois cada tostão, daria para quatro mil bonecos da bola. Ah se eu tivesse 1,00€ para bonecos da bola! O meu pai ganhava isso, talvez pouco mais, numa semana de trabalho…

Entrei na Elisiária, a mercearia que vendia os bonecos da bola, com a caderneta cheia. Cheia, quero dizer, cheia não, faltava colar um porque os outros já iam todos coladinhos com cola de farinha, faltava o mais custoso, faltava o número da bola. Esse nunca saía, vinha carimbado com o mesmo número que estava na lata e na bola de catechu presa no cartaz dos prémios. Estava colado no fundo da lata para não poder ser vendido a ninguém. Imaginem que saía a meio da lata. Alguém teria logo direito à bola de catechu, bastava acabar de preencher a caderneta e isso era fácil. E o jogo perderia o fascínio e os restantes rebuçados ficariam por vender, a não ser que o ganhador e o merceeiro guardassem sigilo até ao fim da lata. Mas isso nunca acontecia, ou pelo menos, seria muito raro que acontecesse, pois tratava-se de batota. Era assim, devido a esta artimanha do boneco da bola estar agarrado no fundo da lata que a bola de catechu, bem como os restantes prémios do cartaz (alguns bonecos traziam também enrolados uma “senha” com a designação de um prémio) só saiam mesmo no fim ou a quem rebatesse a lata. Os primeiros prémios a sair eram as cadernetas o que incentivava os putos – e os crescidos, diga-se de passagem – a fazer a coleção. Já nessa altura o marketing tinha espertezas destas. Pois entrei com a caderneta e com o meu pai a acompanhar-me. O meu pai ia rebater a lata pois os miúdos, os filhos, claro está, não se calavam com a bola de catechu.

Num cálculo assim por alto, a Elisiária, tendo em conta os prémios saídos e altura de rebuçados na caixa calculava que estariam para lá uns quatrocentos. Eu olhava para o cartaz e nem ligava aos chocolates, pentes, carteiras, canivetes, cadernetas… nada! A única coisa que me fazia brilhar as duas luzinhas era a bola de catechu. E aquela ia ser minha. Até me arrepiei todinho.

Começou a contagem. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze… dezanove, vinte, vinte e um… trinta e nove… quarenta e sete, setenta e oito – Ó Sr. Augusto eu disse setenta e oito ou sessenta e oito? e se não se tinha a certeza começava-se de novo, cento e vinte e três, cento e vinte e quatro, … trezentos e oitenta e um e eu não tirava os olhos da lata a não ser para ir olhando para os olhos do meu pai, Ainda faltam muitos D. Elisiária? perguntava ansioso, quatrocentos, quatrocentos e um e dois e três… e eu tremia, devia estar quase, e quarenta e quatro, ai ai, ai ai, que as coisas não estão a correr bem, quatrocentos e noventa e nove e Pare aí D. Elisiária! ordenou o meu pai. Parava a contagem e terminava a esperança. Era demais e o orçamento familiar não dava para gastar vinte e cinco escudos em bonecos da bola ou mais ou talvez muito mais, pois ficamos sem saber quantos rebuçados ficaram ainda por tirar da lata.

E enquanto uma lágrima me escorria cara a baixo, a Elisiária voltou a espetar o cartaz no prego lá de cima. Olhei de novo e pareceu-me ver a bola de catechu deitar-me a língua de fora.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

230 . O dono da bola - #1 Muda aos seis, acaba aos doze



Passeio-me de braço dado com a minha mãe pela rua onde antes fora uma azinhaga. A nossa azinhaga. Dos valados, onde em garoto íamos às pichas de gato, raízes doces das azedas e do muro da quinta do Plantier, só recordações. Impossível era, mais de cinquenta anos depois, ainda haver vestígios. Depois vieram os prédios, primeiro do lado direito para quem caminha na direção oeste-leste e depois do lado esquerdo, um dos quais acabou por ser erigido sobre o pátio onde cresci, sobre o pátio da minha infância. Nos primeiros prédios ainda moraram, a saber, um colega da escola primária e mais tarde filho de vereador, um primo meu também e onde se estabeleceu uma mercearia / lugar de frutas cuja primeira caixeira-dona encontrei por acaso numa excursão, em Trás-os-Montes. Em Almada é que eu não a via, exatamente há cinquenta e dois anos. Coincidências do caroço, como dizia uma tia minha, já falecida. Não me lembro do teu colega, comentava a minha querida e octogenária mãe e acrescentava, Como é que este rapaz se lembra disto tudo? quando lhe disse o nome do dono da mercearia e a relembrei que no prédio onde morou a prima Helena tinha também uma barbearia. Dos donos da mercearia lembrava-se ela muito bem e até sabia o nome das filhas e dos filhos que eram muitos. E quando falámos do muro da quinta e de uma abertura que dava da azinhaga para a mesma, relembramos que as pessoas faziam daquele local uma montureira onde se despejava toda a espécie de dejetos domésticos a céu aberto, pois, segundo alguns, no tempo do Salazar é que era bom! Falamos do pátio onde moramos, das condições difíceis, dos anos sem eletricidade, nem água, nas casas de banho construídas por nós próprios, da oliveira de esquina que marcava a zona de casas da zona de barracas, da rua que subia da oliveira, cujo tronco saía da terra como se forre uma raiz e voltava a entrar em outro pedaço de terra rompendo o valado, ou melhor dizendo o valado é que lhe caiu em cima, a rua que subia para Almada e onde hoje há o Teatro Municipal e que passava no pátio de cima e na casa da madrinha e lembrei o nome dos vizinhos todos, os nossos, porta a porta, os de fora do pátio, os do pátio de cima e os vizinhos da minha madrinha. E aqui mãe, lembras-te o que era? perguntei fazendo-lhe um novo teste à memória. Se me lembro filho, aí não havia nada. Tinha razão. Era um descampado, um terreiro que já fora da quinta onde hoje está um jardim e onde os miúdos do meu tempo lançavam os papagaios ou talvez, com mais frequência, as estrelas, uma estrutura com três meias-canas laçadas no centro em forma de estrela, de maneira que os extremos ligados com fio uns aos outros, formando um hexágono regular que depois seria coberto a papel de seda e que eram mais fáceis de estabilizar e que subiam bem mais alto. A estrela vai alta como o… e lá saía o palavrão de um ou outro mais simplório, menos educado ou mais menino de rua, que esta boca, que uma vez se lembrou de dizer um impropério, foi ameaçada de levar com pimenta na língua e, por isso, nunca mais se atreveu, praticamente até ser adulto, a utilizar vernáculo nas suas alocuções. E era também o nosso campo de futebol, onde as balizas eram feitas com duas pedras em cada um dos topos, onde não havia linhas laterais nem linhas de fundo, o centro e as marcas de penalti não se marcavam ou não se viam e que, para chutar um castigo  máximo, como hoje se diz em futebolês, ou pénalte como se dizia na gíria da miudagem, contavam-se onze passos a partir do meio da baliza e nem era preciso haver árbitros. Mudava aos seis, acabava aos doze desde que o último golo entrasse bem rasteiro e no centro da baliza.

Foi neste terreiro que iniciei a minha arte de pontapear a bola para a frente, mas o futuro foi aquilo que se viu. É como se tivesse sido substituído antes do jogo começar.



Nota: Este é o primeiro texto de uma série 21 pequenos contos sobre um jogador de futebol que nunca o chegou verdadeiramente a ser. Ou então não.