sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

190. Nu com vento



Ele há histórias que por mais que repetidas nunca cansam. É por isso que gosto de passar os meus serões de quintas-feiras na casa da D. Micá. Não que eu já conheça o desfecho da história de fantasmas que ela tem andado a contar e que eu, por afazeres ou parêntesis que não me permitem a sua continuação mais efetiva, tenho demorado a transcrever. Ou então é mesmo a D. Micá que faz estes parêntesis tão grandes, estas extenuantes esperas, em que nem ata nem desata. Caprichos de uma contadora de histórias que já apanhou os vícios do seu criador, não do Criador, como é bom de ver, teriam bastado apenas sete dias, incluindo um de descanso.

Retornando ao que me fez hoje voltar ao vosso convívio que foi contar o que se passou com o meu amigo Eduardo Aragão precisamente ontem e que ele não perdeu a oportunidade de à noite nos encher de pormenores. Foi até bom porque a noite estava fria, D. Micá teve de acender a lareira, o ambiente compôs-se e até as pernas da Eduardinha sobressaíam mais ruborizadas das meias brancas com rendas. Mas de Eduardinha, por hoje, vamos ficar por aqui e vamos desde já diretos ao assunto.

Não é a primeira vez que o Eduardo vai para aqueles lados. Mas das outras vezes que ele lá foi, diga-se de passagem, quase sempre de forma bem produtiva, falar-vos-ei quando for oportuno para que não nos dispersemos do essencial. Contar-vos-ei do dia em que ele tinha marcado um encontro com uma senhora que conheceu num baile social de caridade, mas, bom, não adianto mais nada, porque nem o Eduardo, apesar de meu amigo, me perdoaria as indiscrições, nem vocês, tão entusiasmados que estão para saberem o que é que houve ontem de tão especial, estariam interessados no episódio de Eduardo Aragão com a senhora de sociedade com quem se encontrou em plena Serra da Arrábida. E é precisamente aqui que começa a narração do Eduardo.

