Ela detestava
quando ele lhe chamava bruxa. Não é que ele fosse uma pessoa que irasse
facilmente, mas por vezes a paciência tinha limites. E de impropério a impropério
era um crescendo de agressividade verbal que custa a transcrever. Muito o
desgraçado suportava e o mês de outubro era o culminar do santo ano, naquilo
que ele chamava o caldeirão das imbecilidades. Começava no primeiro dia do mês.
Ela ia à garagem, a qual apenas servia de arrecadação e, em local que ela conhecia
como ninguém, numa bagunça de pó e teias de aranha lá estava o livro de S.
Cipriano, embrulhado num trapo de pano que já fora o lenço de cabeça de sua avó.
Desembrulhava-o cuidadosamente pois as folhas já soltas de uma tosca encadernação,
ameaçavam cair e se não fora serem papel e não se partirem em mil pedaços, o
risco de se desfazerem era real. Depois soprava-o cuidadosamente e era sua
companhia nas noites frescas de inicio de outono, quando à lareira, numa panela
de ferro, cozinhava ervas que só ela conhecia, em infusões cujos odores quase
sempre arrepiariam até seres menos sensíveis. Nunca bebia aqueles preparados, a
que incorretamente chamava de chás, sem primeiro lhe oferecer a ele para que
provasse. Das poucas vezes que aceitou, por cortesia e para evitar mais
chatices do que as que ele previa em cada mês de outubro, ao primeiro gole, já
estava a vomitar as tripas, que é como quem diz, a ter ataques sucessivos de
vómito. Ela ria-se, com aquele riso estridente de, efetivamente, bruxa e
dizia-lhe como que por consolação que até era bom, que o limpava por dentro. Depois,
quando a noite se cerrava e o frio apertava, embrulhada em mantas, levava o seu
S. Cipriano para a cama, arreava-o em cima da mesa-de-cabeceira, soprava a vela
e adormecia. E a história repetia-se. Dos sonhos dela à realidade ia menos que
a pegada de um pardal. E naquela noite, naquela noite de trinta e um de outubro,
saltou-lhe novamente a tampa da panela. Ele já pouco se importava com as rezas,
com o queimar, a toda a hora, de alecrim pela casa, com as infusões malcheirosas,
com as benzeduras invocativas de satanás, com os elixires para o mau olhado que
ela trazia da festa do padre Fontes e se besuntava da cabeça aos pés, já nada
do mais exotérico o impressionava. E ele, para evitar chatices, chamava-lhe
tudo. Até de bode sem barba, a epitetou. Evitava era a todo o custo chamar-lhe
bruxa. Mas quando ele viu em cima da cama os, outrora, seus cinco gatos
transformados, numa abóbora, num jacaré, num pargo mulato, numa andorinha de
cerâmica e numa chaleira, não resistiu e chamou-lhe bruxa. Ela amuou, pegou na
sua vassoura, montou-a e saiu pela janela.
©Vítor
Fernandes
E ele não se ter visto, a si próprio, transformado numa bugiganga qualquer, foi uma sorte. :)
ResponderEliminarQue rico Halloween!
ResponderEliminarSe este for mesmo o teu livraste-te de boa! Devias ter-lhe chamado bruxa há mais tempo.:))
Belo texto, como sempre...
Tens andado fugido da blogo, ainda bem que voltaste para animar isto.:))
Beijocas.
@Janita
Eheheheh
..
No meu Halloween também houve histórias de bruxas, de fantasmas, de terror, mas a sua história é a mais encantadora.
ResponderEliminarNa próxima vez, quando amuar com o meu "Kraut" pego na minha vassoura, monto-a e saio pela janela.
HAPPY HALLOWEEN, VITOR!
Sorte a bruxa ter a janela aberta
ResponderEliminarCaso não, era galo, pela certa
(éh pá, há tanto tempo...)
Já tinha saudades de o ler.
ResponderEliminarE pronto, há que chamar os "bois" pelo nome...
Abraço
Sónia
Bom regresso
ResponderEliminarNo natal alguém ofereça uma vassoura
ao padre Fontes
as bruxas merecem uma janela aberta
Como sempre, magnifico! :)
ResponderEliminarbeijinho
cecilia
eh raios !! vassouras e tripas revoltas...
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