Recompuseram-se algumas situações. D. Micá
melhorou muito, graças ao paracetamol e a um xarope que comprou numa ervanária
da Baixa e a garganta já vai ficando capaz, pois deliciou-nos com um pouco mais
da história de D. Bonifácio e dos seus fantasmas. Nem uma palavra acerca da
provocação, o tempo da matraca já lá vai e quem só começou a ler esta história
neste momento nem sabe o que já perdeu. Mas há pessoas para tudo, até para
começarem a ler um livro pelo meio, vá-se lá saber qual a razão. Por outro lado
Rosalina já chegou. E que bem que lhe fica o nome de Rosalina. Veio diretamente
de Albergaria, velhos conhecimentos entre D. Micá, D. Ermelinda e a mãe da
jovem provinciana que, desde que Eduardinha se amantizou com o Alfredo, o
serviço andava muito por baixo. Por sorte, praticamente não houve serões, por
mor da gripe de D. Micá e ainda devido ao estado semidepressivo em que andou,
porque não é impunemente que se é alcunhada de matraca por um personagem de uma
história que a própria conta. E se esta miscigenação entre narrador e narrado
já é coisa vista nas figuras de estilo da literatura portuguesa, não é menos
verdade que, uma criadita adolescente, vinda das berças, faces rosadas, um
ligeiro buço e mais ou menos roliça, é um protótipo que os nossos maiores
vultos da poesia e do romance já usavam nos seus muito apreciados clássicos.
Não admira pois que, nós, escribas bem mais modestos, quer seja o Constantino,
quer seja D. Micá, que são os que mais contribuem para que estes episódios e
até histórias completas, tenhamos encontrado para substituir a bela Eduardinha,
uma filha da ruralidade, com a fisionomia que se descreveu e que se chama
Rosalina. De Rosalina, suas venturas e desventuras se falará no tempo próprio,
desde a depilação laser, que a deixou sem qualquer pelinho no rosto e que, se
não fosse por pudor, diríamos mesmo que sem qualquer pelo nos sovacos e nas
pernas, aspeto físico que passou apenas a ser uma ténue memória de um passado
não muito remoto e que ousaríamos supor, porque não foi possível fazer passar
Rosalina por um crivo inspecional mais rigoroso, que nem na púbis se poderá
encontrar qualquer vestígio de excrescência pilosa, até ao seu atribulado
namoro com um ex-militar do antigo Regimento de Artilharia de Costa que tem um
agora um barquinho de pesca na Trafaria e que se dedica ao arrasto clandestino
da ameijoa. Mas por enquanto Rosalina ainda não usa blushs nem sombras, o seu
ar rosado é completamente natural e se alguma vez alguém, em frente dela, lhe
fala em pó-de-arroz, é para ela, com o ar mais púdico que se possa imaginar,
colocar os três dedos, o médio, o anelar e o indicador bem juntinhos sobre os
lábios e rir disfarçadamente pois que lhe vem à lembrança a filha da D.
Doroteia, que saía todas os fins de tarde completamente pintada e só se sabia
que ela regressava de madrugada porque o Idalécio taxista, o único que levava
pessoas da aldeia até Albergaria ida e volta era, um boca de charroco, “pior
que as mulheres” como se dizia lá na terra, e que aqui não se reitera porque eu
não sou machista, mas que lá que ele não guardava um segredo, lá isso pode-se
jurar. Era por isso que à memória das pinturas do rosto da Sandrinha, as suas
meias pretas de fantasia, com rendas no lugar das ligas, a minissaia muito
curta, passe o ênfase, os grandes decotes, as botas de cano alto e o cigarro
fumado com boquilha, Rosalina levava primeiro os três referidos dedos à boca,
sorria com ironia, corava ainda mais e depois benzia-se três vezes. E mais se
benzeu quando, pela primeira vez, ouviu D. Micá contar uma parte da história de
D. Bonifácio, a parte em que ele e Aristides falam sobre a confissão a frei
Bento Patinho, que como todos sabemos é um fantasma e dos antigos. Não vos
queria adiantar muito, mas ainda vos digo que Rosalina arreou uma bandeja com
duas caneca de leite magro morninho com chocolate sobre o aparador, saiu a correr
direita à casa de banho, primeiro começou com náuseas, depois um forte vómito,
foram-se-lhe as cores rosáceas, a moça começou a ficar branca, D. Micá
aflitíssima gritava não se sabe para quem, “Um chá! Um chá! Alguém que me
arranje um chá!” e segurava a cabeça de Rosalina que com os olhos ainda
bastante encovados e muito a custo lhe respondeu “deixe-me ficar melhor minha
senhora, que já lhe vou arranjar um chazinho”.
sábado, 23 de março de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
197. O homem que escrevia livros eróticos e não tinha saxofone
- Pai, porque é que a gente não deve dizer
mentiras?
