Pensativa, olhou pela
janela. Um pai, paciente, ensinava o filho a andar de bicicleta. Ainda com as
rodas de apoio, a bicicleta parecia querer tombar mas não tombava. O pai
vigiava-lhe as primeiras pedaladas. Um cão de pequeno porte saltava de um lado
para o outro à frente do velocípede e ladrava alegremente. Cristina sorriu.
Lembrou-se de outros tempos quando Ricardo era pequeno e Fred ainda não tinha
abandonado o lar. As primeiras gotas começaram a cair e um vento desagradável começou
a levantar-se. O pai recolheu a bicicleta e a cria, levando cada um por uma
mão. O cão saltitava agora em frente aos dois e os pensamentos saltitavam na
mente de Cristina. O vento ajudou a varrê-los. Ricardo há muito tempo que não
telefonava e de Fred não fazia a mínima ideia se ainda existia. Foram poucos
anos juntos, anos bons e anos maus, ou melhor dizendo, para ser mais preciso,
anos com dias bons e com dias maus. Tudo acabou num fim de tarde quando as
primeiras gotas começavam a cair. Fred entrou em casa com Ricardo por uma mão e
a bicicleta na outra. Olhou para Cristina e não disse nada. Era inevitável.
Saiu e foi com o vento. Sempre houve e sempre haverá até aos fins dos tempos,
pais que ensinam os filhos a andar de bicicleta. E sempre haverá chuva e sempre
haverá vento.
domingo, 26 de janeiro de 2014
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
212. O meu halloween
Ela detestava
quando ele lhe chamava bruxa. Não é que ele fosse uma pessoa que irasse
facilmente, mas por vezes a paciência tinha limites. E de impropério a impropério
era um crescendo de agressividade verbal que custa a transcrever. Muito o
desgraçado suportava e o mês de outubro era o culminar do santo ano, naquilo
que ele chamava o caldeirão das imbecilidades. Começava no primeiro dia do mês.
Ela ia à garagem, a qual apenas servia de arrecadação e, em local que ela conhecia
como ninguém, numa bagunça de pó e teias de aranha lá estava o livro de S.
Cipriano, embrulhado num trapo de pano que já fora o lenço de cabeça de sua avó.
Desembrulhava-o cuidadosamente pois as folhas já soltas de uma tosca encadernação,
ameaçavam cair e se não fora serem papel e não se partirem em mil pedaços, o
risco de se desfazerem era real. Depois soprava-o cuidadosamente e era sua
companhia nas noites frescas de inicio de outono, quando à lareira, numa panela
de ferro, cozinhava ervas que só ela conhecia, em infusões cujos odores quase
sempre arrepiariam até seres menos sensíveis. Nunca bebia aqueles preparados, a
que incorretamente chamava de chás, sem primeiro lhe oferecer a ele para que
provasse. Das poucas vezes que aceitou, por cortesia e para evitar mais
chatices do que as que ele previa em cada mês de outubro, ao primeiro gole, já
estava a vomitar as tripas, que é como quem diz, a ter ataques sucessivos de
vómito. Ela ria-se, com aquele riso estridente de, efetivamente, bruxa e
dizia-lhe como que por consolação que até era bom, que o limpava por dentro. Depois,
quando a noite se cerrava e o frio apertava, embrulhada em mantas, levava o seu
S. Cipriano para a cama, arreava-o em cima da mesa-de-cabeceira, soprava a vela
e adormecia. E a história repetia-se. Dos sonhos dela à realidade ia menos que
a pegada de um pardal. E naquela noite, naquela noite de trinta e um de outubro,
saltou-lhe novamente a tampa da panela. Ele já pouco se importava com as rezas,
com o queimar, a toda a hora, de alecrim pela casa, com as infusões malcheirosas,
com as benzeduras invocativas de satanás, com os elixires para o mau olhado que
ela trazia da festa do padre Fontes e se besuntava da cabeça aos pés, já nada
do mais exotérico o impressionava. E ele, para evitar chatices, chamava-lhe
tudo. Até de bode sem barba, a epitetou. Evitava era a todo o custo chamar-lhe
bruxa. Mas quando ele viu em cima da cama os, outrora, seus cinco gatos
transformados, numa abóbora, num jacaré, num pargo mulato, numa andorinha de
cerâmica e numa chaleira, não resistiu e chamou-lhe bruxa. Ela amuou, pegou na
sua vassoura, montou-a e saiu pela janela.
