quinta-feira, 9 de maio de 2013

207. Os serões da D. Micá já são noticiados nos jornais



Temos andado justamente entretidos a contar o que se vai passando nos serões da nossa anfitriã e amiga e raramente damos conta do que os outros dizem sobre os mesmos. Foi assim com algum espanto que demos conta que nós não somos os únicos fiéis narradores do que naquele amplo salão se passa, mas que haverá alguém mais atento ao evento, sendo que desconfiamos de quem seja, mormente por questões de geografia mas não só, basta que atentemos ao estilo, que a nossa desconfiança irá, naturalmente, desaguar em certeza. Deixaremos assim para a imaginação e perspicácia dos nossos leitores o desvendar do autor de tão saborosas linhas que nos acabaram de chegar em recorte de “A Voz de Albergaria”, datado do mês passado e que nós, por acumulação de afazeres, ainda não tínhamos tido oportunidade de trazer ao vosso conhecimento, se bem que o assunto, não se enquadrando nos serões de quinta-feira, não deixou de se constituir em evento de caráter social notável que aqui já deveria ter sido descrito com a pompa e a circunstância que merecia. Ficaremos então com a redação da local no referido periódico que, como é bastamente do conhecimento de quem faz o favor de nos ler atentamente e de seguir a sequência de acontecimentos em casa de D. Micá e de sua ditosa mãe, é a terra de nascimento do falecido comendador Jovelino Azeredo.

Como seria apanágio do meu grande amigo Eduardo Aragão, tenho a certeza que nesta fase da escrita ou se quiserem, da narrativa, como aliás se poderão certificar quando aqui vos contar a sua relação próxima de poetas e de prosistas e de outros trovadores, atividade que ele também não desdenha e executa a preceito, pois dizia eu, o meu amigo Eduardo teria já dito, «desembuchem logo com a notícia do jornal, que isto é um serão de literatos e não um cenário de Hitchcock», mostrando à saciedade de que ele, Eduardo Aragão, não só é um homem pragmático que gosta, tal como o escritor destas linhas, ou não fossemos amigos de infância e adolescência, mais desta do que daquela, que não é apenas uma pessoa ligada às letras, mas que também lhe corre no sangue o líquido do conhecimento cinematográfico e, neste caso particular, lhe fervilha o gosto pelos mestres do suspense. Só faltou que ele tivesse acrescentado ao cenário de Hitchcock, os enigmas de Lynch e todos os que nos leem dissipariam inculcadas dúvidas, se é que alguma vez as tiveram, de que Eduardo Aragão é de uma versatilidade que só visto ou que, como seria mais correto dizer, de uma versatilidade que só lido.

Já o dr. Jorge Mendonça, que tem feito da sua vida, toda uma vida de enigmas, desde os tempos em que o pai, um agricultor alentejano, de quem se não vai aqui repetir a descrição, basta que percorram com os vossos próprios dedos algumas das páginas iniciais, o mandou estudar medicina para Coimbra e o então jovem Jorge, misturava aparelhos circulatórios com tricanas de trouxa de roupa à beira Mondego, passe a pouca inspirada tirada do autor, querendo com esta dizer que o coração anatómico se misturava com o casulo da paixão e que utilizava o aparelho locomotor não para o estudo dos ossos, das articulações, dos músculos e dos tendões, mas para palmilhar as ruas da académica cidade, batendo as tabernas e vielas e, ao trinar das guitarras, traçar a capa sobre a batina e, qual rouxinol em choupal, trovar à janela da linda Carolina que corria o reposteiro, abrindo de par em par as portadas da janela do varandim, onde bambinelas de seda mostravam o luxo em que a família Serapião vivia e acabando casado mais tarde com Clarinha, uma moça escorreita mas de famílias modestas, aqui conhecida por Clarinha Mendonça, nada se importa com o tempo que o narrador toma para colocar aqui a local de “A Voz de Albergaria”, pois isso dar-lhe-á mais tempo para ir contemplando a roliça, rosada e por vezes nédia Rosalina, deixando D. Ermelinda a suspirar sozinha a um canto, ela que sempre se envolveu platonicamente com um homem, que poderia ser seu filho e a quem ela não negaria um pouco de calor maternal, sentando-o ao seu colo e deixando que ele voltasse a cheirar o perfume das rendas dos seus sutiãs, se bem que amamentar apenas são conjeturas de mentes mais ou menos conspurcadas de alguém que por estas alturas poderá estar a ler tão púdico relato dos serões da quase quarentona D. Micá, cujo aniversário não será com certeza deixado passar em claro aqui pelo vosso autor preferido, a não ser que “A Voz de Albergaria” se antecipe e nos venha a estragar a festa.  