- Porque é feio.
- Muito feio?
- Sim, muito feio.
- Quanto pai?
- Conheces o hipopótamo?
- Conheço, pai.
- É assim muito feio como o hipopótamo.
- Ah!
- Porque é feio.
- Muito feio?
- Sim, muito feio.
- Quanto pai?
- Conheces o hipopótamo?
- Conheço, pai.
- É assim muito feio como o hipopótamo.
- Ah!
...
- Pai.
- Sim, filho.
- Ontem tiveste um furo no carro?
- Não, filho.
- Pai, onde é que está o saxofone?
- O pai não tem nenhum saxofone, filho.
- Pai.
- Sim, filho.
- O que é um livro erótico?
- Filho é muito difícil explicar-te. Podemos deixar isso para depois?
- Depois quando pai?
- Quando o pai souber explicar.
- Pai.
- Sim, filho.
- Ontem tiveste um furo no carro?
- Não, filho.
- Pai, onde é que está o saxofone?
- O pai não tem nenhum saxofone, filho.
- Pai.
- Sim, filho.
- O que é um livro erótico?
- Filho é muito difícil explicar-te. Podemos deixar isso para depois?
- Depois quando pai?
- Quando o pai souber explicar.
...
- Pai.
- Sim, filho.
- Tu escreves histórias?
- Sim, às vezes escrevo.
- E são histórias de verdade ou histórias de mentira?
- Às vezes têm de se inventadas.
- O que é inventadas, pai?
- Digamos que são histórias de mentira.
- Pai, tu és feio.
- Muito feio, filho?
- Pai, és um hipopótamo.
- Pai.
- Sim, filho.
- Tu escreves histórias?
- Sim, às vezes escrevo.
- E são histórias de verdade ou histórias de mentira?
- Às vezes têm de se inventadas.
- O que é inventadas, pai?
- Digamos que são histórias de mentira.
- Pai, tu és feio.
- Muito feio, filho?
- Pai, és um hipopótamo.
Nota: (Re)post que publiquei em 2009 em O Predatado
terça-feira, 12 de março de 2013
196. Fruta da época em casa de D. Micá ou a história de Eduardinha e Alfredo
Nestas últimas semanas não tem havido serões na
casa da D. Micá. O prazer de se ouvir contar histórias, mormente pela exímia
contadora de contos cor-de-rosa que é a nossa anfitriã, ainda que acompanhadas
com leite magro com chocolate ou whisky com e sem gelo ou ainda por algum
licor, nomeadamente de amêndoa amarga, não parece ter sido suficiente para que
os tão famosos serões não fossem interrompidos. Infelizmente é esta época fria
e chuvosa a comandar os desígnios de tanta gente por esse país fora que os
assíduos frequentadores do famoso salão não poderiam ficar imunes. D. Ermelinda
bem vai repreendendo a sua estimada filha. «Eu bem te disse para tomares a
vacina, mas tu és teimosa. Sais ao teu pai. Em se lhe metendo uma coisa na
cabeça, não havia quem o demovesse. Que Deus lá tenha a sua alma em descanso,
coitadinho, que se finou tão cedo». Depois benze-se, fazendo primeiro o sinal
da cruz. À filha, que já conhece a lengalenga toda da mãe, com destaque para as
comparações que costuma fazer com o defunto, pois sempre que se refere a algo
da filha, coisa boa ou coisa má, repete-se a conversa «és tal e qual o teu
falecido pai», entra-lhe por ou ouvido e sai-lhe por outro, não sem antes dar
uma palavra de justificação ou consolação por respeito à mãe que ela adora de
verdade. «Não se inquiete minha mãe que eu já tomei um comprimido e sei que
isto vai logo passar», depois dá-lhe um beijo respeitoso na testa e um afago na
cabeça, enquanto se dirige ao piano para tocar uma melodia triste ou melancólica
que o seu estado febril não lhe permite polkas nem marchas. Por falar em
música, desde que o Bruninho Mendonça, que como sabem já toca guitarra
portuguesa apesar dos seus oito anos e que sempre achou que aqueles serões onde
ele tinha de regressar a casa às dez da noite eram uma seca, deixou de ir, que
não se tem cantado o fado em casa de D. Micá. O Dr. Jorge, que agora frequenta
sozinho aquela tertúlia, à falta do filho que acabou por se decidir a ficar em
casa com a mãe, tenta ele próprio arranhar a guitarra. Mas a uma guitarra, não
é qualquer que a agarra e a faz vibrar porque é exatamente como uma mulher. E
por ter falado em mulher, dir-vos-ei, a talhe de foice, que a Clara, de quem D.
