quinta-feira, 9 de agosto de 2018

233. O dono da bola - # 4. O dono da bola


Joga sempre, escolhe a equipa, é o capitão, nunca vai à baliza, decide quando é que é penalti ou não, se a bola está fora ou segue jogo, se a bola foi “altas”, isto é, por cima da barra imaginária da baliza e se não ganha… amua. Da próxima vez não escolhe aquela abécula do Pernas para ir à baliza, é alto, mas é um frangueiro do caraças e o Cara-de-Velho não volta a jogar na equipa dele porque é um foção, não passa a bola a ninguém. O dono da bola chega a fazer regras para ganhar legalmente.

O dono da bola, depois de lavar os dentes, vai para a cama e já com o pijama novo vestido, que a tia que mora no Cristo-Rei lhe ofereceu no Natal, reza a oração que avó lhe ensinou “Ó meu Anjo da Guarda, minha companhia, guardai minha alma, de noite e de dia. Com Deus me deito, com Deus me levanto, que seja na Graça do Espírito Santo. Ámen!” e depois, num murmúrio envergonhado, pede baixinho ao Anjo da Guarda para que não apareça mais ninguém que também tenha uma bola de catechu. É que ele não quer, por nada, ir à baliza.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

232. O dono da bola - # 3. Esta sim, era uma bola de catechu


Naquele tempo ter uma bola de catechu era um luxo. Catechu é, naturalmente, um galicismo. Provirá da palavra francesa caoutchouc que significa borracha. Mas cá entre nós as bolas de borracha são uma coisa, as bolas de catechu são outra, nós adotámos bola de catechu para designar as bolas de couro e, pronto, é assim mesmo que se conhecem, apesar de com a evolução dos materiais e das tecnologias as bolas hoje sejam totalmente sintéticas e nada tenham a ver com as bolas com que se jogava antigamente. Curiosamente, quando em condições de tempo adversas se tinha que jogar sobre poças de água ou terrenos enlameados, as bolas ficavam irremediavelmente embebidas que pareciam pesar chumbo, o que lhes consignava o epíteto de bola de “catechumbo”. Era uma perdição para qualquer criança atingir o desiderato de possuir uma bola de catechu. Sim, uma bola igual à dos federados, quer dizer, dos futebolistas a sério, daqueles que até tinham cartão com nome deles e fotografia que lhes permitia entrar à borla nos campos para ver outros jogos, desde que fossem organizados pela mesma associação. Bom, coisa difícil de explicar, mas que me fazia brilhar os olhos quando eu via o cartão de jogador do Tateu, o meu primo, isto é o filho da minha tia Gracinda, que por acaso se chamava Zé, mas que todos os conheciam por Tateu, uma abreviatura de Matateu, já que o Zé, embora sem qualquer raiz africana que lhe fosse conhecida, era um tipo muito moreno e jogava muito bem à bola. Quanto ao Matateu, esse era um jogador africano de excelência e que pontificou nos anos 50 do século passado no Clube de Futebol Os Belenenses. Já as bolas de borracha, acabaram por ser as sucessoras das velhas e artesanais bolas de trapos, com as quais eu nunca joguei, apesar de me recordar que quando ainda garoto, o meu falecido e saudoso pai me as ensinou a fazer. Mas voltemos às bolas de catechu, que um antigo e já desaparecido relator desportivo, da extinta Emissora Nacional, caraterizava como “os quatrocentos gramas de couro insuflável”.

As bolas de catechu de antigamente eram um luxo, mas chegavam, algumas, de qualidade de fabrico mais descuidado a ser um empecilho à boa prática, ou como se diz hoje ao fluir nas transições ofensivas a partir da zona de construção. É que as bolas, no local de enchimento da câmara de ar, ou seja, no pipo, não eram completas. Havia que dar acesso à agulha de enchimento. E aquele pequeno círculo que não fechava a bola, era compensado por uma língua de couro mais maleável que metade cosida à bola era a outra metade enfiada entre o couro e a borracha da câmara de ar sustentando-se pela compressão que esta, a borracha sob pressão de ar, fazia contra couro da bola. Ora se a bola vazasse um pouco, esta pressão era aliviada e a língua saía de fora, pelo que era necessário voltar a colocá-la no seu sítio perdendo-se com isso algum do tempo de jogo. Além deste quiproquó havia já o referido inconveniente do peso da bola, quando ensopada em água. Ora isto era um flagelo para os pés descalços, ou mesmo de sandálias, dos miúdos lá da zona. Depois de secar, a bola acabava por ficar dura demais para os pezinhos das crianças. Portanto para os putos, mesmo para os que sonhavam ter uma bola de catechu, a bola ideal era a de borracha ou até a bola de trapos.

