terça-feira, 23 de julho de 2019

249. A minha avó Emília e as cegonhas






- That's one small step for a man, one giant leap for mankind.

- O que é que ele disse filho? – perguntou-me a minha avó Emília.

Eu ainda não dominava a língua inglesa para fazer uma tradução exata do que Neil Armstrong acabava de dizer e além disso as condições sonoras da transmissão não eram as melhores. A minha Schaub Lorenz não raro necessitava de umas palmadas para que as válvulas estabilizassem e aquele scroll vertical acalmasse. Ainda assim respondi:

- Disse que era um feito muito importante para todo o mundo.

Foi desta maneira que acabei por explicar, em palavras simples, à minha avó Emília que, nos seus setenta e seis anos de idade se aguentou firme, ela e eu, a ver a chegada do homem à Lua, o que Armstrong dissera. A minha avó não sabia ler, nem escrever, mas era de uma inteligência incontestável. Obviamente em muitos casos, limitada às suas vivências o que não contraria a famosíssima tese de Ortega y Gasset, mas ainda assim, nem um só momento duvidou de que o homem tinha chegado à Lua. O que ela afirmava bastas vezes, é que receava o que poderia acontecer por eles andarem a “mexer” lá em cima.

Mas ao contrário da da minha avó, era voz corrente a de que o homem não tinha ido à Lua e que aquilo era tudo inventado pelos americanos. Não me admiravam essas afirmações. Estávamos no terceiro quartel do século XX, um século que viu nascer o avião a jato, a televisão, o computador. Era muita coisa num século só. E de que daí nascessem teorias da conspiração, ficções para vender livros e documentários não me espantou nada. O pior não era esse tempo. O pior é hoje. O pior é que ainda há quem afirme que a Terra é plana. E têm seguidores. Um dia destes ainda os vamos ver em manifestações para exterminar as cegonhas com o fim de controlar a demografia. Ai não tarda, não.

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