©Vítor
Fernandes
domingo, 14 de julho de 2013
211. 14 de Julho
Não. Não havia outra hipótese. Ele sairia,
vestiria umas calças de ganga e uma t-shirt, de preferência estampada com o
rosto de Che Guevara, já tinha comprado uma cartolina na papelaria do senhor
Hipólito, pintado as palavras de ordem, ou melhor, a palavra de ordem, um
estrondoso RUA! com maiúsculas e ponto de exclamação e pregado um pau para
ostentar o seu cartaz bem alto. Haveria de aparecer nas fotografias dos jornais
e nas imagens da televisão. Até porque aquele RUA! não era um RUA! qualquer.
Estava escrita, ou melhor, pintada com uma trincha grossa, com tinta de cor
vermelha escorrendo, como se tivesse sido pinchada a sangue.
Foi com o trabalho de casa completo que se foi
deitar. A manifestação seria só amanhã da parte da tarde e, embora o tempo
ameaçasse chuva, talvez lá pelas três da tarde, a hora em que estava prevista
começar, houvesse uma aberta. Vestiu o pijama de verão, calça e casaco de seda
que a esposa, uma francesa de sociedade, que tinha conhecido numa sessão
cultural na Alliance Française, não o queria ver de menos, o quebra-luz
preparado para cobrir os olhos, o que lhe garantiria um sono descansado. Sophie
que aproveitava o sossego da noite para escrever os seus poemas de cariz
erótico, uma vez que outros não se lhe discorriam, pois mesmo que começassem de
ingénuo modo, a luxúria, mais verso, menos verso, tomaria conta do poema, ainda
não tinha apagado a luz da escrivaninha e isso incomodava-o. Puxou o fino
lençol, ajeitou o quebra-luz aos olhos, tossiu apenas para se fazer notado ou
seja para fazer notar a Sophie que se estava a deitar, cobriu-se, colocou-se de
lado, como que costas para o lugar onde Sophie se deitaria e adormeceu, não sem
antes fazer uma antevisão mental do que os colegas, no dia seguinte lhe diriam do
seu fervor revolucionário. Sophie deitou-se logo a seguir.
A manhã acordou chuvosa. Da cozinha
inundava-se-lhe o quarto com o cheiro a torradas e a café acabado de passar. Um
aroma a doce de tomate misturava-se com o dos ovos fritos havia pouco. Sophie
apareceu-lhe à porta do quarto envolta num roupão de seda vermelho, branco e
azul. Sorriu-lhe e deixou cair o roupão sob o qual se descobria uma nudez alva
e jovem. Trauteou a Marselhesa e aconchegou-se ao marido. Passaram o dia a comemorar
a tomada da Bastilha.
domingo, 16 de junho de 2013
210. Empreendedorismo
Os amigos não compreendiam bem porquê mas a
esplanada que ele sempre escolhia em cada final de manhã era a de um pequeno
café que ficava mesmo em frente à cabeleireira lá do bairro. Era ali que tomava
a bica, umas vezes acompanhando com um pastel de nata, outras com uma queijada
de laranja, que a D. Bina, a dona, gabava de ser a melhor em todos os cafés e
pastelarias das redondezas.
Carolina abrira o salão já lá iam uns quinze anos.
