quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

187. Micá e os coentros picados





O meu amigo Eduardo Aragão, de quem um dia, se surgir a oportunidade, falarei mais em detalhe das suas qualidades de bom gastrónomo e requintado gourmet que não dispensa o fois gras e o champanhe, o goulash ou o cordero asado, as gambas a l’ajillo e a massada de cherne, é absolutamente doido por pataniscas de bacalhau com arroz de feijão.

Estávamos nós a falar nele, em casa da minha amiga Micá, D. Micá como todos lhe chamamos, quando a nova empregada, a Eduardinha, anunciou a chegada do sr. Eduardo Aragão. Já falaremos da sua entrada não muito triunfal para vos referir que hoje era Eduardinha quem estava de serviço. Perguntei a D. Micá que era feito da outra moça, a protegida do sr. Hortêncio, que costuma tropeçar nos tapetes e partir serviços. Então não é que a raparaguita se apaixonou pelo Faria, sendo que o Faria, que entretanto, diz-se no salão de D. Micá e não só, namora com uma viúva que lhe dá de tudo, do bom e do melhor, olá se dá, oh, oh, não foi capaz de resistir ao bater de pestana da empregadeca, o que aliás deixou deveras descontente o sr. Hortêncio que, parece, fala-se também, isto hoje é só má-língua, tinha um fracote por ela? Mas enfim, são vidas, quando o Faria que voltou a ser colocado em Santarém, voltar, lá pelas férias da Páscoa, altura em que, está até já prometido pela D. Micá, vamos comer o melhor borrego no forno que se come em toda a região de Lisboa e Vale do Tejo, cozinhado especialmente para nós pelo Januário Pitinha, que é um alentejano dos quatro costados e ainda é dos que aquecem o forno a xerogases e ramos secos de oliveira e chapotas de azinho para fazer brasa para isolar a porta do forno, quando ele vier de férias, dizia eu, vou-lhe perguntar se é verdade aquilo da pequena, pois todos já estávamos a começar a admirar as camisas de marca, os blasers da Sacoor, as gravatas de seda (para falar a verdade a que usou no réveillon, era um bocado apanascada), os sapatos Carpelio, enfim, tudo do bom e do melhor, repito o que já tinha dito acima, que a viúva lhe orientava. Mas com este derivar, já me estava a esquecer que vos queria falar da Eduardinha. Há corpos que não foram feitos para serem criadas de servir. A Eduardinha, que é uma rapariga alta, terá talvez o seu metro e setenta e três, metro e setenta e quatro, usava uma farda preta que devia ser da outra, que era bem mais baixa, pois a saia ficava-lhe tão curtinha que deixava transparecer as rendas das meias brancas e até as molas do cinto de ligas, a blusa, preta também, estava-lhe bem apertada no busto deixando que os fartos seios com que Deus a brindou, realçados por um wonderbra branco, que se testemunhava pela parte superior da copa no decote da blusa, até pareciam querer sair-lhe da sua encapsulada indumentária. Ficava-lhe também a matar um aventalzinho branco, com bordado inglês do mesmo tecido que o cabeção. O mais interessante é que Eduardinha, fez há pouco uma plástica, colocou botox nas maçãs do rosto e nos lábios e maquilha-lhe primorosamente. Quando olhamos para Eduardinha, a lembrar os mais irreverentes desenhos de José Vilhena, não queremos saber para nada porque é que o Eduardo Aragão entrou, naquele dia, menos bem no salão de D. Micá ou se tinha jantado pataniscas de bacalhau com arroz de feijão, salpicado com coentros picados e decorado com quatro azeitonas novas. Quem é que quer saber disso?…   

12 comentários:

  1. Eu também gosto de pataniscas mas, perante a descrição, talvez optasse pela Eduardinha. Principalmente se ( isso o amigo não diz, talvez para não aguçar o apetite dos leitores) a pele estiver bem tostadinha...

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    1. Olhe que o amigo Carlos não tem mau gosto não senhor.

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  2. Pataniscas? Dispenso! Ainda se fossem pastéis de bacalhau...

    Bom 2013!

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    1. Pasteis de bacalhau, há na tasca do Ismael.

      Ainda não leste "Sete facadas e carapaus de escabeche?"

      Já saiu no dia 12.

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  3. Ora...realmente quem quer saber de coentros, sobretudo os olhares masculinos, quando têm pela frente uma empregada muito à frente?
    Estou aqui a pensar com os meus botôes e sabendo de antemão o custo da lingerie, para já não falar no botox, como será que arranja papel para gastos tão exuberantes?
    Vítor, se fosse eu começava a investigar-;) aí há coisa.

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  4. Ó Constantino, tu que foste uma das primeiras pessoas a aderir entusiasticamente ao novo Acordo Ortográfico e o defendes com unhas e dentes, ainda não aprendeste as novas terminologias?
    Aonde é que já se viu chamar "criada de servir" a uma empregada doméstica tão refinada como essa Eduardona que até já colocou botox na cara e nos beiços? Valha-te Deus!
    Quem é que liga aos coentros? Olha; ligo eu e muito!
    Pataniscas sem salsa e arroz de feijao sem coentros, são assim um pouco como os livros do Vilhena sem criadas de servir cuja farda era apenas um aventalinho branco, minúsculo, rendado...Como é que eu sei disso, perguntarás tu, curioso e boquiaberto. Pois é, aqui há dias andei a fazer uma arrumação no sotão e fui dar com uma quantidade desse exemplares encatrafiados numa caixa toda a desfazer-se. Deve ter sido esquecimento de um maluco igual ao Eduardo Aragão! Foi tudo parar ao contentor so lixo.

    Como é que tu queres que eu não tenha saudades da tasca do Ismael Gúsman, onde havia inspectores, subinspectores e galegada do mais alto gabarito latino; homens de barba rija?

    Já que aqui não há nada para investigar, faz como diz a Manu, investiga a Eduardona...:)

    Beijocas!

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    1. Janita,

      a cena do Ismael já está publicada em livro; saiu no dia 12 do mês passado :)

      Quanto às revistas eu também lia os livros do Vilhena, ás escondidas LOL e mais tarde a gaiola aberta, já em regime democrático.

      Esta da D. Micá está ainda para lavar e durar; a história dos fantasmas nem vai ainda a meio e o Eduardo ainda vai ser um protagonista e peras.

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  5. Navegando, encontrei este espaço, vou ficar e acompanhar...

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  6. Por ter reduzido a minha vida "blogosférica" ao mínimo nos finais de 2012 acabei perdendo o fio à meada das história da D. Micá. Vou tentar seguir de novo.
    O certo, para já, é que eu gosto de coentros. Oh se gosto. :)

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  7. Uma delícia de relato. Adoro as tuas caricaturas, construções de fina ironia narrativa.
    Bem, nem os desenhos de Vilhena o fariam melhor! (Fui aluna da irmã dele, minha prof.ª de Matemática, a saudosa Dr.ª Maria Olímpia).
    Beijinho

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  8. uma das coisas de que mais gosto neste blog é que saio sempre de barriga cheia, mesa farta com as melhores iguarias e caras...

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