domingo, 11 de novembro de 2018
244. Pausa na bola
É só para informar as minhas amigas e os meus amigos de que na próxima 5ª feira, dia 15 de Novembro às 17h30, será apresentado, na Rua Ramiro Ferrão, nº 38 - Residência Nossa Senhora da Esperança do CSP Padre Ricardo Gameiro, o meu novo livro, desta vez um livro de contos, intitulado "Pero que las hay, las hay e outros sabores".
Estão todos convidados!
domingo, 4 de novembro de 2018
243. O dono da bola - #14 Matadourense
1
Decorria o ano de 1973 e a Câmara
Municipal de Almada organizava os 1ºs Jogos Juvenis de Almada, os primeiros e
os últimos, cuja direção fora dada, por convite da CMA ao estimado e,
infelizmente já falecido, Adelino Paiva de Moura, conhecido normalmente por
Adelino Moura, uma das grandes figuras do desporto do Concelho e, porque não,
do País. Com a revolução do 25 de abril de 1974, provavelmente pela conotação
desta iniciativa com uma CM do antigo regime ou, talvez, porque depois do 25 de
abril também se massificou o desporto escolar e popular e se criaram eventos
desportivos nas mais diversas áreas, não voltou a realizar-se a que foi, até essa
data, a maior manifestação desportiva para jovens no Concelho de Almada e uma
das maiores de Portugal.
No entanto, cada bela tem o seu senão
ou não, e para se participar nos jogos era necessário fazê-lo sob a égide de
uma organização, fosse coletividade de cultura e recreio, fosse clube
desportivo, ainda que, de caráter popular. E isso poderia de uma forma radical
desaproveitar os “talentos” que tínhamos lá no Bairro pois, ali, os únicos
clubes que existiam, ou tinham existido, eram os Unidos do Bairro e a Juventus
do Valdeão que tinham equipas só para adultos e que apenas jogavam futebol nos
torneios populares, aos fins de semana, fosse no campo do Ginásio, hoje campo
do Beira-Mar, fosse no campo do Monte ou do Costa. Mas no Bairro havia outros
talentos, havia futebol, mas também andebol, atletismo e, acreditem, até
badminton.
Seguindo o velho ditado que diz que
para grandes males, grandes remédios, não foi cedo, nem foi tarde para que no
nosso Bairro se criasse um clube. Elaboraram-se uns estatutos, fez-se uma
pequena reunião que hoje, e se calhar naquele tempo também, se chamaria
Assembleia Geral de Constituição, nomeou-se um presidente que seria eu, um
tesoureiro que teria de ser uma pessoa adulta e acima de qualquer suspeita e
foi escolhido o Senhor Duarte da drogaria, um secretário, que salvo erro foi o
Carapinha, escolheu-se a cor dos equipamentos, azul a camisola e a meia que se
foi comprar a Lisboa, à Rua do Benformoso, sem números porque não havia
dinheiro para esse luxo, as camisolas eram na realidade t-shirts
-
Não são giras, malta?
mas que nesse tempo não se designavam
assim, eram camisolas e pronto, e os calções seriam brancos, mas cada um teria
de levar os que tivessem em casa porque não havia dinheiro da quotização para
tanto.
-Qual
é? São vinte e cinco tostões, pá. Não me digas que não podes pagar a quota…
Quanto às chuteiras para o futebol
alguém se encarregou de ir pedir ao Almada e ao Piedade umas sobras e lá
apareceram umas quantas, não deu para todos, já bastante velhotas, com traves
porque pitons seria um luxo maior do que ter números na camisola. Os que não
tiveram a sorte de que algumas das chuteiras lhes servissem jogavam de ténis,
quer dizer, de sapatilhas
-
“As minhas são umas Sanjo já ranhosas. Quando se romperem jogo descalço”. Já
não me lembro quem disse a frase mas ficou-me no ouvido
porque a malta não chamava ténis.
Parece que o nome não era muito conhecido. E de ténis ou sapatilhas para os
desportos de pavilhão ou corridas equipariam os atletas dessas modalidades a
expensas próprias. A criação do clube carecia de alguma burocracia, mas isso,
que não era impeditivo para que inscrevêssemos as nossas equipas e os nossos
atletas nos Jogos Juvenis, que seria tratada mais tarde ou durante os Jogos.
Acho que isso nunca foi feito, mas o clube acabou por durar ainda uns anos, na
modalidade de futebol e jogando em torneios populares.