sábado, 4 de maio de 2013

206. Gente gira ou O dia em que se falou do Padre Felício nos serões da D. Micá



Ontem, o serão em casa de D. Micá foi deveras sui generis. Ou então não foi tão diferente quanto o habitual, mas Constantino esteve mais atento do que é costume. Na sala formaram-se grupinhos. Num canto, junto à pintura da Paula Rego reinava a animação. O Fagundes era o centro das atenções e qualquer brejeirice que viesse do Pedro Rebocho fazia-o corar mais do que daquela vez em que foi visto cheio de nódoas, de calções e chinelas havaianas, em plenas avenidas novas, depois de Graziela lhe ter enfeitado a testa. Mas a conversa nem era para que ele se sentisse envergonhado. Afinal de contas falavam do bem estar que o incidente da traição de Graziela lhe acabou por proporcionar considerando-a mesmo, à traição, a cereja no topo do bolo. A sua vida era agora completamente diferente, toda cheia de qualidade, boa mesa, viagens aonde nunca sonhou ir, programas culturais de grande gabarito, teatro, exposições, cinema, saraus poéticos, trajava como um lorde, ele, um simples e modesto professor de Geografia, que já nem aos prontos-a-vestir espanhóis, que proliferam nos centros comercias da cidade, vai, pois que, desde que se concubinou com a quarentona mas sílfide viúva, senhora de bens, são os melhores alfaiates que lhe confecionam os fatos, as camisas são do mais fino recorte italiano e até os sapatos usam gáspeas de couro de bisonte selvagem do Alaska. E se assim não é, tal é a finura da elegância dos calcantes com que Fagundes se passeia, que ao escritor se lhe permitem estes excessos de prosa. Quem nunca fica muito à vontade com as diatribes linguísticas e o vernáculo do Pedro Rebocho, na realidade um jovem à vista dos outros dois e portanto com uma forma de estar propícia a conflitos geracionais, é o Justino Carlos. Todos ainda estamos recordados do hílare subterfúgio que usou para considerar que o amante da mulher era de facto o corno mas, no entanto, sempre que se falava de ornamentação cabeçal logo o Justino Carlos pigarreava e tentava mudar o rumo à conversa. Era por isso que naquele canto reinava a animação. Eu tentarei explicar. O Pedro Rebocho, tendo lido bem o fácies de cada um dos seus dois interlocutores, fez uma inversão de marcha e, embora o facto já fosse conhecido e a história antiga, contou, acrescentando os pontos que se acrescentam quando se contam contos, do dia em que o padre Felício fora visto galgando, numa louca correria, os degraus do portão da sacristia, já aparamentado para a eucaristia dessa manhã aos “ai que ele me mata, ai que o homem me quer matar, ai que está louco” tropeçando na sotaina, derrapando nas esquinas das ruas, topando com as biqueiras dos sapatos nos lancis dos passeios, o pai da Sebastiana, atrás do padre Felício, com uma espingarda de caçar pardais, disparando chumbinhos a torto e a direito, sem lhe acertar nem matando passarinhos “ai desgraçado que me desgraçaste, ai desgraçado que te desgraço eu” e a Sebastiana a correr atrás dos dois “ai paizinho que se desgraça, ai paizinho nos desgraça a todos” e o pai, virando a cabeça e olhando por cima dos ombros, sem nunca parar de correr “ai que te calas já, meretriz, que me envergonhas” e repetiu sem saber que mais ais haveria de gritar “ai que te calas já, meretriz, que me envergonhas” até que o padre Felício se estatela numa poça de água, o pai de Sebastiana bate com a cabeça numa oliveira e a Sebastiana sem saber o que fazer, se acudir ao padre com quem se andava a desgraçar ou acudir ao pai a quem andava a envergonhar, “ai quem me acode que eles se matam?!” e reforçando, ao ver os dois pelo chão, “ai quem me acode que eles estão mortos!?”. Fica o escritor a perguntar a ele próprio que graça é que isto teve para que aqueles três pacóvios quase se engasguem de tanto rir, pelo que decidiu passar aos outros grupos da sala.

E como o texto já vai longo ficará para o próximo capítulo contar-vos do que falava o meu célebre amigo Eduardo Aragão, encostado ao aparador de laca, numa erudita cavaqueira com a Filomena Carlos, mulher de Justino Carlos e o Columbano Queiroz que exclamava alto e bom som “Meu caro Eduardo que grande declamador que o amigo me saiu, mas que grande poeta” e insistia com mais que isto e mais que aquilo, no meio das frases, sabendo nós que ele não pronuncia o Q nem o C, quando este se pronuncia com a valência do Q. Façam então o favor de reler a frase anterior que se encontra devidamente identificada com as respetivas aspas para entenderem o que quero dizer. 


domingo, 28 de abril de 2013

205. D. Micá foi à Ovibeja



D. Micá mandou-me um SMS a informar-me que esta quinta-feira não haveria serão em sua casa. Ainda pensei que fosse pelo facto de ser feriado, de se comemorar o dia da Liberdade, mas não foi, como poderão ler adiante. D. Micá nasceu no ano anterior ao da revolução, sendo que em jovem, quando ainda era uma estudante universitária e incorporava os movimentos marxistas-leninistas-maoistas, já em decadência nos anos noventa, não só porque os jovens da sua idade já pouco sabiam de Mao mas principalmente porque o muro de Berlim havia caído e a União Soviética desmoronava-se, costumava dizer que ela sim, encorpava o verdadeiro espírito revolucionário, sendo mais revolucionária que a própria revolução pois a ela se havia antecipado. Hoje em dia D. Micá seguiu os passos de muitos maoistas da época, está bem instalada na vida, assume-se como uma burguesa classe média, que gere empresas e fundos, que não quer nada com a política, mas que sabemos não ser bem verdade, pois todas as quinzenas é convidada para um painel televisivo, onde se discute economia e como todos sabemos não se pode dissociar uma coisa da outra.

