sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

194. Quando D. Micá foi dar milho aos pombos



A manhã acordou radiosa no quarto de D. Micá. O sol penetrante na janela contígua à cama transpunha as cortinas de tule branco translúcido, deixando que a alvura da luz inundasse o aposento. D. Micá bocejou e espreguiçou-se. Estes gestos, que muita gente ainda apelida de má educação e próprios de gente sem classe, num estigma ao bocejo público, muitas vezes proveniente de doutas bocas, seja das de juízes em prolongados e aborrecidos julgamentos, onde advogados de firmas de telecomunicações pedem a penhora de dois penicos e uma vassoura de piaçá por conta de dívidas de trinta e dois euros e quarenta e sete cêntimos, seja daa bocas de alguns parlamentares, digníssimos representantes do povo que, diga-se em abono da verdade, pouco mais fazem do que bocejar o dia inteiro, ou numa conotação, como se sabe, inapropriada ao gesto de esticar os braços para cima reclinando simultaneamente o corpo para trás, o que se sabe ser uma forma de alongar músculos para que novo alento nos invada, são gestos absolutamente normais. Pois bem, como seria de esperar, apesar de presidente de uma Fundação muito prestigiada no meio dos apreciadores de leite magro e mais ainda no dos apreciadores de chocolate, D. Micá também boceja e também se espreguiça. E estarão agora os leitores a pensar “e também dará o seu traque, com certeza…”. Então, para que a verdade aqui fique indubitavelmente expressa, D. Micá também dá o seu traque. Dá sim senhor. Apesar destes gestos, derivado ao mau estar do serão da véspera, onde ela se viu envolvida na própria história que estava a contar mas que, sabemos de fonte segura, não deixará de continuar a contar, malgrado a desfaçatez e até descaramento de D. Bonifácio em apelidá-la de matraca, D. Micá acordou com uma ligeira dor de cabeça. Como não se tratava de enxaqueca, coisa de que raramente se queixava, ao contrário de sua mãe, D. Ermelinda, mas que por agora nem vem ao caso, a moinha que a apoquentava não era coisa que não passasse com um bom duche. E se assim o pensou assim o fez, sendo que depois de colocar na cabeça uma touca que lhe protegeria os longos e bem tratados cabelos loiros da agressão de águas calcárias e sabões vários, deixou cair costas abaixo o sua camisa de noite em seda arábica com folhos e rendas deixando a nu o esbelto corpo desta trintona, órfã de pai, senhor de muitas facetas, entre as quais, a que melhor conhecemos, a de exportador de cacau santomense. Mas da alvura da sua pele, da maciez das axilas, da elegância do umbigo, da firmeza dos seios, da expressividade da púbis, do talhe das suas coxas, da vespídea cintura, das saliências glúteas e da beleza dos seus pés não se falará neste texto que não tem pretensões a narrativa de caráter erótico. Tomou então o seu banho, vestiu-se, comeu, telefonou e saiu.

No resto da manhã passeou-se pelo parque. Vestia um vestido muito bonito, branco, de algodão e linho e usava uma sombrinha também branca. Quer o vestido quer a sombrinha se apresentavam com rendas em bordado inglês. Quem a visse poderia pensar que se tratava de uma noiva em momento de descontração antes de dar o sim no altar da igreja de Fátima. Mas não. Do telefonema, que alguns minutos antes fizera, resultou juntarem-se a ela duas boas amigas, a Geninha e a Marta. Duas amigas e não duas damas de honor. De resto nem nos parece que esteja para breve o seu casamento nem, tão pouco, lhe conhecemos namorado. Riam com ar jovial, como se o chilique tivesse sido coisa de um passado distante e as bebedeiras de vodka que a Geninha apanha, não lhe fizessem mossa, que se não as conhecêssemos como as conhecemos diríamos que tínhamos ali três mulherezinhas como as de Louisa Alcott ou quaisquer outras três saídas de romances cor-de-rosa de meados do século passado. E quais jovens adolescentes, abriram as bolsas, tiraram de lá os seus saquinhos de milho e foram dar milho aos pombos.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

