Nestas últimas semanas não tem havido serões na
casa da D. Micá. O prazer de se ouvir contar histórias, mormente pela exímia
contadora de contos cor-de-rosa que é a nossa anfitriã, ainda que acompanhadas
com leite magro com chocolate ou whisky com e sem gelo ou ainda por algum
licor, nomeadamente de amêndoa amarga, não parece ter sido suficiente para que
os tão famosos serões não fossem interrompidos. Infelizmente é esta época fria
e chuvosa a comandar os desígnios de tanta gente por esse país fora que os
assíduos frequentadores do famoso salão não poderiam ficar imunes. D. Ermelinda
bem vai repreendendo a sua estimada filha. «Eu bem te disse para tomares a
vacina, mas tu és teimosa. Sais ao teu pai. Em se lhe metendo uma coisa na
cabeça, não havia quem o demovesse. Que Deus lá tenha a sua alma em descanso,
coitadinho, que se finou tão cedo». Depois benze-se, fazendo primeiro o sinal
da cruz. À filha, que já conhece a lengalenga toda da mãe, com destaque para as
comparações que costuma fazer com o defunto, pois sempre que se refere a algo
da filha, coisa boa ou coisa má, repete-se a conversa «és tal e qual o teu
falecido pai», entra-lhe por ou ouvido e sai-lhe por outro, não sem antes dar
uma palavra de justificação ou consolação por respeito à mãe que ela adora de
verdade. «Não se inquiete minha mãe que eu já tomei um comprimido e sei que
isto vai logo passar», depois dá-lhe um beijo respeitoso na testa e um afago na
cabeça, enquanto se dirige ao piano para tocar uma melodia triste ou melancólica
que o seu estado febril não lhe permite polkas nem marchas. Por falar em
música, desde que o Bruninho Mendonça, que como sabem já toca guitarra
portuguesa apesar dos seus oito anos e que sempre achou que aqueles serões onde
ele tinha de regressar a casa às dez da noite eram uma seca, deixou de ir, que
não se tem cantado o fado em casa de D. Micá. O Dr. Jorge, que agora frequenta
sozinho aquela tertúlia, à falta do filho que acabou por se decidir a ficar em
casa com a mãe, tenta ele próprio arranhar a guitarra. Mas a uma guitarra, não
é qualquer que a agarra e a faz vibrar porque é exatamente como uma mulher. E
por ter falado em mulher, dir-vos-ei, a talhe de foice, que a Clara, de quem D.
Ermelinda nem gostava muito, disse-nos a D. Micá, está com um processo de
divórcio em marcha. Sim porque o Dr. Jorge Mendonça, vejam lá, a pretexto de
uma das sua célebres camisas de cambraia estar com uma ruga, foi à casinha dos
serviços e demorou-se mais que a conta. Clara Mendonça, que já andava
desconfiada com qualquer coisa, viu o marido enrolado com Adriana a sua criada
de casa, de quem, logo no início prometi que falava dela e não estou esquecido.
Parece que D. Ermelinda agora, apesar de não gostar muito de Clara, porque
sempre teve uma pontinha de ciúme do seu casamento, de Clara, com o seu, de D.
