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terça-feira, 29 de agosto de 2017

229. Alguém foi enganado

Alguém foi enganado

A história que vou contar ouvi-a também assim. Para ser mais exato, ouvi-a mais ou menos assim, pois se quem conta um conto não lhe acrescenta um ponto o melhor é ficar sossegadinho, já que não faz jus ao provérbio. E é por vezes neste ponto que se acrescenta, que se dá ou se retira o dramatismo de uma situação, ora conferindo-lhe uma nota de humor, ora adicionando-lhe um não-sei-o-quê de pesar. E neste conto não vos irei defraudar, resta saber se o que vos narrar vos fará rir ou, quiçá, chorar.
Feito que foi o introito, ou quase, também eu irei meter a foice nesta seara, opinando que o conto encerra qualquer coisa de trágico. Mais tarde mo dirão se assim é ou não e isto se assim vos aprouver. Tragédia mundana que é como alguns sábios a classificam, mas que é cá um dramalhão, lá isso é inegável. Vamos então contar o nosso conto que foi para isso que fui convidado.
Estava a internet, ou melhor, o seu uso, ainda em plena aurora e já a máquina de construir enganos começava a ser oleada. Estudava o Francisco em Lisboa, rapaz pacato e de boas famílias, se bem que de não muitas posses mas, ainda assim, havia entrado na Universidade. Cursava Direito, dizia que apesar do seu curso não iria enveredar por qualquer carreira política, não tinha vocação, o que era verdade, rapaz de perfil baixo, já que o conto é em português e escusa-se o anglicismo, ficará para outra ocasião, pronto, era low-profile, seria tão somente um advogado competente, honesto e trabalhador. Para ajudar a enfrentar a dureza do curso, como qualquer jovem classe média de hoje, o Francisco tinha computador em casa e, como praticamente se pode dizer, ter computador é o principal caminho para se estar ligado com o mundo, então o Francisco tinha também internet. Mas era Francisco um rapaz normal, o computador era um instrumento de trabalho, consultava códigos, lia pareceres, revia legislação, aperfeiçoava-se na ética enfim, tudo o que um jovem estudante de Direito, mas não só, pode ter ao alcance de algumas teclas. Os seus tempos livres eram semelhantes aos tempos livres de quase todos os outros estudantes, sextas-feiras de algumas liberdades, por vezes também os sábados, uma cerveja ou um shot, desculpem, mas aqui só mesmo o anglicismo transcreve fidedignamente a coisa, de vodka ou bagaço, mas tirando isso não se lhe conheciam noites de bebedeiras ou outras más vidas, regressava sempre a casa cedo, os pais não tinham de que se preocupar.
Mas alto e para o baile! E se isto que se acaba de ler, apesar da fluência, não é um corridinho, pode ser um baile mandado pois se quem dita as voltas é o mandador, aqui o dito chama-se computador, refúgio diário do Francisco, mais ainda aos fins-de-semana, está agora explicado porque é que o rapaz, apesar de gostar da farra, regressava sempre cedo para casa e ninguém o podia acusar de vir já com um grãozinho na asa, se disse antes e se confirma, uma cerveja ou um shot e era tudo. Atinado era ele e pronto, está o Francisco caraterizado, vamos à ação que até agora foi pouca.
Ora não se pode dizer que os trabalhos escolares fossem assim tantos ou que o rapaz se empenhava exacerbadamente no seu curso, porque consulta aqui, leitura acolá, o que o Francisco mais gostava era de conversar com aquela brasileira simpática de quem um dia recebeu por e-mail a sua fotografia de rosto, tipo-passe e, mais tarde, passeando-se como uma verdadeira garota de Ipanema, olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, pelas praias do Rio de Janeiro, Ipanema, Copacabana, Angra dos Reis, num corpo escultural, dentro (?) de um reduzidíssimo biquíni, coisa pouco vista nas praias portuguesas, apesar do maravilhoso sol do nosso Algarve. Além dos predicados físicos era culta, educada, meiga e autónoma financeiramente. Dizia-se moça de posses, órfã de pai, que fora morto acidentalmente num fogo cruzado em plena avenida Brasil entre gangues rivais. E o mais importante: apaixonada! E eram tantas as palavras doces, escritas naqueles cibernéticos bate-papos que o Francisco começara a ver telenovelas apenas para poder sentir o sotaque da doçura e a sensualidade das palavras batidas naquelas teclas no outro lado do Atlântico. E eis senão quando, um belo dia que se não sabe se de chuva se de sol, recebe o nosso Francisco uma passagem de avião só de ida, Lisboa-Rio de Janeiro, oferta da sua amada, com todo o amor e carinho. Adeus meu pai, abraço minha mãe, adeus também Faculdade de Direito, adeus Lisboa, ah táxi para que te quero, aí vai o Francisco rumo à Portela, adeus Portugal, tchau a todos que o meu destino está marcado, esta é a hora.
Foi só quando viu, aquela velhinha simpática à espera dele nas saídas internacionais do Galeão, com um pequeno cartaz que dizia "Francisco, Portugal! Estou aqui!" que lhe caiu a ficha e lhe vieram à memória as palavras do pai "Estás aqui, estás a voltar". A bruxa boa, neste caso, coitadinha e apaixonada, era a vovó. A neta estava a leste. E foi aqui, com a mesma determinação do mandador que ele terá pensado: palminhas acabou, mas houve alguém que se enganou.

PS. Este texto obteve uma menção honrosa na modalidade de Conto nos jogos florais de 2017 da UATI – Universidade do Algarve para a Terceira Idade, sob o pseudónimo de Padre António Vidigueira.
PPS. Este é um texto de ficção e totalmente criado pelo autor. Qualquer semelhança com pessoas, factos e locais cruzados é pura coincidência


Vítor Fernandes aka Constantino

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

228. Aquário (*)



o aquário: Chamavam-lhe chavalo. Era um misto de calão e de gíria em portunhol que se falava naquela povoação fronteiriça. O seu grande sonho era ver o mar. Não admira que fosse desejo de família. Quando nasceu nem hesitaram, pais e padrinhos estiveram sempre de acordo. Haveria de chamar-se Mário. Marinho para os mais íntimos. Chavalo para a rapaziada. Chavalo Marinho como que uma premonição. A vida para ele era uma festa. Todos os dias eram de carnaval. Juntavam-se caretos, fazia-se teatro. O teatro da vida. Veneziano, pois então, que as máscaras não tinham sido desenhadas para menos. Ele era sempre o protagonista. Montou o seu espaço. Chamava-lhe, sentimentalmente, o seu aquário. A comédia da vida, junto ao mar. Ou junto a um sucedâneo, por falta daquele. O seu aquário. Dele brotavam bolhas oxigenadas como que balões de festa ou respiração de peixes. E nem os dragões escondidos nos mentideiros como se de uma tourada sem touros se tratasse conseguiam arrefecer as águas. Eram dragões de fogo fátuo, efémeras lavaredas cuja água do seu oceano, o aquário de Chavalo Marinho facilmente extinguiam.

ele e os outros: Chavalo Marinho valia por toda a companhia - era o encenador e o ator principal - travestia peixes-macho em peixes-fêmea , fazia anémonas parecerem medusas e cantava em falsete quando a baleia branca faltava aos ensaios. Os outros eram peixes, dragões e ervas subaquáticas. Tudo para ele era mar.

o drama: Tudo aconteceu de repente. Serafim, o pai,  bêbado que nem um cacho estava possesso.  A taberna estava fechada. O delirium tremens apoderava-se-lhe dos músculos. Tinha de beber. Invadiu o teatro, introduziu a cabeça no aquário e sorveu-o de um só gole. Engasgou-se com a cabeça de um robalo errante, uma medusa cobriu-lhe a cabeça. Continuaria bêbado mas não seria careca.

epílogo: Marinho acordou. Lá fora relinchou Pégaso o seu amigo equídeo, mas não alado, era real e não marinho e o pai não estava bêbado, nem careca. Tomou o pequeno almoço e foram à pesca. No rio. O mar ficaria para mais tarde. Perguntou-lhe doce e desconfiadamente:
- Papá, os dragões existem?



