quarta-feira, 17 de abril de 2013

203. Sarau poético em casa de D. Micá



- Deixe-se disso, Eduardo. Você não vê que eu sou uma mulher solteira? – dizia com ar pouco austero, antes porém com o seu maravilhoso sorriso nos lábios, D. Micá, que não levava o meu amigo Eduardo Aragão muito a sério.

Sois a flor que no meu vaso desponta
Quando o matinal Sol meu lençol vem beijar
E cujo perfume me deixa inebriado, em tonta
E incontrolável vertigem de te amar.

Não desistiu Eduardo de terminar o poema que com um joelho no chão e um cotovelo apoiado na coxa da outra perna recitava a D. Micá, como nos bons velhos tempos em que em Coimbra se atirava à esposa do comendador Formoso Reimão, o que lhe valeu um R na cadeira de Patologias Tropicais, quando, por insistência de um velho tio que era padre, o meu amigo Eduardo Aragão entrou no curso de Veterinária, contrariando a sua grande e antiga vocação que sempre fora o Direito. Talvez seja agora a hora de vos falar um pouco deste meu amigo, que desde muito jovem se perde por mulheres casadas e que colecionou RR atrás de RR na Universidade nunca tendo passado do segundo ano e que, por felicidade ou desígnio de Deus, nunca desgostou o velho tio, já que o Senhor o resolveu chamar à sua presença antes que dos desviantes caminhos do sobrinho achasse conhecimento, ele que o nutria dos maiores desvelos.

Conheci Eduardo Aragão quando eu era um imberbe adolescente. Uma amiga da minha mãe desposou um rico agricultor provinciano que a levou a viver para uma pequena aldeia no Concelho de Arganil, onde possuía um solar e era farto em criadagem. A minha mãe e essa amiga correspondiam-se por carta, é claro, e um dia a D. Edmunda, que era assim o nome dela, convidou a minha mãe a ir visitá-la. Que não se preocupasse, ela pagaria não só as passagens mas também, enquanto a minha mãe lá quisesse ficar, a estadia seria por conta dela. Logicamente, este convite só pode ser aceite nas nossas férias escolares e, num pretérito mês de Julho, lá fomos arrastados para uma aldeia desconhecida, para casa de quem não fazíamos ideia de quem fosse pois lá em casa só ouvíamos falar em “Mundita” para cá, “Mundita” para lá. E num dos nosso passeios pela região, sempre no automóvel do senhor Ferreira, nome que me fazia muita confusão pois estava acostumado a conhecer os amigos dos meus pais pelo nome próprio e aquele, para os meus doze anos, era apenas o senhor Ferreira, de tal modo que eu pensei que ele se chamasse Ferreira-qualquer-coisa, paramos para lanchar numa pastelaria de uma vila vizinha, mais propriamente em Coja, nome do qual nunca mais me esqueci e que já tive a oportunidade de visitar em adulto. Na mesa ao lado, um casal muito bem vestido, o homem de fato completo, colarinhos levantados, gravata, sapatos de verniz, colocava o guardanapo de pano sobre uma perna e comia uma fatia de bolo com faca e garfo, muito diferente do senhor Ferreira que era o que a esta distância poderíamos chamar de burgesso, mas rico, que vestia umas calças de fazenda, embora limpas porque a D. Edmunda era muito asseada, mas muito assaloiadas, um casaco de fazenda grossa, botas de couro cru e um boné de fazenda com pala, em vez de chapéu e que mandou logo vir um prato com meia dúzia de pasteis para as senhoras e para as crianças e para ele uma sandes de presunto e um copo de vinho, que comeu sem tirar o boné da cabeça, com a boca aberta e a deixar cair as migalhas. A senhora do casal também ela muito fina cuja aparência me impressionou com os seus lábios pintados de carmim, a sua camiseira às flores, um colar de pérolas ou de imitação, uma saia plissada de fino recorte e um blaser curto de bandas arredondadas. D. Edmunda, que não tinha nada a ver com a boçalidade do marido, era uma senhora de pouco mais de trinta anos, muito bonita, que se maquilhava a contragosto do senhor Ferreira, que a questionava sempre com um ar enjoado, que se ela já tinha a quem agradar porque é que se pintava, palavras que caiam sempre muito mal a D. Edmunda e que não era raro vê-la (pelo menos eu vi nos dias em que lá estive) com uma furtiva lágrima no olho. E um rapazinho que acompanhava o casal, mais ou menos para a minha idade nos seus doze, treze anos, de fato completo de casaquinho e calção, com uma camisa branca com folhos e uma gravata fininha que caia como duas fitas de seda. Ao fim de alguns minutos, aproximou-se de mim, pareceu-me até que um pouco tímido, ao contrário do que se viria posteriormente a revelar e perguntou-me:

- Queres brincar?