Ermelinda, amor platónico, se aproximou mais da esposa enganada e dizem, anda
com umas ganas de Adriana, que se a D. Micá um dia destes não puser tudo a nu,
ela própria desmascara essa impostora da criada dos Mendonça que tem uma
história de vida de arrepiar. Mas retornando, o que me fez voltar a falar dos
serões de D. Micá foi, precisamente, a ausência desses serões. D. Micá com
gripe, o Eduardo Aragão que piorou, e de que maneira, do joelho esquerdo, o que
nem lhe tem permitido fazer aquelas saborosas caminhadas matinais de que tanto
gosta e que desfruta com regozijo e diz que sair à noite é bem pior, pois que
se lhe mete uma humidade nas articulações e que nem com anti-inflamatórios a
coisa tem resultado e a Eduardinha. E o que é que tem Eduardinha a ver com a gripe
de D. Micá e as dores no joelho do Eduardo Aragão ou a crise de tosse cavada do
Fagundes que teve de meter baixa, deixando os alunos de geografia uma semana
sem aulas? Nada. Era só para dizer que a Eduardinha, também ela, deixou de
comparecer. Despediu-se. Despediu-se sim senhor. Ela já não parecia muito
talhada para aquela vida mas quando o Alfredo lá apareceu… Ainda não vos falei
do Alfredo, mas o Alfredo é aquele empresário de bares e danceterias de não
muito boa fama, que só muito esporadicamente frequenta os serões de dona Micá e
fá-lo em memória do senhor Comendador a quem uma vez Alfredo ficou a dever um
grande favor, por mor de umas penhoras que Jovelino Azeredo lhe pagou antes que
fosse tudo por água abaixo e que, se um dia tiver tempo vos contarei lá para a
frente. Dizia eu que desde que o Alfredo lá apareceu, de fato completo, sempre
claro e sempre completo com colete e tudo, fosse verão ou inverno, pois Alfredo
tinha sempre um ar jovem e bem-disposto, já com o cabelo branco, nos seus quase
setenta anos, fumando charuto e usando camisas estampadas, dispensando a gravata
mas nunca por nunca ser, o cachené de seda, lhe acenou com umas notas grandes
de euro, só para lhe aquecer os pés neste frio e chuvoso inverno, ela que nunca
precisou de paracetamol, aceitou. E diz ela, para quem a quer ouvir, que em vez
de andar de bandeja na mão a servir este e aquele, é agora ela, servidinha em
bandeja. E o Alfredo aprecia. Ah leão!
terça-feira, 12 de março de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
195. Pintar um conto
Hoje vou pintar-vos
um conto. A lata de tinta já está pronta e a velhinha, sentada num corte de
tronco de azinho, ajeita o lenço. Vê-se que está impaciente pois atou e desatou
o nó por mais de uma vez, tirou o chapéu e voltou a pô-lo, colocou o lenço
sobre o chapéu e apertou o lenço de novo. Esta forma graciosa de usar um lenço
sobre o chapéu preto é muito típica aqui da região. Víamo-las assim quando em bandos ceifavam o trigo ou quando, à
tardinha, sentadas no mocho acariciavam o bezerrito que Bonita, a vaca, acabara de parir. Uma ave, esclareceu-me numa voz
meiga, com a ternura do costume, que era um rabilongo, posou na figueira em
frente à porta. Comia os restos de um figo maduro que desta vez não teria tempo
de passar. Depois aparentando um ar sério e fingindo-se zangada, confidenciou-me
«são uns bandidos, comem tudo». Rimos os dois e ficamos ali um pouco à conversa
explicando-lhe que a luz do sol ainda não era aquela que eu queria para iniciar
a pintura. Teria ainda tempo para atender o telefone e trazer-me uma chávena de
chá bem quente que por este tempo, no inverno, faz frio por estas bandas. Um
cheiro a lúcia-lima invadiu o espaço. Voltou a sentar-se, esperou que eu
terminasse a bebida, enxotou o gato e disse-me «estou pronta». Respondi-lhe que
também estava pronto, acrescentado «esta é a hora de ouro para um pintor».
Peguei no pincel mas acabei por terminar o trabalho já sob a luz de uma fraca lâmpada
de tungsténio. «Vai ali para o lado do meu Joaquim. Nunca mais vais dormir só»,
falou primeiro para mim, depois para a velha moldura com um retrato a sépia de
Joaquim. Retirou um velho calendário já manchado pela humidade dos anos e no
seu lugar pendurou o quadro acabado de pintar.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
194. Quando D. Micá foi dar milho aos pombos
A manhã acordou radiosa no quarto de D. Micá. O
sol penetrante na janela contígua à cama transpunha as cortinas de tule branco
translúcido, deixando que a alvura da luz inundasse o aposento. D. Micá bocejou
e espreguiçou-se. Estes gestos, que muita gente ainda apelida de má educação e
próprios de gente sem classe, num estigma ao bocejo público, muitas vezes
proveniente de doutas bocas, seja das de juízes em prolongados e aborrecidos
julgamentos, onde advogados de firmas de telecomunicações pedem a penhora de
dois penicos e uma vassoura de piaçá por conta de dívidas de trinta e dois
euros e quarenta e sete cêntimos, seja daa bocas de alguns parlamentares,
digníssimos representantes do povo que, diga-se em abono da verdade, pouco mais
fazem do que bocejar o dia inteiro, ou numa conotação, como se sabe,
inapropriada ao gesto de esticar os braços para cima reclinando simultaneamente
o corpo para trás, o que se sabe ser uma forma de alongar músculos para que
novo alento nos invada, são gestos absolutamente normais. Pois bem, como seria
de esperar, apesar de presidente de uma Fundação muito prestigiada no meio dos
apreciadores de leite magro e mais ainda no dos apreciadores de chocolate, D.