(*) Não encontrei na net o quadro de Agostinho Santos de onde fiz a leitura supra. Fica outro da sua interessante obra.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

227. Não se grita com as mulheres, ponto!


Era uma crise do caraças lá em casa. Não havia coisa que ele fizesse em que ela se não metesse. Não era por mal, ele bem o sabia, mas aquele vício desgraçado de meter o nariz em tudo deixava-o à beira de um ataque de nervos. Se ele estava na cozinha, ela chegava e aumentava ou diminuía o fogo. Se ele fazia o refogado, ela comentava a cor do estrugido. Se ele fritava um bife, ela falava-lhe do ponto. À mesa observava a quantidade de salada que ele comia ou não comia, se tinha deixado a cebola no prato ou não, se ele deixava ou não deixava a carne agarrada ao osso das costeletas. À hora da sobremesa se ele se levantava para ir buscar cerejas ela contrapunha que também havia melão. Nos dias em que ele vestia uma camisa aos quadrados comentava que se calhar uma às riscas ficava melhor e perguntava-lhe muitas vezes porque é que não levava os sapatos castanhos em vez dos pretos. Quando o apanhava a ler perguntava-lhe se não era melhor acender a luz da mesinha de sala em vez do lustre e na casa de banho comentava-lhe o vício de dobrar o papel higiénico antes de o usar ou porque é que ele não apertava a bisnaga do creme dentífrico de baixo para cima. No dia em que lhe observou que ele ainda não tinha posto champô na cabeça e já se estava a enxaguar foi o entornar do copo. Ele deu-lhe dois berros que fizeram estremecer o apartamento e a torneira da água começou a soluçar. Debaixo de uma lágrima furtiva ela jurou que nunca mais se meteria nos assuntos dele.

Encontrou-o morto em cima da cama. Avisou-o apenas ao fim de três dias com medo de ser acusada de andar sempre a meter o bedelho onde não devia.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

226. A história de um passarinho

A história que vos trago hoje foi escrita a partir de uma proposta feita pelo José Teixeira o nosso professor de Teatro no Centro Social e Paroquial Padre Ricardo Gameiro na Cova da Piedade, Almada. A ideia de ter utilizado uma paisagem russa e o nome dos personagens serem em russo, surgiu-me devido ao facto do meu neto Daniel ter começado, por conta própria, a aprender o alfabeto cirílico e ser capaz de ler palavras escritas em russo. Portanto dedico o conto ao Zé Teixeira e ofereço-o ao Daniel. Convosco, partilho-o.




птичка, o passarinho

Em tempos que já lá vão, na longínqua Rússia, junto ao mar Cáspio, havia um passarinho chamado птичка que era um passarinho rabilongo e que sempre habitou nos pomares do senhor Gervasio Gervasovich. Andava sempre de raminho em raminho, de figueira em figueira, nos ramos das oliveiras caspianas, tendo chegado mesmo, em tempos um pouco mais atrasados, a habitar um apartamento, a que ele chamava, orgulhoso, "мое гнездо", no quarto ramo a contar de cima do grande diospireiro no quintal das traseiras. Mas o senhor Gervasio Gervasovich modernizou-se muito. E um dia, quando a folha do limoeiro começou a encarquilhar e as ameixeiras e os pessegueiros se encheram de вшей que é com quem diz piolhos, o senhor Gervasio Gervasovich foi à drogaria da великая битва улица ou seja à Rua da Grande Batalha, comprou pesticidas para matar a moléstia e depois limpou muitos ramos e muitas folhas das árvores e, mesmo no meio do pomar, fez uma grande queimada. O rabilongo птичка, a quem muitos meninos também chamavam o ряби que como todos sabem quer dizer Ondinhas em russo, porque voava sempre como que fazendo ondas no ar, acabou por adoecer. Primeiro com o fumo que respirou da queimada que o ia intoxicando por completo e finalmente com o mal que lhe adveio dos químicos do senhor Gervasio Gervasovich. Até que, quase sem forças para voar, caiu desfalecido no meio do pomar do senhor Gervasio Gervasovich. Quando o homem viu o птичка ali caído, teve alguma pena pois que até tinha sido um neto que lhe ensinara o nome e pensou que ainda iria sentir saudades do seu belo canto. Mas já não havia nada a fazer... E pegando-lhe por uma asa jogou-o cerca fora para cima duma montureira. É então que a gaivota чайка, ao ver ali o птичка, a respirar tão mal, resolveu que hoje a sua refeição não seria de peixe mas sim de um belo bife de passarinho rabilongo. Prendendo-o no bico deu duas voltas no ar, e eis, senão quando, suprema das guloseimas, avistou, quase ao rebentar das ondas da praia das costas do Mar Cáspio, um grande cardume de arenques bebés. A babar do seu curvo bico e voando picado em direção ao cardume, deixou cair o passarinho птичка  no meio daquelas vagas de alva espuma. Logo ali se formou uma conferência de peixes que, ao avistarem птичка  e verificando que não se tratava nem da sua inimiga gaivota чайка, nem qualquer uma das suas irmãs, se reuniu à volta do rabilongo. Todos opinaram, pois todos achavam que eram importantes na conferência suprema de peixes já que todos eram conhecidos pelos seus nomes próprio, o carapau ставрида  e a sardinha  сардина, a lula кальмар  e o goraz лещ, a pescada хек  e o pargo порги. Mas foi o tubarão акула, de altivo porte, que fez com que todos os outros se afastassem à sua chegada, quem ditou a sentença: "Tal como vocês, seus peixes minúsculos, dizia ele que era tubarão, não gostam de ser comida das aves, também nós peixes não devemos devorar passarinhos. Assim determino que esse rabilongo moribundo, que nem sequer está morto e quem sabe ainda se venha a restabelecer, seja já enviado para terra". E foi assim que uma tainha,  de seu nome кефаль se propôs a fazer de prancha e, colocado que foi o passarinho птичка em cima da tainha кефаль pelo focinho inteligente do golfinho дельфин, lá foi o passarinho птичка  a surfar na tainha кефаль até acabar, ainda mais débil do que estava antes, nas areias da praia caspiana.  Mas o destino tem coisas que nos surpreendem e se isto que vos estou a contar não fosse verdade, até parecia mentira. Um menino russo de pele muito branquinha e cabelo loiro, que por ali estava com os seus progenitores, ele russo, ela ucraniana, a brincar no areal depois de mais um dia de aulas, em russo está de bom de ver, ao ver uma coisa estranha na areia, aproximou-se e ouviu um piar muito sumido; tão fraquinho, tão fraquinho era o piar do птичка que o menino nem acreditava que ele pudesse estar vivo. Aos gritos de Отец!, Мать!, pai, mãe, pai, mãe, por favor, Помогите! Socorro! acudam (os putos russos fazem tanta chinfrineira como os putos portugueses), conseguiram os três pegar no passarinho птичка, enfiá-lo num casaquinho de malha vermelho que a mãe tinha feito para o pai assistir no sofá aos jogos do Sport Mar Cáspio e Benfica e dar-lhe algum calor. Chegado a casa, o Aleksandr Alexandrov, assim se chamava o menino, ajudou os pais a secarem o птичка, deram-lhe água por um conta-gotas, tendo contado até dez em russo, один, два, три, четыре, etc, já que o pássaro apresentava sinais de desidratação evidentes e quando este pareceu querer retomar a respiração esmagaram alguns grãos de soja e esfarelaram um pouco de pão de trigo que tinha sobrado de véspera e estava ótimo para esfarelar. Horas depois, o nosso querido птичка já comia e já voava. Três dias depois de tanta preocupação, cuidados e afeto, quando tudo indicava que птичка  já seria o pássaro mascote da família, o passarinho rabilongo bateu asas e saiu janela fora. Todos os dias, o bom do Aleksandr Alexandrov vai ao cimo do morro perto de sua casa,  mal a campainha da escola toca para a saída, olhar para a praia para ver o seu птичка   a voar e a brincar com os tubarões.


© Texto e foto do autor do blog. Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

225. Os três planetinhas e o meteorito mau



Para o meu neto Daniel que faz 5 anos no próximo dia 12, uma adaptação livre da conhecida história dos Três porquinhos. Ele que é um admirador do Sistema Solar...



Os três planetinhas e o meteorito mau

Era uma vez três planetinhas que gostavam de brincar na galáxia. A sua brincadeira preferida era o jogo das escondidas. Tão depressa desapareciam e ninguém os encontrava, como apareciam, à noite, brilhantes no firmamento. Por vezes só apareciam pela metade mantendo a outra metade às escuras. Se os restantes astros não os conhecessem bem e não soubessem que quem tem cauda são os cometas e não os planetas, acabariam por dizer que se tratava de planetas escondidos com a cauda de fora. Mas não. Eram mesmo planetas.