Com grande pena minha eu não pude
participar nos Jogos. A idade limite era de 16 anos e eu já iria completar 18
nessa altura.
-
Qual batota, qual caraças, não faço batota nenhuma. Não sou nenhum galdério. Na
minha cédula ninguém mexe. Prefiro não participar. E não participei.
No entanto, como presidente,
representei sempre o clube, participamos em atletismo com a Isabel Brito e com
o Carapinha, a um nível elevado, com boas classificações, mas sem medalhas, no
andebol onde sofremos grandes derrotas e no badminton onde um atleta nosso
ganhou uma medalha de “prata”, mas cujo nome, a esta distância temporal, já não
me consigo lembrar. Só sei que morava no Monte de Caparica e na nossa equipa de
futebol jogava a central. Mas no badminton é que ele era craque.
E
eu todo vaidoso, como presidente do clube, a acompanhar o nosso atleta, no
pavilhão da D. António da Costa a recebermos – ele a receber - a medalha de prata
E no futebol, onde passamos a
primeira fase, mas no jogo a eliminar, enfrentamos, no campo de jogos do Costa
da Caparica, a fortíssima equipa do Estrelas do Feijó, perdemos 4 a 3 e, claro,
sentimos que fomos escandalosamente roubados. O nosso treinador era o Senhor
Duarte, o da drogaria, que além de treinador e tesoureiro, era também o
massagista e que sempre que um jogador caía, corria do banco com a garrafa de
embrocação na mão, para o que desse e viesse.
Mais tarde, como disse, a equipa de
futebol do Matadourense começou a integrar malta mais velha, os mais novos
também foram crescendo, começamos a entrar nos torneios populares como antes
faziam os Unidos e a Juventus, entretanto já extintos nessa altura, e as taças ganhas
começavam a enfeitar uma prateleira da drogaria do Senhor Duarte.
E assim se fez o Matadourense, que
foi morrendo de morte natural à medida que a malta foi crescendo, casando e
saindo do Bairro para outros destinos. Acho que nunca acabamos o processo
burocrático, mas o que é que isso interessava? O importante era o convívio e a
prática salutar do desporto.
PS. Alguns Gloriosos rapazes que jogaram pelo
Matadourense: Carlos Jorge, Américo (posteriormente grande guarda-redes de
Andebol), Barbosa (chegou a ser guarda-redes do Almada) e o Carlos (que
treinava no Sporting e se não fosse a Lisnave poderia ter sido uma
estrela) - todos guarda-redes, mas o
Carlos Jorge, já falecido, também jogava a ponta esquerda - o Augusto que era o
defesa direito e dava porrada como o caraças, o Duarte Madeirense que tinha
força por dois, o Terrível que era o mais magrinho de todos, o Mesquita que
tinha uma grande habilidade para a finta, o Carapinha que era o mais veloz e
jogava a ponta direita, o Pintaroxo, que é pintor mas cuja alcunha já vem de geração
e que tem a ver com a passarada e jogou nos juniores do Piedade, o malogrado Zé
Manuel Capote, que viria a ser meu cunhado, o Jorge e o Felipe Viana que são
irmãos e além de eu próprio que jogava à frente e marcava muitos golos, outros
de que já me não lembra os nomes.
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
242. O dono da bola - #13. Golo!
Desde sempre que o golo foi o objetivo, o sumo, o
êxtase, o orgasmo de um jogo de futebol. Desde sempre o grito de
gooooolllllloooo foi a sua expressão mais almejada, o seu lancinante grito de
guerra, o desiderato mais querido do avançado.
A
minha mãe dizia-me muitas vezes que eu gostava de empregar palavras de sete e
quinhentos que era uma expressão popular para palavras de uso menos comum. No
entanto só as comecei mesmo a usar quando aprendi futebolês, uma língua própria
que é, muitas vezes absolutamente errada na formulação, mas conceptualmente aceite
no meio.
Dentro do campo pelo autor do último
chuto, nas bancadas pelo espectador, bastas vezes em incontrolados pulos que o
podem fazer rolar nos degraus, abraçado ao vizinho do lado que não conhece e com
o qual segundos antes tinha trocada piropos discordando do fora de jogo que foi
mas não era, ou que não foi mas deveria ter sido,
- Foi
fora de jogo!
-
Lá está este a pensar que sabe mais que os outros…
-
Isso é comigo?