Ermelinda nem gostava muito, disse-nos a D. Micá, está com um processo de
divórcio em marcha. Sim porque o Dr. Jorge Mendonça, vejam lá, a pretexto de
uma das sua célebres camisas de cambraia estar com uma ruga, foi à casinha dos
serviços e demorou-se mais que a conta. Clara Mendonça, que já andava
desconfiada com qualquer coisa, viu o marido enrolado com Adriana a sua criada
de casa, de quem, logo no início prometi que falava dela e não estou esquecido.
Parece que D. Ermelinda agora, apesar de não gostar muito de Clara, porque
sempre teve uma pontinha de ciúme do seu casamento, de Clara, com o seu, de D.
Ermelinda, amor platónico, se aproximou mais da esposa enganada e dizem, anda
com umas ganas de Adriana, que se a D. Micá um dia destes não puser tudo a nu,
ela própria desmascara essa impostora da criada dos Mendonça que tem uma
história de vida de arrepiar. Mas retornando, o que me fez voltar a falar dos
serões de D. Micá foi, precisamente, a ausência desses serões. D. Micá com
gripe, o Eduardo Aragão que piorou, e de que maneira, do joelho esquerdo, o que
nem lhe tem permitido fazer aquelas saborosas caminhadas matinais de que tanto
gosta e que desfruta com regozijo e diz que sair à noite é bem pior, pois que
se lhe mete uma humidade nas articulações e que nem com anti-inflamatórios a
coisa tem resultado e a Eduardinha. E o que é que tem Eduardinha a ver com a gripe
de D. Micá e as dores no joelho do Eduardo Aragão ou a crise de tosse cavada do
Fagundes que teve de meter baixa, deixando os alunos de geografia uma semana
sem aulas? Nada. Era só para dizer que a Eduardinha, também ela, deixou de
comparecer. Despediu-se. Despediu-se sim senhor. Ela já não parecia muito
talhada para aquela vida mas quando o Alfredo lá apareceu… Ainda não vos falei
do Alfredo, mas o Alfredo é aquele empresário de bares e danceterias de não
muito boa fama, que só muito esporadicamente frequenta os serões de dona Micá e
fá-lo em memória do senhor Comendador a quem uma vez Alfredo ficou a dever um
grande favor, por mor de umas penhoras que Jovelino Azeredo lhe pagou antes que
fosse tudo por água abaixo e que, se um dia tiver tempo vos contarei lá para a
frente. Dizia eu que desde que o Alfredo lá apareceu, de fato completo, sempre
claro e sempre completo com colete e tudo, fosse verão ou inverno, pois Alfredo
tinha sempre um ar jovem e bem-disposto, já com o cabelo branco, nos seus quase
setenta anos, fumando charuto e usando camisas estampadas, dispensando a gravata
mas nunca por nunca ser, o cachené de seda, lhe acenou com umas notas grandes
de euro, só para lhe aquecer os pés neste frio e chuvoso inverno, ela que nunca
precisou de paracetamol, aceitou. E diz ela, para quem a quer ouvir, que em vez
de andar de bandeja na mão a servir este e aquele, é agora ela, servidinha em
bandeja. E o Alfredo aprecia. Ah leão!