Um dos maiores sonhos do planeta mais velho era vir a pertencer a uma constelação, mas depois de consultar muita literatura e perder horas com o iPad a ver youtubes atrás de youtubes, de maneira que até ficava com a cabeça à roda de tanto pesquisar, chegou à conclusão que a casa dele nunca poderia ser uma constelação, pois essa era a organização habitacional das estrelas e não de outros astros, mas apenas uma órbitra da qual não deveria sair sob pena de se vir a estatelar num qualquer buraco negro. Contentou-se, assim, em pertencer a um sistema planetário, girando com os seus irmãos mais novos à volta de uma grande estrela. Giravam tanto, tanto, tanto, em elípticas repetitivas e mesmo à volta deles próprios, como um gato a tentar apanhar a sua própria cauda, que por vezes chegavam a ficar com tonturas de cabeça.

 O planeta do meio sonhava ser cometa. Um dia ainda tentou fugir de casa. Sem que ninguém o visse, durante o dia, pois que à noite seria bastante notado, desde que estivesse acima da linha do horizonte e andasse na sua fase iluminada, foi, pé ante pé, ter com um asteroide amigo dele e perguntou-lhe onde é que poderia comprar uma cauda. Mas não teve sucesso. O asteroide indicou-lhe a barbearia do Sr. Tesourinhas que um dia cortou o rabo ao macaco Chico, mas este já não o tinha, pois que o barbeiro já havia trocado o rabo do macaco por um saco de sardinhas e assim, coitado, continuou a viver na sua posição intermédia, entre o planeta mais velho e o mais novinho, este sim um verdadeiro cabeça no ar, sempre na rua, sempre a tentar sair da órbitra da estrela que o iluminava, um grande desobediente, em resumo.

Pois o mais novo, um planeta engraçadinho, como são engraçadinhas as coisas pequenas, os gatos, os chinchilas, os bebés, era um doidivanas. A alegria dele era andar a brincar na rua com os cometinhas, com as estrelinhas, até mesmo com as pequeninas estrelas cadentes, sem saber o perigo que era quando os pais delas apareciam por perto e todos de mãos dadas, que é como quem diz de órbitas conectadas, cantavam em algazarra no vácuo do firmamento, sem que outros os pudessem ouvir:

"quem tem medo do meteorito mau, do meteorito mau, do meteorito mau?
quem tem medo do meteorito mau, do meteorito mau, do meteorito mau?
lá lá lá lá lá..."

Um dia, o meteorito mau aproximou-se sorrateiro, da roda que os pequenos astros faziam e onde se divertiam, mas a uma velocidade tal, que se não fosse o brilho que tinha e o calor que emanava ninguém tinha dado por ele. Foi tal a ventania cósmica que provocou, que fez com que o jovem planetinha desse duas voltas no ar saísse da sua própria órbitra, deambulasse pelo espaço durante milhões de anos e fosse cair no sistema solar. Ficou bastante para lá de Plutão, e é agora conhecido por Makemake.

Não contente com o que tinha feito o meteorito mau passou também perto da casa do planetinha do meio. Este que sempre sonhou ser cometa e voar dali para fora e, depois do que tinha visto acontecer ao seu irmão mais novo, nem hesitou. Abriu a janela e deixou-se empurrar pelos ventos provocados pela passagem do meteorito. Deu tantas voltas no ar que até a respiração lhe veio a faltar. Infelizmente para ele, apesar de ter esticado os braços, não conseguiu apanhar o rasto provocado pelo meteorito mau e foi tal o esforço que fez que acabou por desmaiar. Quando acordou encontrava-se na órbita do Sol como mais um planeta anão do sistema solar. Tinham-lhe dado um novo nome, chamava-se agora Éris e era um dos maiores planetas anões atualmente conhecidos.

Quanto ao planeta mais velho e também mais experiente, ao ver o que acontecera aos irmãos, fora bem mais preventivo. Pediu ajuda à estrela à volta da qual girava, solicitou-lhe que ela o prendesse ainda com mais força, de tal maneira que o meteorito mau ainda tentou entrar pela cratera de um vulcão que estava no planeta a servir de chaminé mas não conseguiu. Fez tanta força, mas tanta força, este meteorito mau, que estoirou e transformou-se em milhões de partículas incandescentes. É por isso que no mês de agosto se vê nos céus um autêntico festival de estrelas cadentes.   

terça-feira, 15 de março de 2016

224. Vinte de março de um ano bissexto ou a primavera dentro de nós



Naquele dia, Jorge não acordou muito católico... a festa da véspera caíra-lhe na fraqueza pois que, por mor de um trabalho urgente e demasiado exigente, passara o dia inteiro apenas com uma hamburguesa de tofu no estômago. Saíra do escritório diretamente para casa do Pedro, onde os quatro da vida airada, companheiros de muitas peripécias e aventuras enquanto estudantes, o Pedro, o Aires, o Timóteo e ele iriam comemorar qualquer coisa que a sua cabeça, hoje demasiado confusa, não se conseguia lembrar. Bebeu álcoois das mais diversas origens e proveniências, destilados misturados com fermentados, umas tapas de requeijão e outras com trufas francesas em molho de gengibre e nozes, jogou uma partida de bridge até que Madalena, a namorada de Pedro, chegara com umas amigas, oh-lá-lá de aspeto e ousadia, e mais não se poderá contar desta noite de todos os pecados, terá de ser o próprio leitor a imaginar, se é que não está já a congeminar luxuriosos desfechos. Jorge apenas jurava que não podia ser por causa de uma noite mal passada, ou bem, conforme a perspetiva, pois dessas, iguais ou semelhantes na forma e nos conteúdos, tinha ele conta que chegasse, ultrapassando em muito as tabelas da tabuada convencional. O que o martirizava era que na cabeça dele lhe não ocorria às quantas andava, que é como quem diz, não sabia nem de data nem de hora, pois que se vivesse no campo, em vez de num arranha-céus nas Laranjeiras, isso lhe não escaparia. O galo da tia Anastácia se encarregaria de o avisar. Que raio de coisa haveria agora de lhe ter vindo á ideia... o galo da tia Anastácia há muito tinha sido consumido numa cabidela deliciosa. E quanto mais no seu cérebro se discorria em desfile, numa confusão de sambódromo, pratos, ementas e petiscos, maiores eram as voltas que se lhe dava no estômago como se fossem de bêbado as suas sensações. Abriu a janela para tomar ar e a luz radiosa de um dia azul, embora fresco de Março, feriu-lhe de imediato o olhar. Lá fora, onde a jornada ia a meio, um misto de odores a gasóleos queimados do intenso tráfego que povoa o eixo norte-sul e o cheiro enjoativo a jasmim que desponta em canteiros e beirais, preparava-se para ser o detonador. Sem mais delongas, correu desesperado para  a casa de banho, colocou a cabeça quase dentro da sanita e, num impulso convulsivo, expeliu de dentro dele, do mais profundo das suas entranhas, um ramo de malmequeres viçosos, de um branco natureza puro, pontuado no centro a amarelo-gema, como se cada cálice de malmequer fosse uma chávena de leite com vapores de neblina. Todos os anos isto lhe acontecia e o sonho, nesta noite de transição, embora de caraterísticas muito variadas, era recorrente. A primavera despertava sempre de dentro dele onde apenas o bouquet floral variava, mas este ano viera um dia mais cedo por ser um ano bissexto. E lembrou-se, escondido num sorriso dissimulado pelos olhos entreabertos e feridos de primavera, de que no passado regurgitara um ramo de rosmaninho.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

223. Carta ao Futuro (Janeiras)


Querido Futuro,
espero que esta minha carta te vá encontrar em perfeito estado que eu por enquanto cá vou indo, com um pouco de tosse é verdade, mas que não faço a mínima ideia como me encontrarei no dia em que, futuramente, receberes esta missiva.

Tenho grandes dúvidas sobre o Tempo, principalmente sobre o Futuro. Sei que pertences a Deus, pelo que por cá é dito, ou seja, que só a Deus tu pertences, isto a acreditar que no futuro ainda há Deus, uma vez que por cá o tratam tão mal mesmo que lhe chamando outros nomes, desde Jeová a Alá e, se uns passam o tempo a dizer que nunca haverá futuro tratando de acabar o mundo em cada efeméride, outros há que, invocando Alá, acabam com o mundo deles e com o mundo dos outros num simples troar de trotil, mesmo o daqueles que pensavam que um dia iriam ter-te, isto é iriam ter Futuro.