Micá também boceja e também se espreguiça. E estarão agora os leitores a pensar
“e também dará o seu traque, com certeza…”. Então, para que a verdade aqui
fique indubitavelmente expressa, D. Micá também dá o seu traque. Dá sim senhor.
Apesar destes gestos, derivado ao mau estar do serão da véspera, onde ela se
viu envolvida na própria história que estava a contar mas que, sabemos de fonte
segura, não deixará de continuar a contar, malgrado a desfaçatez e até
descaramento de D. Bonifácio em apelidá-la de matraca, D. Micá acordou com uma
ligeira dor de cabeça. Como não se tratava de enxaqueca, coisa de que raramente
se queixava, ao contrário de sua mãe, D. Ermelinda, mas que por agora nem vem
ao caso, a moinha que a apoquentava não era coisa que não passasse com um bom
duche. E se assim o pensou assim o fez, sendo que depois de colocar na cabeça
uma touca que lhe protegeria os longos e bem tratados cabelos loiros da
agressão de águas calcárias e sabões vários, deixou cair costas abaixo o sua
camisa de noite em seda arábica com folhos e rendas deixando a nu o esbelto
corpo desta trintona, órfã de pai, senhor de muitas facetas, entre as quais, a
que melhor conhecemos, a de exportador de cacau santomense. Mas da alvura da sua
pele, da maciez das axilas, da elegância do umbigo, da firmeza dos seios, da expressividade
da púbis, do talhe das suas coxas, da vespídea cintura, das saliências glúteas e
da beleza dos seus pés não se falará neste texto que não tem pretensões a
narrativa de caráter erótico. Tomou então o seu banho, vestiu-se, comeu,
telefonou e saiu.
No resto da manhã passeou-se pelo parque. Vestia
um vestido muito bonito, branco, de algodão e linho e usava uma sombrinha
também branca. Quer o vestido quer a sombrinha se apresentavam com rendas em
bordado inglês. Quem a visse poderia pensar que se tratava de uma noiva em
momento de descontração antes de dar o sim no altar da igreja de Fátima. Mas
não. Do telefonema, que alguns minutos antes fizera, resultou juntarem-se a ela
duas boas amigas, a Geninha e a Marta. Duas amigas e não duas damas de honor. De
resto nem nos parece que esteja para breve o seu casamento nem, tão pouco, lhe
conhecemos namorado. Riam com ar jovial, como se o chilique tivesse sido coisa
de um passado distante e as bebedeiras de vodka que a Geninha apanha, não lhe
fizessem mossa, que se não as conhecêssemos como as conhecemos diríamos que tínhamos
ali três mulherezinhas como as de Louisa Alcott ou quaisquer outras três saídas
de romances cor-de-rosa de meados do século passado. E quais jovens
adolescentes, abriram as bolsas, tiraram de lá os seus saquinhos de milho e
foram dar milho aos pombos.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
193. O chilique de D. Micá
“Confessou-se
D. Bonifácio d’Assunção a Frei Bento mas do que ele falou nada se sabe. Apesar
de estarmos a falar de um fantasma, padre é padre e o segredo da confissão faz
parte das leis eclesiásticas. Caso contrário, nem nos fantasmas as pessoas
poderiam confiar. O que se sabe é que D. Bonifácio não pareceu vir nem mais nem
menos tranquilo da capela da mansão, já que todos que têm estado a escutar a
minha história, também perceberam que D. Bonifácio não se perturba por “dá cá
aquela palha”. Nem com pouco nem com muito pois não se podem considerar
desprezíveis e não credores do mais alto respeito, a tremenda trovoada que
nessa noite se fez sentir, as músicas provenientes não se sabe de onde, entre
as quais samba brasileiro, a presença da falecida Antonieta e a confissão ao
fantasma que era, e ainda o é, Frei Bento Patinho. Foi com uma cara que não
demonstrava emoção que D. Bonifácio transpôs as portas da capela. Apenas
Aristides detetou algo de diferente no patrão, pessoa com quem privava
diariamente, desde que tomou a seu cargo a direção da luxuosa viatura do nobre.
