Sei que hoje o meu amigo Ismael Gúsman não vai ler este meu texto. Já se devem ter apercebido, pelo que vem sendo escrito e pela cronologia, que o meu amigo Ismael, o galego, já não faz parte do mundo dos vivos. Um dia destes conto-vos algo que sucedeu no dia do seu funeral, mas vamos por partes, isso não é para já. Quando decidi escrever este livro e antes de me decidir dar sete facadas na italiana, dar salvo seja, pois todos sabem que não fui eu e que, mais dia, menos dia, o provarei, tinha pensado em escrever sobre hóquei em patins. Isso mesmo, porque o Ismael era um maluco por essa modalidade sobre rodas. Diz ele que a única ideia que traz bem viva na sua memória foi a de um dia ter ido assistir a um jogo entre o Liceo de Coruña e o Réus. E, porque para mim seria quase impossível nomear um único jogador deles que fosse, Ismael teria uns sete anos de idade e é homem praticamente da idade do meu pai, resta-me lembrar-vos que também eu me sentava ao lado do meu avô, ouvidos no transístor a ouvir o Nuno Brás da Emissora Nacional a gritar os golos do Fernando Adrião e do Vaz Guedes. nos tempos gloriosos da nossa Seleção Nacional contra a sua rival de sempre, a Espanha.
Em Viena de Áustria esperava que me fosse indicada mesa para comer aquele bife panado que não se come em mais lado nenhum. Schnitzel é mesmo em Viena, enche o prato e não se nada em gordura. O empregado que fazia as honras da casa foi perguntando um a um dos meus companheiros gastronómicos de onde éramos. Espanhol, francês, austríaco, suíço, ele que também era suíço ali ficou dois ou três minutos a falar sobre o seu, deles, país natal e finalmente eu, português. O homem era de Berna e assim que falei que era português, deu-me uma palmada nas costas, encheu-me de novo o copo com um reisling bem fresco e disse-me de rajada e sem perder o fôlego, Costa Pereira, Mário João, Ângelo, Cavém, Germano, Neto, Santana, Coluna, Cruz, José Augusto e Águas. Senti-me perdido e confuso. Perdido porque nem fui capaz de ripostar. Eu próprio, um ‘maluquinho da bola’ não sabia de cor a linha campeã europeia em 1961 mas também não dei parte fraca. Dei um sorriso largo, bebi um gole de vinho, dirigi-me à mesa que entretanto tinha ficado livre e fiquei a matutar. Confuso, sim confuso, ele não falou em Eusébio. E foi aí que me lembrei que Eusébio só iria ganhar a Taça dos Campeões em 1962 (*), numa portentosa exibição contra o Real Madrid de Santamaria, Gento, Di Stefano e Puskas. Há cinquenta anos atrás.
Sei que hoje o meu amigo Ismael Gúsman não vai ler este meu texto. Bem sei também que hoje não há inspetores nem misteriosas senhoras trasmontanas; hoje Francisca continua a ser a dona do manuscrito e Ismaelix ainda tem um farto bigode branco; hoje ninguém se sentará na mesa do canto, nem a escrever nem a comer passarinhos fritos em carcaça de forno de lenha. Hoje eu e mais seis milhões, ou mais, uns com champanhe, outros com um tinto do canjerão, outros até só com um copo de água da torneira por não haver posses para mais, vamos levantar o nosso copo para saudar o septuagésimo aniversário do grande Eusébio da Silva Ferreira. E, meu grande amigo galego Ismael, sei que estás também a erguer um angélico cálice para saudares o maior, o grande, o pantera negra.
(*). Tomem lá:
Benfica: Costa Pereira, Mário João, Ângelo e Cavém; Germano e Mário Coluna; Cruz, Simões, Eusébio, José Augusto e José Águas.
Real Madrid: Araquistain, Casado, Santamaria e Miera; Pachin, Gento e del Sol; Di Stefano, Tejada e Puskas.
O treinador do Benfica era Béla Guttmann e o do RM era Miguel Muñoz.