Aceitei e fomos para a rua, onde não havia perigos e onde os únicos dois carros, que se podiam ver à distância que os nossos olhos alcançavam, eram o do pai dele e o do Sr. Ferreira, mas estacionados, pelo que não representavam nenhum perigo. O outro menino, em vez de tirar do bolso um pião ou dois berlindes, perguntou-me baixinho:

- Qual das duas senhoras é a tua mãe?

Respondi-lhe que era a senhora do vestido de chita com um casaquinho de malha e cabelos aos caracóis, ao que ele me ripostou:

- Então esta noite vou sonhar com a outra.

Nunca mais perdemos o contato, exceto quando Eduardo andou pelo Brasil, vindo mais tarde a pedir-me desculpa, mas que os negócios, de que um dia vos falarei, não lhe davam tempo nem para um bilhete-postal.


Quando Eduardo se levantou e sacudiu as calças no joelho, deu uma gargalhada e sossegou D. Micá:

- Ó D. Micá, não se assuste. Estes são os versos que escrevi para a menina Lucinda que veja lá, coitadinha, foi atacada pelas artroses.

D. Micá fingiu respirar fundo e dirigiu-se ao canapé, onde o seu lugar estava reservado para continuar a contar a história de Antonieta e de D. Bonifácio.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

202. D. Micá e as meias pretas da Marta Caracinha.



D. Micá anda a querer fazer surpresa mas todos sabem como sou desbocado e na passada quinta-feira dei com ela, antes do nosso serão começar, com uma viola na mão, uns papéis com uns acordes à frente, uma tablatura de uma conhecida canção espanhola e um stress dos diabos. Mas D. Micá não se atrapalha e quando eu cheguei nem fez questão de disfarçar. Ficamos ali a conversar sobre aprendizagem destes instrumentos de corda, falei-lhe que também eu ando a aprender a tocar cavaquinho e rimos a bom rir quando sugeri que um dia destes, apresentaríamos nos famosos serões da sua casa o duo Constantino e Micá. Ela que não, que ou seria Micá e Constantino ou nada feito até que, como já disse atrás perdemo-nos de riso quando assentamos num nome bem pimba, Tino e Micá, só ficando por decidir quem seriam as bailarinas que nos iriam acompanhar no palco, com aqueles calções curtinhos de mostrar as nádegas por cima de meias de renda, de preferência pretas.

Foi num estado de autêntico delírio, comigo quase a rebolar no chão e a D. Micá com as pinturas todas borradas das lágrimas de tanto rir, que Eduardo Aragão, literalmente, nos caçou.

- Que história é essa da Marta e da Geninha serem bailarinas? – perguntou, intrigado, o Eduardo, sem fazer a mínima ideia do que estávamos a conversar e estranhando nunca ter sabido que as nossas conhecidas, a exótica Marta Caracinha e a viciada em bebidas brancas, a célebre Geninha, seriam bailarinas.
- Não são mas vão ser – respondi, sem bem conseguir disfarçar o riso.
- E que mal tem isso? Parece que estás a gozar um pratinho do qual não estou sequer a sentir a piada – ripostou Eduardo com uma cara de enjoado, enquanto já bem mais tranquila, D. Micá se ausentava para retocar a maquilhagem.
- Vão ser as nossas bailarinas exclusivas, Eduardo! E o mais interessante é que elas nem sequer desconfiam – acrescentei sem sequer ter pensado em descodificar-lhe a situação.
- Eu não te disse que tu só gostas de enigmas? Vais-me contar o que se está a passar aqui ou preferes fazer-me um desenho.