Mas meu caro Futuro, se a Deus pertences que Ele te conserve por muitos e muitos anos porque tu ainda nos vais fazer muita faltinha. Só para te dar dois exemplos da falta que nos farás, não te esqueças de preservar a água porque irá escassear drasticamente, no dizer dos cientistas e trata já de contratar uns pedreiros espaciais, não esperes que sejam outros Futuros teus descendentes a fazê-lo, porque nunca é tarde para começares a tapar aquele buraco do ozono que nos provoca um aquecimento do catano, hoje em dia conhecido como global. E por falar em calor, diz-me lá se por aí voltou a moda do topless que aqui isso já foi coisa do passado e eu estou na idade de começar a ter só recordações. Quero dizer ainda não cheguei à idade provecta como certos amigos meus, mas acho que ao teu colo, isto é pela tua mão, meu caríssimo Futuro, lá chegarei.

Dizem que esperar dias melhores é uma questão de Fé. Pois é, meu caro, se calhar é, mas a Fé e o Futuro, como sabes melhor do que eu, são irmãos. Já agora antes que me esqueça, um beijinho fervoroso para a tua irmã Fé, que tanto me tem dado apoio em dias menos brilhantes. É que a Fé nunca é coisa do passado mesmo que de lá provenha, é sempre do Futuro mesmo que eufemisticamente confundida com a tua outra, a Esperança, graças a Deus também muito boa rapariguinha, e que se sabe que será de todas a última a morrer, provavelmente mesmo depois de ti, não leves a mal, ó Futuro, mana essa a quem costumo dedicar uma dúzia de passas de uva sem grainhas, no virar do ano, para outros tantos ensejos.

Sim meu caro Futuro porque dessa missão também tu te não livras. Se ainda há poucos dias eras Presente e no virar da folha do calendário já eras Passado, é nesta tua reencarnação como Futuro que depositamos os nossos ensejos. Não, não te apoquentes, ensejos não é um palavrão e muito menos lixo, é uma coisa boa, não é fazer de ti nenhum aterro sanitário nem forno de coincineração. Os nossos ensejos, sabemos nós e tu o confirmarás quando perderes o ceticismo, tu e os que são céticos em relação a ti, Futuro, ficarão muito bem à tua guarda. Não é por acaso que te escrevo, já deverás ter reparado.

Pois a partir de hoje, designo-te testamentariamente fiel depositário dos meus ensejos. Que outra demonstração de confiança poderia eu dar a outro alguém ou pedaço de tempo? Só tu Futuro mereces que te confie todos os meus desideratos.
Sei que nestes dias de início de ano andas sempre muito atarefado. Quanto mais não seja para salvaguardares as tuas queridas manas, a Fé e a Esperança para que não continuem a ser vilipendiadas por quem nada quer de bom para ti e para os teus, mas também a organizares espaço para acomodares as Esperanças de alguns outros e as Fés de muitos mais. Em cima de ti recai todo este ónus. Mas não te preocupes, sempre assim foi e sempre assim será.

Tens, é óbvio, a tua quota parte de responsabilidades. Tivesses em tempos, quando te conheciam por Passado e mesmo mais recentemente quando te rebatizaram de Presente, cuidado um pouco mais daqueles por quem deverias ter zelado e te desleixaste, quer por influência de bacocas demagogias, quer por interesses camuflados, pouco preocupados a não ser com o seu próprio Futuro, como se o Futuro pudesse ser uma coisa privada ou privatizável, e outro galo cantaria, quero dizer Futuro, que teria uma vida bem mais descansada. Mas tu deixaste que isso acontecesse, inadvertidamente é certo em algumas ocasiões, mas absolutamente conivente em outras. Sei que de algumas te arrependes mas o que te peço meu caro Futuro é menos arrependimento e mais ação. O Futuro não pode ser um lamechas muro de lamentações, precisa de ser ativo. Eu em próxima carta tentarei dar-te algumas dicas e quiçá mesmo diretivas. Bem sei que esta frase já te está a fazer pensar que agora sou eu a querer privatizar o Futuro e a tentar tratá-lo como meu. É capaz. Alguma parte será assim, mas debateremos profundamente as questões e aquilo que tu Futuro achares que não é o património comum que asseguras, aceito que te recuses a fazê-lo para mim.

Escrever-te-ei de novo noutra ocasião. Cumprimento às manas.

PS. Olha, se não achares que isto é meter uma cunha, trata-me bem da saúde. Quanto ao dinheiro, um dia explico-te o que é isso do Euromilhões. Beijinhos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

222. Bolo de Natal



Ingredientes:

Um fardo de palha
Um burro
Um bovino de raça barrosã
Um homem
Uma mulher grávida
Uma garrafa de coca-cola
Um Pai Natal barrigudo
Um centro comercial
Um menino descalço
Um menino calçado

Tempo de preparação: menos de 24 horas

Numa barraca qualquer, entre Nazaré e Belém ou mesmo na margem sul, desapertam-se com cuidado os arames do fardo, não vá o vento tecer indesejáveis sopros, e espalha-se a palha pelo chão. Cuida-se para que o burro esteja de ventas tapadas pois se a cheira lá se vai a cama da criança. À vaca, quiçá boi, aconselha-se que esteja de dieta, que só coma produtos à base de soja transgénica, para que esta também não desate a ruminar palha seca de centeio e forragem.

Enquanto a palha assenta, um dos segredos deste preparo, dão as dores do parto à mulher grávida e o homem que se chama José desata aos Ai Jesus onde é que eu me vim meter e puxando dos galões de mecânico encartado mas que não passa faturas, Ainda se fosse uma motorizada ronceira a deitar fumo negro pelo escape ainda vá lá e, tentando imitar o outro, Ou até mesmo a fazer uns armários novos de cozinha, mas assim de repente a servir de parteira é que não sei mesmo para onde hei de me virar.

Uma meia hora depois da palha espalhada deita-se a mulher num cantinho confortável, onde o bafo de vaca, quiçá de boi, pois que o sexo não foi determinado nos ingredientes, a aqueça, já que este mês de Dezembro não está muito chuvoso, nem muito frio, mas mais logo, a noite não é de se fiar.

Entretanto enquanto o homem anda de um lado para o outro, para não arrefecer, já  que a caminhada o manterá na temperatura ideal, Ai Jesus, ai Jesus, acendam-se as luzes do centro comercial pois já à sua volta vai um corrupio de gente babada por tão deliciosa receita. Só falta mesmo a mulher, que por acaso se chama Maria, dar também ela à luz, que as montras já deram.

Coloca-se o menino calçado a chupar duas palhinhas numa coca-cola enquanto a mamã o senta  ao colo do Pai Natal barrigudo, de vermelho vestido como o rótulo da bebida, sem perigo de se queimar pois este é inofensivo, não é pedófilo só porque anda com as criancinhas ao colo. Quando esta mistura, menino calçado, coca-cola, Pai Natal barrigudo, estiver quase pronta começar-se-á a atingir o ponto consola PS4, que o menino calçado pediu. Quem não se consola, é o José que ainda anda de um lado para o outro aos ais. Reservemos então José para mais tarde, mas nunca menos que morno.

Preparemos agora em banho Maria a finalização do prato, perdão do parto. Deixem-na gritar agora por uns momentos, tragam água quente para a lavar e para lavar o menino descalço que vai nascer, há de chamar-se Francisco que é o nome do avô,  enrole-se o menino descalço nuns panos para que não arrefeça. Encoste-se o produto final ao bafo da vaca, quiçá boi, e do burro que não tocou na palha.