-
Não é com o outro
abafado num beijo na companheira ou
companheiro, que nem torce pelo mesmo clube, mas que vai à bola com ele ou com ela
para fazer jeito, ou sozinho em casa saltando do sofá como uma mola,
esbracejando e pulando que nem um maluquinho, fazendo a voz ecoar sozinho entre
quatro paredes também elas sós, a mulher deixara-o há meses, e uma garrafa de vinho
tinto meio cheia,
“ela
agora, desde que se pirou com o senhor engenheiro, é mais ténis, a pirosa”
no restaurante entornado a cerveja
nas calças do tipo da mesa ao lado, com os amigos em frente ao écran gigante estrategicamente
colocado na principal praça da cidade, no carro, preso no trânsito da 2ª circular
ou em plena autoestrada para o Algarve gritando junto com o empolgante e saudavelmente louco relator
da rádio, ou até no sossego intimista da casa de banho, quando, durante um
ataque da sua equipa sofre ele também um ataque de diarreia e quase sem tempo de baixar as
calças, grita golo porque ouviu os outros gritarem lá dentro, na sala, enquanto os amigos saboreiam aqueles pastelinhos de bacalhau feitos pela tia Arminda, que lá nisso
não há pasteis de bacalhau iguais aos da tia Arminda em lado nenhum do mundo.
Corre-lhe uma lágrima no rosto. Corre
o marcador de um lado para o outro no campo ou então apenas para um lado,
gritando ele mesmo golo e ensaiando uma coreografia, pontapeando a bandeirola
de canto ou içando-a em troféu, dançando um samba com os outros companheiros ou
ajoelhando-se virado para Meca com a cabeça no relvado, passando a mão na relva
e benzendo-se, abraçando-se em círculo ou em pirâmide, fazendo um moche de onde
sai a apalpar as costelas para saber se ainda resta alguma inteira, beija a
câmara do operador de TV enquanto lança o seu gutural golo para a lente, coloca
a bola por debaixo da camisola junto à barriga e chuchando no polegar de uma
das mãos dedica o golo acabado de marcar, acabado de gritar, com a mulher e o
filho que esta traz nas entranhas, quem sabe um potencial marcador de golos no
futuro, despe a camisola e roda-la no ar enquanto grita e festeja, mostrando
músculos de fazer inveja a qualquer escritor de histórias, barrigudo e cheio de
tendinites. E há mesmo quem grite o golo a chorar de emoção e alegria.
-
E aquela merda do árbitro a estragar tudo, nem vê que o homem tirou a camisola
só para festejar…
-
Lá está outra vez você, Não vê que dar cartão amarelo é da lei?
-
É da lei, é da lei, o gajo é que precisa com a lei na cabeça!
-
Quem eu?
-
Não, caralho, o gajo, o árbitro, não seja parvo você…
-
Veja lá como é que fala…
E o jogo continua, golo é golo, seja
no estádio, seja na PlayStation, seja no rinque de futsal lá do meu bairro,
seja na praceta onde eu jogava à bola num mano-a-mano com o Zé Carlos, seja no
corredor lá de casa onde eu jogava com os meus irmãos. Golo é golo, é para
festejar. O candeeiro não teve culpa de a bola ter entrado na porta da casa de banho que fazia de baliza, ter sido golo
limpinho, limpinho, mas, quando saltei para o festejar e dei um valente murro
na lanterna que se partiu de imediato, por vingança, deixou-me um golpe na mão
que demorou semanas a curar.
Quando a minha mãe entrou em casa, ela que é católica,
benzeu-se e fez o sinal da cruz, sem ter tocado com a mão no relvado. Não consta que fosse também a festejar o nosso golo.
Mas lá que nos mostrou três valentes cartões amarelos, mostrou. E nem tempo tivemos para despir as camisolas.
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
241 - O dono da bola - #12 Ó vizinho deixe-me entrar consigo.
Era uma romaria aos domingos e eu ainda sou do tempo
em que o futebol se jogava aos domingos, às quatro da tarde ou às três quando o
inverno chegava e os dias eram pequenos. Nesse meu tempo de criança havia
poucos automóveis e as carreiras ao domingo, exceto no tempo de praia e exatamente
para as praias, os transportes, tal como hoje, eram mais raros e espaçados. Por
isso, para ir à bola, ia-se a pé.
(parecia
uma romaria)
O Campo de Jogos do Pragal, que era
assim que se chamava ao campo de futebol do Almada Atlético Clube ou
simplesmente do Almada, ficava onde ainda hoje se situa: lá no cimo, paredes
meias com o monumento a Cristo-Rei.