E se logo desde o princípio a clientela era maior do que a capacidade instalada,
as condições atuais do país estavam a definhar o negócio. Carolina não se
deixou abater e embora cada vez deixasse mais felizes as suas clientes e os
seus clientes, o número dos que transpunham as portas do bem iluminado Salão
Carol era agora muito reduzido. Para tentar mitigar os danos ela própria se
entretinha em casa a criar penteados, desenhando em blocos de esquiço as
criações mais exóticas. Comparar os penteados que Ronaldinho, o fenómeno, usou
no Mundial da Coreia e Japão, que o Simão usava no Benfica ou que Ronaldo apresenta
cada semana em campo com os que ela desenhava nas cabeças dos clientes era de
fazer chorar qualquer garoto com a mania das imitações. Alguns deles, depois de
verem os amigos a sair do salão da Carolina, chegavam a casa a chorar com
vergonha de usarem cabelo à Raul Meireles. E das mulheres nem se fala. Beyoncé
roeria as longas unhas até ao sabugo se visse os penteados que Carolina fazia
às mulatinhas lá do bairro. Jennifer Lopez exigiria que Carolina chefiasse a
equipa de cabeleireiros de qualquer produção onde entrasse e a própria Gisele
Bündchen, era garantido, voltaria a ser considerada a modelo mais bonita do
mundo e quiçá de novo a mais bem paga, se alguma vez tivesse frequentado o
salão de Carolina.
Não admirava portanto que ele passasse o seu tempo
na esplanada em frente ao salão. O negócio corria mal a todos, o dinheiro
escasseava cada vez mais e ele não podia querer ser apenas o namorado da
cabeleireira, era forçoso que se tornasse seu sócio. E aproveitando a sua
figura masculina, como que acabada de sair de uma academia de modelação
corporal, não lhe era difícil dar em cima das clientes de Carolina. Depois era
só levá-las para o quarto e despenteá-las.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
209. Poderia ser uma solução, D. Micá
D. Micá andava chateada. Tinha começado, há vários
serões atrás, a contar a história de D. Bonifácio e da sua falecida Antonieta,
em forma de fantasma que, com uma caixa misteriosa enviada ao viúvo, o tinha
tentado perturbar. O problema é que D. Micá misturou nesta história personagens
reais e outras de ficção, mormente o Aristides e agora estava com grandes
dificuldades em dar a volta à coisa. Não que não tivesse engenho e arte para o
fazer, ou não fosse ela a exímia contadora de histórias que todos conhecemos,
principalmente de contos cor-de-rosa, mas sim porque ela é uma mulher política
e socialmente correta. E o seu grande receio de melindrar algum dos seus amigos
e amigas estava a funcionar nela como uma sufocante autocensura. Mas se isso a
constrangia, não era bem isso que a chateava. O que a andava a deixar com a
moral em baixo, com um considerável deficit
de autoestima, era o cisma em que caíra. É que se ela parasse agora de contar a
história de D. Bonifácio poderia o seu carisma de contadora começar a perder-se
e isso ela não aguentaria. Antes abdicar do nobre título de Presidente de uma
Fundação do que o de melhor contadora de histórias aos serões. E também estava
a reagir mal à pressão. Sempre que a receção das quintas-feiras aos seus
confrades se iniciava, logo havia um ou outro que, com sub-reptícia ironia ou
apenas por mera curiosidade, lhe perguntava “É hoje que vamos ficar a saber do
conteúdo da caixinha, é?” ou então, “Será hoje que vamos conhecer o finalzinho
da história, D. Micá?”, quer num caso, quer noutro, utilizando diminutivos,
como caixinha ou finalzinho dando um tão aparente quanto cínico ar de
paternalismo, mas que não deixava de ser uma bicada no latente narcisismo de D.
Micá que, como vedeta de toda esta sequela, não poderia deixar de o ser.
Num dos cantos da sala, com um copo de whisky na
mão, uma gravata Hermès comprada a bordo de um avião da Air France, fato escuro
de Mariotti Francelo, sapatos Scarpi Chaussure, camisa Paco Jimenez e fumando
uma Partagas comprada na Havanesa Central do Alto do Pina, estava o dr.
Cristino Pedrogão que desde há pelo menos dois anos não frequentava o salão de
D. Micá, devido a uma desavença com, o também de longa data ausente, Salustiano
Tristão, um comerciante de fruta bem sucedido, desde que começou a negociar com
o Chile, com a África do Sul e com uns produtores do Bombarral. Era o dr.