Lá fora, enquanto os vossos companheiros ou companheiras pensam nas anjinhas celestiais de Victoria Secrets ou sonham com os Bombeiros de Setúbal e entoam mentalmente um jingle bells, com um copo de whisky e duas pedras de gelo, ou com um licor Beirão, vá à varanda e veja a nova estrela que nasceu no céu. É que, se nasceu descalço, no meio da palha e é um menino, então está pronto o Natal.  Provem porque o nascimento é mesmo uma confeção deliciosa.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

221. A bruxa Josefa



A bruxa Josefa

Sorrateiramente, sem dar os bons dias a ninguém saía Josefa de casa todas as manhãs, bem cedinho. Sem dar os bons dias a ninguém era uma maneira de dizer porque ela, pela sua própria boca, eram as outras pessoas lá da aldeia que lhe viravam a cabeça e fingiam não a ver. Estava sempre preparada para uma boa intriga e então com a vizinhança nem se fala. Sabia-se que ela era invejosa, trapalhona, mau-caráter, ensarilhadora  de perfeição, e até se afirmava à boca pequena, não fosse o Diabo tecê-las, que aquela mulher, a Josefa da Arminda, que Deus lá tenha a alma em descanso pois era uma santa de uma mulher e logo houvera de ter tido uma filha assim, era uma bruxa. Na aldeia, onde outras pessoas gostam também de fazer meia e liga a par das conversas sobre a vida alheia não havia quem não falasse mal de Josefa, poucas lhe queriam bem, pois gente de Satanás, longe da porta, longe da porta. Houve um casamento que se desfez com o noivo já no altar da igreja, uma jovem que se afogou na ribeira, sem que se lhe conhecessem problemas de cabeça, dois pastores que dispararam um no outro por causa da morena Jacinta, ainda por cima desdentada, uma manada de vacas solta a meio da noite que invadiu as estradas e fez com que o jipe da GNR se tenha despistado e caído numa vereda, a mulher do Dr. Bernardes, vejam lá tão bom médico, coitado, que fugiu com um caixeiro viajante e tantos outros sarilhos à conta das intrigas que diziam serem obra da Josefa que se aqui se fossem a relatar todas, qualquer um de vós arrepiaria caminho antes de passar às portas daquela aldeia, que é como quem diz, passariam a léguas. Todos os dias Josefa saía manhã fora, direita aos campos, ninguém sabia de como se sustentava ou quem a sustentaria, pois homem nunca fora visto a galgar-lhe a cancela e só voltava quando a  alcofa de vime abarrotava de ervas e ervinhas, arbustos e bagas, algas da ribeira e até de fungos que se diriam incomestíveis. Houve quem jurasse tê-la visto chegar, um dia, com uma cabeça de porco sangrante, ela que não criava bichos e ninguém nas redondezas se queixara de roubo, dentro da alcofa e outros que não, que não seria porco, mas também que sim que poderia ser e então galinhas nem se fala pois que raro não era que apareciam nos galinheiros com as cabeças cortadas, principalmente as pretas e pedreses, coisas do escuro da noite e aquilo, jurava-se, não era coisa da zorra, antes obra do demónio.

A verdade, verdadinha , é que o cheiro das sopas e dos caldos que provinha da casa da Josefa, daquele caldeirão fumegante, supostamente negro como seriam negras as rezas da misteriosa mulher, perfumes silvestres à mistura com cheiros de enchidos de carne cozida, deixava todos os fins de tarde a aldeia hipnotizada. E no meio de cada casa, nos quintais ou azinhagas, parados e petrificados como que por encanto, porque se sabe já que Josefa é uma mulher especial que além de intriguista é uma verdadeira bruxa, pareciam mais mortificados do que os mortos, casais e filhos de casais, casais sem filhos, homens e mulheres solteiros e solteiras, novos e velhos e outros muito velhos, com as cartas da bisca na mão sem a poderem jogar nas mesas de granito da taberna, crianças em frente a uma bola ou um arco ou um pião sem se mexerem, os músicos num mudo e triste silêncio numa estranha estatuária em cima do coreto, cães que não ladravam, gatos que não miavam, galinhas que não cacarejavam, alimárias que não zurravam. Na aldeia só se ouvia a voz monocórdica e zumbida de Josefa a cantar e as sombras de uma dança à volta do caldeiro e ao longe, lá muito longe nos confins da serra, quando o vento era de feição o som dos lobos a uivarem.

© Vítor Fernandes

terça-feira, 9 de junho de 2015

219. Um déjà-vu ou hoje na fila dos correios


Pareceu-me mesmo a voz do Xico

Xico é um cão. Um pequeno chihuahua  de quem a dona, uma francesa famosa desde que foi protagonista de um romance de ficção, não descolava. Não podia o pobre bicho ir fazer chichi  ou cocó que a francesa não fosse com ele. Até naquelas intimidades que os pequenos bichanos têm com as minúsculas bichanas da sua raça, ela tinha de estar presente. É claro que o Xico ia aos arames, como se diz na gíria popular, ou talvez em francês aller aux petits fils. E portanto o Xico ladrava uma vezes e rosnava outras. E ela, a francesa, achava-lhe uma gracinha, ao seu chien, ao Xicô, como ela tinha a mania de pronunciar, sem saber se o Xico ladrava de contentamento ou rosnava de aborrecimento já que a sua voz se confundia ou o bicho é que era confuso.
Estava hoje eu na fila dos correios, com o fito de expedir mais alguns exemplares do meu último romance, quando, atrás de mim, uma senhora francesa conversava, em francês, está claro, com o companheiro acerca de não sei o quê, pois isso não me interessou, apenas aquela pronúncia me parecia familiar. Tremi e um pouco timidamente voltei-me. Dou de caras com uma senhora que em nada era parecida com a "minha" francesa. Disfarcei, trocamos sublimados olhares, cada um retomou a sua compostura, mas da bolsa de tiracolo, soou a voz esganiçada e ameaçadora de um chihuahua. Ou aquilo foi mais um dos meu dejá-vu ou então era ele. É que pareceu-me mesmo a voz do Xico.

© Vítor Fernandes

quinta-feira, 30 de abril de 2015

217. Frágil mocidade



Frágil mocidade

Outros tempos, outros usos. No entanto, pouco deverá ter mudado na mentalidade do ser humano. Nada, diria mesmo, no que respeita a sentimentos, a paixões, a inocências perdidas. A avó, crítica feroz de toda a modernidade, casara grávida sem ninguém saber, a não ser os seus próprios pais. Mais tarde ameaçava esbofetear o primeiro ou a primeira que lhe jogasse isso em cara. Severa no porte, era a última a sentar-se na cabeceira da mesa, desde que enviuvara e, mal chegava, logo a família se punha em pé para a receber. Depois sentava-se, sentavam-se os outros e agradeciam a Deus mais uma refeição. Não se comia antes de se rezar, nem ninguém se levantava da mesa sem, divinamente, agradecer a refeição.

Dona Maria Amélia, Melita na intimidade, nasceu numa família remediada da serra algarvia. Os pais eram rendeiros abastados, em abono da verdade, o pai. A mãe, senhora de muitos dotes, era mulher de casa, tocava piano, instruía a criadagem,  fazia as contas da casa, coisa rara naquele tempo e bordava, dedicando a maior parte do seu tempo ao enxoval das filhas. Os lençóis de linho, bordados por ela, brilhavam no meio do mais fino bragal. Todo o dia metida em casa mas, mesmo assim, não menos atenta,  as ausências de Melita nunca lhe passaram despercebidas. Ir ao poço ao cair do dia, não ficaria bem, se não fosse acompanhada de Genoveva a fidelíssima criada e na carroça do Manuel Penteado, o cocheiro que já fora dos seus pais.  Nada poderia acontecer à sua filha.

Dona Maria Amélia, tinha os olhos rasos de lágrimas. Uma mulher de sessenta anos chorava com o daguerreótipo de sua mãe encostada ao peito. Lembrava-se dos seus vinte anos, da sua mais pura ingenuidade, da fragilidade da mocidade de então. Tinha ido na conversa bonita, quase poética, do seu amor de uma vida. Ildefonso tudo lhe prometera, mas a promessa de que ela seria a mãe dos seus filhos caiu-lhe no mais fundo do seu íntimo. E nem Genoveva, nem o cocheiro, que se entretinham um com o outro, evitaram o inevitável. Depois, Ildefonso partiria, emigrando sem dar água vai, nem água vem. Apenas um telegrama quando já se albergara por terras de França. Os pais de Maria Amélia, socorreram-se de um primo afastado, um tipo que embora fosse um pouco "poucochinho" e fraco de tino, tinha algo de seu por generosa herança,  que garantiria qualquer coisa que se visse a Maria Amélia. Ninguém saberia, nem soube, que o pequeno Afonso não era filho do primo Manuel do Ó. Dona Maria Amélia chorava agora agarrada à imagem emoldurada da senhora sua mãe. Não. Sandra não sofreria a mesma humilhação que ela. Se a sua neta quisesse ter o bebé que o tivesse. Afinal as fragilidades da mocidade eram iguais às do seu tempo, mas ela, apesar de toda a sua austeridade, não tinha já nada a ver com aquela bonita bordadora que um dia, para salvar a honra do se sua casa e a reputação do seu remediado e prestigiado marido, que cofiava o bigode em salões dançantes e em bordeis de espanholas a fizera casar com o já falecido Manuel do Ó, seu primo e pai de seis dos seus sete filhos. Que Deus lhe tenha  alma em descanso.