193. O chilique de D. Micá



“Confessou-se D. Bonifácio d’Assunção a Frei Bento mas do que ele falou nada se sabe. Apesar de estarmos a falar de um fantasma, padre é padre e o segredo da confissão faz parte das leis eclesiásticas. Caso contrário, nem nos fantasmas as pessoas poderiam confiar. O que se sabe é que D. Bonifácio não pareceu vir nem mais nem menos tranquilo da capela da mansão, já que todos que têm estado a escutar a minha história, também perceberam que D. Bonifácio não se perturba por “dá cá aquela palha”. Nem com pouco nem com muito pois não se podem considerar desprezíveis e não credores do mais alto respeito, a tremenda trovoada que nessa noite se fez sentir, as músicas provenientes não se sabe de onde, entre as quais samba brasileiro, a presença da falecida Antonieta e a confissão ao fantasma que era, e ainda o é, Frei Bento Patinho. Foi com uma cara que não demonstrava emoção que D. Bonifácio transpôs as portas da capela. Apenas Aristides detetou algo de diferente no patrão, pessoa com quem privava diariamente, desde que tomou a seu cargo a direção da luxuosa viatura do nobre. Acabou então D. Bonifácio submetido a um inquérito quase policial, o que é bom para a nossa história pois que com Aristides ele vai abrir-se. Era a única pessoa com quem ele confidenciava, desde há vários anos, antes de ter entrado na sua vida a presença quase invisível, diria mesmo translúcida e alva, de Frei Bento que, por ser isso mesmo, um fantasma, nada revelará que o possa por em questão. A não ser que outro, ou outros fantasmas, o façam cair em tentação.

- Bonifácio – começou por dizer Aristides numa intimidade de tratamento só usada quando se encontram a sós – há alguma coisa em que eu te possa ajudar? – questionou-o logo de seguida.

- Infelizmente, não – respondeu resignado D. Bonifácio e continuou com o mesmo ar impassível que todos conhecemos – coisas comigo e com Antonieta que ficaram mal resolvidas.

- Desconfianças antigas, amigo? – tentou tirar alguns nabos da púcara, Aristides, não que fosse curioso, apenas para que a conversa não esmorecesse.

- Na verdade meu caro Aristides sinto-me desconfortável – respondeu-lhe, com ar de alguma consternação, D. Bonifácio. – Hoje, quando recebi aquela pequena caixa, tinha a certeza que a noite iria ser de muito desconforto. E não me refiro à tempestade. – Frisou o nobre D. Bonifácio de Assunção, para que o seu bom amigo Aristides ficasse ciente de que o desconforto a que se referia não era de caráter físico.

- Por isso te perguntei se te podia ajudar. – Insistiu Aristides.

- Vou então dizer-te meu velho Aristides – adjetivou-o D. Bonifácio como se não fossem ambos homens já com alguma idade e, provavelmente, quase a mesma. E continuou. – O que mais me deixa com alguma urticária – pigarreou e deu um leve sorriso, um pálido sorriso, acrescento – é a matraca.

Aristides, aqui sim, ficou desconcertado. Esperava tudo menos enigmas. Ele que já tinha de aturar conversas que sempre achou fruto da imaginação do seu patrão e amigo, com fantasmas, não esperava que o seu velho amigo viesse, num momento destes, com enigmas. Por isso, perguntou, usando um tom de admiração:

- Matraca???!!!!

- Exatamente, a matraca – confirmou Bonifácio. E acrescentou, com um sotaque bem britânico – in the flesh.

Foi o suficiente para que Aristides não tivesse dúvidas de que o patrão estava passado. Saiu de repente, apenas dizendo «um momentinho» e voltou logo de seguida com um copo de água com açúcar. E novamente, depois de quase obrigar Bonifácio a beber o que o velho nobre achou perfeitamente inusitado, já que não dava sinal de nenhum nervosismo, antes pelo contrário, quem estava nervoso era Aristides, o que aliás fez com que Bonifácio lhe ripostasse, «ouve cá, Aristides, quem está nervoso és tu, este copo de água com açúcar não seria para ti?» e ele lhe tivesse respondido «é verdade, tens toda a razão» e pedindo de novo que aguardasse um momentinho saiu e voltou com um copo de água com açúcar para ele próprio, contava eu, novamente Aristides voltou à carga:

- Uma matraca de carne e osso???!!!

- Exatamente – voltou a dizer D. Bonifácio que parece até que gostava de começar as frases com exatamente, – essa D. Micá, uma matraca a contar histórias. E o pior de tudo – acrescentou – é que, se calhar, é capaz de estar a contar a minha história à frente desse mais do que inqualificável, Eduardo Aragão”.