-
Vá lá, senhor, uma imagem do santo. São só vinte escudos, - apregoavam as
vendedeiras que vendiam cristo-reis fosforescentes e colavam autocolantes nas
bandas dos casacos e nas golas das camisas a dez tostões e vendiam também a
Nossa Senhora de Fátima fosforescente que era para se ver à noite em cima da
cómoda ou da mesinha de cabeceira, com as luzes apagadas. Quer aos que iam à
visita ao Cristo, quer os que iam ver a bola ao Almada.
Por isso era ver aquele povo todo a
subir a pé a Avenida Cristo-Rei ou a rampa do Pragal que vinha lá de baixo
desde a estrada nacional, passava pelo quartel e desembocava no largo do
Cristo-Rei, mesmo junto ao campo do Almada. Aliás, como hoje.
Fui, enquanto criança, sempre com o
meu pai. O meu pai foi, se não nascido, pelo menos criado em pleno Pragal e não
poderia ser de outro clube senão do Almada.
-
Viva o Almada!
Poder podia. Naquele tempo quase toda
a gente era do Benfica, do Sporting ou do Belenenses, coisa que já não é igual
hoje em dia, pois que, à força das vitórias que conseguiu nos anos 80 e 90 do
século passado, fez-se transferir a paixão dos miúdos também para o Porto.
-
Almada! Almada! Almada!
Mas se torcíamos por um grande a
verdade é que o Almada e o Piedade eram os clubes de todos nós, os daquela zona
de Almada. E eu, porque cresci no Pombal, exatamente a meio caminho entre o
campo do Almada e o campo do Piedade, escolhi o Almada como clube de coração.
Era a malta dali metade / metade, de forma que, até quando em miúdos
escolhíamos a linha para os nossos desafios, o fazíamos em função disso,
imitando no terreiro frente ao pátio um derby Almada-Piedade. Já no início da
adolescência, porque me mudei para um Bairro próximo do Pragal, aí já ia
sozinho, a pé, com os outros putos
(parecia
uma romaria)
vermos o Almada. Atalhávamos caminho
numa azinhaga que ia dar à Ermida e dali era um pulinho até ao campo da bola.
O pior era para entrar. Os porteiros
não deixavam os putos entrar sozinhos, já que os miúdos teriam que ter quem se
responsabilizasse por eles. E quando não estava lá, aquele porteiro amigo do
meu pai, que apanhando o fiscal da Associação distraído me fazia passar entre
ele e o portão sem que ninguém desse por isso, só entrávamos acompanhados por
um adulto. E aí começava a pedincha,
- Ó vizinho, deixe-me entrar consigo
e logo um adulto nos dava a mão, e na
porta, em perfeita cumplicidade com o porteiro,
- É meu filho,
franqueava-nos a passagem. E lá entrávamos e
nos juntávamos à outra malta que, com o mesmo estratagema, entravam com os
“pais” deles. Muitas das vezes, com dez ou onze anos de idade, não ligávamos
patavina ao jogo. Queríamos era andar para ali a brincar no peão por trás da
baliza, onde a GNR nos repreendia e ameaçava levar-nos presos. Naturalmente
isso nunca aconteceu.
Algumas considerações finais:
1 – O meu Almada sofre das amarguras
que sofrem os que outrora foram grandes clubes. Vi lá grandes jogos contra o
Estoril, o Lusitano e o Juventude de Évora, contra o Amora, contra o Lusitano
de VRSA, contra o Vasco da Gama de Sines, contra o Esperança de Lagos, o
Montijo, o Barreirense e obviamente, contra o grande rival de sempre o Desportivo
da Cova da Piedade,
-
Almada! Almada! Almada!
quando até o varandim do monumento a
Cristo-Rei servia de bancada a 100 metros de altura. Hoje, com a transformação
de um desporto em negócio, a criação de SADs para acionistas, o futebol de
cariz mais popular anda a fazer uma travessia no deserto que parece nunca mais
ter fim. O meu Almada arrasta-se entre a primeira e a segunda regional e nunca
mais se sentiu a emoção do velho derby.