Acabou então D. Bonifácio submetido a um inquérito quase policial, o que é bom
para a nossa história pois que com Aristides ele vai abrir-se. Era a única
pessoa com quem ele confidenciava, desde há vários anos, antes de ter entrado
na sua vida a presença quase invisível, diria mesmo translúcida e alva, de Frei
Bento que, por ser isso mesmo, um fantasma, nada revelará que o possa por em
questão. A não ser que outro, ou outros fantasmas, o façam cair em tentação.
-
Bonifácio – começou por dizer Aristides numa intimidade de tratamento só usada
quando se encontram a sós – há alguma coisa em que eu te possa ajudar? –
questionou-o logo de seguida.
-
Infelizmente, não – respondeu resignado D. Bonifácio e continuou com o mesmo ar
impassível que todos conhecemos – coisas comigo e com Antonieta que ficaram mal
resolvidas.
-
Desconfianças antigas, amigo? – tentou tirar alguns nabos da púcara, Aristides,
não que fosse curioso, apenas para que a conversa não esmorecesse.
-
Na verdade meu caro Aristides sinto-me desconfortável – respondeu-lhe, com ar
de alguma consternação, D. Bonifácio. – Hoje, quando recebi aquela pequena
caixa, tinha a certeza que a noite iria ser de muito desconforto. E não me
refiro à tempestade. – Frisou o nobre D. Bonifácio de Assunção, para que o seu
bom amigo Aristides ficasse ciente de que o desconforto a que se referia não
era de caráter físico.
-
Por isso te perguntei se te podia ajudar. – Insistiu Aristides.
-
Vou então dizer-te meu velho Aristides – adjetivou-o D. Bonifácio como se não
fossem ambos homens já com alguma idade e, provavelmente, quase a mesma. E
continuou. – O que mais me deixa com alguma urticária – pigarreou e deu um leve
sorriso, um pálido sorriso, acrescento – é a matraca.
Aristides,
aqui sim, ficou desconcertado. Esperava tudo menos enigmas. Ele que já tinha de
aturar conversas que sempre achou fruto da imaginação do seu patrão e amigo,
com fantasmas, não esperava que o seu velho amigo viesse, num momento destes,
com enigmas. Por isso, perguntou, usando um tom de admiração:
-
Matraca???!!!!
-
Exatamente, a matraca – confirmou Bonifácio. E acrescentou, com um sotaque bem
britânico – in the flesh.
Foi
o suficiente para que Aristides não tivesse dúvidas de que o patrão estava
passado. Saiu de repente, apenas dizendo «um momentinho» e voltou logo de
seguida com um copo de água com açúcar. E novamente, depois de quase obrigar
Bonifácio a beber o que o velho nobre achou perfeitamente inusitado, já que não
dava sinal de nenhum nervosismo, antes pelo contrário, quem estava nervoso era
Aristides, o que aliás fez com que Bonifácio lhe ripostasse, «ouve cá,
Aristides, quem está nervoso és tu, este copo de água com açúcar não seria para
ti?» e ele lhe tivesse respondido «é verdade, tens toda a razão» e pedindo de
novo que aguardasse um momentinho saiu e voltou com um copo de água com açúcar
para ele próprio, contava eu, novamente Aristides voltou à carga:
-
Uma matraca de carne e osso???!!!
-
Exatamente – voltou a dizer D. Bonifácio que parece até que gostava de começar
as frases com exatamente, – essa D. Micá, uma matraca a contar histórias. E o
pior de tudo – acrescentou – é que, se calhar, é capaz de estar a contar a
minha história à frente desse mais do que inqualificável, Eduardo Aragão”.
Neste momento, D. Micá parou de contar a história
que ela própria havia iniciado há alguns serões atrás e levou uma mão ao peito,
cambaleando ligeiramente. Olhou para todos os lados e deu de caras com Eduardo
Aragão. Eduardo, o amante de Antonieta, história de um amor proibido que ainda
vos contarei, retomando a lebre que levantei há algum tempo, escutava impávido
e sereno, acariciando o seu inseparável copo de whisky, enquanto os outros ouvintes
ficavam baralhados com aquela mistura entre os personagens, quiçá fictícios,
pois de D. Micá, que é uma exímia contadoras de contos cor-de-rosa tudo é de
esperar, e as pessoas reais, de carne e osso como ela mesmo, com sangue a correm-lhe
nas veias em vez do tão desconhecido quanto incontornável vento que faz
esvoaçar os véus dos fantasmas. Ao fundo da sala, porque ninguém estava em
condições de balbuciar uma palavra que fosse, estupefactos que ficaram, sem
saber como reagir ao epíteto de “matraca” com que D. Bonifácio classificou a D.
