Ontem, o serão em casa de D. Micá foi deveras sui generis. Ou então não foi tão
diferente quanto o habitual, mas Constantino esteve mais atento do que é costume.
Na sala formaram-se grupinhos. Num canto, junto à pintura da Paula Rego reinava
a animação. O Fagundes era o centro das atenções e qualquer brejeirice que
viesse do Pedro Rebocho fazia-o corar mais do que daquela vez em que foi visto
cheio de nódoas, de calções e chinelas havaianas, em plenas avenidas novas,
depois de Graziela lhe ter enfeitado a testa. Mas a conversa nem era para que
ele se sentisse envergonhado. Afinal de contas falavam do bem estar que o
incidente da traição de Graziela lhe acabou por proporcionar considerando-a
mesmo, à traição, a cereja no topo do bolo. A sua vida era agora completamente
diferente, toda cheia de qualidade, boa mesa, viagens aonde nunca sonhou ir,
programas culturais de grande gabarito, teatro, exposições, cinema, saraus
poéticos, trajava como um lorde, ele, um simples e modesto professor de
Geografia, que já nem aos prontos-a-vestir espanhóis, que proliferam nos
centros comercias da cidade, vai, pois que, desde que se concubinou com a
quarentona mas sílfide viúva, senhora de bens, são os melhores alfaiates que
lhe confecionam os fatos, as camisas são do mais fino recorte italiano e até os
sapatos usam gáspeas de couro de bisonte selvagem do Alaska. E se assim não é,
tal é a finura da elegância dos calcantes com que Fagundes se passeia, que ao
escritor se lhe permitem estes excessos de prosa. Quem nunca fica muito à
vontade com as diatribes linguísticas e o vernáculo do Pedro Rebocho, na
realidade um jovem à vista dos outros dois e portanto com uma forma de estar
propícia a conflitos geracionais, é o Justino Carlos. Todos ainda estamos
recordados do hílare subterfúgio que usou para considerar que o amante da
mulher era de facto o corno mas, no entanto, sempre que se falava de
ornamentação cabeçal logo o Justino Carlos pigarreava e tentava mudar o rumo à
conversa. Era por isso que naquele canto reinava a animação. Eu tentarei
explicar. O Pedro Rebocho, tendo lido bem o fácies de cada um dos seus dois
interlocutores, fez uma inversão de marcha e, embora o facto já fosse conhecido
e a história antiga, contou, acrescentando os pontos que se acrescentam quando
se contam contos, do dia em que o padre Felício fora visto galgando, numa louca
correria, os degraus do portão da sacristia, já aparamentado para a eucaristia
dessa manhã aos “ai que ele me mata, ai
que o homem me quer matar, ai que está louco” tropeçando na sotaina,
derrapando nas esquinas das ruas, topando com as biqueiras dos sapatos nos
lancis dos passeios, o pai da Sebastiana, atrás do padre Felício, com uma
espingarda de caçar pardais, disparando chumbinhos a torto e a direito, sem lhe
acertar nem matando passarinhos “ai
desgraçado que me desgraçaste, ai desgraçado que te desgraço eu” e a Sebastiana
a correr atrás dos dois “ai paizinho que
se desgraça, ai paizinho nos desgraça a todos” e o pai, virando a cabeça e
olhando por cima dos ombros, sem nunca parar de correr “ai que te calas já,
meretriz, que me envergonhas” e repetiu sem saber que mais ais haveria de
gritar “ai que te calas já, meretriz, que me envergonhas” até que o padre
Felício se estatela numa poça de água, o pai de Sebastiana bate com a cabeça
numa oliveira e a Sebastiana sem saber o que fazer, se acudir ao padre com quem
se andava a desgraçar ou acudir ao pai a quem andava a envergonhar, “ai quem me acode que eles se matam?!” e
reforçando, ao ver os dois pelo chão, “ai
quem me acode que eles estão mortos!?”. Fica o escritor a perguntar a ele próprio
que graça é que isto teve para que aqueles três pacóvios quase se engasguem de
tanto rir, pelo que decidiu passar aos outros grupos da sala.
E como o texto já vai longo ficará para o próximo
capítulo contar-vos do que falava o meu célebre amigo Eduardo Aragão, encostado
ao aparador de laca, numa erudita cavaqueira com a Filomena Carlos, mulher de
Justino Carlos e o Columbano Queiroz que exclamava alto e bom som “Meu caro Eduardo que grande declamador que
o amigo me saiu, mas que grande poeta” e insistia com mais que isto e mais
que aquilo, no meio das frases, sabendo nós que ele não pronuncia o Q nem o C,
quando este se pronuncia com a valência do Q. Façam então o favor de reler a
frase anterior que se encontra devidamente identificada com as respetivas aspas
para entenderem o que quero dizer.