Neste momento, D. Micá parou de contar a história que ela própria havia iniciado há alguns serões atrás e levou uma mão ao peito, cambaleando ligeiramente. Olhou para todos os lados e deu de caras com Eduardo Aragão. Eduardo, o amante de Antonieta, história de um amor proibido que ainda vos contarei, retomando a lebre que levantei há algum tempo, escutava impávido e sereno, acariciando o seu inseparável copo de whisky, enquanto os outros ouvintes ficavam baralhados com aquela mistura entre os personagens, quiçá fictícios, pois de D. Micá, que é uma exímia contadoras de contos cor-de-rosa tudo é de esperar, e as pessoas reais, de carne e osso como ela mesmo, com sangue a correm-lhe nas veias em vez do tão desconhecido quanto incontornável vento que faz esvoaçar os véus dos fantasmas. Ao fundo da sala, porque ninguém estava em condições de balbuciar uma palavra que fosse, estupefactos que ficaram, sem saber como reagir ao epíteto de “matraca” com que D. Bonifácio classificou a D. Micá, presidente de uma Fundação, a contadora da sua própria história, estava Eduardinha com uma bandeja na mão, com várias canecas de leite magro com chocolate, quentinho como a época o exigia, que ela própria, D. Micá, num grito estridente já a rondar o histérico, chamou:

- Eduardinha, traz-me um copo de água com açúcar, que ainda me vai dar um chilique.

E ato contínuo caiu para o lado. Tinha-lhe dado um chilique.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

192. D. Micá não adianta nem atrasa



Estou desolado. Então não é que hoje estava disposto a contar-vos um bom bocado da história de Eduardo Aragão, mormente a parte que diz respeito à sua faceta de D. Juan, conquistador e mulherengo, homem que tão depressa é capaz de estar a cortejar uma rica dama de sociedade, preferencialmente casada, como é capaz de estar num bar de pouca fama, acompanhado de outros vadios e meretrizes de sotaques vários, nomeadamente brasileiro, ucraniano e bielorusso? No entanto, apesar de estar rodeado de indivíduos a babarem-se por histórias mais ou menos picantes e algumas senhoras não menos desejosas de ouvir relatos como o seu quê de escandaloso, tive de enjeitar esta possibilidade. A verdade é que, não possuindo nem a caraterística da omnipresença, nem o dom da ubiquidade e, sendo eu uma pessoa que respeita quem me respeita, para mais sendo a anfitriã, a bondosa e  apaixonante D. Micá, não poderia iniciar a minha narração no preciso momento em que D. Micá, já rodeada de seres, cujos rostos pareciam pedir uma mesa pé de galo e velas de estearina em castiçais dourados, a rodeavam para mais um episódio da sua horripilante história de fantasmas e frades do século quinze, já para não falar de cães que reagem ao rock’n roll e gatos que tentam saltar para invisíveis colos e que no final, miam. E é assim, que, com grande pena minha, terei de deixar para outra oportunidade esta excitante narração da vida de Eduardo Aragão, um bon-vivant, mas, acima de tudo, um soberbo compincha de quem qualquer um de vós, tenho a certeza, não desdenharia ser amigo.


“D. Bonifácio d’Assunção esperou paulatinamente. Não poderá precisar quantos mais golos houve no desafio, pois, uma estranha interferência, coisa que só pode ter vindo do Além já que por perto não se viam nem antenas, nem imanes, nem tão pouco espíritos esvoaçantes, fez com que o rádio transistor, fabricado na China, onde frei Bento Patinho escutava o relato, primeiro começasse com um ruído, depois com um silvo profundo que faria estoirar os tímpanos a qualquer mortal, coisa que como se sabe não o era o frade e, finalmente, o bafo total e nem mais uma palavra saiu por aqueles headphones. Frei Bento Patinho, ao contrário do que era de se esperar a um fantasma, ficou deveras irritado. Espatificou o pequeno rádio contra uma parede da capela e virando-se para D. Bonifácio apenas lhe disse:

- Bons olhos o vejam.

É claro que D. Bonifácio sabia o que isto significava, sabia que estava há muito tempo em dívida para com o quinhentista frade franciscano. A falar verdade é que, contas de cabeça, assim de repente, mais mês, menos mês, D. Bonifácio não se confessava havia mais de trinta anos, sendo que a última vez que o tinha feito havia sido na véspera do seu casamento”.