Eduardo Aragão telefonou-me alguns segundos depois de eu ter lido a mensagem. Também ele tinha recebido o mesmo SMS e estava intrigado. «Ouve lá, Constantino, sabes o que é que se passa com a Micá? Então ela foi logo cancelar o serão desta quinta-feira, quando eu já tinha mandado entregar lá em casa seis dúzias de cravos vermelhos para a Rosalina enfeitar as jarras? Se queres que te diga não entendo nada daquela gaja», rematou com ar indignado. Respondi-lhe que também eu não fazia a mínima ideia mas que me iria informar. Tentei ligar diretamente à Micá mas o seu telemóvel dava-me sempre impedido como se D. Micá estivesse numa longo namoro telefónico, até que D. Ermelinda me esclareceu. Afinal não era nada de grave, antes pelo contrário, era uma questão de negócios, D. Micá iria estar todo o fim de semana envolvida na Ovibeja. Pela primeira vez, a FPADEIACDLMCC tinha sido convidada para ter um stande na grande feira do sul e D. Micá, nunca connosco tinha comentado. Disse-nos à parte D. Ermelinda que era para nos fazer uma surpresa e só não o fez porque as coisas parece que não estavam a correr a preceito. Telefonei de imediato ao Eduardo, encontramo-nos no Fogueteiro e seguimos os dois no meu carro para Beja.

Não foi com surpresa que pagamos sete euros cada um para entrar no recinto. Estas coisas não se fazem à borla e portanto há que pagar e ponto final. Mal entramos e depois de nos esquivarmos à publicidade, primeiro de um banco depois de uma empresa de comunicações entramos no pavilhão onde era suposto darmos de caras com a D. Micá. Em vez disso deparou-se-nos o cheiro irresistível das farturas, mas como tínhamos almoçado, pelo caminho, um excelente cozido de grão e umas migas com secretos de porco preto, resolvemos não cair em tentação. Entramos e nem sinal de D. Micá. Nem nas exposições de azeite, nem nas provas de vinho, o que aliás não era de espantar, nem no picadeiro onde se jogava um desporto que confesso não sei o nome mas que me pareceu ser basquetebol equídeo, nem na fila para os WC, nem junto às sessões fotográficas com araras e muito menos, como aliás seria de supor, junto às máquinas agrícolas. Ainda nos atrevemos a ir até aos standes de automóveis e, mais improvavelmente, à zona do gado, onde entre ovelhas, porcos, cabras e bodes, alpacas e burros e limousines da mais apurada raça, touros e vacas imponentes, alguns dos quais, os bois é claro, pais de vasta prole entre machos e fêmeas e vacas já com cinco bem sucedidos partos, a atender aos escorreitos e bem encorpados novilhos que nos eram apresentados. Não tem nada de insinuante esta nossa busca por D. Micá entre as vacas, pois, como é sabido, uma presidente de uma fundação que se dedica ao leite, se bem que magro e misturado com chocolate, nada de mais normal que esta se encontrasse entre tetas. Mas não. Nem sombra de D. Micá.

O tempo decorria, a fome começava já a apertar e face a tão tentadora oferta para o nosso palato, acabamos por abancar numa tenda de petiscos regionais. Eduardo, um lambão de primeira, de quem vos falarei dos seus devaneios gastronómicos um dia destes, pediu logo duas doses de enchidos, uma de quentes e outra de frios, apesar do meu protesto pois, para mim, umas azeitonas britadas e um jarrinho de tinto de Borba com uma fatia de queijo de Serpa já me encheria as medidas, que não, que sair dali sem provar a bela paleta de porco preto ou a não menos bela farinheira assada não era ir à Ovibeja. Lá acedi, mas fiquei um pouco aquém das minhas espectativas. Apesar do certame este ano estar completamente virado para o vinho e para o azeite, azeitonas só de conserva, diga-se de passagem de boa qualidade, mas nada que nos trouxesse novidade pois qualquer supermercado já as apresenta há tempos. Valeu-nos a prova de alguns dos melhores vinhos embora de um deles, quiséssemos provar mas não estava em degustação. Depois conseguimos perceber porquê. É que cada garrafinha de meio litro, sim de meio litro, custava a módica quantia de 32 euros, ou, por extenso, para que não restem dúvidas, trinta e dois euros. Olhamos um para o outro e o Eduardo, sempre com uma piadinha na ponta da língua, perguntou-me se eu costumava jogar no euromilhões. Sorrimos para não ofender ninguém e eureka, demos com a D. Micá.