Mas há bolas de catechu e bolas de catechu. Quero dizer, nem todas as bolas de catechu eram iguais e no estrangeiro já havia bolas de catechu muito melhores do que as nossas. Mesmo os clubes de futebol daquela época, só os de maior poderio económico as usavam. Nas divisões inferiores jogava-se muito com bolas iguais às que descrevi. Falo do estrangeiro porque, um dia, o meu foi convidado pelo estaleiro onde trabalhava para ir fazer um curso à Suécia. Sim era um curso, mas que hoje em dia se dá o pomposo nome de “on the job training” o que significa, “não penses que vais para o bem-bom duma sala de aulas e o salário vai-te parar ao bolso no fim do mês”, ou seja, vais bulir e ao mesmo tempo aprender coisas novas. E lá foi ele, nove meses fora da mulher e dos filhos para poder ter um futuro mais risonho. Muitas cartas, muitos postais ilustrados, não raros salpicados de lágrimas sobre a tinta ainda fresca, muitas saudades, muitos beijos e surpresa das surpresas um presente chegado pelo correio, uma bola de catechu. Mas uma bola daquelas que não tinham língua. Uma bola a sério, com o pipo incorporado no couro. Uma bola que não precisava de ser ensebada para que não lhe entrasse a água, uma bola que não pesava como chumbo, uma bola que não nos deitava a língua de fora. Uma bola oficial, caraças! Leitoras e leitores, apresento-vos o novo dono da bola!

quarta-feira, 25 de julho de 2018

231. O dono da bola - # 2 O número da bola




Vamos começar por fazer contas. Meio tostão é metade de um tostão e um tostão são dez centavos. Dez tostões são cem centavos e, portanto, dez tostões faz um escudo. Assim, cinquenta tostões são cinco escudos e duzentos tostões são vinte escudos. Se os rebuçados custarem meio tostão cada, ou seja, dois por um tostão, vinte escudos compram quatrocentos rebuçados. É só fazer as contas. E em cada rebuçado vinha um boneco da bola.

Hoje são cromos, requintados, retratos de frame cheio, encerados, brilhantes, autocolantes, vêm em saquetas, cada saqueta com quatro cromos custa 1,00€. Um euro são mais ou menos, arredondando para baixo, duzentos escudos dos antigos que se convertidos a tostões seriam dois mil tostões o que, revertido ao meu tempo de colecionador de bonecos da bola enrolados em rebocados, a dois cada tostão, daria para quatro mil bonecos da bola. Ah se eu tivesse 1,00€ para bonecos da bola! O meu pai ganhava isso, talvez pouco mais, numa semana de trabalho…

Entrei na Elisiária, a mercearia que vendia os bonecos da bola, com a caderneta cheia. Cheia, quero dizer, cheia não, faltava colar um porque os outros já iam todos coladinhos com cola de farinha, faltava o mais custoso, faltava o número da bola. Esse nunca saía, vinha carimbado com o mesmo número que estava na lata e na bola de catechu presa no cartaz dos prémios. Estava colado no fundo da lata para não poder ser vendido a ninguém. Imaginem que saía a meio da lata. Alguém teria logo direito à bola de catechu, bastava acabar de preencher a caderneta e isso era fácil. E o jogo perderia o fascínio e os restantes rebuçados ficariam por vender, a não ser que o ganhador e o merceeiro guardassem sigilo até ao fim da lata. Mas isso nunca acontecia, ou pelo menos, seria muito raro que acontecesse, pois tratava-se de batota. Era assim, devido a esta artimanha do boneco da bola estar agarrado no fundo da lata que a bola de catechu, bem como os restantes prémios do cartaz (alguns bonecos traziam também enrolados uma “senha” com a designação de um prémio) só saiam mesmo no fim ou a quem rebatesse a lata. Os primeiros prémios a sair eram as cadernetas o que incentivava os putos – e os crescidos, diga-se de passagem – a fazer a coleção. Já nessa altura o marketing tinha espertezas destas. Pois entrei com a caderneta e com o meu pai a acompanhar-me. O meu pai ia rebater a lata pois os miúdos, os filhos, claro está, não se calavam com a bola de catechu.