Micá, presidente de uma Fundação, a contadora da sua própria história, estava
Eduardinha com uma bandeja na mão, com várias canecas de leite magro com
chocolate, quentinho como a época o exigia, que ela própria, D. Micá, num grito
estridente já a rondar o histérico, chamou:
- Eduardinha, traz-me um copo de água com açúcar,
que ainda me vai dar um chilique.
E ato contínuo caiu para o lado. Tinha-lhe dado um
chilique.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
192. D. Micá não adianta nem atrasa
Estou desolado. Então não é que hoje estava
disposto a contar-vos um bom bocado da história de Eduardo Aragão, mormente a
parte que diz respeito à sua faceta de D. Juan, conquistador e mulherengo, homem
que tão depressa é capaz de estar a cortejar uma rica dama de sociedade,
preferencialmente casada, como é capaz de estar num bar de pouca fama, acompanhado
de outros vadios e meretrizes de sotaques vários, nomeadamente brasileiro,
ucraniano e bielorusso? No entanto, apesar de estar rodeado de indivíduos a
babarem-se por histórias mais ou menos picantes e algumas senhoras não menos
desejosas de ouvir relatos como o seu quê de escandaloso, tive de enjeitar esta
possibilidade. A verdade é que, não possuindo nem a caraterística da
omnipresença, nem o dom da ubiquidade e, sendo eu uma pessoa que respeita quem
me respeita, para mais sendo a anfitriã, a bondosa e apaixonante D. Micá, não poderia iniciar a
minha narração no preciso momento em que D. Micá, já rodeada de seres, cujos
rostos pareciam pedir uma mesa pé de galo e velas de estearina em castiçais
dourados, a rodeavam para mais um episódio da sua horripilante história de
fantasmas e frades do século quinze, já para não falar de cães que reagem ao rock’n roll e gatos que tentam saltar
para invisíveis colos e que no final, miam. E é assim, que, com grande pena
minha, terei de deixar para outra oportunidade esta excitante narração da vida
de Eduardo Aragão, um bon-vivant,
mas, acima de tudo, um soberbo compincha de quem qualquer um de vós, tenho a
certeza, não desdenharia ser amigo.
“D.
Bonifácio d’Assunção esperou paulatinamente. Não poderá precisar quantos mais
golos houve no desafio, pois, uma estranha interferência, coisa que só pode ter
vindo do Além já que por perto não se viam nem antenas, nem imanes, nem tão
pouco espíritos esvoaçantes, fez com que o rádio transistor, fabricado na China,
onde frei Bento Patinho escutava o relato, primeiro começasse com um ruído,
depois com um silvo profundo que faria estoirar os tímpanos a qualquer mortal,
coisa que como se sabe não o era o frade e, finalmente, o bafo total e nem mais
uma palavra saiu por aqueles headphones. Frei Bento Patinho, ao contrário do
que era de se esperar a um fantasma, ficou deveras irritado. Espatificou o
pequeno rádio contra uma parede da capela e virando-se para D. Bonifácio apenas
lhe disse:
-
Bons olhos o vejam.
É
claro que D. Bonifácio sabia o que isto significava, sabia que estava há muito
tempo em dívida para com o quinhentista frade franciscano. A falar verdade é
que, contas de cabeça, assim de repente, mais mês, menos mês, D. Bonifácio não
se confessava havia mais de trinta anos, sendo que a última vez que o tinha
feito havia sido na véspera do seu casamento”.
Quando D. Micá fez a pausa que lhe conhecemos para
deixar tudo para o serão seguinte, exasperando os seus habituais convidados por
causa da história de fantasmas que anda a contar, ela, que por acaso é boa, mas
mesmo boa, é a contar histórias cor-de-rosa, e que não adianta nem atrasa,
viram-se alguns rostos enjoados e outros a pensar porque é que o Constantino
não contou a história das conquistas do Eduardo Aragão, em vez de estarmos aqui
a ouvir esta gaja, isto tudo em pensamento, claro, porque ninguém se atreve a
tratar por gaja a herdeira do império do leite magro com chocolate e
Excelentíssima presidente da Fundação criada para o efeito. O que salvou o
serão, foi Eduardo ter entrado de rompante na sala, aos gritos “estou
desgraçado! Estou desgraçado!” e depois ter soltado um palavrão que deixou
corada D. Ermelinda. Ficamos todos intrigados com o que aconteceu a Eduardo,
mas deixo para o próximo capítulo pois é preciso que fiquemos todos um pouco a
refletir sobre o que é D. Bonifácio d’Assunção andou a fazer de tão grave que
passou mais de trinta anos sem se confessar. E olhem que segundo D. Micá, D.