Pedi-lhe que me esperasse um pouco enquanto eu ia ao carro. Rosalina serviu-lhe um whisky e Pedro Rebocho chegou entretanto com Marta Caracinha. O Fagundes também já estava a estacionar o carro dele, a muito custo pois na Lapa não é fácil encontrar lugares vagos à noite e o Mendonça, que hoje trazia uma bengala para o ajudar a subir as escadas (ele disse-nos que era para o ajudar a descer) pois andava bem pior do joelho esquerdo, mazela de que já sofre há tempo, não obteve de Rosalina mais do que desprezo, pois a anafada empregada de D. Micá está muito chocada com o facto de ele a ter andado a enganar. Vá-se lá explicar esta propensão do Dr. Jorge Mendonça para criadas, ele é a Adriana, ele é a Rosalina e só não teve nada com a Eduardinha, sabemos agora, porque ela andava muito mais à caça de uns cobres de que de um par de olhos azuis e o Alfredo, nisso, dava cartas. Aos poucos, os nossos amigos que costumam frequentar o salão de D. Micá iam chegando, não faltaram sequer o senhor Hortênsio, o Faria e a viúva que agora é sua namorada, o Justino Carlos, o Armindo e a Tansinha que estão em Lisboa em negócios, mas que cada vez que cá chegam morrem de saudades do seu Porto, o Julião Guedes, a Efigénia, a Henriqueta e obviamente a nossa, já lhe podemos chamar assim, Geninha. No portão de entrada dei de caras com o otorrinolaringologista Luís Lopes Lacerda e logo de seguida chegou o casal Carlota e Paciência Monteiro. Com tanta gente ilustre ainda ouvi o meu amigo Eduardo pedir desculpas a D. Ermelinda pelo facto de a menina Lucinda não o acompanhar já há várias semanas mas tem andado, segundo ele, com uns problemas nas artroses, sabendo eu que D. Ermelinda sabe perfeitamente que o senhor comandante tem estado desembarcado há mais de dois meses porque a fragata está em doca seca para reparação.

Quando entrei com o meu estojo com o cavaquinho, Eduardo olhou para mim com um esgar cúmplice e dirigindo-se ao piano esperou que eu me preparasse e tocou as primeiras notas de “Laurindinha”. As cordas do cavaquinho vibraram e os corpos de Marta e de Geninha balancearam-se. À Marta Caracinha só lhe faltavam as meias de renda preta. 


