Estou desolado. Então não é que hoje estava
disposto a contar-vos um bom bocado da história de Eduardo Aragão, mormente a
parte que diz respeito à sua faceta de D. Juan, conquistador e mulherengo, homem
que tão depressa é capaz de estar a cortejar uma rica dama de sociedade,
preferencialmente casada, como é capaz de estar num bar de pouca fama, acompanhado
de outros vadios e meretrizes de sotaques vários, nomeadamente brasileiro,
ucraniano e bielorusso? No entanto, apesar de estar rodeado de indivíduos a
babarem-se por histórias mais ou menos picantes e algumas senhoras não menos
desejosas de ouvir relatos como o seu quê de escandaloso, tive de enjeitar esta
possibilidade. A verdade é que, não possuindo nem a caraterística da
omnipresença, nem o dom da ubiquidade e, sendo eu uma pessoa que respeita quem
me respeita, para mais sendo a anfitriã, a bondosa e apaixonante D. Micá, não poderia iniciar a
minha narração no preciso momento em que D. Micá, já rodeada de seres, cujos
rostos pareciam pedir uma mesa pé de galo e velas de estearina em castiçais
dourados, a rodeavam para mais um episódio da sua horripilante história de
fantasmas e frades do século quinze, já para não falar de cães que reagem ao rock’n roll e gatos que tentam saltar
para invisíveis colos e que no final, miam. E é assim, que, com grande pena
minha, terei de deixar para outra oportunidade esta excitante narração da vida
de Eduardo Aragão, um bon-vivant,
mas, acima de tudo, um soberbo compincha de quem qualquer um de vós, tenho a
certeza, não desdenharia ser amigo.
“D.
Bonifácio d’Assunção esperou paulatinamente. Não poderá precisar quantos mais
golos houve no desafio, pois, uma estranha interferência, coisa que só pode ter
vindo do Além já que por perto não se viam nem antenas, nem imanes, nem tão
pouco espíritos esvoaçantes, fez com que o rádio transistor, fabricado na China,
onde frei Bento Patinho escutava o relato, primeiro começasse com um ruído,
depois com um silvo profundo que faria estoirar os tímpanos a qualquer mortal,
coisa que como se sabe não o era o frade e, finalmente, o bafo total e nem mais
uma palavra saiu por aqueles headphones. Frei Bento Patinho, ao contrário do
que era de se esperar a um fantasma, ficou deveras irritado. Espatificou o
pequeno rádio contra uma parede da capela e virando-se para D. Bonifácio apenas
lhe disse:
-
Bons olhos o vejam.
É
claro que D. Bonifácio sabia o que isto significava, sabia que estava há muito
tempo em dívida para com o quinhentista frade franciscano. A falar verdade é
que, contas de cabeça, assim de repente, mais mês, menos mês, D. Bonifácio não
se confessava havia mais de trinta anos, sendo que a última vez que o tinha
feito havia sido na véspera do seu casamento”.
Quando D. Micá fez a pausa que lhe conhecemos para
deixar tudo para o serão seguinte, exasperando os seus habituais convidados por
causa da história de fantasmas que anda a contar, ela, que por acaso é boa, mas
mesmo boa, é a contar histórias cor-de-rosa, e que não adianta nem atrasa,
viram-se alguns rostos enjoados e outros a pensar porque é que o Constantino
não contou a história das conquistas do Eduardo Aragão, em vez de estarmos aqui
a ouvir esta gaja, isto tudo em pensamento, claro, porque ninguém se atreve a
tratar por gaja a herdeira do império do leite magro com chocolate e
Excelentíssima presidente da Fundação criada para o efeito. O que salvou o
serão, foi Eduardo ter entrado de rompante na sala, aos gritos “estou
desgraçado! Estou desgraçado!” e depois ter soltado um palavrão que deixou
corada D. Ermelinda. Ficamos todos intrigados com o que aconteceu a Eduardo,
mas deixo para o próximo capítulo pois é preciso que fiquemos todos um pouco a
refletir sobre o que é D. Bonifácio d’Assunção andou a fazer de tão grave que
passou mais de trinta anos sem se confessar. E olhem que segundo D. Micá, D.
Bonifácio é homem muito chegado à igreja. Lá isso é.