sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

194. Quando D. Micá foi dar milho aos pombos



A manhã acordou radiosa no quarto de D. Micá. O sol penetrante na janela contígua à cama transpunha as cortinas de tule branco translúcido, deixando que a alvura da luz inundasse o aposento. D. Micá bocejou e espreguiçou-se. Estes gestos, que muita gente ainda apelida de má educação e próprios de gente sem classe, num estigma ao bocejo público, muitas vezes proveniente de doutas bocas, seja das de juízes em prolongados e aborrecidos julgamentos, onde advogados de firmas de telecomunicações pedem a penhora de dois penicos e uma vassoura de piaçá por conta de dívidas de trinta e dois euros e quarenta e sete cêntimos, seja daa bocas de alguns parlamentares, digníssimos representantes do povo que, diga-se em abono da verdade, pouco mais fazem do que bocejar o dia inteiro, ou numa conotação, como se sabe, inapropriada ao gesto de esticar os braços para cima reclinando simultaneamente o corpo para trás, o que se sabe ser uma forma de alongar músculos para que novo alento nos invada, são gestos absolutamente normais. Pois bem, como seria de esperar, apesar de presidente de uma Fundação muito prestigiada no meio dos apreciadores de leite magro e mais ainda no dos apreciadores de chocolate, D. Micá também boceja e também se espreguiça. E estarão agora os leitores a pensar “e também dará o seu traque, com certeza…”. Então, para que a verdade aqui fique indubitavelmente expressa, D. Micá também dá o seu traque. Dá sim senhor. Apesar destes gestos, derivado ao mau estar do serão da véspera, onde ela se viu envolvida na própria história que estava a contar mas que, sabemos de fonte segura, não deixará de continuar a contar, malgrado a desfaçatez e até descaramento de D. Bonifácio em apelidá-la de matraca, D. Micá acordou com uma ligeira dor de cabeça. Como não se tratava de enxaqueca, coisa de que raramente se queixava, ao contrário de sua mãe, D. Ermelinda, mas que por agora nem vem ao caso, a moinha que a apoquentava não era coisa que não passasse com um bom duche. E se assim o pensou assim o fez, sendo que depois de colocar na cabeça uma touca que lhe protegeria os longos e bem tratados cabelos loiros da agressão de águas calcárias e sabões vários, deixou cair costas abaixo o sua camisa de noite em seda arábica com folhos e rendas deixando a nu o esbelto corpo desta trintona, órfã de pai, senhor de muitas facetas, entre as quais, a que melhor conhecemos, a de exportador de cacau santomense. Mas da alvura da sua pele, da maciez das axilas, da elegância do umbigo, da firmeza dos seios, da expressividade da púbis, do talhe das suas coxas, da vespídea cintura, das saliências glúteas e da beleza dos seus pés não se falará neste texto que não tem pretensões a narrativa de caráter erótico. Tomou então o seu banho, vestiu-se, comeu, telefonou e saiu.

No resto da manhã passeou-se pelo parque. Vestia um vestido muito bonito, branco, de algodão e linho e usava uma sombrinha também branca. Quer o vestido quer a sombrinha se apresentavam com rendas em bordado inglês. Quem a visse poderia pensar que se tratava de uma noiva em momento de descontração antes de dar o sim no altar da igreja de Fátima. Mas não. Do telefonema, que alguns minutos antes fizera, resultou juntarem-se a ela duas boas amigas, a Geninha e a Marta. Duas amigas e não duas damas de honor. De resto nem nos parece que esteja para breve o seu casamento nem, tão pouco, lhe conhecemos namorado. Riam com ar jovial, como se o chilique tivesse sido coisa de um passado distante e as bebedeiras de vodka que a Geninha apanha, não lhe fizessem mossa, que se não as conhecêssemos como as conhecemos diríamos que tínhamos ali três mulherezinhas como as de Louisa Alcott ou quaisquer outras três saídas de romances cor-de-rosa de meados do século passado. E quais jovens adolescentes, abriram as bolsas, tiraram de lá os seus saquinhos de milho e foram dar milho aos pombos.


20 comentários:

  1. Os pombos agradecem....mas não use a vodka.

    Abraço

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  2. O texto está ótimo, mais devo confessar que tenho uma dúvida. É apenas um conto fictício, ou tudo isso é pura realidade?.
    http://desventuras-em.blogspot.com.br/

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    1. Este é mais um texto na sequência dos serões em casa de D. Micá. Mistura ficção e realidade, isto é a ficção é várias vezes sugerida por fatos reais.