segunda-feira, 8 de abril de 2013

201. D. Micá - A sabedoria popular



- Tu não estás a ver bem, pois não Eduardo?
- Nem sei do que é que estás a falar Constantino. Queres explicar-te?
- Sugiro que lhe ponhas um travão.
- Ó Constantino, vamos lá a ver se nos entendemos. De quem é que estás a falar?
- Ora, de quem é que achas que estou a falar? Daquela ali.
- Da Geninha? Por causa da vodka? Deixa lá, já não há nada a fazer…
- Não esteja a virar o texto, sabes bem que estou a falar da Micá.
- Da Micá? Da Micá o quê? O que é que tem a Micá?
- Ela vai-se desbocar. Não duvides.
- Lá estás tu, Constantino. De novo com enredos e mistérios. Gostas muito de deixar as pessoas a pensarem.
- Eduardo, pela nossa amizade. E olha que quem te avisa teu amigo é.
- Eu sei. E também sei que homem prevenido vale por dois.
- Também é isso, mas não só Eduardo. Bem sabes que quem anda à chuva molha-se.
- Diz-me lá Constantino o que é que esta série de ditados populares tem a ver comigo e com a D. Micá?
- Tem tudo Eduardo. Tu és inteligente. Aliás, um dia destes irei aqui contar um bocado da tua história e os nossos leitores vão saber porquê e com certeza concordar comigo que de facto és inteligente. O que penso é que te está a fazer de cego. E olha que o pior cego é aquele que não quer ver.
- Mas Constantino, vamos lá a ser claro! Porque nem todos os teus leitores estão a entender e não podes ficar pelas meias palavras. Bem sei que para bom entendedor meia palavra basta, mas…
- Então vou ser mais específico. Quiçá vá já direito ao assunto. Mas não de uma maneira precipitada. Sem atalhos. Porque quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos.
- Agradeço-te. Porque não gosto de coisas mal esclarecidas. Não gosto de gatos escondidos com o rabo de fora.
- Então, Eduardo vou-te falar. Mas sem rodeios. Vou ser conciso e não vou falar muito. Porque quem muito fala pouco acerta e eu não quero ser desses.
- Sou então todo ouvidos. Mas desde já te aviso que a palavras loucas, orelhas moucas.
- Pois então Eduardo, cá vai que já se está fazendo tarde.
- Estava a ver que não. Mas sou paciente Constantino e sou daqueles que acham que mais vale tarde que nunca.
- Apoio-te nessa afirmação. Saber esperar é uma grande virtude, Eduardo.
- Então fazes o favor de desembuchar? Não gosto que fiquemos aqui em segredinhos quando o serão está ali tão animado. A propósito queres tomar algo?
- Eu ia num copinho de leite magro com chocolate e tu?
- Já sabes que não dispenso um espirituoso, Constantino e hoje o que me apetece mais é uma ginja.
- Diz que há cá uma ginjinha de Óbidos de se lhe tirar o chapéu, Eduardo. Já fiz sinal à Rosalina.
- Ó Rosalina está vermelha que nem um tomate, rapariga. O que foi que lhe aconteceu?
- Ó senhor Constantino, então o senhor não sabe que água mole em pedra dura tanto dá até que fura?
- Isso eu sei, mas o que é isso a faz corar, Rosalina?
- Ó senhor Constantino, vossemecê não sabe? É o dr. Jorge…
- Qual Jorge, Rosalina, acho que a menina anda com muitas confianças…
- Ai desculpe-me dr. Aragão, mas eu não o disse por mal. Quero dizer… é o dr. Mendonça. Está muito abusador e eu não sou de ferro, ai meu Deus que tenho tanto medo de ceder.
- Mas ó Eduardo, diz-me cá uma coisa. Não foste tu que me disseste que o Jorge Mendonça e a Clara estavam a separar-se porque ela o apanhou com a criada, espera lá, Adriana, não é?
- Ai nem me diga isso senhor dr. Constantino, que se eu encontrar por aí um buraco, já me vou enfiar nele. Então esse desavergonhado a dar-me esperanças, que tem um filho por criar e coisa e tal e que eu faria o lugar que a menina Clara nunca soube fazer e mais isto e mais aquilo. Ai o malandro. Pois olhe que já lhe irei pôr tudo em prantos limpos. Ele que venha cá com avanços, ai dele.
- Pois Rosalina, deixe lá isso agora e traga-nos cá duas ginjinhas. E olhe que queremos da melhor, daquela que a D. Ermelinda costuma beber. E tu Eduardo, não sabias que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele? Olha esse sonso do Jorge…
- O que tu queres dizer, Constantino é que o Mendonça é um lobo com pele de cordeiro. Mas quem vê caras não vê corações, não é o que costuma dizer?
- É verdade Eduardo, mas voltando à vaca fria do almoço, tens de lhe parar a verve.
- Claro que te estás a referir de novo à Micá, não é?
- Pois claro, a quem é que devia de ser? E olha que ao diabo e à mulher nunca falta o que fazer.
- O que tu queres dizer é que se ela meter a boca no trombone vai sobrar para mim, é isso?
- E não tenhas dúvidas de que ela conhece a história toda. Ainda te lembras como é que ela conheceu D. Bonifácio…
- Foi através do falecido pai, não foi? Que Deus lhe tenha a alma em descanso.
- Por causa dos negócios do cacau e do leite. Sabes as influências nos negócios externos, da diplomacia…
- E também sabes que, embora mais jovem, ela ainda foi amiga da Antonieta?
- Também sei Constantino.
- E tens assistido à história que ela tem estado a contar?
- Tenho sim, claro que tenho.
- Então espera pela pancada.
- Pois é verdade mas olha que até ao lavar dos cestos é vindima.
- Não me queres dizer, Eduardo, que quem ri por último é quem ri melhor, pois não?
- Não, não, Constantino. Com o fogo não se brinca.
- Então ficamos assim.
- Olha. Brindemos então com esta ginjinha e não se esqueça Rosalina que esta também serve para si. Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.



