quinta-feira, 18 de outubro de 2018

241 - O dono da bola - #12 Ó vizinho deixe-me entrar consigo.


Era uma romaria aos domingos e eu ainda sou do tempo em que o futebol se jogava aos domingos, às quatro da tarde ou às três quando o inverno chegava e os dias eram pequenos. Nesse meu tempo de criança havia poucos automóveis e as carreiras ao domingo, exceto no tempo de praia e exatamente para as praias, os transportes, tal como hoje, eram mais raros e espaçados. Por isso, para ir à bola, ia-se a pé.

(parecia uma romaria)

O Campo de Jogos do Pragal, que era assim que se chamava ao campo de futebol do Almada Atlético Clube ou simplesmente do Almada, ficava onde ainda hoje se situa: lá no cimo, paredes meias com o monumento a Cristo-Rei.

- Vá lá, senhor, uma imagem do santo. São só vinte escudos, - apregoavam as vendedeiras que vendiam cristo-reis fosforescentes e colavam autocolantes nas bandas dos casacos e nas golas das camisas a dez tostões e vendiam também a Nossa Senhora de Fátima fosforescente que era para se ver à noite em cima da cómoda ou da mesinha de cabeceira, com as luzes apagadas. Quer aos que iam à visita ao Cristo, quer os que iam ver a bola ao Almada.

Por isso era ver aquele povo todo a subir a pé a Avenida Cristo-Rei ou a rampa do Pragal que vinha lá de baixo desde a estrada nacional, passava pelo quartel e desembocava no largo do Cristo-Rei, mesmo junto ao campo do Almada. Aliás, como hoje.

Fui, enquanto criança, sempre com o meu pai. O meu pai foi, se não nascido, pelo menos criado em pleno Pragal e não poderia ser de outro clube senão do Almada.

- Viva o Almada!

Poder podia. Naquele tempo quase toda a gente era do Benfica, do Sporting ou do Belenenses, coisa que já não é igual hoje em dia, pois que, à força das vitórias que conseguiu nos anos 80 e 90 do século passado, fez-se transferir a paixão dos miúdos também para o Porto.

- Almada! Almada! Almada!

Mas se torcíamos por um grande a verdade é que o Almada e o Piedade eram os clubes de todos nós, os daquela zona de Almada. E eu, porque cresci no Pombal, exatamente a meio caminho entre o campo do Almada e o campo do Piedade, escolhi o Almada como clube de coração. Era a malta dali metade / metade, de forma que, até quando em miúdos escolhíamos a linha para os nossos desafios, o fazíamos em função disso, imitando no terreiro frente ao pátio um derby Almada-Piedade. Já no início da adolescência, porque me mudei para um Bairro próximo do Pragal, aí já ia sozinho, a pé, com os outros putos

(parecia uma romaria)

vermos o Almada. Atalhávamos caminho numa azinhaga que ia dar à Ermida e dali era um pulinho até ao campo da bola.

O pior era para entrar. Os porteiros não deixavam os putos entrar sozinhos, já que os miúdos teriam que ter quem se responsabilizasse por eles. E quando não estava lá, aquele porteiro amigo do meu pai, que apanhando o fiscal da Associação distraído me fazia passar entre ele e o portão sem que ninguém desse por isso, só entrávamos acompanhados por um adulto. E aí começava a pedincha,

- Ó vizinho, deixe-me entrar consigo

e logo um adulto nos dava a mão, e na porta, em perfeita cumplicidade com o porteiro,

- É meu filho,

 franqueava-nos a passagem. E lá entrávamos e nos juntávamos à outra malta que, com o mesmo estratagema, entravam com os “pais” deles. Muitas das vezes, com dez ou onze anos de idade, não ligávamos patavina ao jogo. Queríamos era andar para ali a brincar no peão por trás da baliza, onde a GNR nos repreendia e ameaçava levar-nos presos. Naturalmente isso nunca aconteceu.

Algumas considerações finais:

1 – O meu Almada sofre das amarguras que sofrem os que outrora foram grandes clubes. Vi lá grandes jogos contra o Estoril, o Lusitano e o Juventude de Évora, contra o Amora, contra o Lusitano de VRSA, contra o Vasco da Gama de Sines, contra o Esperança de Lagos, o Montijo, o Barreirense e obviamente, contra o grande rival de sempre o Desportivo da Cova da Piedade,

- Almada! Almada! Almada!

quando até o varandim do monumento a Cristo-Rei servia de bancada a 100 metros de altura. Hoje, com a transformação de um desporto em negócio, a criação de SADs para acionistas, o futebol de cariz mais popular anda a fazer uma travessia no deserto que parece nunca mais ter fim. O meu Almada arrasta-se entre a primeira e a segunda regional e nunca mais se sentiu a emoção do velho derby.

2 - O Grupo Desportivo da Cova da Piedade conseguiu, via patrocinadores e acionistas chineses criar algumas estruturas para poder competir em divisões superiores nomeadamente a profissional 2ª Liga do nosso futebol. Tem até, por isso, direito a algumas transmissões televisivas onde já ouvi alguns comentadores e relatores designarem-no por Cova. O Cova isto, o Cova aquilo. Pois, meus senhores, essa não é nem a designação do Clube nem sequer da localidade que lhe dá o nome. A localidade é Cova da Piedade e o clube, se falarem com os mais velhos, é para eles o Desportivo e se falarem para os mais novos, incluindo os da minha geração, é o Piedade. Cultura desportiva não devia ser coisa que faltasse a esses arautos. Mas parece que sim.

3 - Um dos porteiros nosso amigo era o sr. Delfim. Conheci-o quando era miúdo e nunca me deixou ficar à porta. Com ele lá, entrava sempre sem ter que ter um pai emprestado. Soube que morreu há pouco, em Junho de 2018. E como o mundo é pequeno soube agora que era o padrasto de um amigo meu de infância. Nunca tinha relacionado o facto até ter visto a fotografia do sr. Delfim no cartão da funerária. Que o São Pedro lhe tenha franqueado as portas do Céu e que descanse em paz.

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