O seu pequeno mas bonito stande, decorado com imagens de vaquinhas pretas e brancas e plantas do cacau (confessemos que as paisagens suíças estava um pouco a contragosto o que, por mim, poderá ser motivo de análise no próximo serão), estava encaixado entre a barraca das caipirinhas e a loja da ginjinha de Óbidos. E, como diria neste tipo de situações o célebre diácono Remédios, «não havia necessidade».


segunda-feira, 22 de abril de 2013

204. D. Micá e os infiéis (prendam esses patifes a ferrolho)



D. Ermelinda estava sentada no sofá pequeno com um xaile de cachemira sobre as pernas e com o Tareco no seu colo dormitando. Suavemente ia-lhe alisando o pelo, com a mão, percorrendo o lombo do gato desde a cabeça até à cauda. O bichano, deliciado, ronronava. A seu lado, Clara Mendonça que tirava da mala um lenço branco de mão, com um bordado de Viana do Castelo, que ostentava a frase “o meu curassão só por ti sespira”, entre corações e pombas e raminhos de oliveira, choramingava. D. Ermelinda esperou que Clara limpasse os olhos e se assoasse, o que ela fez delicadamente, como uma senhora que era, o faz. Depois suspirou, provavelmente inspirada pelos dizeres do lenço de Viana, e rematou o suspiro com um suave “ai”. D. Ermelinda quis saber como é que iam correndo as coisas entre ela e o Jorge Mendonça.

- Nem me fale dele, D. Ermelinda. É um mulherengo – e, num misto de tristeza e fúria rematou: Um putanheiro!

Ao esgar reprovativo de D. Ermelinda, cuidando de que se trataria de crítica à linguagem utilizada, acrescentou hesitante um pedido de desculpas:

- Desculpe-me a grosseria da palavra, D. Ermelinda, mas eu não suporto mais este constante cobiçar de outras saias, este permanente estado de adultério. – Depois, atiçando-se contra o belo sexo como se ela não fosse um magnífico exemplar da espécie, vilipendiou-as: - As mulheres têm sido a causa da nossa desgraça.

 - Eu entendo, Clarinha, eu entendo – tentou consolá-la, D. Ermelinda que, diga-se a propósito, era uma santa alma e acrescentou, desta vez atacando o sexo oposto, como que em contraponto ao que Clarinha acabara de dizer – os homens são uns patifórios.