terça-feira, 2 de abril de 2013

200. Terá sido o Tareco de D. Micá?



“Sabes meu caro Aristides, a minha vida com Antonieta nunca foi uma vida fácil. Nem fácil nem pacífica. Antonieta era uma mulher muito bonita. Diria mesmo, sem exagerar, que ela era fascinante. Tu lembras-te, com certeza, pois em jovens muito íamos ao cinema juntos, aquelas divas do preto e branco primeiro e do Technicolor uns anos mais tarde? Ahahahah, até parecemos dois velhos marretas a desfiar memórias. Ó Aristides, tu vais com quantos? Sessenta e oito? Bem me parecia. Eu sou um pouco mais velho, não muito, fui às sortes, deixa cá ver, em cinquenta e nove, se não me falha a memória. Nasci em quarenta. Eu era um belo rapaz, Aristides. Não é para me gabar, mas era. E era um pimpão! Arreava bem. Os meus pais, aristocratas, muito boa gente, nunca quiseram nada com o velho ditador e, olha, se eu tive lugar de relevo na diplomacia não foi por colaboracionismo. Antes pelo contrário, creio até que foi por receio. O velho botas não se queria dar mal com as velhas famílias nobres, o meu pai, que Deus tenha a sua alma em descanso, não alinhando com a política dele, também não o hostilizava. Dizia-me às vezes em segredo, pois à polícia política tudo lhes cheirava a conspiração, que os monárquicos um dia voltariam ao poder para a honrar a memória do senhor D. Carlos. Coisas dele. Mas não era disso que eu estava a falar, mas entende, famílias finas, aqui o teu amigo vestia muito bem, usava sempre chapéu, Aristides, que não é como agora, essa juventude nem garbo tem com o traje, ele é calças de ganga, blusas sem rei nem roque, sapatilhas, bonés de basebol. Não! Eu ia sempre na marcança. Ainda me lembro de um fato completo, bege claro, do chapéu, a que chamavam palhinhas, mas o meu não era de palha, era de verguinha entrelaçada, comprado na Chapelaria Janota, não era qualquer vendedor ambulante que fornecia aqui o rapaz, eu sempre com o lenço a sair do casaco, a condizer com as gravatas que a minha mãe mandava vir de fora pela mala diplomática, as camisas italianas. Enfim… E andava sempre de automóvel. Quando cheguei à Graça, no dia que fui às sortes, foi de automóvel. E eram aqueles labregos todos, das quintas de Almada e da Charneca, das terras da Porcalhota e de Caneças, a olharem para mim, a assobiarem e comentarem, olha não querem lá ver o pipi? O meu falecido pai tinha um Ford Coupé de 1936, que com mais de vinte anos parecia novo. Havias de ter gostado de conduzi-lo, Aristides. Não era uma bomba, mas era muito bonito. Eu saía daquele Ford preto, de fato bege e chapéu como te dizia há pouco e parecia o Al Capone. De mulheres, então, nem te falo. Infelizmente nunca assentei para me decidir a casar. Mais tarde, quando enveredei pela diplomacia, seguindo os passos do meu velho pai, depois de me ter formado na Faculdade de Letras, fui-me dividindo entre a profissão e as acompanhantes. Em Londres, meu caro Aristides, posso-te dizer que o meu quarto era mais cosmopolita que toda a cidade de Lisboa alguma vez se imaginaria vir a ser. Por lá passaram bailarinas italianas, esquiadoras norueguesas, ciganas romenas, princesas árabes, revolucionárias soviéticas, gueixas japonesas, floristas holandesas, roliças lavadeiras portuguesas, fotógrafas francesas e se mais não te digo é porque, mais uma vez afirmo, não gosto de me gabar. Mas não assentei e quando já pensava que iria adotar o sobrenome de tio, eis que me deparo com a linda Antonieta. Pois a Greta Garbo, a Rita Hayworth, a Elizabeth Taylor, a Joan Crowford, a Bette Davis, a Bergman, a Monroe, a Bacall, com ela iam a meças, ouviste? Sabes que chego a ter pena que não possas vislumbrar a aura do seu fantasma, quando ela me aparece aqui na mansão? Mas dito isto, D. Bonifácio calou-se repentinamente e ele e Aristides voltaram em simultâneo a cabeça para a porta do amplo salão nobre da mansão. Pensou-se que o gato Gatófio, só poderia ter sido ele, tenha soltado um estridente miado e como que rolassem berlindes, ouviu-se no silêncio do salão e na agora calmaria da noite um barulho que atacava o soalho, caindo em ritmo compassado como se caíssem de uma prateleira. Um a um, o que pareciam ser berlindes, caiam, ecoavam no vazio do aposento, rolavam pelo soalho e Gatófio depois do susto inicial que pregou aos dois interlocutores, parecia uma criança a brincar com eles no mosaico da cozinha”.