Bonifácio é homem muito chegado à igreja. Lá isso é.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
191. Vodka, fantasmas e futebol
"Frei Bento Patinho estava sentado de costas para a entrada, num dos bancos da primeira fila. A capela era pequena e não se sabe a que Santo ou Santa ali se fazia devoção. Um altar em mármore cor-de-rosa italiano de Carrara, um crucifixo assente num suporte de pé ao lado do altar e, por detrás, uma Nossa Senhora numa redoma de vidro. D. Bonifácio, quando entrou na capela, fez um rewind à fita magnética das suas memórias. Ali acorria quando brincava às escondidas com os filhos e filhas do caseiro e da cozinheira, ali se refugiava na adolescência onde refletia nas suas crises pseudo-existenciais, ali algumas vezes namorou a filha de D. Verónica de Castro, uma amiga de infância de sua mãe, que amiúde os visitava, ali acompanhava desde criança os seus pais para assistir às missas realizadas pelo padre Augusto Pereirinha, um velho amigo de seu pai que com ele cresceu, ali foi batizado ainda de tenra idade e ali casou com Antonieta, o grande amor de sua vida. Hoje, D. Bonifácio só ali entra para conversar com Frei Bento Patinho, um frade nascido no século XV.
Frei Bento Patinho estava sentado de costas para a entrada. D. Bonifácio aproximou-se. Na capela apenas os seus passos se ouviam. Aristides fcou lá fora pois não iria ouvir o patrão falar sozinho, como ultimamente era costume. Preferiu esquivar-se a tal desiderato. Frei Bento Patinho levantou uma mão e fez sinal para que D. Bonifácio parasse. Ele assim o fez e se quedou em pé, um pouco atrás de Frei Bento. O silencio era tanto que se podia ouvir o zumbir das abelhas. De repente, D. Bonifácio estarreceu. Era noite. Apenas uma lâmpada economizadora que dava uma luz amarelada, uma luz de defuntos, iluminava a pequena nave. O inverno ainda ia a meio. Nem uma flor florira nos vastos jardins da mansão. Corrijo. Alguns malmequeres amarelos e brancos já despontavam. Mas isso era na rua e abertos, apenas durante o dia se podiam ver. Não poderia ser o zumbido de abelhas. Olhou para todos os cantos e fixou o olhar no ouvido direito do frade. Pareceu-lhe ver um ponto negro. Fixou-se nesse ponto e, aos poucos, mesmo com a escassa luz, foi possível ver que se tratava do terminal de um headphone. Era dali que vinha o zumbido. Estaria Frei Bento Patinho a escutar alguma ópera de Wagner em MP3? Uma edição litúrgica em audiobook? As cantatas de Bach? Os madrigais de Monteverdi? O homem que sou do Tony Carreira? Pablo Alboran e Carminho em dueto?
As dúvidas só se desfizeram quando, num repente, o frade salta do banco aos pulos e aos gritos de golo, golo, goooooolllllooo!!! Frei Bento Patinho estava a ouvir um relato de futebol."
Uma enorme gargalhada ecoou naquele salão. Estava tudo em suspenso com mais este episódio contado por D. Micá quando a nossa contadora de histórias se sai com esta de que o fantasma de um frade do século XV gostava de futebol. Foi então tempo para uma pausa e Eduardinha serviu as bebidas onde pontuou o leite magro com chocolate e um licor conventual de avelã.