Quando D. Micá fez a pausa que lhe conhecemos para deixar tudo para o serão seguinte, exasperando os seus habituais convidados por causa da história de fantasmas que anda a contar, ela, que por acaso é boa, mas mesmo boa, é a contar histórias cor-de-rosa, e que não adianta nem atrasa, viram-se alguns rostos enjoados e outros a pensar porque é que o Constantino não contou a história das conquistas do Eduardo Aragão, em vez de estarmos aqui a ouvir esta gaja, isto tudo em pensamento, claro, porque ninguém se atreve a tratar por gaja a herdeira do império do leite magro com chocolate e Excelentíssima presidente da Fundação criada para o efeito. O que salvou o serão, foi Eduardo ter entrado de rompante na sala, aos gritos “estou desgraçado! Estou desgraçado!” e depois ter soltado um palavrão que deixou corada D. Ermelinda. Ficamos todos intrigados com o que aconteceu a Eduardo, mas deixo para o próximo capítulo pois é preciso que fiquemos todos um pouco a refletir sobre o que é D. Bonifácio d’Assunção andou a fazer de tão grave que passou mais de trinta anos sem se confessar. E olhem que segundo D. Micá, D. Bonifácio é homem muito chegado à igreja. Lá isso é.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

191. Vodka, fantasmas e futebol



"Frei Bento Patinho estava sentado de costas para a entrada, num dos bancos da primeira fila. A capela era pequena e não se sabe a que Santo ou Santa ali se fazia devoção. Um altar em mármore cor-de-rosa italiano de Carrara, um crucifixo assente num suporte de pé ao lado do altar e, por detrás, uma Nossa Senhora numa redoma de vidro. D. Bonifácio, quando entrou na capela, fez um rewind à fita magnética das suas memórias. Ali acorria quando brincava às escondidas com os filhos e filhas do caseiro e da cozinheira, ali se refugiava na adolescência onde refletia nas suas crises pseudo-existenciais, ali algumas vezes namorou a filha de D. Verónica de Castro, uma amiga de infância de sua mãe, que amiúde os visitava, ali acompanhava desde criança os seus pais para assistir às missas realizadas pelo padre Augusto Pereirinha, um velho amigo de seu pai que com ele cresceu, ali foi batizado ainda de tenra idade e ali casou com Antonieta, o grande amor de sua vida. Hoje, D. Bonifácio só ali entra para conversar com Frei Bento Patinho, um frade nascido no século XV.

Frei Bento Patinho estava sentado de costas para a entrada. D. Bonifácio aproximou-se. Na capela apenas os seus passos se ouviam. Aristides fcou lá fora pois não iria ouvir o patrão falar sozinho, como ultimamente era costume. Preferiu esquivar-se a tal desiderato. Frei Bento Patinho levantou uma mão e fez sinal para que D. Bonifácio parasse. Ele assim o fez e se quedou em pé, um pouco atrás de Frei Bento. O silencio era tanto que se podia ouvir o zumbir das abelhas. De repente, D. Bonifácio estarreceu. Era noite. Apenas uma lâmpada economizadora que dava uma luz amarelada, uma luz de defuntos, iluminava a pequena nave. O inverno ainda ia a meio. Nem uma flor florira nos vastos jardins da mansão. Corrijo. Alguns malmequeres amarelos e brancos já despontavam. Mas isso era na rua e abertos, apenas durante o dia se podiam ver. Não poderia ser o zumbido de abelhas. Olhou para todos os cantos e fixou o olhar no ouvido direito do frade. Pareceu-lhe ver um ponto negro. Fixou-se nesse ponto e, aos poucos, mesmo com a escassa luz, foi possível ver que se tratava do terminal de um headphone. Era dali que vinha o zumbido. Estaria Frei Bento Patinho a escutar alguma ópera de Wagner em MP3? Uma edição litúrgica em audiobook? As cantatas de Bach? Os madrigais de Monteverdi? O homem que sou do Tony Carreira? Pablo Alboran e Carminho em dueto?

As dúvidas só se desfizeram quando, num repente, o frade salta do banco aos pulos e aos gritos de golo, golo, goooooolllllooo!!! Frei Bento Patinho estava a ouvir um relato de futebol."

Uma enorme gargalhada ecoou naquele salão. Estava tudo em suspenso com mais este episódio contado por D. Micá quando a nossa contadora de histórias se sai com esta de que o fantasma de um frade do século XV gostava de futebol. Foi então tempo para uma pausa e Eduardinha serviu as bebidas onde pontuou o leite magro com chocolate e um licor conventual de avelã.  