D. Micá parou de contar, numa atitude tão repentina como a dos personagens da sua história. Espontaneamente, todos os assistentes ao conto que D. Micá retomava, uma vez mais, numa das suas famosas soirées da Lapa, com exceção da Rosalina que ficou estarrecida, qual estátua viva, viraram à uma a cabeça em direção da porta da cozinha. Geninha também não resistiu e caiu para o lado, vítima da garrafa de vodka que foi reduzindo em muitos pequenos shots. Marta Caracinha nervosamente tirava e recolocava o elástico dos totós. Fagundes pôs os apontamentos de geografia debaixo do braço e ficou em posição de quem vai sair cheio de pressa. Justino Carlos roía as unhas. Dona Ermelinda, a contas com uma enxaqueca, dormitava no canapé e não dera por nada e Eduardo Aragão, que sempre foi um exemplo de coragem, a propósito da qual vos contarei em breve um ou dois episódios, abriu de supetão a porta da cozinha de D. Micá e de olhos brilhantes, com um sorriso nos lábios, informou a plateia:

- Oh, não é nada. Foi o Tareco que entornou o pacote das amêndoas lisa-cores e agora anda a brincar com elas, como se fosse uma criança.

Mas ninguém ficou descansado. Ali havia fantasmas como no conto de D. Micá.