Num cálculo assim por alto, a Elisiária, tendo em conta os prémios saídos e altura de rebuçados na caixa calculava que estariam para lá uns quatrocentos. Eu olhava para o cartaz e nem ligava aos chocolates, pentes, carteiras, canivetes, cadernetas… nada! A única coisa que me fazia brilhar as duas luzinhas era a bola de catechu. E aquela ia ser minha. Até me arrepiei todinho.

Começou a contagem. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze… dezanove, vinte, vinte e um… trinta e nove… quarenta e sete, setenta e oito – Ó Sr. Augusto eu disse setenta e oito ou sessenta e oito? e se não se tinha a certeza começava-se de novo, cento e vinte e três, cento e vinte e quatro, … trezentos e oitenta e um e eu não tirava os olhos da lata a não ser para ir olhando para os olhos do meu pai, Ainda faltam muitos D. Elisiária? perguntava ansioso, quatrocentos, quatrocentos e um e dois e três… e eu tremia, devia estar quase, e quarenta e quatro, ai ai, ai ai, que as coisas não estão a correr bem, quatrocentos e noventa e nove e Pare aí D. Elisiária! ordenou o meu pai. Parava a contagem e terminava a esperança. Era demais e o orçamento familiar não dava para gastar vinte e cinco escudos em bonecos da bola ou mais ou talvez muito mais, pois ficamos sem saber quantos rebuçados ficaram ainda por tirar da lata.

E enquanto uma lágrima me escorria cara a baixo, a Elisiária voltou a espetar o cartaz no prego lá de cima. Olhei de novo e pareceu-me ver a bola de catechu deitar-me a língua de fora.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