Perguntou então o Pires Cunha se podia contar um episódio relacionado com um jogo de futebol o que deixou a Geninha, que não gosta nem de ouvir na palavra, muito enfadada a perguntar a toda a gente «onde é que está a vodka? onde é que está a vodka?» e a Marta Caracinha a afastar-se e a dizer ao Pedro Rebocho que se o serão ia acabar em coisas da bola o melhor era irem embora e sugeriu-lhe as docas, ao que ele respondeu «está bem». Apesar destas e de outras desistências, como o serão mal tinha começado, lá ficaram alguns para ouvir a história do Pires Cunha. O Pires Cunha tem ar de poeta. Usa sempre camisas com gola à padre, compradas na Zara, aliás aproveitou os saldos de janeiro para comprar duas em azul bebé com risquinhas, mas ligeiramente diferentes, porque uma tem bolso de peito e a outra não tem  e ainda uma branca com duplos botões nos punhos, que lhe dá assim um ar de não-sei-o-quê. Raros são os dias em que não coloca uma écharpe, quase sempre de algodão frisado com franjas, dá-lhe duas voltas sem apertar no pescoço e faz-lhe descair as duas pontas para trás. Uns dias usa boina galega preta, outros boina oitavada de tweed em xadrês. Por acaso hoje não usava nem uma coisa nem outra. Vestia umas calças pretas de ganga elástica, uma camisa branca, com gola à padre, claro está, debruada com um friso de um material plástico, quer à volta da gola quer acompanhando a costura onde se situam as casas dos botões, uma écharpe vermelha e branca aos quadrados, estilo guerrilheiro palestiniano e um porkpie bordeaux na cabeça que fez questão de não tirar durante todo o serão, apesar de no salão de D. Micá, não fazer nem sol nem frio e a lareira estar a crepitar desde as seis da tarde para dar conforto à tertúlia. E quando o Pires Cunha se levantou para tomar um lugar em que ficasse virado para todos os que o queriam escutar, ouviu-se a voz do Eduardo Aragão, que como se sabe tem uma vida de boémio de que lhes darei conta noutra altura, a desafiá-lo «Ó Pires, tu com esse chapelinho hoje recitavas-nos era um poema». E o Pires Cunha acedeu, prometendo que contaria a história da bola noutra ocasião. A Marta Caracinha voltou a despir a jaqueta grená com pele sintética a imitar coelho na gola e a Geninha virou de seguida dois shots de vodka. Já não prestou atenção à poesia uma vez que adormeceu a um canto sentada no chão.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

190. Nu com vento



Ele há histórias que por mais que repetidas nunca cansam. É por isso que gosto de passar os meus serões de quintas-feiras na casa da D. Micá. Não que eu já conheça o desfecho da história de fantasmas que ela tem andado a contar e que eu, por afazeres ou parêntesis que não me permitem a sua continuação mais efetiva, tenho demorado a transcrever. Ou então é mesmo a D. Micá que faz estes parêntesis tão grandes, estas extenuantes esperas, em que nem ata nem desata. Caprichos de uma contadora de histórias que já apanhou os vícios do seu criador, não do Criador, como é bom de ver, teriam bastado apenas sete dias, incluindo um de descanso.

Retornando ao que me fez hoje voltar ao vosso convívio que foi contar o que se passou com o meu amigo Eduardo Aragão precisamente ontem e que ele não perdeu a oportunidade de à noite nos encher de pormenores. Foi até bom porque a noite estava fria, D. Micá teve de acender a lareira, o ambiente compôs-se e até as pernas da Eduardinha sobressaíam mais ruborizadas das meias brancas com rendas. Mas de Eduardinha, por hoje, vamos ficar por aqui e vamos desde já diretos ao assunto.

Não é a primeira vez que o Eduardo vai para aqueles lados. Mas das outras vezes que ele lá foi, diga-se de passagem, quase sempre de forma bem produtiva, falar-vos-ei quando for oportuno para que não nos dispersemos do essencial. Contar-vos-ei do dia em que ele tinha marcado um encontro com uma senhora que conheceu num baile social de caridade, mas, bom, não adianto mais nada, porque nem o Eduardo, apesar de meu amigo, me perdoaria as indiscrições, nem vocês, tão entusiasmados que estão para saberem o que é que houve ontem de tão especial, estariam interessados no episódio de Eduardo Aragão com a senhora de sociedade com quem se encontrou em plena Serra da Arrábida. E é precisamente aqui que começa a narração do Eduardo.