sexta-feira, 1 de março de 2013
195. Pintar um conto
Hoje vou pintar-vos
um conto. A lata de tinta já está pronta e a velhinha, sentada num corte de
tronco de azinho, ajeita o lenço. Vê-se que está impaciente pois atou e desatou
o nó por mais de uma vez, tirou o chapéu e voltou a pô-lo, colocou o lenço
sobre o chapéu e apertou o lenço de novo. Esta forma graciosa de usar um lenço
sobre o chapéu preto é muito típica aqui da região. Víamo-las assim quando em bandos ceifavam o trigo ou quando, à
tardinha, sentadas no mocho acariciavam o bezerrito que Bonita, a vaca, acabara de parir. Uma ave, esclareceu-me numa voz
meiga, com a ternura do costume, que era um rabilongo, posou na figueira em
frente à porta. Comia os restos de um figo maduro que desta vez não teria tempo
de passar. Depois aparentando um ar sério e fingindo-se zangada, confidenciou-me
«são uns bandidos, comem tudo». Rimos os dois e ficamos ali um pouco à conversa
explicando-lhe que a luz do sol ainda não era aquela que eu queria para iniciar
a pintura. Teria ainda tempo para atender o telefone e trazer-me uma chávena de
chá bem quente que por este tempo, no inverno, faz frio por estas bandas. Um
cheiro a lúcia-lima invadiu o espaço. Voltou a sentar-se, esperou que eu
terminasse a bebida, enxotou o gato e disse-me «estou pronta». Respondi-lhe que
também estava pronto, acrescentado «esta é a hora de ouro para um pintor».
Peguei no pincel mas acabei por terminar o trabalho já sob a luz de uma fraca lâmpada
de tungsténio. «Vai ali para o lado do meu Joaquim. Nunca mais vais dormir só»,
falou primeiro para mim, depois para a velha moldura com um retrato a sépia de
Joaquim. Retirou um velho calendário já manchado pela humidade dos anos e no
seu lugar pendurou o quadro acabado de pintar.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
194. Quando D. Micá foi dar milho aos pombos
A manhã acordou radiosa no quarto de D. Micá. O
sol penetrante na janela contígua à cama transpunha as cortinas de tule branco
translúcido, deixando que a alvura da luz inundasse o aposento. D. Micá bocejou
e espreguiçou-se. Estes gestos, que muita gente ainda apelida de má educação e
próprios de gente sem classe, num estigma ao bocejo público, muitas vezes
proveniente de doutas bocas, seja das de juízes em prolongados e aborrecidos
julgamentos, onde advogados de firmas de telecomunicações pedem a penhora de
dois penicos e uma vassoura de piaçá por conta de dívidas de trinta e dois
euros e quarenta e sete cêntimos, seja daa bocas de alguns parlamentares,
digníssimos representantes do povo que, diga-se em abono da verdade, pouco mais
fazem do que bocejar o dia inteiro, ou numa conotação, como se sabe,
inapropriada ao gesto de esticar os braços para cima reclinando simultaneamente
o corpo para trás, o que se sabe ser uma forma de alongar músculos para que
novo alento nos invada, são gestos absolutamente normais. Pois bem, como seria
de esperar, apesar de presidente de uma Fundação muito prestigiada no meio dos
apreciadores de leite magro e mais ainda no dos apreciadores de chocolate, D.
Micá também boceja e também se espreguiça. E estarão agora os leitores a pensar
“e também dará o seu traque, com certeza…”. Então, para que a verdade aqui
fique indubitavelmente expressa, D. Micá também dá o seu traque. Dá sim senhor.