230 . O dono da bola - #1 Muda aos seis, acaba aos doze



Passeio-me de braço dado com a minha mãe pela rua onde antes fora uma azinhaga. A nossa azinhaga. Dos valados, onde em garoto íamos às pichas de gato, raízes doces das azedas e do muro da quinta do Plantier, só recordações. Impossível era, mais de cinquenta anos depois, ainda haver vestígios. Depois vieram os prédios, primeiro do lado direito para quem caminha na direção oeste-leste e depois do lado esquerdo, um dos quais acabou por ser erigido sobre o pátio onde cresci, sobre o pátio da minha infância. Nos primeiros prédios ainda moraram, a saber, um colega da escola primária e mais tarde filho de vereador, um primo meu também e onde se estabeleceu uma mercearia / lugar de frutas cuja primeira caixeira-dona encontrei por acaso numa excursão, em Trás-os-Montes. Em Almada é que eu não a via, exatamente há cinquenta e dois anos. Coincidências do caroço, como dizia uma tia minha, já falecida. Não me lembro do teu colega, comentava a minha querida e octogenária mãe e acrescentava, Como é que este rapaz se lembra disto tudo? quando lhe disse o nome do dono da mercearia e a relembrei que no prédio onde morou a prima Helena tinha também uma barbearia. Dos donos da mercearia lembrava-se ela muito bem e até sabia o nome das filhas e dos filhos que eram muitos. E quando falámos do muro da quinta e de uma abertura que dava da azinhaga para a mesma, relembramos que as pessoas faziam daquele local uma montureira onde se despejava toda a espécie de dejetos domésticos a céu aberto, pois, segundo alguns, no tempo do Salazar é que era bom! Falamos do pátio onde moramos, das condições difíceis, dos anos sem eletricidade, nem água, nas casas de banho construídas por nós próprios, da oliveira de esquina que marcava a zona de casas da zona de barracas, da rua que subia da oliveira, cujo tronco saía da terra como se forre uma raiz e voltava a entrar em outro pedaço de terra rompendo o valado, ou melhor dizendo o valado é que lhe caiu em cima, a rua que subia para Almada e onde hoje há o Teatro Municipal e que passava no pátio de cima e na casa da madrinha e lembrei o nome dos vizinhos todos, os nossos, porta a porta, os de fora do pátio, os do pátio de cima e os vizinhos da minha madrinha. E aqui mãe, lembras-te o que era? perguntei fazendo-lhe um novo teste à memória. Se me lembro filho, aí não havia nada. Tinha razão. Era um descampado, um terreiro que já fora da quinta onde hoje está um jardim e onde os miúdos do meu tempo lançavam os papagaios ou talvez, com mais frequência, as estrelas, uma estrutura com três meias-canas laçadas no centro em forma de estrela, de maneira que os extremos ligados com fio uns aos outros, formando um hexágono regular que depois seria coberto a papel de seda e que eram mais fáceis de estabilizar e que subiam bem mais alto. A estrela vai alta como o… e lá saía o palavrão de um ou outro mais simplório, menos educado ou mais menino de rua, que esta boca, que uma vez se lembrou de dizer um impropério, foi ameaçada de levar com pimenta na língua e, por isso, nunca mais se atreveu, praticamente até ser adulto, a utilizar vernáculo nas suas alocuções. E era também o nosso campo de futebol, onde as balizas eram feitas com duas pedras em cada um dos topos, onde não havia linhas laterais nem linhas de fundo, o centro e as marcas de penalti não se marcavam ou não se viam e que, para chutar um castigo  máximo, como hoje se diz em futebolês, ou pénalte como se dizia na gíria da miudagem, contavam-se onze passos a partir do meio da baliza e nem era preciso haver árbitros. Mudava aos seis, acabava aos doze desde que o último golo entrasse bem rasteiro e no centro da baliza.

Foi neste terreiro que iniciei a minha arte de pontapear a bola para a frente, mas o futuro foi aquilo que se viu. É como se tivesse sido substituído antes do jogo começar.



Nota: Este é o primeiro texto de uma série 21 pequenos contos sobre um jogador de futebol que nunca o chegou verdadeiramente a ser. Ou então não. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