quarta-feira, 27 de março de 2013

199. O mau tempo já passou e os fantasmas vão de vento em popa




“D. Bonifácio, fez aquela referência e calou-se” , recomeçou a contar a sua história D. Micá, praticamente refeita de várias apoquentações, desde logo o episódio da matraca, a perda da Eduardinha, que a esta hora deve estar a servir um cafezinho ao Alfredo, a febre que a gripe lhe trouxe e outras que a tinham impedido de cumprir o desígnio de que, quer fizesse chuva ou sol, trovoada ou vendaval, canícula ou  frio de rachar, as quintas-feiras à noite eram sagradas e seriam exclusivamente dedicadas aos serões na sua residência. Continuou, D. Micá. “Calou-se e ficou pensativo. Depois, como que resignado, virou-se para Aristides
- Meu caro Aristides – disse bocejando. – Estou cheio de sono.
- Ó Bonifácio -  como sabem, o tratamento informal quando estavam a sós derrubava qualquer barreira entre patrão e motorista – mas nem o teu pijama trouxemos. E ainda se fosse só o pijama. Os teus comprimidos do colesterol, os da tiroide e o principal, os antiestamínicos ficaram em casa. E tu bem sabes como sofres com o pó desta velha mansão. Felizmente que a humidade de hoje fê-lo acalmar e assentar sobre estantes e prateleiras, mas não estamos a salvo das correntes de ar como ainda há pouco acabamos de sentir”.
Foi a vez de D. Micá fazer a pausa e perguntar para os presentes se estavam ou não a achar maçadora esta história de fantasmas, que se arrasta mais do que uma serpente atrás de uma ratazana, passe a arrepiante, para a ratazana, claro está, comparação. É então que o meu amigo Eduardo Aragão, que hoje veio sozinho mas muito janota, o que fez com que quase todos e todas ali presentes conjeturassem qual seria o destino de Eduardo mal arrefecesse na caneca o leite magro com chocolate, que Rosalina, recomposta do vómito e já com o chazinho tomado, tinha voltado a aquecer, o mesmo será dizer, já que hoje me deu para as metáforas, para onde é que iria esta noite Eduardo, mal o serão acabasse, vestido que nem um lorde, de fato completo de tweed em espinha, cinzento não muito escuro, de corte fino italiano, uns sapatos que se nota que são produção artesanal de altíssima qualidade, provavelmente feitos à mão por algum mestre sapateiro de S. João da Madeira e sem qualquer sombra de dúvida, modelo único, a camisa, impecavelmente branca e da mais pura cambraia, plissando nos peitilhos, com duas pequenas pregas em cada lado, estilo meados dos anos 70 e no bolso do paletó um lenço em seda, exatamente igual ao laço que lhe substituía a costumeira, mas não menos fina e garbosa gravata com que habitualmente se indumenta, se levantasse, tomasse a palavra e eloquentemente discursasse:
- Senhora e senhores, minhas amigas e meus amigos, deixem-me cumprimentar com o enfâse que merecem as nossas anfitriãs, as queridas senhora D. Ermelinda, minha senhora, espero que vá melhor das suas artroses e a D. Micá a exímia contadora de histórias cor-de-rosa, a quem aproveito também a solenidade deste momento para lhe endereçar os meus mais sinceros parabéns pela recente aquisição da roliça Rosalina, que por sinal a vejo ali ao fundo a corar, não core menina que eu apenas estou a ser sincero.
Depois do cumprimento, com os apartes que Eduardo introduziu, fruto de vários workshops que frequentou, dos quais destaco “Relações intrapessoais em ambientes hostis”, “A arte da comunicação e a anedota proposital” e ainda “Como cativar uma plateia em cinco minutos ou desistir” facultados por consultores norte-americanos, Eduardo Aragão, que foi uma pessoa muito viajada na sua adolescência, viagens que vão desde os inter-rails às boleias em estradas britânicas, onde Eduardo se acostumou a pedir boleia com a mão esquerda dado o fluxo do trânsito se fazer em sentido inverso ao das estradas continentais, mas que, infelizmente para vós que estão ansiosos para que vos fale do passado, riquíssimo diga-se a talhe de foice, de Eduardo Aragão, não vem hoje muito a propósito ficando para melhor oportunidade, continuou, num discurso emotivo, pedindo quase encarecidamente para que D. Micá não interrompesse tão bela história de fantasmas e enigmas que, pese embora o facto de esta ainda se encontrar praticamente no início, apesar de já vir a ser contada quase desde que este livro começou a ser escrito, todos acreditam que seja fascinante. Foi tão exacerbado o discurso e tão belamente adjetivado, pela riqueza da língua portuguesa que nem sempre é valorizada, preferindo-se discutir se o novo Acordo Ortográfico deve ou não ser aplicado, tão eloquente a sua prosápia, tão empolgante a retórica, que se em alguns se viam testas suando a outros fez saltar uma ou outra furtiva lágrima, principalmente às senhoras que, como se sabe, são criaturas belas e sensíveis. A própria Geninha, já não sabia se havia primeiro de virar novo shot de vodka ou se deveria limpar com elegância a lágrima no canto do seu olho esquerdo, pois que já começava a mostrar sinais de vir a esborratar o rímel. E virando-se para Constantino disse-lhe sem papas na língua:
- E tu, Constantino, não te atrevas a deixar por acabar este delicioso e fantasmagórico conto. A Francisca já morreu e isto não são carapaus de escabeche.