2 - O Grupo Desportivo da Cova da
Piedade conseguiu, via patrocinadores e acionistas chineses criar algumas
estruturas para poder competir em divisões superiores nomeadamente a
profissional 2ª Liga do nosso futebol. Tem até, por isso, direito a algumas
transmissões televisivas onde já ouvi alguns comentadores e relatores
designarem-no por Cova. O Cova isto, o Cova aquilo. Pois, meus senhores, essa
não é nem a designação do Clube nem sequer da localidade que lhe dá o nome. A
localidade é Cova da Piedade e o clube, se falarem com os mais velhos, é para
eles o Desportivo e se falarem para os mais novos, incluindo os da minha
geração, é o Piedade. Cultura desportiva não devia ser coisa que faltasse a
esses arautos. Mas parece que sim.
3 - Um dos porteiros nosso amigo era o sr. Delfim.
Conheci-o quando era miúdo e nunca me deixou ficar à porta. Com ele lá, entrava
sempre sem ter que ter um pai emprestado. Soube que morreu há pouco, em Junho
de 2018. E como o mundo é pequeno soube agora que era o padrasto de um amigo
meu de infância. Nunca tinha relacionado o facto até ter visto a fotografia do
sr. Delfim no cartão da funerária. Que o São Pedro lhe tenha franqueado as
portas do Céu e que descanse em paz.
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
240. O dono da bola - #11. Um pontapé de bicicleta
A praia era, naquele tempo, para mim, o areal e uma
bola. O mar era para o banho no fim do jogo. Logo pela manhã, aos sábados ou
aos domingos de verão, se juntava a rapaziada lá do bairro, cada um com a sua
toalha debaixo do braço e uma ou duas bolas, não fosse alguma rebentar e lá
íamos nós. Alguns, os mais afoitos, iam à boleia. Ficávamos no troço da autoestrada à saída da
ponte 25 de abril de dedo esticado ou com uma cartolina a dizer C. CAPARICA e não
me lembro de algum dia em que em pouco mais de meia-hora não estivéssemos já
todos no Paraíso ou no Dragão a escolher as linhas. Claro está que ir à boleia era um risco, pois
apesar de serem tempos mais remotos, predadores sempre os houve, mas nós lá
íamos cumprindo algumas regras de que nunca ia um sozinho e a minha mãe a dizer
- Se sei que vocês vão à boleia nunca
mais vos deixo ir à praia sozinhos
nem nunca ficava para trás nenhum sozinho.
E quase sempre apanhávamos boleia de casais. É verdade que sendo regra nem
sempre se cumpria, pois quando a pessoa que nos oferecia boleia tinha “cara de
boa pessoa” também aceitávamos. Há quase 50 anos havia muito menos carros a
circular mas, em relação aos tempos de hoje, creio que muito maior oferta de
boleia. Era frequente, nesse mesmo local verem-se pessoas de mochilas às
costas, casais com frequência, jovens na generalidade, estrangeiros muitos e
também alguns militares cada um com os seus destinos marcados em maiúscula, por
vezes com erros nas placas de cartão que clamavam por VRSA, BEJA, SINES, LAGOS,
VENDAS NOVAS,
(um
amigo meu fez a tropa em Vendas Novas e saiu com a coluna militar que “fez o 25
de Abril, acho que a partir do Cristo-Rei)
andar à boleia era não só uma
aventura, uma forma de poupar umas coroas, mas também uma moda que vinha dos
anos 60 do século passado a década do Woodstock, do inicio da guerra nas nossas
províncias de África – o Vasco morreu em Moçambique poucos dias depois do 25 de
Abril - do Maio de 68, dos hippies, das
manifestações dos estudantes de Coimbra, da greve na Lisnave.
(chorei
quando me lembrei do Vasco)
E havia ainda outra regra entre nós,
uma terceira regra que era sagrada e a voz da minha mãe ainda a soar-me nos
ouvidos
- Se sei que vocês vão à boleia nunca
mais vos deixo ir à praia sozinhos
E a regra era, não havia chibos. Ai daquele que
tivesse o descaramento ou a imprecaução de, à frente dos pais ou de outros
putos que não pertencessem ao grupo da malta da boleia, bufar que fulano ou sicrano
tinha ido à boleia. A primeira é que era naturalmente excluído das nossa
equipas ficando a jogar ao pau com os ursos como se dizia na altura e que creio
ser expressão que ainda hoje se utiliza. A segunda eram as consequências para
nós próprios. Se os meus pais sonhassem (sonhar, sonhavam, as recomendações da
minha mãe não me deixam mentir), que nos davam o dinheiro para as passagens e
até para um gelado da Olá e que andávamos à boleia, era certo e sabido que a
ficaríamos esse verão sujeitos a que só fossemos à praia com eles ou, na melhor
das hipóteses, termos de apanhar a camioneta da carreira sob a sua vigilância.