©Vítor Fernandes

30/4/2015

terça-feira, 28 de abril de 2015

216. Teoria musical




Teoria Musical

Ele bem se esforçava. Primeiro comprou uma pandeireta, depois duas maracas e mais tarde um berimbau. Havia de aprender música nem que para isso, toda a biblioteca da FNAC, da Bertrand ou da Leya ficassem esgotadas dos manuais do mestre Eurico Cebolo. Ao reparar que tinha alguma queda para os ritmos não hesitou, depois de soprar no saxofone, tocar acordeão e xilofone com bastante esmero, comprou uma viola e uma guitarra portuguesa.

Naquela manhã o meu colega Inácio Pedro estava lívido. O ar alegre que punha quando entrava no escritório a assobiar uma polka num dia, uma tarantela ou um tango no outro, uma zarzuela ou um samba ou bater com o lápis no computador para acompanhar uma imaginária bossa nova, um irreconhecível bolero ou a cantarolar uma ópera heroica, tinha desaparecido. Pensávamos todos que horas e horas a dar folga ao sono, estudando colcheias e semicolcheias,  acordes maiores e menores, tónicas e dominantes, escala uniformes e biformes, compassos de espera ou de silêncio e até enarmonia nos acordes de sétima diminuta, lhe tinham dado a volta à cabeça e o rapaz se tivesse passado. O Inácio Pedro não só estava lívido mas também nervoso, apático e ausente.

Vim a saber, mais tarde, que o Inácio Pedro nunca se entendeu com a guitarra portuguesa. De um conhecimento circunstancial com um rufia que se dizia, e até parecia, exímio tocador de tão nobre instrumento até metê-lo em casa para lições particulares não demorou um fósforo a arder. Quando naquele dia, por força da paixão e amor à causa, se demorou um pouco mais para trazer umas partituras que um tocador da velha guarda lhe haveria de arranjar, apanhou em sua própria casa o vadio a tocar guitarra no corpo de Rosita, a sua tão bela e dedicada esposa. Nunca mais para ele, um mulher seria como uma guitarra.

©Vítor Fernandes

28/04/2014

segunda-feira, 16 de junho de 2014

214. Micá retoma-se mais de um ano depois



Liguei-lhe. Afinal de contas sempre fomos dois bons amigos e eu, homem de palavra, tenho dito e insistido que um dia ainda contarei a sua história. Ou pelo menos tanto quanto sei da sua história. E se ainda não o fiz temos apenas que lamentar o facto de um dia ter somente vinte e quatro horas e não as necessárias e suficientes para que tudo o que engendramos o façamos. Liguei-lhe mais de uma vez. A primeira foi ter ao voice mail. Aliás, não foi. O cliente não tinha voice mail ativo, dizia uma gravação da operadora em entoação radiofónica. À segunda pareceu-me ter ouvido um clique de desligar. Talvez fosse impressão minha, mas fiz um compasso de espera. À terceira atendeu. Já sei que já estão a pensar no cliché que diz que à terceira é de vez. Pois bem. Foi mesmo à terceira e lá estava ele, com voz de quem tinha acabado de acordar. Convidei-o a irmos tomar café à Costa. Verdade seja dita que na Costa mora ele. Desde que se enrolou com uma sexagenária viúva que foi morar em concubinagem com a dita, se bem que ele se não é sexagenário para lá caminha, não lhe falta muito, cabelos brancos já os tem e nem sequer os disfarça, diz que dá charme. Eu moro um bom bocado mais longe mas como quando lhe liguei já estava escanhoado e de banho tomado, lesto me aprontei e ao caminho me pus, percorrendo os, não muitos verdade seja dita, quilómetros nos separavam. Escusado será dizer que Eduardo demoraria mais de meia hora a se me juntar. Deu-me um abraço como se não nos víssemos há anos, o que não me espantou já que estes gestos eram caraterísticos deste meu extravagante amigo de quem um dia contarei a história de vida. E como não podia deixar de ser falamos dos estragos que o temporal e as marés vivas fizeram na Costa, cujo degradado espólio desacorçoadamente contemplávamos, falamos um pouco de política que era uma das paixões de Eduardo, a seguir às mulheres e aos bons whisky de malte escoceses, não pude deixar de ouvir, quiçá pela trigésima vez a história, se bem que desta vez resumida da sua viagem às Highlands, onde terá visitado destilarias e jura ter adormecido por baixo de um alambique. Inevitável mesmo foi falarmos dos serões em casa de D. Micá. Ele não está certo do que terá levado D. Micá a fechar as portas do salão, mas isso um dia esclarecer-se-á. A verdade, verdadinha e aqui não há como duvidar, é que Eduardo, a quem eu pensei que o convidaria para um café no intuito de o apanhar de surpresa, sabia perfeitamente, pois que a via regressar bastas vezes dos pontões de pedra na costa, montada na sua bicicleta, canas de pesca amarradas ao quadro, as galochas enfiadas no cesto das traseiras. Não há dúvidas nenhumas. D. Micá tinha-se dedicado, efetivamente à pesca.

domingo, 26 de janeiro de 2014

213. Todos os dias chove em algum lugar



Pensativa, olhou pela janela. Um pai, paciente, ensinava o filho a andar de bicicleta. Ainda com as rodas de apoio, a bicicleta parecia querer tombar mas não tombava. O pai vigiava-lhe as primeiras pedaladas. Um cão de pequeno porte saltava de um lado para o outro à frente do velocípede e ladrava alegremente. Cristina sorriu. Lembrou-se de outros tempos quando Ricardo era pequeno e Fred ainda não tinha abandonado o lar. As primeiras gotas começaram a cair e um vento desagradável começou a levantar-se. O pai recolheu a bicicleta e a cria, levando cada um por uma mão. O cão saltitava agora em frente aos dois e os pensamentos saltitavam na mente de Cristina. O vento ajudou a varrê-los. Ricardo há muito tempo que não telefonava e de Fred não fazia a mínima ideia se ainda existia. Foram poucos anos juntos, anos bons e anos maus, ou melhor dizendo, para ser mais preciso, anos com dias bons e com dias maus. Tudo acabou num fim de tarde quando as primeiras gotas começavam a cair. Fred entrou em casa com Ricardo por uma mão e a bicicleta na outra. Olhou para Cristina e não disse nada. Era inevitável. Saiu e foi com o vento. Sempre houve e sempre haverá até aos fins dos tempos, pais que ensinam os filhos a andar de bicicleta. E sempre haverá chuva e sempre haverá vento. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