sábado, 23 de março de 2013

198. D. Micá tem uma nova criada





Recompuseram-se algumas situações. D. Micá melhorou muito, graças ao paracetamol e a um xarope que comprou numa ervanária da Baixa e a garganta já vai ficando capaz, pois deliciou-nos com um pouco mais da história de D. Bonifácio e dos seus fantasmas. Nem uma palavra acerca da provocação, o tempo da matraca já lá vai e quem só começou a ler esta história neste momento nem sabe o que já perdeu. Mas há pessoas para tudo, até para começarem a ler um livro pelo meio, vá-se lá saber qual a razão. Por outro lado Rosalina já chegou. E que bem que lhe fica o nome de Rosalina. Veio diretamente de Albergaria, velhos conhecimentos entre D. Micá, D. Ermelinda e a mãe da jovem provinciana que, desde que Eduardinha se amantizou com o Alfredo, o serviço andava muito por baixo. Por sorte, praticamente não houve serões, por mor da gripe de D. Micá e ainda devido ao estado semidepressivo em que andou, porque não é impunemente que se é alcunhada de matraca por um personagem de uma história que a própria conta. E se esta miscigenação entre narrador e narrado já é coisa vista nas figuras de estilo da literatura portuguesa, não é menos verdade que, uma criadita adolescente, vinda das berças, faces rosadas, um ligeiro buço e mais ou menos roliça, é um protótipo que os nossos maiores vultos da poesia e do romance já usavam nos seus muito apreciados clássicos. Não admira pois que, nós, escribas bem mais modestos, quer seja o Constantino, quer seja D. Micá, que são os que mais contribuem para que estes episódios e até histórias completas, tenhamos encontrado para substituir a bela Eduardinha, uma filha da ruralidade, com a fisionomia que se descreveu e que se chama Rosalina. De Rosalina, suas venturas e desventuras se falará no tempo próprio, desde a depilação laser, que a deixou sem qualquer pelinho no rosto e que, se não fosse por pudor, diríamos mesmo que sem qualquer pelo nos sovacos e nas pernas, aspeto físico que passou apenas a ser uma ténue memória de um passado não muito remoto e que ousaríamos supor, porque não foi possível fazer passar Rosalina por um crivo inspecional mais rigoroso, que nem na púbis se poderá encontrar qualquer vestígio de excrescência pilosa, até ao seu atribulado namoro com um ex-militar do antigo Regimento de Artilharia de Costa que tem um agora um barquinho de pesca na Trafaria e que se dedica ao arrasto clandestino da ameijoa. Mas por enquanto Rosalina ainda não usa blushs nem sombras, o seu ar rosado é completamente natural e se alguma vez alguém, em frente dela, lhe fala em pó-de-arroz, é para ela, com o ar mais púdico que se possa imaginar, colocar os três dedos, o médio, o anelar e o indicador bem juntinhos sobre os lábios e rir disfarçadamente pois que lhe vem à lembrança a filha da D. Doroteia, que saía todas os fins de tarde completamente pintada e só se sabia que ela regressava de madrugada porque o Idalécio taxista, o único que levava pessoas da aldeia até Albergaria ida e volta era, um boca de charroco, “pior que as mulheres” como se dizia lá na terra, e que aqui não se reitera porque eu não sou machista, mas que lá que ele não guardava um segredo, lá isso pode-se jurar. Era por isso que à memória das pinturas do rosto da Sandrinha, as suas meias pretas de fantasia, com rendas no lugar das ligas, a minissaia muito curta, passe o ênfase, os grandes decotes, as botas de cano alto e o cigarro fumado com boquilha, Rosalina levava primeiro os três referidos dedos à boca, sorria com ironia, corava ainda mais e depois benzia-se três vezes. E mais se benzeu quando, pela primeira vez, ouviu D. Micá contar uma parte da história de D. Bonifácio, a parte em que ele e Aristides falam sobre a confissão a frei Bento Patinho, que como todos sabemos é um fantasma e dos antigos. Não vos queria adiantar muito, mas ainda vos digo que Rosalina arreou uma bandeja com duas caneca de leite magro morninho com chocolate sobre o aparador, saiu a correr direita à casa de banho, primeiro começou com náuseas, depois um forte vómito, foram-se-lhe as cores rosáceas, a moça começou a ficar branca, D. Micá aflitíssima gritava não se sabe para quem, “Um chá! Um chá! Alguém que me arranje um chá!” e segurava a cabeça de Rosalina que com os olhos ainda bastante encovados e muito a custo lhe respondeu “deixe-me ficar melhor minha senhora, que já lhe vou arranjar um chazinho”.

terça-feira, 19 de março de 2013

197. O homem que escrevia livros eróticos e não tinha saxofone



- Pai, porque é que a gente não deve dizer mentiras?
- Porque é feio.
- Muito feio?
- Sim, muito feio.
- Quanto pai?
- Conheces o hipopótamo?
- Conheço, pai.
- É assim muito feio como o hipopótamo.
- Ah!
...

- Pai.
- Sim, filho.
- Ontem tiveste um furo no carro?
- Não, filho.
- Pai, onde é que está o saxofone?
- O pai não tem nenhum saxofone, filho.
- Pai.
- Sim, filho.
- O que é um livro erótico?
- Filho é muito difícil explicar-te. Podemos deixar isso para depois?
- Depois quando pai?
- Quando o pai souber explicar.
...

- Pai.
- Sim, filho.
- Tu escreves histórias?
- Sim, às vezes escrevo.
- E são histórias de verdade ou histórias de mentira?
- Às vezes têm de se inventadas.
- O que é inventadas, pai?
- Digamos que são histórias de mentira.
- Pai, tu és feio.
- Muito feio, filho?
- Pai, és um hipopótamo.




Nota: (Re)post que publiquei em 2009 em O Predatado