terça-feira, 10 de maio de 2011

23. Luas e sangue




Ele escrevia poemas. Diziam-lhe que tinha veia. Ele achava-se mais inclinado para a prosa mas encolhia os ombros, com ar (na verdade até era) humilde, quando lhe elogiavam as poesias. Soubemos, mais tarde, que ele tinha um compromisso com o amor. Nunca teve de fazer nenhuma profissão de fé, nem se declarar oficialmente objetor de consciência, nem tampouco inscrever-se nos pacifistas anónimos e ir aquelas reuniões, meio chatas, em que se apresentaria, eu sou fulano de tal, oi fulano de tal, olá fulano de tal, e sou tão pacífico, tão pacífico que enxoto as moscas janela fora sem as molestar e vou a manifestações anti-inseticida e, depois, receber uma grande salva de palmas. Pois o amor enchia-lhe o coração e, todas as terças-feiras, vá-se lá saber porquê, decidia escrever um poema. Escrevia (talvez ainda escreva) cinquenta e dois poemas por ano, porque para ele não há férias para o amor, não há carnaval para o amor, não há cinco de outubro ou vinte e cinco de abril sem amor. Como quem não quer a coisa, invadimos-lhe a privacidade quando, por um canto do olho, lhe “roubamos” uma estrofe de amor, Sou poeta e sem rancores / quando me olham de soslaio / fulmino-os com flores / seja em abril ou em maio. Esta nem foi a mais bonita que lhe conseguimos. Outras temos do seu espólio. Peço-lhe desculpa, porque hoje é terça-feira, de cometer a inconfidência (ousadia) de lhe publicar um poema. Tenho a certeza que ele não ficará furioso. Ele nunca fica furioso, excepto quando o vinho não combina com o queijo.

Que importa que hajam nuvens no céu
E a que a lua não tenha o brilho de ontem?

E também que importa que as estrelas não cintilem
Ofuscadas pelo véu cinza de cúmulos e de cirros?

Que interessa que o mar se despenteie contras as rochas
E os barcos se silenciem no ranger das amarras?

Que importa se o vento uiva nas frinchas das portas
E nos invadem as palmas de um par de janelas batendo?

Que importa se há névoa no rio
E a buzina do cacilheiro muge à travessia?

Que importa se ladram cães ao longe
E ouves junto à porta passos apressados?

Que importa se a chaleira apita de vapor fervente
Ou se se escuta a água do banho no andar de cima?

Que importa a ausência de luz na rua
E os sons dos fantasmas que nos cercam,
Quando nos perdemos em copulares gemidos?

Nada, meu amor, nada importa
Quando possuímos a noite.

Só decidi escrever este texto porque ontem, quando me mostrava o braço, ainda negro, de uma análise ao sangue, me confidenciou que a analista não lhe descobria a veia.

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sexta-feira, 6 de maio de 2011

21. Saudades de Genoveva


Tenho uma vaga impressão, provavelmente fundamentada, de que se não viam há muito tempo. O que me leva a dizer isto foi tê-los visto mirarem-se de alto a baixo, ambos terem apontado o indicador da mão direita um em direção do outro, terem-se interrogado mutuamente com um duplamente exclamativo tu?!!  e terem-se envolvido num amplexo que, se não fosse considerado exagero por quem eventualmente escute esta historia, eu diria maior do que o Cristo-Rei de Almada daria ao Cristo Redentor do Rio de Janeiro se um dia fosse possível encontrarem-se. Mas passe a, mais que provável, exagerada comparação pois já se deve ter percebido que seriam amigos de longa data. Quem posteriormente tivesse estado com o ouvido à escuta não teria a mínima dúvida do que se acabou de afirmar. O que vestia um pólo azul e branco com uma golinha de malha cardada, via-se que não era do mais fino algodão, mas estando os tempos difíceis para se vestirem camisas de marca, desde que se ande limpinho e asseado e não se deva nada a ninguém como ouvi muitas vezes a minha saudosa avó dizer, contava eu, o que vestia o pólo azul era o mais conversador. Entendi também que o que se indumentava com uma camisa preta e que contrastava, sem que para isso tivesse sido propositada a intenção da pessoa, com os seus sedosos cabelos grisalhos, que se diria de umas sessenta primaveras bem ou mal vividas, não sabemos, sofria do luto por Genoveva, já lá iam quase quatro anos. Talvez por isso permanecia mais reservado. E como conversa puxa conversa, quando assim nos encontramos, a saudade dos tempos passados, por muito ruins que tenham sido, são sempre muitas e trazem-nos a nostalgia de grandes recordações. E não fosse aquela saudade que lhe batia no peito desde que perdeu Genoveva, teria corroborado tudo quanto era a memória do que vestia pólo azul. Os tempos em que o leiteiro vinha de bicicleta, uma bilha de chapa zincada pendurada em cada aba traseira da mesma e que lhes enchia as garrafas deixadas na porta da casa, o saco de pano pendurado na maçaneta da porta, com os papo-secos, ainda quentes da última fornada que a filha da padeira (era a Marianita, não era?) lhe deixava todas as manhãs, o Mário a apregoar o sécul’ó-diário com a saca dos jornais a tiracolo, a enrolar o Diário de Noticias no sentido leste-oeste do jornal e depois a dar-lhe um nó cego de modo que ficasse ali uma espécie de pacote, que era atirado contra a janela, caía direito no parapeito e dava o aviso de que o mensageiro tinha chegado, o Farrusco a correr e a ladrar junto às pernas do petrolino, de quem nunca se tinha esquecido de um pontapé, felizmente defensivo e que, só por isso, não lhe tinha causado dano de maior. E a tia Domitília peixeira, com a sua canastra à cabeça apregoando a sardinha viva da costa, o carapau a meio-tostão e a chaputa fresquinha.