«São todos assim, não escapa nenhum», continuou D. Ermelinda que em pegando na palavra tinha sempre alguma dificuldade em largá-la. E foi exatamente o que aconteceu de seguida pois que nunca mais se deteve «que o diga eu, Clarinha. O meu Jovelino, que Deus Nosso Senhor tenha a sua alma em descanso», disse-o benzendo-se, «era um perdido por mulheres. Saiba a Clarinha que um dia, saiu-me de casa todo apinocado, exatamente como costumava ir para a empresa, de fato completo, naquele dia um lindo fato azul-escuro com uma risca fininha em cinza, bom pano, que o comprei e mandei fazer na alfaiataria do senhor Desidério, não sei se a Clarinha o chegou a conhecer, um alfaiate que usava bigode à século XIX, fininho e enrolado nas pontas e que fumava uns cigarros pretos que eram um fedor», depois atalhando face à expressão desinteressada de Clarinha, «bom, talvez não fosse do seu tempo». Continuou com a narrativa das peripécias de Jovelino. «Dizia-lhe eu, então, com aquele fato de três peças, o colete com botõezinhos de madrepérola, corrente, sim corrente, que o meu Jovelino nunca saía para reuniões com gente fina sem a sua corrente em ouro, onde sustinha um relógio, também ele de ouro, adquirido a um lavrador a quem a vida não lhe tinha corrido muito bem, mas isso são outras histórias. Vou-lhe contar o que interessa, o meu Jovelino disse-me que ia para a empresa, que vinham uns senhores de uma fábrica em Santa Iria de Azóia, a Clarinha que é de cá de Lisboa deve saber onde fica Santa Iria de Azóia, ora não? Pois é verdade isto que lhe vou contar, tão verdade como estarmos aqui as duas sentadas neste sofá à espera que a minha Micazinha recomece a contar a história do D. Bonifácio. Sabe que ela a mim nunca ma contou, Clarinha? Ah pois, não, não contou, não senhora e olhe que eu acho que ela não está a inventar. Aquilo ou é coisa que ela leu em algum livro ou então não sei. Porque para lhe ser franca, Clarinha, eu não acredito em fantasmas. Nem tenho medo. Sabe de quem tenho medo mesmo, Clarinha? É dos que cá estão. É dos vivos sim senhora. Que Deus tenha em paz e sossego as almas daqueles que já partiram. Mas os que cá estão, Clarinha, esses é que são perigosos. Então não é verdade que têm sido essas intrujonas que se têm atirado ao seu rico marido, que não desfazendo, é uma joia de homem? E pelo que me dizem, até ganha bem. Uns bons contos de reis por mês, Clarinha. Mas isso são coisas da vossa vida, sabem vossemecês e fazem vossemecês muito bem. Ninguém tem nada com isso ou andar por aí a contar as suas vidas. Olhe Clarinha, aqui nos nossos serões, que lá nisso temos de fazer justiça à minha Micá, nem ela nem eu, posso jurar à fé de quem eu sou, autorizaríamos outra coisa. Fala-se de muitos assuntos, muita coisa da cultura, música, poesia e como a Clarinha deve saber, até já se representou uma peça ali no salão. Foi tão lindo, Clarinha! Foi um êxito. Parece que ainda estou a ouvir as pancadinhas de Molière, pum pum pum pum e a minha Micá a fazer de velha alcoviteira, só de me lembrar, Clarinha, me dá uma vontade tão grande de rir», deu D. Ermelinda uma gargalhada e sem perder o ritmo, continuou «querendo casar a menina Marta com o Fagundes e o Fagundes, coitado, que nunca tinha feito uma peça de teatro a ficar muito corado por estar em frente da própria mulher, prestes a se enrabichar por outra, mas que era só a fingir, era teatro. E para lhe dizer o que me vai na alma, Clarinha, não sei para que é que serviu tanto acabrunhamento. No final das contas, na vida real, quem acabou por encornar o Fagundes foi a mulher dele e o coitado que andou por aí a exibir nódoas na camisa acabou por ser o pobre do Fagundes. Mas fala-se que ele está bem, agora tem um caso com uma senhora rica, parece que não lhe falta nada e nunca mais o ouvimos a barafustar contra o Governo por causa do salário e de outras afrontas aos professores. Mas aqui não falamos das vidas dos outros, como a Clarinha sabe. O que é pena, Clarinha, é que já não vou ter tempo de lhe contar o resto da história do dia em que o meu Jovelino saiu de casa, mais perfumado do que o costume, já que aperaltado ele andava sempre e foram-no encontrar ao fim da tarde, em Aveiro, a empanturrar-se de ovos moles, ele que sofria do fígado e fazia uma dieta com leite magro e saladas» relembrou D. Ermelinda consternada, continuando já com uma pequena expressão de fúria maledicente, mas ao mesmo tempo aparentando um certo conformismo. «O pior é que foi apanhado em flagrante, nesses devaneios a que a gula conduz, por uma rapariguita lá de Albergaria, que estava de criada de servir no Hotel Bela-Ria e que, inadvertidamente, quando ia para colocar os últimos preparos para os clientes, se enganou na porta do quarto e abriu aquela que não devia, ou como se costuma dizer a Providência é Divina, Amén. Foi a pequena dar de caras com o meu finado Jovelino, só de cuecas, que lá nisso ele era homem muito respeitador, rodeado por duas espanholas, em trajes que nem lhe descrevo, pois a Clarinha iria ficar mais corada do que um tomate maduro e com mais de uma dúzia de ovos moles espalhados sobre a colcha da cama, capaz de se sujar e ter ainda que pagar uma conta elevada da lavandaria do hotel. Mas depois que a minha Micá acabe a história eu conto-lhe o resto. Estou curiosa em saber porque é que defunta Antonieta andou a aparecer assim tantas vezes ao velho Bonifácio. E já agora, Clarinha, olhe que a menina, que dizem por aí que anda a tratar do divórcio com o dr. Jorge, faz muitíssimo bem. São uns diabos. E quando são putanheiros...

Dizendo isto, D.. Ermelinda colocou a mão em concha, a tapar a boca semiaberta e ficou a senhora com o rosto mais rubro do que a criada Rosalina que como sabemos é roliça, coradinha e tem buço.



quarta-feira, 17 de abril de 2013

203. Sarau poético em casa de D. Micá



- Deixe-se disso, Eduardo. Você não vê que eu sou uma mulher solteira? – dizia com ar pouco austero, antes porém com o seu maravilhoso sorriso nos lábios, D. Micá, que não levava o meu amigo Eduardo Aragão muito a sério.

Sois a flor que no meu vaso desponta
Quando o matinal Sol meu lençol vem beijar
E cujo perfume me deixa inebriado, em tonta
E incontrolável vertigem de te amar.

Não desistiu Eduardo de terminar o poema que com um joelho no chão e um cotovelo apoiado na coxa da outra perna recitava a D. Micá, como nos bons velhos tempos em que em Coimbra se atirava à esposa do comendador Formoso Reimão, o que lhe valeu um R na cadeira de Patologias Tropicais, quando, por insistência de um velho tio que era padre, o meu amigo Eduardo Aragão entrou no curso de Veterinária, contrariando a sua grande e antiga vocação que sempre fora o Direito. Talvez seja agora a hora de vos falar um pouco deste meu amigo, que desde muito jovem se perde por mulheres casadas e que colecionou RR atrás de RR na Universidade nunca tendo passado do segundo ano e que, por felicidade ou desígnio de Deus, nunca desgostou o velho tio, já que o Senhor o resolveu chamar à sua presença antes que dos desviantes caminhos do sobrinho achasse conhecimento, ele que o nutria dos maiores desvelos.

