D. Micá anda a querer fazer surpresa mas todos
sabem como sou desbocado e na passada quinta-feira dei com ela, antes do nosso
serão começar, com uma viola na mão, uns papéis com uns acordes à frente, uma
tablatura de uma conhecida canção espanhola e um stress dos diabos. Mas D. Micá
não se atrapalha e quando eu cheguei nem fez questão de disfarçar. Ficamos ali
a conversar sobre aprendizagem destes instrumentos de corda, falei-lhe que
também eu ando a aprender a tocar cavaquinho e rimos a bom rir quando sugeri
que um dia destes, apresentaríamos nos famosos serões da sua casa o duo
Constantino e Micá. Ela que não, que ou seria Micá e Constantino ou nada feito
até que, como já disse atrás perdemo-nos de riso quando assentamos num nome bem
pimba, Tino e Micá, só ficando por decidir quem seriam as bailarinas que nos
iriam acompanhar no palco, com aqueles calções curtinhos de mostrar as nádegas
por cima de meias de renda, de preferência pretas.
Foi num estado de autêntico delírio, comigo quase
a rebolar no chão e a D. Micá com as pinturas todas borradas das lágrimas de
tanto rir, que Eduardo Aragão, literalmente, nos caçou.
- Que história é essa da Marta e da Geninha serem
bailarinas? – perguntou, intrigado, o Eduardo, sem fazer a mínima ideia do que
estávamos a conversar e estranhando nunca ter sabido que as nossas conhecidas,
a exótica Marta Caracinha e a viciada em bebidas brancas, a célebre Geninha,
seriam bailarinas.
- Não são mas vão ser – respondi, sem bem
conseguir disfarçar o riso.
- E que mal tem isso? Parece que estás a gozar um
pratinho do qual não estou sequer a sentir a piada – ripostou Eduardo com uma
cara de enjoado, enquanto já bem mais tranquila, D. Micá se ausentava para
retocar a maquilhagem.
- Vão ser as nossas bailarinas exclusivas,
Eduardo! E o mais interessante é que elas nem sequer desconfiam – acrescentei sem
sequer ter pensado em descodificar-lhe a situação.
- Eu não te disse que tu só gostas de enigmas?
Vais-me contar o que se está a passar aqui ou preferes fazer-me um desenho.
Pedi-lhe que me esperasse um pouco enquanto eu ia
ao carro. Rosalina serviu-lhe um whisky e Pedro Rebocho chegou entretanto com
Marta Caracinha. O Fagundes também já estava a estacionar o carro dele, a muito
custo pois na Lapa não é fácil encontrar lugares vagos à noite e o Mendonça,
que hoje trazia uma bengala para o ajudar a subir as escadas (ele disse-nos que
era para o ajudar a descer) pois andava bem pior do joelho esquerdo, mazela de
que já sofre há tempo, não obteve de Rosalina mais do que desprezo, pois a
anafada empregada de D. Micá está muito chocada com o facto de ele a ter andado
a enganar. Vá-se lá explicar esta propensão do Dr. Jorge Mendonça para criadas,
ele é a Adriana, ele é a Rosalina e só não teve nada com a Eduardinha, sabemos
agora, porque ela andava muito mais à caça de uns cobres de que de um par de
olhos azuis e o Alfredo, nisso, dava cartas. Aos poucos, os nossos amigos que
costumam frequentar o salão de D. Micá iam chegando, não faltaram sequer o
senhor Hortênsio, o Faria e a viúva que agora é sua namorada, o Justino Carlos,
o Armindo e a Tansinha que estão em Lisboa em negócios, mas que cada vez que cá
chegam morrem de saudades do seu Porto, o Julião Guedes, a Efigénia, a
Henriqueta e obviamente a nossa, já lhe podemos chamar assim, Geninha. No
portão de entrada dei de caras com o otorrinolaringologista Luís Lopes Lacerda
e logo de seguida chegou o casal Carlota e Paciência Monteiro. Com tanta gente
ilustre ainda ouvi o meu amigo Eduardo pedir desculpas a D. Ermelinda pelo
facto de a menina Lucinda não o acompanhar já há várias semanas mas tem andado,
segundo ele, com uns problemas nas artroses, sabendo eu que D. Ermelinda sabe
perfeitamente que o senhor comandante tem estado desembarcado há mais de dois
meses porque a fragata está em doca seca para reparação.
Quando entrei com o meu estojo com o cavaquinho,
Eduardo olhou para mim com um esgar cúmplice e dirigindo-se ao piano esperou
que eu me preparasse e tocou as primeiras notas de “Laurindinha”. As cordas do
cavaquinho vibraram e os corpos de Marta e de Geninha balancearam-se. À Marta
Caracinha só lhe faltavam as meias de renda preta.