E isso era terrível pois não era raro passarmos horas na paragem porque as
camionetas já vinham cheias desde Cacilhas e muitas não traziam desdobramento,
ou traziam-no cheio.
(Era
o Machado o expedidor, um tipo magro, austero, de bigode para meter respeito,
quem todos os choferes temia, porque quem mandava era o Machado, que mandava
parar um autocarro, por exemplo que fosse para outros destino, tipo o Pragal e
ordenava que o chofer quando lá chegasse não voltaria a Cacilhas mas seguiria
em desdobramento para a Costa).
A bola fora centrada do lado direito do ataque. Eu
estava na área quando a vi chegar e vi que ela me passaria nas costas virei-me
e num ápice, todo no ar, com as duas pernas como que pedalando numa bicicleta
ao contrário, apliquei-lhe em cheio com o peito do pé direito. Não vi o final
porque estava de costas e também porque não teve direito a repetição em câmara
lenta como hoje em dia fazem as televisões. Mas diz a malta que passou mesmo
entre os braços abertos do guarda-redes que não esperava por aquele golpe. A
areia fofa da praia aparou-me a queda e foi como se nada se tivesse passado. O
pior foi em casa, a explicar ao meu pai, tentando imitar todo o movimento. Sim,
porque um golo daqueles não se marca todos os dias, eu não era nenhum Madjer ou
Alan do futebol de praia, aliás essa modalidade ainda não existia e nem sei se
o Madjer já era nascido e, portanto, o golo merecia ser relatado com todos os
pormenores. O pior foi a queda no soalho do corredor. Aquilo não era a areia da
praia e ainda hoje parece que me doem as costelas todas.
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
239. O dono da bola - #10. Ao lado de uma carreira
O que aqui vos conta esta história poderia ter sido
jogador de futebol. A sério, pá! Quero dizer, jogador de futebol a sério. Com
chuteiras de marca e camisolas da Adidas, ou da Puma, ou da Nike, ou da Macron…
Com os estádios cheios, ou quase, a verem e a aplaudirem. E a gritar golo, correndo
o estádio de punho no ar como o Eusébio. Bem, como o Eusébio não, que foi único.
Como o Ronaldo, talvez. A saltar, a fazer uma chicuelina e gritar olé em cada golo,
(E como é que isso podia ter acontecido se nunca
passaste da cepa torta? Se nunca jogaste futebol a sério apesar de teres jogado
à bola até aos quarente e cinco anos?)
e aqui começa a narrativa. O meu irmão Carlos
andava nos treinos de captação do Sporting. A coisa ia bem lançada e, treino
após treino, regressava a casa com mais esperanças de que poderia assinar, de
um momento para o outro, pelo seu clube do coração
- Pai eles dizem que para a semana mandam os papeis
o meu pai entusiasmado porque a coisa ia bem lançada.
Entretanto, o Marques, que era um dos centrais do Sporting e nosso vizinho lá
no Bairro recrutou e recomendou aos treinadores que faziam a captação, alguns
de nós,
(havia um que
festejava cada vez que que conseguia acertar na bola, mas isso não é para
contar)
que dávamos uns toques lá no Matadourense, eu
excluído, não porque não desse uns toques na chincha,
(a minha avó tinha um dito que era
qualquer coisa assim: gaba-te cesto…)
mas porque já ultrapassava a idade limite para a
captação. Mesmo assim fui. Fui ver o meu irmão treinar.
Quando chegamos ao campo de treinos
do estádio de Alvalade, equipou-se o Carlos, equiparam-se outros que iam à
captação e equiparam-se os recomendados pelo Marques. Obviamente, eu não me
equipei
- Junte-se àquela turma, aqui não tem
espectador
mas o senhor Osvaldo Silva, um dos
treinadores, o outro era o celebríssimo Hilário, perguntou-me porque não me
equipava. Expliquei-lhe que já não tinha idade para a captação e que só vinha
ver o meu irmão treinar
- Vai que aqui não tem espectador
mas isso não podia ser. Ou me
equipava e me juntava à turma ou tinha
de me ir embora, sentenciou-me. Não tive outro remédio. No meio de camisolas e
calções, lá encontrei umas chuteiras que me serviam. Nem sei se eram do mesmo
par. Mas serviam-me. E lá fui eu, para
as bancadas,
- Ó cara aí você não quer jogar, não?