Cristino que comandava a animada conversa que embora apanhada a meio ainda pode
ser relatada:
- Pois é meus amigos, aos sábados, dispo os fatos
e as camisas de cambraia, dispo também alguns preconceitos e de sapatilhas ou
de galochas, conforme o local, lanço as canas e passo o dia inteiro à pesca. E
olhem que não me saio muito mal…
E começou a gabar-se das douradas que pescava, dos
linguados e das fanecas, dos robalos e dos alcorrazes e outras espécies que,
pescando ou não, enumerava como safra sua.
D. Micá, sempre atenta, ia pensando com os seus
botões que, se calhar, o melhor seria ela também dedicar-se à pesca.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
207. Nos serões de D. Micá, a maioria é do Benfica
“D.
Bonifácio houvera decidido que passaria uns bons pares de dias na mansão. Não
que fosse uma pessoa que gostasse de isolamento, mas há certos momentos da vida
em que um retiro não se pode dispensar. Chamara Aristides a quem comunicou que
estaria dispensado por duas semanas dos serviços de motorista, tirou da
carteira duas notas verdes de 100,00 € e disse-lhe que aquele era por conta
dele. Sugeriu-lhe que fizesse uma viagem, que Aristides ao agradecer lhe
disse, que sendo assim se retiraria uns dias para Mirandela, onde ainda tinha
uns primos e uma tia da parte da mãe que eram exímios em preparar alheiras.
-
Ai Bonifácio, nem sabes como tenho saudades daquelas alheiras caseiras... - suspirou Aristides.
-
Bem, eu estava a sugerir-te que desses um passeio maior, sei lá, a Espanha, comer
umas angulas ou um cocinillo, mas tu é que sabes – concluiu deixando a opção só
e exclusivamente com o amigo e motorista Aristides.
-
Não há porco como o da minha terra, Bonifácio. Mas se precisares de qualquer
coisa não hesites. Agora já há telemóveis e as autoestradas rasgam o país todo.
Estarei cá em poucas horas. – Sossegou-o Aristides estendendo a mão, sacudindo enérgicamete a do patrão e amigo e apertando-o num caloroso abraço.
Bonifácio,
com uma pequena lágrima no olho, deixou sair o chauffeur e pensou com os seus
botões que não ficaria sozinho. Tinha Gatófio, o gato e Penafiel, o cão, para
além dos seguranças, do jardineiro e do fantasma de frei Bento Patinho. Teria
também com certeza que contar com o fantasma de Antonieta e, last but not
least, ainda lhe pairava sobre a cabeça o fantasma do campeonato, acabado de
perder para o seu arquirrival do norte”.
Um estrondoso apupo se fez ouvir na sala. D. Micá
corou um pouco e pediu desculpa por ter referido assunto tão melindroso,
enquanto o meu amigo Aragão, rejubilava e ria descaradamente com a abordagem de
D. Micá. O Dr. Luís Lopes Lacerda, o nosso conhecido otorrinolaringologista, é
que não teve papas na língua e virando-se para Eduardo contou-lhe a história da
hiena que ri, apesar de se alimentar de excrementos de outros animais. É que
Eduardo Aragão é adepto de um clube da segunda circular de Lisboa que não só
ficou em 7º lugar do campeonato mas também, o que é pior a muito mais de trinta
pontos do primeiro. E Lacerda, voltou a lançar-lhe o repto «de que é que te
estás a rir?».
quinta-feira, 9 de maio de 2013
207. Os serões da D. Micá já são noticiados nos jornais
Temos andado justamente entretidos a contar o que
se vai passando nos serões da nossa anfitriã e amiga e raramente damos conta do
que os outros dizem sobre os mesmos. Foi assim com algum espanto que demos
conta que nós não somos os únicos fiéis narradores do que naquele amplo salão
se passa, mas que haverá alguém mais atento ao evento, sendo que desconfiamos
de quem seja, mormente por questões de geografia mas não só, basta que
atentemos ao estilo, que a nossa desconfiança irá, naturalmente, desaguar em
certeza. Deixaremos assim para a imaginação e perspicácia dos nossos leitores o
desvendar do autor de tão saborosas linhas que nos acabaram de chegar em
recorte de “A Voz de Albergaria”, datado do mês passado e que nós, por
acumulação de afazeres, ainda não tínhamos tido oportunidade de trazer ao vosso
conhecimento, se bem que o assunto, não se enquadrando nos serões de
quinta-feira, não deixou de se constituir em evento de caráter social notável
que aqui já deveria ter sido descrito com a pompa e a circunstância que
merecia. Ficaremos então com a redação da local no referido periódico que, como
é bastamente do conhecimento de quem faz o favor de nos ler atentamente e de
seguir a sequência de acontecimentos em casa de D. Micá e de sua ditosa mãe, é
a terra de nascimento do falecido comendador Jovelino Azeredo.