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  3. Oh, que saudades das Mulherzinhas de Louisa May Alcott!
    Adoro as suas aventuras da D Micá, querido Constantino.
    Um beijinho
    PS - Já sou seguidora (pudera! de um guardador de sonhos quem não é?) e convido-o a reciprocar

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  4. Adoro textos que nos levam
    pra dentro da historia.
    Alias adoro esse blog.
    Bjins
    Linda sexta ja seguindo.
    Catiaho Reflexo d'Alma

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  5. Olá Vítor,
    Primeiro obrigada pela visita.
    Seu texto é lindo!Gostei do humor tbm.

    Bejinho

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  6. Ó Constantino, tu não me venhas elogiar a beleza física da Micá, porque eu sei perfeitamente que ela não é nada disso!

    Quais alvuras da pele, da macieza das axilas, da elegância do umbigo, da firmeza dos seios, e da expressividade da púbis? Deves andar a precisar de mudar as lentes...:)

    A mulher é tão matrafona, que perto dela dela eu sou a Deusa do Nilo, a Rainha do Sabá e quiça a Cleópatra do Egipto!
    Ainda por cima dá traques, qual vulgar peixeira do mercado da ribeira e espreguiça-se, bocejando ruidosamente?
    Não suporto essa falsa dama pedante, só porque é herdeira da Funda São do leite magro; é mais forte do que eu. Fazer o quê, diz-me lá?!?

    A foto do lago com cines e patos, está um primor, Constas!
    Linda!

    A respeito do "Sete Facadas e Carapaus de Escabeche", prefiro que sejas tu a entregar-mo, quando eu aí for, ou envia-lo para aqui, pois quero uma dedicatória personalizada, obviamente!:))

    Um abraço amigo.

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    1. Tu e os teus brilhantes comentários. Com este fartei-me de rir. Mas olha que a D. Micá é quase tão boazona como a sua empregada Eduardinha. Um dia destes eu conto mais coisas da Eduardinha. Quanto ao Eduardo estou a deixar um pouco de água na boca às minhas leitoras.
      Em relação ao "Sete facadas e carapaus de escabeche" cuja edição está praticamente a esgotar, vou já retirar um e pôr de parte para ti. Se quiseres que to envie para casa, deixa-me a morada em privado no FB. Obviamente terás a meu autógrafo e uma dedicatória. Beijocas e bom f-d-s.

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  7. Vim espreitar e já por aqui me acomodei!
    Gostei muito do texto e da foto.

    Abraço

    Sónia

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    1. Obrigado. Sinta-se à vontade para comentar sempre. Abraço.

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  8. Agradeço a visita à minha "Onda" onde o surf é só de versos...

    Diverti-e a ler este texto. Vou voltar para ler os anteriores, com calma e tempo para me rir, como gosto de me rir... (sem ser ao minuto).

    Beijo

    Laura

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  9. Vitoramigo

    Caro Amigo

    Por intermédio de um nosso Amigo comum, Rui da Bica, acabei de te encontrar. Gostei. Já estou aqui e fui um privilégio cá chegar. A blogosfera tem destas coisas 1) boas e também 2)coisas más. O teu Blogue está na alínea 1).

    Por isso me inscrevi como teu perseguidor e prometo-teque aqui voltarei e farei comentários. Amor com amor se paga e peço-te que faças o mesmo na nossa Travessa do Ferreira http//:aminhatravessadoferreira.blogspot.com…

    Vou fazer 72 anos mas esforço-me por manter a minha cabeça jovem. O meu Curriculum Vitae Podes encontra-lo na minha Travessa. Que assim passará a ser também tua.

    Muito Obrigado

    Abçs

    Henrique

    _____

    Este comentário é comum àqueles blogues de que gostei e gosto


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    1. Caro Henrique,

      a sua travessa já era uma visita minha habitual quando no meu blog O PreDatado tinha os links. Mas cometi um erro no template e perdi todas as ligações que aos poucos vou recuperando. Um abraço.

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  10. Mais uma viagem fabulosa

    com a boa escrita sempre

    Imperdível
    com um abraço

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  11. Que delicia viajar por entre suas
    historias.
    Bjkas

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