212. O meu halloween



Ela detestava quando ele lhe chamava bruxa. Não é que ele fosse uma pessoa que irasse facilmente, mas por vezes a paciência tinha limites. E de impropério a impropério era um crescendo de agressividade verbal que custa a transcrever. Muito o desgraçado suportava e o mês de outubro era o culminar do santo ano, naquilo que ele chamava o caldeirão das imbecilidades. Começava no primeiro dia do mês. Ela ia à garagem, a qual apenas servia de arrecadação e, em local que ela conhecia como ninguém, numa bagunça de pó e teias de aranha lá estava o livro de S. Cipriano, embrulhado num trapo de pano que já fora o lenço de cabeça de sua avó. Desembrulhava-o cuidadosamente pois as folhas já soltas de uma tosca encadernação, ameaçavam cair e se não fora serem papel e não se partirem em mil pedaços, o risco de se desfazerem era real. Depois soprava-o cuidadosamente e era sua companhia nas noites frescas de inicio de outono, quando à lareira, numa panela de ferro, cozinhava ervas que só ela conhecia, em infusões cujos odores quase sempre arrepiariam até seres menos sensíveis. Nunca bebia aqueles preparados, a que incorretamente chamava de chás, sem primeiro lhe oferecer a ele para que provasse. Das poucas vezes que aceitou, por cortesia e para evitar mais chatices do que as que ele previa em cada mês de outubro, ao primeiro gole, já estava a vomitar as tripas, que é como quem diz, a ter ataques sucessivos de vómito. Ela ria-se, com aquele riso estridente de, efetivamente, bruxa e dizia-lhe como que por consolação que até era bom, que o limpava por dentro. Depois, quando a noite se cerrava e o frio apertava, embrulhada em mantas, levava o seu S. Cipriano para a cama, arreava-o em cima da mesa-de-cabeceira, soprava a vela e adormecia. E a história repetia-se. Dos sonhos dela à realidade ia menos que a pegada de um pardal. E naquela noite, naquela noite de trinta e um de outubro, saltou-lhe novamente a tampa da panela. Ele já pouco se importava com as rezas, com o queimar, a toda a hora, de alecrim pela casa, com as infusões malcheirosas, com as benzeduras invocativas de satanás, com os elixires para o mau olhado que ela trazia da festa do padre Fontes e se besuntava da cabeça aos pés, já nada do mais exotérico o impressionava. E ele, para evitar chatices, chamava-lhe tudo. Até de bode sem barba, a epitetou. Evitava era a todo o custo chamar-lhe bruxa. Mas quando ele viu em cima da cama os, outrora, seus cinco gatos transformados, numa abóbora, num jacaré, num pargo mulato, numa andorinha de cerâmica e numa chaleira, não resistiu e chamou-lhe bruxa. Ela amuou, pegou na sua vassoura, montou-a e saiu pela janela.

©Vítor Fernandes

domingo, 14 de julho de 2013

211. 14 de Julho



Não. Não havia outra hipótese. Ele sairia, vestiria umas calças de ganga e uma t-shirt, de preferência estampada com o rosto de Che Guevara, já tinha comprado uma cartolina na papelaria do senhor Hipólito, pintado as palavras de ordem, ou melhor, a palavra de ordem, um estrondoso RUA! com maiúsculas e ponto de exclamação e pregado um pau para ostentar o seu cartaz bem alto. Haveria de aparecer nas fotografias dos jornais e nas imagens da televisão. Até porque aquele RUA! não era um RUA! qualquer. Estava escrita, ou melhor, pintada com uma trincha grossa, com tinta de cor vermelha escorrendo, como se tivesse sido pinchada a sangue.

Foi com o trabalho de casa completo que se foi deitar. A manifestação seria só amanhã da parte da tarde e, embora o tempo ameaçasse chuva, talvez lá pelas três da tarde, a hora em que estava prevista começar, houvesse uma aberta. Vestiu o pijama de verão, calça e casaco de seda que a esposa, uma francesa de sociedade, que tinha conhecido numa sessão cultural na Alliance Française, não o queria ver de menos, o quebra-luz preparado para cobrir os olhos, o que lhe garantiria um sono descansado. Sophie que aproveitava o sossego da noite para escrever os seus poemas de cariz erótico, uma vez que outros não se lhe discorriam, pois mesmo que começassem de ingénuo modo, a luxúria, mais verso, menos verso, tomaria conta do poema, ainda não tinha apagado a luz da escrivaninha e isso incomodava-o. Puxou o fino lençol, ajeitou o quebra-luz aos olhos, tossiu apenas para se fazer notado ou seja para fazer notar a Sophie que se estava a deitar, cobriu-se, colocou-se de lado, como que costas para o lugar onde Sophie se deitaria e adormeceu, não sem antes fazer uma antevisão mental do que os colegas, no dia seguinte lhe diriam do seu fervor revolucionário. Sophie deitou-se logo a seguir.

A manhã acordou chuvosa. Da cozinha inundava-se-lhe o quarto com o cheiro a torradas e a café acabado de passar. Um aroma a doce de tomate misturava-se com o dos ovos fritos havia pouco. Sophie apareceu-lhe à porta do quarto envolta num roupão de seda vermelho, branco e azul. Sorriu-lhe e deixou cair o roupão sob o qual se descobria uma nudez alva e jovem. Trauteou a Marselhesa e aconchegou-se ao marido. Passaram o dia a comemorar a tomada da Bastilha. 

domingo, 16 de junho de 2013

210. Empreendedorismo




Os amigos não compreendiam bem porquê mas a esplanada que ele sempre escolhia em cada final de manhã era a de um pequeno café que ficava mesmo em frente à cabeleireira lá do bairro. Era ali que tomava a bica, umas vezes acompanhando com um pastel de nata, outras com uma queijada de laranja, que a D. Bina, a dona, gabava de ser a melhor em todos os cafés e pastelarias das redondezas.

Carolina abrira o salão já lá iam uns quinze anos. E se logo desde o princípio a clientela era maior do que a capacidade instalada, as condições atuais do país estavam a definhar o negócio. Carolina não se deixou abater e embora cada vez deixasse mais felizes as suas clientes e os seus clientes, o número dos que transpunham as portas do bem iluminado Salão Carol era agora muito reduzido. Para tentar mitigar os danos ela própria se entretinha em casa a criar penteados, desenhando em blocos de esquiço as criações mais exóticas. Comparar os penteados que Ronaldinho, o fenómeno, usou no Mundial da Coreia e Japão, que o Simão usava no Benfica ou que Ronaldo apresenta cada semana em campo com os que ela desenhava nas cabeças dos clientes era de fazer chorar qualquer garoto com a mania das imitações. Alguns deles, depois de verem os amigos a sair do salão da Carolina, chegavam a casa a chorar com vergonha de usarem cabelo à Raul Meireles. E das mulheres nem se fala. Beyoncé roeria as longas unhas até ao sabugo se visse os penteados que Carolina fazia às mulatinhas lá do bairro. Jennifer Lopez exigiria que Carolina chefiasse a equipa de cabeleireiros de qualquer produção onde entrasse e a própria Gisele Bündchen, era garantido, voltaria a ser considerada a modelo mais bonita do mundo e quiçá de novo a mais bem paga, se alguma vez tivesse frequentado o salão de Carolina.

Não admirava portanto que ele passasse o seu tempo na esplanada em frente ao salão. O negócio corria mal a todos, o dinheiro escasseava cada vez mais e ele não podia querer ser apenas o namorado da cabeleireira, era forçoso que se tornasse seu sócio. E aproveitando a sua figura masculina, como que acabada de sair de uma academia de modelação corporal, não lhe era difícil dar em cima das clientes de Carolina. Depois era só levá-las para o quarto e despenteá-las.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

209. Poderia ser uma solução, D. Micá



D. Micá andava chateada. Tinha começado, há vários serões atrás, a contar a história de D. Bonifácio e da sua falecida Antonieta, em forma de fantasma que, com uma caixa misteriosa enviada ao viúvo, o tinha tentado perturbar. O problema é que D. Micá misturou nesta história personagens reais e outras de ficção, mormente o Aristides e agora estava com grandes dificuldades em dar a volta à coisa. Não que não tivesse engenho e arte para o fazer, ou não fosse ela a exímia contadora de histórias que todos conhecemos, principalmente de contos cor-de-rosa, mas sim porque ela é uma mulher política e socialmente correta. E o seu grande receio de melindrar algum dos seus amigos e amigas estava a funcionar nela como uma sufocante autocensura. Mas se isso a constrangia, não era bem isso que a chateava. O que a andava a deixar com a moral em baixo, com um considerável deficit de autoestima, era o cisma em que caíra. É que se ela parasse agora de contar a história de D. Bonifácio poderia o seu carisma de contadora começar a perder-se e isso ela não aguentaria. Antes abdicar do nobre título de Presidente de uma Fundação do que o de melhor contadora de histórias aos serões. E também estava a reagir mal à pressão. Sempre que a receção das quintas-feiras aos seus confrades se iniciava, logo havia um ou outro que, com sub-reptícia ironia ou apenas por mera curiosidade, lhe perguntava “É hoje que vamos ficar a saber do conteúdo da caixinha, é?” ou então, “Será hoje que vamos conhecer o finalzinho da história, D. Micá?”, quer num caso, quer noutro, utilizando diminutivos, como caixinha ou finalzinho dando um tão aparente quanto cínico ar de paternalismo, mas que não deixava de ser uma bicada no latente narcisismo de D. Micá que, como vedeta de toda esta sequela, não poderia deixar de o ser.