Apesar destes gestos, derivado ao mau estar do serão da véspera, onde ela se
viu envolvida na própria história que estava a contar mas que, sabemos de fonte
segura, não deixará de continuar a contar, malgrado a desfaçatez e até
descaramento de D. Bonifácio em apelidá-la de matraca, D. Micá acordou com uma
ligeira dor de cabeça. Como não se tratava de enxaqueca, coisa de que raramente
se queixava, ao contrário de sua mãe, D. Ermelinda, mas que por agora nem vem
ao caso, a moinha que a apoquentava não era coisa que não passasse com um bom
duche. E se assim o pensou assim o fez, sendo que depois de colocar na cabeça
uma touca que lhe protegeria os longos e bem tratados cabelos loiros da
agressão de águas calcárias e sabões vários, deixou cair costas abaixo o sua
camisa de noite em seda arábica com folhos e rendas deixando a nu o esbelto
corpo desta trintona, órfã de pai, senhor de muitas facetas, entre as quais, a
que melhor conhecemos, a de exportador de cacau santomense. Mas da alvura da sua
pele, da maciez das axilas, da elegância do umbigo, da firmeza dos seios, da expressividade
da púbis, do talhe das suas coxas, da vespídea cintura, das saliências glúteas e
da beleza dos seus pés não se falará neste texto que não tem pretensões a
narrativa de caráter erótico. Tomou então o seu banho, vestiu-se, comeu,
telefonou e saiu.
No resto da manhã passeou-se pelo parque. Vestia
um vestido muito bonito, branco, de algodão e linho e usava uma sombrinha
também branca. Quer o vestido quer a sombrinha se apresentavam com rendas em
bordado inglês. Quem a visse poderia pensar que se tratava de uma noiva em
momento de descontração antes de dar o sim no altar da igreja de Fátima. Mas
não. Do telefonema, que alguns minutos antes fizera, resultou juntarem-se a ela
duas boas amigas, a Geninha e a Marta. Duas amigas e não duas damas de honor. De
resto nem nos parece que esteja para breve o seu casamento nem, tão pouco, lhe
conhecemos namorado. Riam com ar jovial, como se o chilique tivesse sido coisa
de um passado distante e as bebedeiras de vodka que a Geninha apanha, não lhe
fizessem mossa, que se não as conhecêssemos como as conhecemos diríamos que tínhamos
ali três mulherezinhas como as de Louisa Alcott ou quaisquer outras três saídas
de romances cor-de-rosa de meados do século passado. E quais jovens
adolescentes, abriram as bolsas, tiraram de lá os seus saquinhos de milho e
foram dar milho aos pombos.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
193. O chilique de D. Micá
“Confessou-se
D. Bonifácio d’Assunção a Frei Bento mas do que ele falou nada se sabe. Apesar
de estarmos a falar de um fantasma, padre é padre e o segredo da confissão faz
parte das leis eclesiásticas. Caso contrário, nem nos fantasmas as pessoas
poderiam confiar. O que se sabe é que D. Bonifácio não pareceu vir nem mais nem
menos tranquilo da capela da mansão, já que todos que têm estado a escutar a
minha história, também perceberam que D. Bonifácio não se perturba por “dá cá
aquela palha”. Nem com pouco nem com muito pois não se podem considerar
desprezíveis e não credores do mais alto respeito, a tremenda trovoada que
nessa noite se fez sentir, as músicas provenientes não se sabe de onde, entre
as quais samba brasileiro, a presença da falecida Antonieta e a confissão ao
fantasma que era, e ainda o é, Frei Bento Patinho. Foi com uma cara que não
demonstrava emoção que D. Bonifácio transpôs as portas da capela. Apenas
Aristides detetou algo de diferente no patrão, pessoa com quem privava
diariamente, desde que tomou a seu cargo a direção da luxuosa viatura do nobre.
Acabou então D. Bonifácio submetido a um inquérito quase policial, o que é bom
para a nossa história pois que com Aristides ele vai abrir-se. Era a única
pessoa com quem ele confidenciava, desde há vários anos, antes de ter entrado
na sua vida a presença quase invisível, diria mesmo translúcida e alva, de Frei
Bento que, por ser isso mesmo, um fantasma, nada revelará que o possa por em
questão. A não ser que outro, ou outros fantasmas, o façam cair em tentação.
-
Bonifácio – começou por dizer Aristides numa intimidade de tratamento só usada
quando se encontram a sós – há alguma coisa em que eu te possa ajudar? –
questionou-o logo de seguida.
-
Infelizmente, não – respondeu resignado D. Bonifácio e continuou com o mesmo ar
impassível que todos conhecemos – coisas comigo e com Antonieta que ficaram mal
resolvidas.
-
Desconfianças antigas, amigo? – tentou tirar alguns nabos da púcara, Aristides,
não que fosse curioso, apenas para que a conversa não esmorecesse.