é bom de ver, tentando me esconder
ou, pelo menos, passar despercebido, enquanto os miúdos que tentavam a sua
sorte se esgatanhavam para ter lugar num dos onzes. Num destes onzes estava a
maioria dos juvenis do Sporting que transitavam de um ano para o outro, as
academias dos clubes, nomeadamente a de Alcochete, só veriam a luz do dia
muitos, mas muitos anos mais tarde. No outro time os noviços. O meu irmão,
porque já tinha ido a muitos treinos, já equipava na equipa principal, embora
ainda não tivesse contrato assinado
- Pai eles dizem que para a semana
mandam os papeis
E eu sentado na bancada, ia assistindo ao desenrolar
do treino e à velocidade com que os treinadores, Osvaldo e Hilário, iam
mandando os candidatos para o duche. Quem sabe, sabe e um jogador de futebol
reconhece-se logo ao primeiro toque. Ou ao segundo, De vez em quando ouvia-se a
voz de um deles: Há aí algum defesa esquerdo na bancada?
- Ó cara aí você não quer jogar, não?
e depois um defesa direito, um
central, um médio centro, por aí fora até que depois de vários extremos
direitos terem ido para o balneário mais ninguém respondia das bancadas,
- Vai que aqui não tem espectador
acabrunhado, levantei o braço
(mais
um para jogar dez minutos)
mas na primeira jogada em que
intervim, sentei no chão o defesa esquerdo da equipa juvenil, dei uma revienga
ao central, chutei à baliza onde, concentrado, atuava o meu mano e pimba! Bola na
barra. Todo eu tremia. Por um lado, marcar um golo ao meu irmão seria a pior
das traições, por outro, quando a gente está em campo nem sequer pensa nisso.
Pensei? Não pensei? Não faço a mínima ideia. Graças a Deus que a bola foi ao travessão.
Oiço o apito de um dos treinadores.
(mais
um para jogar dez minutos)
O senhor Hilário interrompeu o jogo.
Pensei de imediato. Falhar um golo em frente ao guarda-redes é uma blasfémia
cuja penitência é o balneário. Mas não. O senhor Hilário, muito educadamente,
veio ter comigo e explicou-me qual seria a posição correta do corpo para que eu
tivesse tido êxito naquela jogada. Eu tremia cada vez mais, mas respirei fundo
e a tremura passou. Nova corrida da direita, um passe em profundidade, o ângulo
era difícil e o remate foi pronto. O Carlos correspondeu com uma daquelas
defesas que a gente só vê nos resumos da televisão, como a defesa da semana.
Seu Osvaldo, manda um berro,
(mais
um para o balneário)
o Carlos para e fica com a bola na
mão, o treinador corre para mim. E sentencia: Se falha outra assim vai tomar um
banho.
(Eu
não disse? Mais um para o balneário)
Não falhei mais porque também não
tive mais nenhuma oportunidade. Cinco minutos depois o treino tinha acabado.
Que vitória! Já tinham ido para o banho uns quatro extremos direitos e eu fiz o
treino até ao fim.
No final os treinadores foram falando
com alguns dos miúdos. Não sei o que lhes disseram porque estava longe.
Distanciei-me sempre…
- Aqui não tem espectador
Chamou também o meu irmão Carlos e
soube depois que lhe disseram que continuavam a contar com ele.
- Pai eles dizem que para a semana
mandam os papeis
Depois chamou o grupo do Marques, ou
seja, os do nosso Matadourense. Escolheu o Carapinha para o próximo treino.
Creio que o Mesquita também, não tenho a certeza. Voltaram aos balneários e eu
segui com eles. Aí o senhor Hilário chamou-me: És do grupo do Marques? Não,
somos do mesmo Bairro mas só vim ver o meu irmão treinar,
- Aqui não tem espectador
e ele ripostou: Voltas para a semana e, se
puderes, traz o teu pai contigo. Ainda argumentei que não tinha idade par a
captação. Ele fez um ar de não importa e ainda me perguntou: És tu que és irmão
aqui do guarda-redes? E eu: Sou sim, senhor treinador. Ao que ele terminou
dizendo; então o pai serve para os dois.