Num dos cantos da sala, com um copo de whisky na mão, uma gravata Hermès comprada a bordo de um avião da Air France, fato escuro de Mariotti Francelo, sapatos Scarpi Chaussure, camisa Paco Jimenez e fumando uma Partagas comprada na Havanesa Central do Alto do Pina, estava o dr. Cristino Pedrogão que desde há pelo menos dois anos não frequentava o salão de D. Micá, devido a uma desavença com, o também de longa data ausente, Salustiano Tristão, um comerciante de fruta bem sucedido, desde que começou a negociar com o Chile, com a África do Sul e com uns produtores do Bombarral. Era o dr. Cristino que comandava a animada conversa que embora apanhada a meio ainda pode ser relatada:

- Pois é meus amigos, aos sábados, dispo os fatos e as camisas de cambraia, dispo também alguns preconceitos e de sapatilhas ou de galochas, conforme o local, lanço as canas e passo o dia inteiro à pesca. E olhem que não me saio muito mal…
E começou a gabar-se das douradas que pescava, dos linguados e das fanecas, dos robalos e dos alcorrazes e outras espécies que, pescando ou não, enumerava como safra sua.

D. Micá, sempre atenta, ia pensando com os seus botões que, se calhar, o melhor seria ela também dedicar-se à pesca.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

207. Nos serões de D. Micá, a maioria é do Benfica



“D. Bonifácio houvera decidido que passaria uns bons pares de dias na mansão. Não que fosse uma pessoa que gostasse de isolamento, mas há certos momentos da vida em que um retiro não se pode dispensar. Chamara Aristides a quem comunicou que estaria dispensado por duas semanas dos serviços de motorista, tirou da carteira duas notas verdes de 100,00 € e disse-lhe que aquele era por conta dele. Sugeriu-lhe que fizesse uma viagem, que Aristides ao agradecer lhe disse, que sendo assim se retiraria uns dias para Mirandela, onde ainda tinha uns primos e uma tia da parte da mãe que eram exímios em preparar alheiras.

- Ai Bonifácio, nem sabes como tenho saudades daquelas alheiras caseiras... - suspirou Aristides.

- Bem, eu estava a sugerir-te que desses um passeio maior, sei lá, a Espanha, comer umas angulas ou um cocinillo, mas tu é que sabes – concluiu deixando a opção só e exclusivamente com o amigo e motorista Aristides.

- Não há porco como o da minha terra, Bonifácio. Mas se precisares de qualquer coisa não hesites. Agora já há telemóveis e as autoestradas rasgam o país todo. Estarei cá em poucas horas. – Sossegou-o Aristides estendendo a mão, sacudindo enérgicamete a do patrão e amigo e apertando-o num caloroso abraço.

Bonifácio, com uma pequena lágrima no olho, deixou sair o chauffeur e pensou com os seus botões que não ficaria sozinho. Tinha Gatófio, o gato e Penafiel, o cão, para além dos seguranças, do jardineiro e do fantasma de frei Bento Patinho. Teria também com certeza que contar com o fantasma de Antonieta e, last but not least, ainda lhe pairava sobre a cabeça o fantasma do campeonato, acabado de perder para o seu arquirrival do norte”.

Um estrondoso apupo se fez ouvir na sala. D. Micá corou um pouco e pediu desculpa por ter referido assunto tão melindroso, enquanto o meu amigo Aragão, rejubilava e ria descaradamente com a abordagem de D. Micá. O Dr. Luís Lopes Lacerda, o nosso conhecido otorrinolaringologista, é que não teve papas na língua e virando-se para Eduardo contou-lhe a história da hiena que ri, apesar de se alimentar de excrementos de outros animais. É que Eduardo Aragão é adepto de um clube da segunda circular de Lisboa que não só ficou em 7º lugar do campeonato mas também, o que é pior a muito mais de trinta pontos do primeiro. E Lacerda, voltou a lançar-lhe o repto «de que é que te estás a rir?».  


quinta-feira, 9 de maio de 2013

207. Os serões da D. Micá já são noticiados nos jornais



Temos andado justamente entretidos a contar o que se vai passando nos serões da nossa anfitriã e amiga e raramente damos conta do que os outros dizem sobre os mesmos. Foi assim com algum espanto que demos conta que nós não somos os únicos fiéis narradores do que naquele amplo salão se passa, mas que haverá alguém mais atento ao evento, sendo que desconfiamos de quem seja, mormente por questões de geografia mas não só, basta que atentemos ao estilo, que a nossa desconfiança irá, naturalmente, desaguar em certeza. Deixaremos assim para a imaginação e perspicácia dos nossos leitores o desvendar do autor de tão saborosas linhas que nos acabaram de chegar em recorte de “A Voz de Albergaria”, datado do mês passado e que nós, por acumulação de afazeres, ainda não tínhamos tido oportunidade de trazer ao vosso conhecimento, se bem que o assunto, não se enquadrando nos serões de quinta-feira, não deixou de se constituir em evento de caráter social notável que aqui já deveria ter sido descrito com a pompa e a circunstância que merecia. Ficaremos então com a redação da local no referido periódico que, como é bastamente do conhecimento de quem faz o favor de nos ler atentamente e de seguir a sequência de acontecimentos em casa de D. Micá e de sua ditosa mãe, é a terra de nascimento do falecido comendador Jovelino Azeredo.

Como seria apanágio do meu grande amigo Eduardo Aragão, tenho a certeza que nesta fase da escrita ou se quiserem, da narrativa, como aliás se poderão certificar quando aqui vos contar a sua relação próxima de poetas e de prosistas e de outros trovadores, atividade que ele também não desdenha e executa a preceito, pois dizia eu, o meu amigo Eduardo teria já dito, «desembuchem logo com a notícia do jornal, que isto é um serão de literatos e não um cenário de Hitchcock», mostrando à saciedade de que ele, Eduardo Aragão, não só é um homem pragmático que gosta, tal como o escritor destas linhas, ou não fossemos amigos de infância e adolescência, mais desta do que daquela, que não é apenas uma pessoa ligada às letras, mas que também lhe corre no sangue o líquido do conhecimento cinematográfico e, neste caso particular, lhe fervilha o gosto pelos mestres do suspense. Só faltou que ele tivesse acrescentado ao cenário de Hitchcock, os enigmas de Lynch e todos os que nos leem dissipariam inculcadas dúvidas, se é que alguma vez as tiveram, de que Eduardo Aragão é de uma versatilidade que só visto ou que, como seria mais correto dizer, de uma versatilidade que só lido.

Já o dr. Jorge Mendonça, que tem feito da sua vida, toda uma vida de enigmas, desde os tempos em que o pai, um agricultor alentejano, de quem se não vai aqui repetir a descrição, basta que percorram com os vossos próprios dedos algumas das páginas iniciais, o mandou estudar medicina para Coimbra e o então jovem Jorge, misturava aparelhos circulatórios com tricanas de trouxa de roupa à beira Mondego, passe a pouca inspirada tirada do autor, querendo com esta dizer que o coração anatómico se misturava com o casulo da paixão e que utilizava o aparelho locomotor não para o estudo dos ossos, das articulações, dos músculos e dos tendões, mas para palmilhar as ruas da académica cidade, batendo as tabernas e vielas e, ao trinar das guitarras, traçar a capa sobre a batina e, qual rouxinol em choupal, trovar à janela da linda Carolina que corria o reposteiro, abrindo de par em par as portadas da janela do varandim, onde bambinelas de seda mostravam o luxo em que a família Serapião vivia e acabando casado mais tarde com Clarinha, uma moça escorreita mas de famílias modestas, aqui conhecida por Clarinha Mendonça, nada se importa com o tempo que o narrador toma para colocar aqui a local de “A Voz de Albergaria”, pois isso dar-lhe-á mais tempo para ir contemplando a roliça, rosada e por vezes nédia Rosalina, deixando D. Ermelinda a suspirar sozinha a um canto, ela que sempre se envolveu platonicamente com um homem, que poderia ser seu filho e a quem ela não negaria um pouco de calor maternal, sentando-o ao seu colo e deixando que ele voltasse a cheirar o perfume das rendas dos seus sutiãs, se bem que amamentar apenas são conjeturas de mentes mais ou menos conspurcadas de alguém que por estas alturas poderá estar a ler tão púdico relato dos serões da quase quarentona D. Micá, cujo aniversário não será com certeza deixado passar em claro aqui pelo vosso autor preferido, a não ser que “A Voz de Albergaria” se antecipe e nos venha a estragar a festa.