-
Na verdade meu caro Aristides sinto-me desconfortável – respondeu-lhe, com ar
de alguma consternação, D. Bonifácio. – Hoje, quando recebi aquela pequena
caixa, tinha a certeza que a noite iria ser de muito desconforto. E não me
refiro à tempestade. – Frisou o nobre D. Bonifácio de Assunção, para que o seu
bom amigo Aristides ficasse ciente de que o desconforto a que se referia não
era de caráter físico.
-
Por isso te perguntei se te podia ajudar. – Insistiu Aristides.
-
Vou então dizer-te meu velho Aristides – adjetivou-o D. Bonifácio como se não
fossem ambos homens já com alguma idade e, provavelmente, quase a mesma. E
continuou. – O que mais me deixa com alguma urticária – pigarreou e deu um leve
sorriso, um pálido sorriso, acrescento – é a matraca.
Aristides,
aqui sim, ficou desconcertado. Esperava tudo menos enigmas. Ele que já tinha de
aturar conversas que sempre achou fruto da imaginação do seu patrão e amigo,
com fantasmas, não esperava que o seu velho amigo viesse, num momento destes,
com enigmas. Por isso, perguntou, usando um tom de admiração:
-
Matraca???!!!!
-
Exatamente, a matraca – confirmou Bonifácio. E acrescentou, com um sotaque bem
britânico – in the flesh.
Foi
o suficiente para que Aristides não tivesse dúvidas de que o patrão estava
passado. Saiu de repente, apenas dizendo «um momentinho» e voltou logo de
seguida com um copo de água com açúcar. E novamente, depois de quase obrigar
Bonifácio a beber o que o velho nobre achou perfeitamente inusitado, já que não
dava sinal de nenhum nervosismo, antes pelo contrário, quem estava nervoso era
Aristides, o que aliás fez com que Bonifácio lhe ripostasse, «ouve cá,
Aristides, quem está nervoso és tu, este copo de água com açúcar não seria para
ti?» e ele lhe tivesse respondido «é verdade, tens toda a razão» e pedindo de
novo que aguardasse um momentinho saiu e voltou com um copo de água com açúcar
para ele próprio, contava eu, novamente Aristides voltou à carga:
-
Uma matraca de carne e osso???!!!
-
Exatamente – voltou a dizer D. Bonifácio que parece até que gostava de começar
as frases com exatamente, – essa D. Micá, uma matraca a contar histórias. E o
pior de tudo – acrescentou – é que, se calhar, é capaz de estar a contar a
minha história à frente desse mais do que inqualificável, Eduardo Aragão”.
Neste momento, D. Micá parou de contar a história
que ela própria havia iniciado há alguns serões atrás e levou uma mão ao peito,
cambaleando ligeiramente. Olhou para todos os lados e deu de caras com Eduardo
Aragão. Eduardo, o amante de Antonieta, história de um amor proibido que ainda
vos contarei, retomando a lebre que levantei há algum tempo, escutava impávido
e sereno, acariciando o seu inseparável copo de whisky, enquanto os outros ouvintes
ficavam baralhados com aquela mistura entre os personagens, quiçá fictícios,
pois de D. Micá, que é uma exímia contadoras de contos cor-de-rosa tudo é de
esperar, e as pessoas reais, de carne e osso como ela mesmo, com sangue a correm-lhe
nas veias em vez do tão desconhecido quanto incontornável vento que faz
esvoaçar os véus dos fantasmas. Ao fundo da sala, porque ninguém estava em
condições de balbuciar uma palavra que fosse, estupefactos que ficaram, sem
saber como reagir ao epíteto de “matraca” com que D. Bonifácio classificou a D.
Micá, presidente de uma Fundação, a contadora da sua própria história, estava
Eduardinha com uma bandeja na mão, com várias canecas de leite magro com
chocolate, quentinho como a época o exigia, que ela própria, D. Micá, num grito
estridente já a rondar o histérico, chamou:
- Eduardinha, traz-me um copo de água com açúcar,
que ainda me vai dar um chilique.