A manhã apresentava-se chuvosa mas nada que não se previsse. Os meteorologistas já o tinham avisado, mas mais nada havia a fazer, pois o encontro estava combinado e o almoço com os amigos não seria perdível. A vegetação está mais verde que nunca, mas rareiam as flores. Ainda faltam alguns meses para que as aroeiras se cubram de roxo e para que as abelhas, sôfregas de néctar,  as povoem. Também o céu, se em vez de cinzento carregado tivesse aparecido azul misturado com alguma nebulosidade  cinza escura, cinza claro, teria dado outra luz ao vício de Eduardo, que é, embora eu nunca vos tenha dito, um amante da fotografia. Um dia contar-vos-ei como é que ele, a bordo de um navio soviético, comprou a sua primeira Zenite de contrabando, é claro, mas uma boa máquina, com lentes Zeiss de primeira categoria. Fica para outra vez. Vestia umas calças quentes de fazenda grossa, enfiadas em botas de caça e um blusão impermeável. Um chapéu na cabeça, acessório que ele não dispensa, dá-lhe um ar fino e o momento, para ele é sempre solene. Quando entra no Convento de Nossa Senhora da Arrábida, outrora pertença dos duques de Aveiro e mais tarde dos de Palmela, sente algo de especial, visto, vocês não sabem mas a D. Micá é pessoa para o confirmar, ser ele ainda descendente em quarto grau, de um franciscano que se desviou do seu caminho contemplativo, ou melhor dizendo, contemplou coisas terrenas e foi por aí fora. Pagou o seu bilhete de três euros, tal como estava estipulado e tal como os outros amigos, com quem foi, o fizeram e depois seguiu com avidez de conhecimento as informações transmitidas pelo insubstituível Quirino de Almeida. Este homem, ex funcionário da Centrel, trabalhando nas telecomunicações tal como Eduardo trabalhou um dia,  trabalha no Convento da Arrábida, onde vive, há já 19 anos, tendo sido até personagem de livro, do escritor Jorge Marques e ator num filme dirigido por Manoel de Oliveira, precisamente, "O Convento".  O senhor Quirino que é um autodidata, hoje faz de quase tudo lá no Convento, conhece-lhe toda a história desde a sua fundação, pelo que teve de ler e se documentar para isso, falou nao só da estrutura física que ali se nos depara mas também, com afinco e convicção, da vida dos frades que por ali andaram e primeiro desfrutaram do Convento, Frei Martinho de Santa Maria, a quem D. João de Lencastre, duque de Aveiro cedeu o usufruto quer do Convento quer das encostas da serra, aonde já existia o "Convento Velho", que mais não eram que grutas na serra onde os frades franciscanos cumpriam a sua missão contemplativa, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e S. Pedro de Alcântara. Falou o senhor Quirino e assim nos contou ao serão o Eduardo Aragão, das capelas construídas na serra a mando de d. Ana Manique para que se tornassem lugar de peregrinação constituindo as catorze estações da Via Sacra, embora só sete houveram sido construídas  Depois falou da passagem do convento para os duques de Palmela e finalmente para a Fundação Oriente, seu atual proprietário. Quirino de Almeida realçou a vida isolada, contemplativa e de reflexão, dos frades, incluindo a frugalidade das suas refeições, constituídas quase exclusivamente de pão e água. Depois, o senhor Quirino propôs-nos um jogo. O senhor Quirino é assim mesmo, tem algum espírito de humor e é um artista. Não vos disse mas o senhor Quirino é pintor. Um dia destes assistiremos a uma mega exposição no Convento dos seus óleos que, pela figura do senhor Quirino só temos de acreditar que será uma grande exposição com E maiúsculo.  E o seu jogo consistia em fazer de nós um arquiteto. O objetivo foi fazer-nos ver o state of art do século XVI. Na realidade, para a época, aquele era um Convento com todas as comodidades, nomeadamente tinha água "encanada". E esta? Pois foi aqui que pontuou o Eduardo Aragão. No jogo do senhor Quirino intervieram como arquitetos-projetistas todos os visitantes, nomeadamente o José Mota que foi eleito arquiteto-mor. Não havia nada naquele lugar. Zero. Nem paredes, nem sequer os bancos em que estavam sentados, o que quer dizer que se aquilo fosse de repente, teriam todos caído com o rabo no chão.  E como construiriam  então,os novos arquitetos, o Convento? Construí-lo-iam à luz do século XXI, obviamente. E entre outras comodidades, luz, televisão, microondas,  máquinas de lavar roupa e loiça, chuveiros e retretes. Nas celas, os frades, teriam ate computadores ligados à Internet. E foi aqui que interveio o nosso Eduardo. Dizia ele para o senhor Quirino  que se assim fosse, os frades não mais viveriam a pão e água. Era só mandarem vir umas pizzas pela Internet. Ah rica contemplação do nosso século.