Despedimo-nos. Só voltei ao estádio
de Alvalade muitos anos depois para ver um jogo da seleção nacional. Mas no
metro, de regresso a casa, pensei, Está
decidido. Não volto. Isso é que era bom. Não seria capaz de jogar ali! E
foi assim.
sexta-feira, 21 de setembro de 2018
238. O dono da bola - #9. O meu irmão guarda-redes
Na praceta das traseiras não havia carros. Aliás quase
não havia carros em nenhuma das pracetas. Estávamos nos finais dos anos 60,
início dos 70 e pouca gente tinha dinheiro para comprar carros. Um bairro onde
a maioria eram operários, empregados de comércio, embarcadiços, estivadores e
outros portuários, motoristas de autocarro, funcionários públicos, que na época
ganhavam bastante pouco, magarefes, pescadores e um ou outro estabelecido.
Assim, como hei de dizer, classe operária e baixa classe média. No bairro não
havia ricos embora também não se possa dizer que fosse um bairro pobre. Mas
carros havia poucos, havia muito espaço para jogar à bola, era na minha
praceta, era num baldio que ligava o Bairro ao Valdeão, hoje integrando o HGO,
era na própria estrada onde, amiúde, aparecia a GNR a perseguir os putos que
jogavam à bola, bastas vezes a guarda a cavalo pois aquela urbanização estava
implantada numa zona rural, cercada pela Quinta do Olho de Vidro, a Quinta do
Cesteiro, o Valdeão, a Quinta do Malquefarte, a Quinta do Pinheiro e por aí
fora que a minha memória não consegue lembrar-se de todos os nomes, eu não sou
nenhum Saramago, era na praceta das traseiras e a minha mãe,
- Joga-lhes um balde água
cheia de cardos e de outras ervas que
a malta pisava com os sapatos, para a transformar em campo relvado, no meu
Bairro não se andava descalço e que no final até parecia mesmo um campo
relvado, até aonde vai a imaginação das crianças. E lá se montava o estádio,
onde hoje é um rinque cimentado, com balizas de futebol a sério e a minha mãe,
- Estou a falar a sério, manda-lhes
um balde água
e redes de proteção para que as bolas
não acabem nos vidros de alguma janela, e eram duas pedras a servir de baliza,
quatro se contarmos que havia duas balizas e numa delas, o meu irmão do meio, o
mais novo ainda era praticamente bebé, guarda-redes como se falará mais tarde,
mas ali, a voar para a bola e a cair nos cardos batidos e os joelhos a baterem
no chão a chegarem a casa sangrando, no entanto ele voava, parecia o Capitão
América ou o SuperMan, ou para mim o melhor, o major Jaime Eduardo de Cook e
Alvega, o major Alvega da revista Falcão, que saudades que tenho daqueles
livros aos quadradinhos e a minha mãe,
- Vem para mesa
e eu a pedir para atrasar um bocadinho o almoço, estava a acabar um capítulo
de História ou de Geografia pois à tarde ia ter ponto, com o Falcão escondido
no meio dos livros de estudo e, enquanto o major Alvega não arrasava a asa da
tirania nazi dos céus de Inglaterra, eu não engolia o bife ou, mais certo, os
carapaus fritos, mas não, não voava tão alto como o major Alvega porque o major
Alvega voava de avião e o meu irmão Carlos voava sobre o relvado de cardos e eu
frustrado porque mais uma vez, apesar da bomba, que não de um avião da RAF nem
da Luftwaffe, era uma bomba saída dos pés de uma criança de catorze anos, não
marcava golo, logo eu do Benfica e ele do Sporting, podia lá ser eu não marcar,
quem me dera que fosse frangueiro e eu cada bola, cada golo, mas não, ele
defendia mesmo bem, defendia quase tudo. Só que eu era avançado e também
marcava bem mesmo ela entrava altas
ou por cima da pedra que era poste ou
que fingia ser se entornava o caldo entre irmãos, rivais de clube e rivais na
função, um avançado, outro guarda-redes, Foi golo, Não foi nada e eu Foi e ele Não
foi e eu Batoteiro, Batoteiro és tu, Larga já a bola que a bola é minha, Querias,
vem-ma cá tirar se a queres e eu ia e andava-mos à bulha e a minha mãe para aquela
que via os nosso jogos pela janela da sala, tão garotos que nós éramos e acabámos
por casar, já lá vão trinta e oito anos de enlace muitos de namoro, dois filhos
e três netos eramos uns garotos e a minha mãe sem sonhar que alguma vez ia ser
a sogra recomendava-lhe,
- Se eles discutirem, manda-lhes um balde água.
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