Perguntou então o Pires Cunha se podia contar um episódio relacionado com um jogo de futebol o que deixou a Geninha, que não gosta nem de ouvir na palavra, muito enfadada a perguntar a toda a gente «onde é que está a vodka? onde é que está a vodka?» e a Marta Caracinha a afastar-se e a dizer ao Pedro Rebocho que se o serão ia acabar em coisas da bola o melhor era irem embora e sugeriu-lhe as docas, ao que ele respondeu «está bem». Apesar destas e de outras desistências, como o serão mal tinha começado, lá ficaram alguns para ouvir a história do Pires Cunha. O Pires Cunha tem ar de poeta. Usa sempre camisas com gola à padre, compradas na Zara, aliás aproveitou os saldos de janeiro para comprar duas em azul bebé com risquinhas, mas ligeiramente diferentes, porque uma tem bolso de peito e a outra não tem e ainda uma branca com duplos botões nos punhos, que lhe dá assim um ar de não-sei-o-quê. Raros são os dias em que não coloca uma écharpe, quase sempre de algodão frisado com franjas, dá-lhe duas voltas sem apertar no pescoço e faz-lhe descair as duas pontas para trás. Uns dias usa boina galega preta, outros boina oitavada de tweed em xadrês. Por acaso hoje não usava nem uma coisa nem outra. Vestia umas calças pretas de ganga elástica, uma camisa branca, com gola à padre, claro está, debruada com um friso de um material plástico, quer à volta da gola quer acompanhando a costura onde se situam as casas dos botões, uma écharpe vermelha e branca aos quadrados, estilo guerrilheiro palestiniano e um porkpie bordeaux na cabeça que fez questão de não tirar durante todo o serão, apesar de no salão de D. Micá, não fazer nem sol nem frio e a lareira estar a crepitar desde as seis da tarde para dar conforto à tertúlia. E quando o Pires Cunha se levantou para tomar um lugar em que ficasse virado para todos os que o queriam escutar, ouviu-se a voz do Eduardo Aragão, que como se sabe tem uma vida de boémio de que lhes darei conta noutra altura, a desafiá-lo «Ó Pires, tu com esse chapelinho hoje recitavas-nos era um poema». E o Pires Cunha acedeu, prometendo que contaria a história da bola noutra ocasião. A Marta Caracinha voltou a despir a jaqueta grená com pele sintética a imitar coelho na gola e a Geninha virou de seguida dois shots de vodka. Já não prestou atenção à poesia uma vez que adormeceu a um canto sentada no chão.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
190. Nu com vento
Ele há histórias que por mais que repetidas nunca cansam. É por isso que gosto de passar os meus serões de quintas-feiras na casa da D. Micá. Não que eu já conheça o desfecho da história de fantasmas que ela tem andado a contar e que eu, por afazeres ou parêntesis que não me permitem a sua continuação mais efetiva, tenho demorado a transcrever. Ou então é mesmo a D. Micá que faz estes parêntesis tão grandes, estas extenuantes esperas, em que nem ata nem desata. Caprichos de uma contadora de histórias que já apanhou os vícios do seu criador, não do Criador, como é bom de ver, teriam bastado apenas sete dias, incluindo um de descanso.
Retornando ao que me fez hoje voltar ao vosso convívio que foi contar o que se passou com o meu amigo Eduardo Aragão precisamente ontem e que ele não perdeu a oportunidade de à noite nos encher de pormenores. Foi até bom porque a noite estava fria, D. Micá teve de acender a lareira, o ambiente compôs-se e até as pernas da Eduardinha sobressaíam mais ruborizadas das meias brancas com rendas. Mas de Eduardinha, por hoje, vamos ficar por aqui e vamos desde já diretos ao assunto.
Não é a primeira vez que o Eduardo vai para aqueles lados. Mas das outras vezes que ele lá foi, diga-se de passagem, quase sempre de forma bem produtiva, falar-vos-ei quando for oportuno para que não nos dispersemos do essencial. Contar-vos-ei do dia em que ele tinha marcado um encontro com uma senhora que conheceu num baile social de caridade, mas, bom, não adianto mais nada, porque nem o Eduardo, apesar de meu amigo, me perdoaria as indiscrições, nem vocês, tão entusiasmados que estão para saberem o que é que houve ontem de tão especial, estariam interessados no episódio de Eduardo Aragão com a senhora de sociedade com quem se encontrou em plena Serra da Arrábida. E é precisamente aqui que começa a narração do Eduardo.