E assim foram continuando a relembrar enquanto se aproximavam, com o carrinho das compras, da caixa do supermercado. E se vos conto isto foi porque o ouvi e porque tenho saudades de jogar ao pião.

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terça-feira, 3 de maio de 2011

19. Pataniscas


Eles almoçavam muitas vezes juntos porque ele, o chefe, o convidava. Nunca consegui perceber muito bem porque é que ele o convidava tantas vezes mas, pelo que via e, às vezes, ouvia, fiquei com a sensação de que ele, o chefe, precisava muito dele. Mas isso é apenas uma suposição minha porque nunca soube, em concreto, se o outro, o chefe, era assim gajo que tivesse dificuldade em almoçar sozinho. De duas coisas eu tinha a certeza, porque almoçava muitas vezes no mesmo restaurante e sempre numa mesa perto da deles (cheguei até a ser convidado por ele, o chefe, para os acompanhar numa aguardente velha e numa cigarrilha, quase sempre café-creme, porque lhe conheço a caixa; delicadamente, sempre recusei). Uma, era de que me era agradável ouvi-los, quando chegavam, cumprimentarem-me pelo meu nome -  vi uma vez, segredarem ao ouvido do criado qualquer coisa que pela consequência teria sido querer saber o meu nome próprio. Eu acho cordial que as pessoas sempre que o saibam se tratem pelo nome. Boa tarde senhor Constantino, dizia ele sempre que passava enquanto o outro, o chefe, chegou mesmo a endereçar-me um boa tarde amigo Constantino, como vai o senhor – a outra, era de que o chefe nunca entrava naquele restaurante sozinho e de que ele, nos dias em que o chefe lá não almoçava, também não comparecia. Na verdade só nos conhecíamos do restaurante e era como se nos conhecêssemos de toda a vida.  Em boa verdade, eu é que era o frequentador assíduo que fiz daquele espaço a minha cantina diária, eles nem por isso, muitas vezes apenas duas vezes por semana e outras semanas nem tanto. Mas aquela mesa ao lado da minha, se é que posso chamar minha à mesa de um restaurante, tinha sempre um prisma triangular regular, de cor preta, deitado, debruado a dourado nas arestas e com a palavra reservado, em letras maiúsculas, também escrita a dourado. Era aliás o que menos eu apreciava naquele restaurante, de farta ementa e saborosa, onde pontificavam as pataniscas de bacalhau com arroz de feijão e onde se podia comer uma das melhores farinheiras de porco preto, levemente assada em aguardente de vinho verde, porque para mim, ouro sobre preto tem sempre um ar fúnebre. Isto apesar da já referida ementa e da excelente carta de vinhos. Nesse dia, tenho uma vaga ideia de que estávamos em Fevereiro, a uma pergunta que ele lhe fez, o outro, o chefe, respondeu-lhe, não meu caro, ainda não estás preparado para isso, ainda não és suficientemente filho da puta. Fiz algum esforço antes de vos relatar isto, mas não me consigo lembrar dos nomes deles.

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segunda-feira, 2 de maio de 2011

18. Temperatura


M. do C. morreu. Morreu há mais de 30 anos quando ainda não tinha 39 anos de idade. Um dia, em casa, sozinha, rebentou-se-lhe uma trompa. Daí até entrar em choque foi um ápice. O filho e um cunhado é que lhe valeram. Um rasto de sangue, o filhote a pensar que tinham matado a mãe, o pai a trabalhar, correu a chamar o tio. Não morreu instantaneamente. Ainda se lembrou de no carro ter os olhos meio abertos e ter visto o pilar da ponte sobre o Tejo.  O cunhado encostou a porta do carro na entrada das urgências do hospital. Seria impossível não ser atendida de imediato. Mas já nada havia a fazer. O médico que a assistiu limitou-se a escrever a declaração de óbito que deixou entalada entre o colchão e a grade da maca. Seguiria para autópsia. No entanto, esqueceu-se de lhe cobrir o rosto com o tradicional lençol branco e ali ficou. Um outro médico passou e viu M. do C. por ali, abandonada. Leu o relatório. Morta! Tentou sentir-lhe o pulo, a carótida. Nada (?). Ou seria quase nada? Fria estava mas a cor não era de cadáver. Seguiu-se uma longa história de muitas semanas de coma profundo, de viagens ao outro lado do mundo, de ressuscitação, de vozes que nunca mais esqueceu. Ontem a M. do C., hoje com 72 anos, contou-me a história toda enquanto comíamos uma canja de galinha. Quente.

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