domingo, 20 de janeiro de 2013

189. Está na hora de beber algo




Cheia de glamour e no entanto… D. Micá estava muito queixosa, coitada. Recostada sobre a chaise longue, exibia um vestido cor carmim, comprido, com uma generosa racha na perna esquerda e um não menos generoso decote. D. Micá tinha uns seios bonitos pelo que os decotes lhe davam um ar garboso. Os cabelos soltos, hoje cacheados, deixavam ver uns brincos compridos, pendentes de oiro branco, terminando num discreto rubi. Os lábios condiziam com o vestido, o vestido com os brincos e estes, por sua vez condiziam com a pulseira que fechando o círculo dava com os brincos. Como aliás não podia deixar de ser. No pescoço uma gargantilha, deixando-lhe o colo nu, realçado na sua pele alva e aveludada. D. Micá vestia sempre bem nos dias em que recebia e não fosse ela, parecia que o candeeiro, com pendencias de cristal, não teria o mesmo brilho. Mas estava muito queixosa hoje, D. Micá, tanto que, durante todo o serão, não dispensou os serviços de Preciosa a sua enfermeira particular. Volta e meia pedia desculpa e saía para os seus aposentos para que Preciosa lhe massajasse as pernas. Depois voltava, mas o sofrimento, por vezes não conseguia que os seus próprios olhos o não denunciasse.

Conjeturavam o Fagundes e o Justino Carlos sobre o mal-estar de D. Micá enquanto beberricavam, o Fagundes porque ainda teria de regressar essa noite a Santarém, um copo de leite magro com chocolate e o Justino Carlos um licor de avelã, que ele dizia gostar muito. Um, que D. Micá andava com uma inflamação no nervo ciático, que já tinha ouvido a D. Ermelinda falar de que a filha tinha problemas de coluna e outras coscuvilhices menos próprias de um professor do ensino secundário e o outro, que lhe tinha chegado aos ouvidos pela mulher, “nos dias em que não anda entretida com o ricalhaço”, terá pensado o Fagundes, coitado, que da Graziela nunca mais terá sabido o paradeiro, que D. Micá tinha um problema no menisco e que seria operada em breve, mas que fazia um certo tabu com a coisa.

Num outro canto da sala, a Marta Caracinha, hoje exageradamente vestida em estilo juvenil, com um vestido cor-de-rosa às bolinhas com um grande laçarote na cintura, os totós que parece não querer largar, meias até ao joelho e uns sapatos de ténis, da mesma cor do vestido, ninguém lhe dá os vinte dois anos já feitos, mais parece uma colegial de doze ou treze, preparada para ir a um show da Xana Toc-Toc no campo do Atlético, à Tapadinha, conversava com a Geninha, esta, como sempre, de copo de vodka na mão, preparada para o despejar de um shot, sobre uma pequena desavença que teve com o Pedro Rebocho, devido ao facto do namorado só gostar de vestir preto, o que não lhe ficava nada bem com o cabelo pintado de roxo e um novo penteado funk que ele tinha decidido fazer num novo cabeleireiro que abriuna Ericeira e que é propriedade de um amigo dele de infância. Consta que o amigo é gay e a Geninha desconfia que ela está mais preocupada com a aproximação do Pedro Rebocho ao Dinis do que com cor do cabelo, pois que para Geninha fica-lhe mesmo a matar. E deram por finda a conversa quando a Marta se virou para Geninha e disse:

- Por este andar hoje não vamos ter história.
- Parece que não; parece que a D. Micá está com umas horríveis dores nas pernas – assentiu a Geninha, depois de mais um shot de vodka.
- E ao que consta, ninguém sabe de onde lhe vêm aquelas dores – disse, com um ar algo pesaroso e intrigada, a Marta Caracinha.
- Desconfia-se que a coitada tem reumático. Vê lá tu, Marta, tão nova e já a sofrer tanto. Eu nem quero imaginar o que será de mim daqui a uma meia dúzia de anos – lastimava-se Geninha.
- Oh filha, não bebas tanto. Olha que a vodka não dá saúde a ninguém – desdenhou a Marta.
- Olha quem fala. Tu, que toda a gente sabe és uma viciada em leite magro com chocolate, qualquer dia estás cheia de colesterol – disse sem muita convicção, mas também com alguma falta de argumentos, a Geninha.
- Do quê? Do leite magro? Deves estar a passar-te – riu-se Marta e voltou-lhe as costas, até porque naquele momento, chegava, muito bem disposto, o meu amigo Eduardo Aragão.