Conheci Eduardo Aragão quando eu era um imberbe adolescente. Uma amiga da minha mãe desposou um rico agricultor provinciano que a levou a viver para uma pequena aldeia no Concelho de Arganil, onde possuía um solar e era farto em criadagem. A minha mãe e essa amiga correspondiam-se por carta, é claro, e um dia a D. Edmunda, que era assim o nome dela, convidou a minha mãe a ir visitá-la. Que não se preocupasse, ela pagaria não só as passagens mas também, enquanto a minha mãe lá quisesse ficar, a estadia seria por conta dela. Logicamente, este convite só pode ser aceite nas nossas férias escolares e, num pretérito mês de Julho, lá fomos arrastados para uma aldeia desconhecida, para casa de quem não fazíamos ideia de quem fosse pois lá em casa só ouvíamos falar em “Mundita” para cá, “Mundita” para lá. E num dos nosso passeios pela região, sempre no automóvel do senhor Ferreira, nome que me fazia muita confusão pois estava acostumado a conhecer os amigos dos meus pais pelo nome próprio e aquele, para os meus doze anos, era apenas o senhor Ferreira, de tal modo que eu pensei que ele se chamasse Ferreira-qualquer-coisa, paramos para lanchar numa pastelaria de uma vila vizinha, mais propriamente em Coja, nome do qual nunca mais me esqueci e que já tive a oportunidade de visitar em adulto. Na mesa ao lado, um casal muito bem vestido, o homem de fato completo, colarinhos levantados, gravata, sapatos de verniz, colocava o guardanapo de pano sobre uma perna e comia uma fatia de bolo com faca e garfo, muito diferente do senhor Ferreira que era o que a esta distância poderíamos chamar de burgesso, mas rico, que vestia umas calças de fazenda, embora limpas porque a D. Edmunda era muito asseada, mas muito assaloiadas, um casaco de fazenda grossa, botas de couro cru e um boné de fazenda com pala, em vez de chapéu e que mandou logo vir um prato com meia dúzia de pasteis para as senhoras e para as crianças e para ele uma sandes de presunto e um copo de vinho, que comeu sem tirar o boné da cabeça, com a boca aberta e a deixar cair as migalhas. A senhora do casal também ela muito fina cuja aparência me impressionou com os seus lábios pintados de carmim, a sua camiseira às flores, um colar de pérolas ou de imitação, uma saia plissada de fino recorte e um blaser curto de bandas arredondadas. D. Edmunda, que não tinha nada a ver com a boçalidade do marido, era uma senhora de pouco mais de trinta anos, muito bonita, que se maquilhava a contragosto do senhor Ferreira, que a questionava sempre com um ar enjoado, que se ela já tinha a quem agradar porque é que se pintava, palavras que caiam sempre muito mal a D. Edmunda e que não era raro vê-la (pelo menos eu vi nos dias em que lá estive) com uma furtiva lágrima no olho. E um rapazinho que acompanhava o casal, mais ou menos para a minha idade nos seus doze, treze anos, de fato completo de casaquinho e calção, com uma camisa branca com folhos e uma gravata fininha que caia como duas fitas de seda. Ao fim de alguns minutos, aproximou-se de mim, pareceu-me até que um pouco tímido, ao contrário do que se viria posteriormente a revelar e perguntou-me:

- Queres brincar?

Aceitei e fomos para a rua, onde não havia perigos e onde os únicos dois carros, que se podiam ver à distância que os nossos olhos alcançavam, eram o do pai dele e o do Sr. Ferreira, mas estacionados, pelo que não representavam nenhum perigo. O outro menino, em vez de tirar do bolso um pião ou dois berlindes, perguntou-me baixinho:

- Qual das duas senhoras é a tua mãe?

Respondi-lhe que era a senhora do vestido de chita com um casaquinho de malha e cabelos aos caracóis, ao que ele me ripostou:

- Então esta noite vou sonhar com a outra.

Nunca mais perdemos o contato, exceto quando Eduardo andou pelo Brasil, vindo mais tarde a pedir-me desculpa, mas que os negócios, de que um dia vos falarei, não lhe davam tempo nem para um bilhete-postal.


Quando Eduardo se levantou e sacudiu as calças no joelho, deu uma gargalhada e sossegou D. Micá:

- Ó D. Micá, não se assuste. Estes são os versos que escrevi para a menina Lucinda que veja lá, coitadinha, foi atacada pelas artroses.

D. Micá fingiu respirar fundo e dirigiu-se ao canapé, onde o seu lugar estava reservado para continuar a contar a história de Antonieta e de D. Bonifácio.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

202. D. Micá e as meias pretas da Marta Caracinha.



D. Micá anda a querer fazer surpresa mas todos sabem como sou desbocado e na passada quinta-feira dei com ela, antes do nosso serão começar, com uma viola na mão, uns papéis com uns acordes à frente, uma tablatura de uma conhecida canção espanhola e um stress dos diabos. Mas D. Micá não se atrapalha e quando eu cheguei nem fez questão de disfarçar. Ficamos ali a conversar sobre aprendizagem destes instrumentos de corda, falei-lhe que também eu ando a aprender a tocar cavaquinho e rimos a bom rir quando sugeri que um dia destes, apresentaríamos nos famosos serões da sua casa o duo Constantino e Micá. Ela que não, que ou seria Micá e Constantino ou nada feito até que, como já disse atrás perdemo-nos de riso quando assentamos num nome bem pimba, Tino e Micá, só ficando por decidir quem seriam as bailarinas que nos iriam acompanhar no palco, com aqueles calções curtinhos de mostrar as nádegas por cima de meias de renda, de preferência pretas.