A manhã apresentava-se chuvosa mas nada que não se previsse. Os meteorologistas já o tinham avisado, mas mais nada havia a fazer, pois o encontro estava combinado e o almoço com os amigos não seria perdível. A vegetação está mais verde que nunca, mas rareiam as flores. Ainda faltam alguns meses para que as aroeiras se cubram de roxo e para que as abelhas, sôfregas de néctar, as povoem. Também o céu, se em vez de cinzento carregado tivesse aparecido azul misturado com alguma nebulosidade cinza escura, cinza claro, teria dado outra luz ao vício de Eduardo, que é, embora eu nunca vos tenha dito, um amante da fotografia. Um dia contar-vos-ei como é que ele, a bordo de um navio soviético, comprou a sua primeira Zenite de contrabando, é claro, mas uma boa máquina, com lentes Zeiss de primeira categoria. Fica para outra vez. Vestia umas calças quentes de fazenda grossa, enfiadas em botas de caça e um blusão impermeável. Um chapéu na cabeça, acessório que ele não dispensa, dá-lhe um ar fino e o momento, para ele é sempre solene. Quando entra no Convento de Nossa Senhora da Arrábida, outrora pertença dos duques de Aveiro e mais tarde dos de Palmela, sente algo de especial, visto, vocês não sabem mas a D. Micá é pessoa para o confirmar, ser ele ainda descendente em quarto grau, de um franciscano que se desviou do seu caminho contemplativo, ou melhor dizendo, contemplou coisas terrenas e foi por aí fora. Pagou o seu bilhete de três euros, tal como estava estipulado e tal como os outros amigos, com quem foi, o fizeram e depois seguiu com avidez de conhecimento as informações transmitidas pelo insubstituível Quirino de Almeida. Este homem, ex funcionário da Centrel, trabalhando nas telecomunicações tal como Eduardo trabalhou um dia, trabalha no Convento da Arrábida, onde vive, há já 19 anos, tendo sido até personagem de livro, do escritor Jorge Marques e ator num filme dirigido por Manoel de Oliveira, precisamente, "O Convento". O senhor Quirino que é um autodidata, hoje faz de quase tudo lá no Convento, conhece-lhe toda a história desde a sua fundação, pelo que teve de ler e se documentar para isso, falou nao só da estrutura física que ali se nos depara mas também, com afinco e convicção, da vida dos frades que por ali andaram e primeiro desfrutaram do Convento, Frei Martinho de Santa Maria, a quem D. João de Lencastre, duque de Aveiro cedeu o usufruto quer do Convento quer das encostas da serra, aonde já existia o "Convento Velho", que mais não eram que grutas na serra onde os frades franciscanos cumpriam a sua missão contemplativa, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e S. Pedro de Alcântara. Falou o senhor Quirino e assim nos contou ao serão o Eduardo Aragão, das capelas construídas na serra a mando de d. Ana Manique para que se tornassem lugar de peregrinação constituindo as catorze estações da Via Sacra, embora só sete houveram sido construídas Depois falou da passagem do convento para os duques de Palmela e finalmente para a Fundação Oriente, seu atual proprietário. Quirino de Almeida realçou a vida isolada, contemplativa e de reflexão, dos frades, incluindo a frugalidade das suas refeições, constituídas quase exclusivamente de pão e água. Depois, o senhor Quirino propôs-nos um jogo. O senhor Quirino é assim mesmo, tem algum espírito de humor e é um artista. Não vos disse mas o senhor Quirino é pintor. Um dia destes assistiremos a uma mega exposição no Convento dos seus óleos que, pela figura do senhor Quirino só temos de acreditar que será uma grande exposição com E maiúsculo. E o seu jogo consistia em fazer de nós um arquiteto. O objetivo foi fazer-nos ver o state of art do século XVI. Na realidade, para a época, aquele era um Convento com todas as comodidades, nomeadamente tinha água "encanada". E esta? Pois foi aqui que pontuou o Eduardo Aragão. No jogo do senhor Quirino intervieram como arquitetos-projetistas todos os visitantes, nomeadamente o José Mota que foi eleito arquiteto-mor. Não havia nada naquele lugar. Zero. Nem paredes, nem sequer os bancos em que estavam sentados, o que quer dizer que se aquilo fosse de repente, teriam todos caído com o rabo no chão. E como construiriam então,os novos arquitetos, o Convento? Construí-lo-iam à luz do século XXI, obviamente. E entre outras comodidades, luz, televisão, microondas, máquinas de lavar roupa e loiça, chuveiros e retretes. Nas celas, os frades, teriam ate computadores ligados à Internet. E foi aqui que interveio o nosso Eduardo. Dizia ele para o senhor Quirino que se assim fosse, os frades não mais viveriam a pão e água. Era só mandarem vir umas pizzas pela Internet. Ah rica contemplação do nosso século.
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