Eduardo que sempre foi um bom atleta, mas que falaremos disso logo que for oportuno, cumprimentou um a um, por quem ia passando, deixava umas chalaças sobre o estado do tempo ou sobre os últimos resultados da bola e dirigindo-se a D. Micá, beijou-a na mão e perguntou-lhe:
- Então, gostou da caminhada? Amanhã vamos a outra. Olhe que dizem que faz muito bem para os diabetes. E para o coração – acrescentou e, virando-se para Eduardinha, cada dia mais provocante no seu traje de empregada de dentro, piscou-lhe o olho e perguntou: - O que é que vamos beber hoje?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

188. O chichizinho de D. Micá




“Antonieta desaparecera tão misteriosamente da sala como misteriosa tinha sido a sua aparição na mansão. D. Bonifácio d’Assunção, na verdade, nunca se impressionou com a sua presença. Por isso, não se estranha que não se tenha impressionado com o seu desaparecimento. Parece que quem não ficou assim tão indiferente foi Gatófio que desatou a miar compulsivamente que até parecia uma gata no cio, embora, os próprios testículos, os dele, o testemunhem como um gato macho como poucos e não há telhado nas redondezas que não os conheça. E vice-versa.

D. Bonifácio colocou os dois dedos, indicador e médio, ligeiramente fletidos, nos lábios, dobrou a língua e assobiou. O silvo foi tão agudo que Penafiel se assustou. Um gato a miar como miava Gatófio e um cão que ora ladra ora uiva, como o faz Penafiel, transformaram o silêncio que se tinha feito cerca da meia-noite e meia hora, quando a música brasileira, que tinha substituído o canto gregoriano, também já se havia finado, num arraial da animália. Para agravar a situação, lá fora, dois cavalos relinchavam e ao longe ouvia-se o piar de uma coruja. Ao som do silvo emitido por D. Bonifácio de Assunção, que do barulho dos animais não fora com certeza, atendeu Aristides que compareceu prontamente mas não se pode dizer que a correr, pois Aristides já não tinha idade para grandes velocidades, trazendo a bengala e o chapéu de D. Bonifácio. Este, dispensando por enquanto o chapéu, pois não tinha intenção de se ausentar de imediato da mansão, pegou na bengala e pediu a Aristides que o acompanhasse à capela do edifício. À sua espera, estava já Frei Bento Patinho, um frade dominicano falecido em 1478 e que tinha por costume passear-se altas noites, sem nunca ter sido visto, pelos claustros do convento onde viveu no século XV, em pleno reinado de D. Afonso V, o Africano e pela mansão de D. Bonifácio, mais de quinhentos anos depois, sabe-se lá porquê. A verdade é que a sua presença era muito querida a D. Bonifácio e nada dizia a Aristides que, por mais que ouvisse o patrão falar com uma terceira pessoa, nunca tal criatura houvera visto e, por isso, chegou a pensar que D. Bonifácio estaria xexé da cabeça”.

D. Micá fez uma pausa. As pessoas protestaram, pois queriam saber o que se passou entretanto na capela da mansão. D. Micá disse que precisava de ir fazer um chichi porque as pessoas da sociedade, apesar do ar sempre descontraído, dos vestidos bonitos, dos chapéus de cerimónia, dos varandins com mesas de ferro forjado e trabalhadas, pintadas de branco, com toalhas de renda de Viana do Castelo ou da Madeira, com canapés século XIX, das fotos de pose sentadas ao lado dos filhos e o marido por detrás em pé, com amigos e amigas chamados Vavá e Vivi, Lili e Liluxa, Pepas e Pipas, essas pessoas também fazem o seu chichi e, claro está, quando a necessidade assim o obriga, também dão o seu, delas, punzinho.

É claro que a pausa se prolongou mais do que era esperado, ou então não, pois todos sabem que quando alivia um português, aliviam logo dois ou três, as conversas são como as cerejas, ficamos ali a conversar de banalidades, até que Eduardo Aragão propôs que jogássemos uma partida de poker. Que pena o Eduardo estar a ter esta recaída. Acho que vocês vão gostar no dia em que eu aqui vos contar como Eduardo Aragão gastou uma fortuna, uma não, duas, por causa do vício do jogo. Mas hoje a história já vai longa e Eduardo provavelmente não gostará que eu mexa nos seus fantasmas, pois quem é boa, boa mesmo, a contar histórias, cor-de-rosa ou não, é a nossa querida D. Micá.