Foi num estado de autêntico delírio, comigo quase a rebolar no chão e a D. Micá com as pinturas todas borradas das lágrimas de tanto rir, que Eduardo Aragão, literalmente, nos caçou.

- Que história é essa da Marta e da Geninha serem bailarinas? – perguntou, intrigado, o Eduardo, sem fazer a mínima ideia do que estávamos a conversar e estranhando nunca ter sabido que as nossas conhecidas, a exótica Marta Caracinha e a viciada em bebidas brancas, a célebre Geninha, seriam bailarinas.
- Não são mas vão ser – respondi, sem bem conseguir disfarçar o riso.
- E que mal tem isso? Parece que estás a gozar um pratinho do qual não estou sequer a sentir a piada – ripostou Eduardo com uma cara de enjoado, enquanto já bem mais tranquila, D. Micá se ausentava para retocar a maquilhagem.
- Vão ser as nossas bailarinas exclusivas, Eduardo! E o mais interessante é que elas nem sequer desconfiam – acrescentei sem sequer ter pensado em descodificar-lhe a situação.
- Eu não te disse que tu só gostas de enigmas? Vais-me contar o que se está a passar aqui ou preferes fazer-me um desenho.

Pedi-lhe que me esperasse um pouco enquanto eu ia ao carro. Rosalina serviu-lhe um whisky e Pedro Rebocho chegou entretanto com Marta Caracinha. O Fagundes também já estava a estacionar o carro dele, a muito custo pois na Lapa não é fácil encontrar lugares vagos à noite e o Mendonça, que hoje trazia uma bengala para o ajudar a subir as escadas (ele disse-nos que era para o ajudar a descer) pois andava bem pior do joelho esquerdo, mazela de que já sofre há tempo, não obteve de Rosalina mais do que desprezo, pois a anafada empregada de D. Micá está muito chocada com o facto de ele a ter andado a enganar. Vá-se lá explicar esta propensão do Dr. Jorge Mendonça para criadas, ele é a Adriana, ele é a Rosalina e só não teve nada com a Eduardinha, sabemos agora, porque ela andava muito mais à caça de uns cobres de que de um par de olhos azuis e o Alfredo, nisso, dava cartas. Aos poucos, os nossos amigos que costumam frequentar o salão de D. Micá iam chegando, não faltaram sequer o senhor Hortênsio, o Faria e a viúva que agora é sua namorada, o Justino Carlos, o Armindo e a Tansinha que estão em Lisboa em negócios, mas que cada vez que cá chegam morrem de saudades do seu Porto, o Julião Guedes, a Efigénia, a Henriqueta e obviamente a nossa, já lhe podemos chamar assim, Geninha. No portão de entrada dei de caras com o otorrinolaringologista Luís Lopes Lacerda e logo de seguida chegou o casal Carlota e Paciência Monteiro. Com tanta gente ilustre ainda ouvi o meu amigo Eduardo pedir desculpas a D. Ermelinda pelo facto de a menina Lucinda não o acompanhar já há várias semanas mas tem andado, segundo ele, com uns problemas nas artroses, sabendo eu que D. Ermelinda sabe perfeitamente que o senhor comandante tem estado desembarcado há mais de dois meses porque a fragata está em doca seca para reparação.

Quando entrei com o meu estojo com o cavaquinho, Eduardo olhou para mim com um esgar cúmplice e dirigindo-se ao piano esperou que eu me preparasse e tocou as primeiras notas de “Laurindinha”. As cordas do cavaquinho vibraram e os corpos de Marta e de Geninha balancearam-se. À Marta Caracinha só lhe faltavam as meias de renda preta. 