229. Alguém foi enganado

Alguém foi enganado

A história que vou contar ouvi-a também assim. Para ser mais exato, ouvi-a mais ou menos assim, pois se quem conta um conto não lhe acrescenta um ponto o melhor é ficar sossegadinho, já que não faz jus ao provérbio. E é por vezes neste ponto que se acrescenta, que se dá ou se retira o dramatismo de uma situação, ora conferindo-lhe uma nota de humor, ora adicionando-lhe um não-sei-o-quê de pesar. E neste conto não vos irei defraudar, resta saber se o que vos narrar vos fará rir ou, quiçá, chorar.
Feito que foi o introito, ou quase, também eu irei meter a foice nesta seara, opinando que o conto encerra qualquer coisa de trágico. Mais tarde mo dirão se assim é ou não e isto se assim vos aprouver. Tragédia mundana que é como alguns sábios a classificam, mas que é cá um dramalhão, lá isso é inegável. Vamos então contar o nosso conto que foi para isso que fui convidado.
Estava a internet, ou melhor, o seu uso, ainda em plena aurora e já a máquina de construir enganos começava a ser oleada. Estudava o Francisco em Lisboa, rapaz pacato e de boas famílias, se bem que de não muitas posses mas, ainda assim, havia entrado na Universidade. Cursava Direito, dizia que apesar do seu curso não iria enveredar por qualquer carreira política, não tinha vocação, o que era verdade, rapaz de perfil baixo, já que o conto é em português e escusa-se o anglicismo, ficará para outra ocasião, pronto, era low-profile, seria tão somente um advogado competente, honesto e trabalhador. Para ajudar a enfrentar a dureza do curso, como qualquer jovem classe média de hoje, o Francisco tinha computador em casa e, como praticamente se pode dizer, ter computador é o principal caminho para se estar ligado com o mundo, então o Francisco tinha também internet. Mas era Francisco um rapaz normal, o computador era um instrumento de trabalho, consultava códigos, lia pareceres, revia legislação, aperfeiçoava-se na ética enfim, tudo o que um jovem estudante de Direito, mas não só, pode ter ao alcance de algumas teclas. Os seus tempos livres eram semelhantes aos tempos livres de quase todos os outros estudantes, sextas-feiras de algumas liberdades, por vezes também os sábados, uma cerveja ou um shot, desculpem, mas aqui só mesmo o anglicismo transcreve fidedignamente a coisa, de vodka ou bagaço, mas tirando isso não se lhe conheciam noites de bebedeiras ou outras más vidas, regressava sempre a casa cedo, os pais não tinham de que se preocupar.
Mas alto e para o baile! E se isto que se acaba de ler, apesar da fluência, não é um corridinho, pode ser um baile mandado pois se quem dita as voltas é o mandador, aqui o dito chama-se computador, refúgio diário do Francisco, mais ainda aos fins-de-semana, está agora explicado porque é que o rapaz, apesar de gostar da farra, regressava sempre cedo para casa e ninguém o podia acusar de vir já com um grãozinho na asa, se disse antes e se confirma, uma cerveja ou um shot e era tudo. Atinado era ele e pronto, está o Francisco caraterizado, vamos à ação que até agora foi pouca.
Ora não se pode dizer que os trabalhos escolares fossem assim tantos ou que o rapaz se empenhava exacerbadamente no seu curso, porque consulta aqui, leitura acolá, o que o Francisco mais gostava era de conversar com aquela brasileira simpática de quem um dia recebeu por e-mail a sua fotografia de rosto, tipo-passe e, mais tarde, passeando-se como uma verdadeira garota de Ipanema, olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, pelas praias do Rio de Janeiro, Ipanema, Copacabana, Angra dos Reis, num corpo escultural, dentro (?) de um reduzidíssimo biquíni, coisa pouco vista nas praias portuguesas, apesar do maravilhoso sol do nosso Algarve. Além dos predicados físicos era culta, educada, meiga e autónoma financeiramente. Dizia-se moça de posses, órfã de pai, que fora morto acidentalmente num fogo cruzado em plena avenida Brasil entre gangues rivais. E o mais importante: apaixonada! E eram tantas as palavras doces, escritas naqueles cibernéticos bate-papos que o Francisco começara a ver telenovelas apenas para poder sentir o sotaque da doçura e a sensualidade das palavras batidas naquelas teclas no outro lado do Atlântico. E eis senão quando, um belo dia que se não sabe se de chuva se de sol, recebe o nosso Francisco uma passagem de avião só de ida, Lisboa-Rio de Janeiro, oferta da sua amada, com todo o amor e carinho. Adeus meu pai, abraço minha mãe, adeus também Faculdade de Direito, adeus Lisboa, ah táxi para que te quero, aí vai o Francisco rumo à Portela, adeus Portugal, tchau a todos que o meu destino está marcado, esta é a hora.
Foi só quando viu, aquela velhinha simpática à espera dele nas saídas internacionais do Galeão, com um pequeno cartaz que dizia "Francisco, Portugal! Estou aqui!" que lhe caiu a ficha e lhe vieram à memória as palavras do pai "Estás aqui, estás a voltar". A bruxa boa, neste caso, coitadinha e apaixonada, era a vovó. A neta estava a leste. E foi aqui, com a mesma determinação do mandador que ele terá pensado: palminhas acabou, mas houve alguém que se enganou.