Como seria apanágio do meu grande amigo Eduardo
Aragão, tenho a certeza que nesta fase da escrita ou se quiserem, da narrativa,
como aliás se poderão certificar quando aqui vos contar a sua relação próxima
de poetas e de prosistas e de outros trovadores, atividade que ele também não
desdenha e executa a preceito, pois dizia eu, o meu amigo Eduardo teria já
dito, «desembuchem logo com a notícia do jornal, que isto é um serão de
literatos e não um cenário de Hitchcock», mostrando à saciedade de que ele,
Eduardo Aragão, não só é um homem pragmático que gosta, tal como o escritor
destas linhas, ou não fossemos amigos de infância e adolescência, mais desta do
que daquela, que não é apenas uma pessoa ligada às letras, mas que também lhe
corre no sangue o líquido do conhecimento cinematográfico e, neste caso
particular, lhe fervilha o gosto pelos mestres do suspense. Só faltou que ele
tivesse acrescentado ao cenário de Hitchcock, os enigmas de Lynch e todos os
que nos leem dissipariam inculcadas dúvidas, se é que alguma vez as tiveram, de
que Eduardo Aragão é de uma versatilidade que só visto ou que, como seria mais
correto dizer, de uma versatilidade que só lido.
Já o dr. Jorge Mendonça, que tem feito da sua
vida, toda uma vida de enigmas, desde os tempos em que o pai, um agricultor
alentejano, de quem se não vai aqui repetir a descrição, basta que percorram
com os vossos próprios dedos algumas das páginas iniciais, o mandou estudar
medicina para Coimbra e o então jovem Jorge, misturava aparelhos circulatórios
com tricanas de trouxa de roupa à beira Mondego, passe a pouca inspirada tirada
do autor, querendo com esta dizer que o coração anatómico se misturava com o
casulo da paixão e que utilizava o aparelho locomotor não para o estudo dos
ossos, das articulações, dos músculos e dos tendões, mas para palmilhar as ruas
da académica cidade, batendo as tabernas e vielas e, ao trinar das guitarras,
traçar a capa sobre a batina e, qual rouxinol em choupal, trovar à janela da
linda Carolina que corria o reposteiro, abrindo de par em par as portadas da
janela do varandim, onde bambinelas de seda mostravam o luxo em que a família
Serapião vivia e acabando casado mais tarde com Clarinha, uma moça escorreita
mas de famílias modestas, aqui conhecida por Clarinha Mendonça, nada se importa
com o tempo que o narrador toma para colocar aqui a local de “A Voz de Albergaria”,
pois isso dar-lhe-á mais tempo para ir contemplando a roliça, rosada e por
vezes nédia Rosalina, deixando D. Ermelinda a suspirar sozinha a um canto, ela
que sempre se envolveu platonicamente com um homem, que poderia ser seu filho e
a quem ela não negaria um pouco de calor maternal, sentando-o ao seu colo e
deixando que ele voltasse a cheirar o perfume das rendas dos seus sutiãs, se
bem que amamentar apenas são conjeturas de mentes mais ou menos conspurcadas de
alguém que por estas alturas poderá estar a ler tão púdico relato dos serões da
quase quarentona D. Micá, cujo aniversário não será com certeza deixado passar
em claro aqui pelo vosso autor preferido, a não ser que “A Voz de Albergaria”
se antecipe e nos venha a estragar a festa.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