E ato contínuo caiu para o lado. Tinha-lhe dado um
chilique.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
192. D. Micá não adianta nem atrasa
Estou desolado. Então não é que hoje estava
disposto a contar-vos um bom bocado da história de Eduardo Aragão, mormente a
parte que diz respeito à sua faceta de D. Juan, conquistador e mulherengo, homem
que tão depressa é capaz de estar a cortejar uma rica dama de sociedade,
preferencialmente casada, como é capaz de estar num bar de pouca fama, acompanhado
de outros vadios e meretrizes de sotaques vários, nomeadamente brasileiro,
ucraniano e bielorusso? No entanto, apesar de estar rodeado de indivíduos a
babarem-se por histórias mais ou menos picantes e algumas senhoras não menos
desejosas de ouvir relatos como o seu quê de escandaloso, tive de enjeitar esta
possibilidade. A verdade é que, não possuindo nem a caraterística da
omnipresença, nem o dom da ubiquidade e, sendo eu uma pessoa que respeita quem
me respeita, para mais sendo a anfitriã, a bondosa e apaixonante D. Micá, não poderia iniciar a
minha narração no preciso momento em que D. Micá, já rodeada de seres, cujos
rostos pareciam pedir uma mesa pé de galo e velas de estearina em castiçais
dourados, a rodeavam para mais um episódio da sua horripilante história de
fantasmas e frades do século quinze, já para não falar de cães que reagem ao rock’n roll e gatos que tentam saltar
para invisíveis colos e que no final, miam. E é assim, que, com grande pena
minha, terei de deixar para outra oportunidade esta excitante narração da vida
de Eduardo Aragão, um bon-vivant,
mas, acima de tudo, um soberbo compincha de quem qualquer um de vós, tenho a
certeza, não desdenharia ser amigo.
“D.
Bonifácio d’Assunção esperou paulatinamente. Não poderá precisar quantos mais
golos houve no desafio, pois, uma estranha interferência, coisa que só pode ter
vindo do Além já que por perto não se viam nem antenas, nem imanes, nem tão
pouco espíritos esvoaçantes, fez com que o rádio transistor, fabricado na China,
onde frei Bento Patinho escutava o relato, primeiro começasse com um ruído,
depois com um silvo profundo que faria estoirar os tímpanos a qualquer mortal,
coisa que como se sabe não o era o frade e, finalmente, o bafo total e nem mais
uma palavra saiu por aqueles headphones. Frei Bento Patinho, ao contrário do
que era de se esperar a um fantasma, ficou deveras irritado. Espatificou o
pequeno rádio contra uma parede da capela e virando-se para D. Bonifácio apenas
lhe disse:
-
Bons olhos o vejam.
É
claro que D. Bonifácio sabia o que isto significava, sabia que estava há muito
tempo em dívida para com o quinhentista frade franciscano. A falar verdade é
que, contas de cabeça, assim de repente, mais mês, menos mês, D. Bonifácio não
se confessava havia mais de trinta anos, sendo que a última vez que o tinha
feito havia sido na véspera do seu casamento”.
Quando D. Micá fez a pausa que lhe conhecemos para
deixar tudo para o serão seguinte, exasperando os seus habituais convidados por
causa da história de fantasmas que anda a contar, ela, que por acaso é boa, mas
mesmo boa, é a contar histórias cor-de-rosa, e que não adianta nem atrasa,
viram-se alguns rostos enjoados e outros a pensar porque é que o Constantino
não contou a história das conquistas do Eduardo Aragão, em vez de estarmos aqui
a ouvir esta gaja, isto tudo em pensamento, claro, porque ninguém se atreve a
tratar por gaja a herdeira do império do leite magro com chocolate e
Excelentíssima presidente da Fundação criada para o efeito. O que salvou o
serão, foi Eduardo ter entrado de rompante na sala, aos gritos “estou
desgraçado! Estou desgraçado!” e depois ter soltado um palavrão que deixou
corada D. Ermelinda. Ficamos todos intrigados com o que aconteceu a Eduardo,
mas deixo para o próximo capítulo pois é preciso que fiquemos todos um pouco a
refletir sobre o que é D. Bonifácio d’Assunção andou a fazer de tão grave que
passou mais de trinta anos sem se confessar. E olhem que segundo D. Micá, D.
Bonifácio é homem muito chegado à igreja. Lá isso é.
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