PS. Este texto obteve uma menção honrosa na modalidade de Conto nos jogos florais de 2017 da UATI – Universidade do Algarve para a Terceira Idade, sob o pseudónimo de Padre António Vidigueira.
PPS. Este é um texto de ficção e totalmente criado pelo autor. Qualquer semelhança com pessoas, factos e locais cruzados é pura coincidência


Vítor Fernandes aka Constantino

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

228. Aquário (*)



o aquário: Chamavam-lhe chavalo. Era um misto de calão e de gíria em portunhol que se falava naquela povoação fronteiriça. O seu grande sonho era ver o mar. Não admira que fosse desejo de família. Quando nasceu nem hesitaram, pais e padrinhos estiveram sempre de acordo. Haveria de chamar-se Mário. Marinho para os mais íntimos. Chavalo para a rapaziada. Chavalo Marinho como que uma premonição. A vida para ele era uma festa. Todos os dias eram de carnaval. Juntavam-se caretos, fazia-se teatro. O teatro da vida. Veneziano, pois então, que as máscaras não tinham sido desenhadas para menos. Ele era sempre o protagonista. Montou o seu espaço. Chamava-lhe, sentimentalmente, o seu aquário. A comédia da vida, junto ao mar. Ou junto a um sucedâneo, por falta daquele. O seu aquário. Dele brotavam bolhas oxigenadas como que balões de festa ou respiração de peixes. E nem os dragões escondidos nos mentideiros como se de uma tourada sem touros se tratasse conseguiam arrefecer as águas. Eram dragões de fogo fátuo, efémeras lavaredas cuja água do seu oceano, o aquário de Chavalo Marinho facilmente extinguiam.

ele e os outros: Chavalo Marinho valia por toda a companhia - era o encenador e o ator principal - travestia peixes-macho em peixes-fêmea , fazia anémonas parecerem medusas e cantava em falsete quando a baleia branca faltava aos ensaios. Os outros eram peixes, dragões e ervas subaquáticas. Tudo para ele era mar.

o drama: Tudo aconteceu de repente. Serafim, o pai,  bêbado que nem um cacho estava possesso.  A taberna estava fechada. O delirium tremens apoderava-se-lhe dos músculos. Tinha de beber. Invadiu o teatro, introduziu a cabeça no aquário e sorveu-o de um só gole. Engasgou-se com a cabeça de um robalo errante, uma medusa cobriu-lhe a cabeça. Continuaria bêbado mas não seria careca.

epílogo: Marinho acordou. Lá fora relinchou Pégaso o seu amigo equídeo, mas não alado, era real e não marinho e o pai não estava bêbado, nem careca. Tomou o pequeno almoço e foram à pesca. No rio. O mar ficaria para mais tarde. Perguntou-lhe doce e desconfiadamente:
- Papá, os dragões existem?



(*) Não encontrei na net o quadro de Agostinho Santos de onde fiz a leitura supra. Fica outro da sua interessante obra.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

227. Não se grita com as mulheres, ponto!


Era uma crise do caraças lá em casa. Não havia coisa que ele fizesse em que ela se não metesse. Não era por mal, ele bem o sabia, mas aquele vício desgraçado de meter o nariz em tudo deixava-o à beira de um ataque de nervos. Se ele estava na cozinha, ela chegava e aumentava ou diminuía o fogo. Se ele fazia o refogado, ela comentava a cor do estrugido. Se ele fritava um bife, ela falava-lhe do ponto. À mesa observava a quantidade de salada que ele comia ou não comia, se tinha deixado a cebola no prato ou não, se ele deixava ou não deixava a carne agarrada ao osso das costeletas. À hora da sobremesa se ele se levantava para ir buscar cerejas ela contrapunha que também havia melão. Nos dias em que ele vestia uma camisa aos quadrados comentava que se calhar uma às riscas ficava melhor e perguntava-lhe muitas vezes porque é que não levava os sapatos castanhos em vez dos pretos. Quando o apanhava a ler perguntava-lhe se não era melhor acender a luz da mesinha de sala em vez do lustre e na casa de banho comentava-lhe o vício de dobrar o papel higiénico antes de o usar ou porque é que ele não apertava a bisnaga do creme dentífrico de baixo para cima. No dia em que lhe observou que ele ainda não tinha posto champô na cabeça e já se estava a enxaguar foi o entornar do copo. Ele deu-lhe dois berros que fizeram estremecer o apartamento e a torneira da água começou a soluçar. Debaixo de uma lágrima furtiva ela jurou que nunca mais se meteria nos assuntos dele.

Encontrou-o morto em cima da cama. Avisou-o apenas ao fim de três dias com medo de ser acusada de andar sempre a meter o bedelho onde não devia.