segunda-feira, 8 de abril de 2013

201. D. Micá - A sabedoria popular



- Tu não estás a ver bem, pois não Eduardo?
- Nem sei do que é que estás a falar Constantino. Queres explicar-te?
- Sugiro que lhe ponhas um travão.
- Ó Constantino, vamos lá a ver se nos entendemos. De quem é que estás a falar?
- Ora, de quem é que achas que estou a falar? Daquela ali.
- Da Geninha? Por causa da vodka? Deixa lá, já não há nada a fazer…
- Não esteja a virar o texto, sabes bem que estou a falar da Micá.
- Da Micá? Da Micá o quê? O que é que tem a Micá?
- Ela vai-se desbocar. Não duvides.
- Lá estás tu, Constantino. De novo com enredos e mistérios. Gostas muito de deixar as pessoas a pensarem.
- Eduardo, pela nossa amizade. E olha que quem te avisa teu amigo é.
- Eu sei. E também sei que homem prevenido vale por dois.
- Também é isso, mas não só Eduardo. Bem sabes que quem anda à chuva molha-se.
- Diz-me lá Constantino o que é que esta série de ditados populares tem a ver comigo e com a D. Micá?
- Tem tudo Eduardo. Tu és inteligente. Aliás, um dia destes irei aqui contar um bocado da tua história e os nossos leitores vão saber porquê e com certeza concordar comigo que de facto és inteligente. O que penso é que te está a fazer de cego. E olha que o pior cego é aquele que não quer ver.
- Mas Constantino, vamos lá a ser claro! Porque nem todos os teus leitores estão a entender e não podes ficar pelas meias palavras. Bem sei que para bom entendedor meia palavra basta, mas…
- Então vou ser mais específico. Quiçá vá já direito ao assunto. Mas não de uma maneira precipitada. Sem atalhos. Porque quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos.
- Agradeço-te. Porque não gosto de coisas mal esclarecidas. Não gosto de gatos escondidos com o rabo de fora.
- Então, Eduardo vou-te falar. Mas sem rodeios. Vou ser conciso e não vou falar muito. Porque quem muito fala pouco acerta e eu não quero ser desses.
- Sou então todo ouvidos. Mas desde já te aviso que a palavras loucas, orelhas moucas.
- Pois então Eduardo, cá vai que já se está fazendo tarde.
- Estava a ver que não. Mas sou paciente Constantino e sou daqueles que acham que mais vale tarde que nunca.
- Apoio-te nessa afirmação. Saber esperar é uma grande virtude, Eduardo.
- Então fazes o favor de desembuchar? Não gosto que fiquemos aqui em segredinhos quando o serão está ali tão animado. A propósito queres tomar algo?
- Eu ia num copinho de leite magro com chocolate e tu?
- Já sabes que não dispenso um espirituoso, Constantino e hoje o que me apetece mais é uma ginja.
- Diz que há cá uma ginjinha de Óbidos de se lhe tirar o chapéu, Eduardo. Já fiz sinal à Rosalina.
- Ó Rosalina está vermelha que nem um tomate, rapariga. O que foi que lhe aconteceu?
- Ó senhor Constantino, então o senhor não sabe que água mole em pedra dura tanto dá até que fura?
- Isso eu sei, mas o que é isso a faz corar, Rosalina?
- Ó senhor Constantino, vossemecê não sabe? É o dr. Jorge…
- Qual Jorge, Rosalina, acho que a menina anda com muitas confianças…
- Ai desculpe-me dr. Aragão, mas eu não o disse por mal. Quero dizer… é o dr. Mendonça. Está muito abusador e eu não sou de ferro, ai meu Deus que tenho tanto medo de ceder.
- Mas ó Eduardo, diz-me cá uma coisa. Não foste tu que me disseste que o Jorge Mendonça e a Clara estavam a separar-se porque ela o apanhou com a criada, espera lá, Adriana, não é?
- Ai nem me diga isso senhor dr. Constantino, que se eu encontrar por aí um buraco, já me vou enfiar nele. Então esse desavergonhado a dar-me esperanças, que tem um filho por criar e coisa e tal e que eu faria o lugar que a menina Clara nunca soube fazer e mais isto e mais aquilo. Ai o malandro. Pois olhe que já lhe irei pôr tudo em prantos limpos. Ele que venha cá com avanços, ai dele.
- Pois Rosalina, deixe lá isso agora e traga-nos cá duas ginjinhas. E olhe que queremos da melhor, daquela que a D. Ermelinda costuma beber. E tu Eduardo, não sabias que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele? Olha esse sonso do Jorge…
- O que tu queres dizer, Constantino é que o Mendonça é um lobo com pele de cordeiro. Mas quem vê caras não vê corações, não é o que costuma dizer?
- É verdade Eduardo, mas voltando à vaca fria do almoço, tens de lhe parar a verve.
- Claro que te estás a referir de novo à Micá, não é?
- Pois claro, a quem é que devia de ser? E olha que ao diabo e à mulher nunca falta o que fazer.
- O que tu queres dizer é que se ela meter a boca no trombone vai sobrar para mim, é isso?
- E não tenhas dúvidas de que ela conhece a história toda. Ainda te lembras como é que ela conheceu D. Bonifácio…
- Foi através do falecido pai, não foi? Que Deus lhe tenha a alma em descanso.
- Por causa dos negócios do cacau e do leite. Sabes as influências nos negócios externos, da diplomacia…
- E também sabes que, embora mais jovem, ela ainda foi amiga da Antonieta?
- Também sei Constantino.
- E tens assistido à história que ela tem estado a contar?
- Tenho sim, claro que tenho.
- Então espera pela pancada.
- Pois é verdade mas olha que até ao lavar dos cestos é vindima.
- Não me queres dizer, Eduardo, que quem ri por último é quem ri melhor, pois não?
- Não, não, Constantino. Com o fogo não se brinca.
- Então ficamos assim.
- Olha. Brindemos então com esta ginjinha e não se esqueça Rosalina que esta também serve para si. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.