A manhã apresentava-se chuvosa mas nada que não se previsse. Os meteorologistas já o tinham avisado, mas mais nada havia a fazer, pois o encontro estava combinado e o almoço com os amigos não seria perdível. A vegetação está mais verde que nunca, mas rareiam as flores. Ainda faltam alguns meses para que as aroeiras se cubram de roxo e para que as abelhas, sôfregas de néctar,  as povoem. Também o céu, se em vez de cinzento carregado tivesse aparecido azul misturado com alguma nebulosidade  cinza escura, cinza claro, teria dado outra luz ao vício de Eduardo, que é, embora eu nunca vos tenha dito, um amante da fotografia. Um dia contar-vos-ei como é que ele, a bordo de um navio soviético, comprou a sua primeira Zenite de contrabando, é claro, mas uma boa máquina, com lentes Zeiss de primeira categoria. Fica para outra vez. Vestia umas calças quentes de fazenda grossa, enfiadas em botas de caça e um blusão impermeável. Um chapéu na cabeça, acessório que ele não dispensa, dá-lhe um ar fino e o momento, para ele é sempre solene. Quando entra no Convento de Nossa Senhora da Arrábida, outrora pertença dos duques de Aveiro e mais tarde dos de Palmela, sente algo de especial, visto, vocês não sabem mas a D. Micá é pessoa para o confirmar, ser ele ainda descendente em quarto grau, de um franciscano que se desviou do seu caminho contemplativo, ou melhor dizendo, contemplou coisas terrenas e foi por aí fora. Pagou o seu bilhete de três euros, tal como estava estipulado e tal como os outros amigos, com quem foi, o fizeram e depois seguiu com avidez de conhecimento as informações transmitidas pelo insubstituível Quirino de Almeida. Este homem, ex funcionário da Centrel, trabalhando nas telecomunicações tal como Eduardo trabalhou um dia,  trabalha no Convento da Arrábida, onde vive, há já 19 anos, tendo sido até personagem de livro, do escritor Jorge Marques e ator num filme dirigido por Manoel de Oliveira, precisamente, "O Convento".  O senhor Quirino que é um autodidata, hoje faz de quase tudo lá no Convento, conhece-lhe toda a história desde a sua fundação, pelo que teve de ler e se documentar para isso, falou nao só da estrutura física que ali se nos depara mas também, com afinco e convicção, da vida dos frades que por ali andaram e primeiro desfrutaram do Convento, Frei Martinho de Santa Maria, a quem D. João de Lencastre, duque de Aveiro cedeu o usufruto quer do Convento quer das encostas da serra, aonde já existia o "Convento Velho", que mais não eram que grutas na serra onde os frades franciscanos cumpriam a sua missão contemplativa, Diogo de Lisboa, Francisco Pedraita e S. Pedro de Alcântara. Falou o senhor Quirino e assim nos contou ao serão o Eduardo Aragão, das capelas construídas na serra a mando de d. Ana Manique para que se tornassem lugar de peregrinação constituindo as catorze estações da Via Sacra, embora só sete houveram sido construídas  Depois falou da passagem do convento para os duques de Palmela e finalmente para a Fundação Oriente, seu atual proprietário. Quirino de Almeida realçou a vida isolada, contemplativa e de reflexão, dos frades, incluindo a frugalidade das suas refeições, constituídas quase exclusivamente de pão e água. Depois, o senhor Quirino propôs-nos um jogo. O senhor Quirino é assim mesmo, tem algum espírito de humor e é um artista. Não vos disse mas o senhor Quirino é pintor. Um dia destes assistiremos a uma mega exposição no Convento dos seus óleos que, pela figura do senhor Quirino só temos de acreditar que será uma grande exposição com E maiúsculo.  E o seu jogo consistia em fazer de nós um arquiteto. O objetivo foi fazer-nos ver o state of art do século XVI. Na realidade, para a época, aquele era um Convento com todas as comodidades, nomeadamente tinha água "encanada". E esta? Pois foi aqui que pontuou o Eduardo Aragão. No jogo do senhor Quirino intervieram como arquitetos-projetistas todos os visitantes, nomeadamente o José Mota que foi eleito arquiteto-mor. Não havia nada naquele lugar. Zero. Nem paredes, nem sequer os bancos em que estavam sentados, o que quer dizer que se aquilo fosse de repente, teriam todos caído com o rabo no chão.  E como construiriam  então,os novos arquitetos, o Convento? Construí-lo-iam à luz do século XXI, obviamente. E entre outras comodidades, luz, televisão, microondas,  máquinas de lavar roupa e loiça, chuveiros e retretes. Nas celas, os frades, teriam ate computadores ligados à Internet. E foi aqui que interveio o nosso Eduardo. Dizia ele para o senhor Quirino  que se assim fosse, os frades não mais viveriam a pão e água. Era só mandarem vir umas pizzas pela Internet. Ah rica contemplação do nosso século.


domingo, 20 de janeiro de 2013

189. Está na hora de beber algo




Cheia de glamour e no entanto… D. Micá estava muito queixosa, coitada. Recostada sobre a chaise longue, exibia um vestido cor carmim, comprido, com uma generosa racha na perna esquerda e um não menos generoso decote. D. Micá tinha uns seios bonitos pelo que os decotes lhe davam um ar garboso. Os cabelos soltos, hoje cacheados, deixavam ver uns brincos compridos, pendentes de oiro branco, terminando num discreto rubi. Os lábios condiziam com o vestido, o vestido com os brincos e estes, por sua vez condiziam com a pulseira que fechando o círculo dava com os brincos. Como aliás não podia deixar de ser. No pescoço uma gargantilha, deixando-lhe o colo nu, realçado na sua pele alva e aveludada. D. Micá vestia sempre bem nos dias em que recebia e não fosse ela, parecia que o candeeiro, com pendencias de cristal, não teria o mesmo brilho. Mas estava muito queixosa hoje, D. Micá, tanto que, durante todo o serão, não dispensou os serviços de Preciosa a sua enfermeira particular. Volta e meia pedia desculpa e saía para os seus aposentos para que Preciosa lhe massajasse as pernas. Depois voltava, mas o sofrimento, por vezes não conseguia que os seus próprios olhos o não denunciasse.

Conjeturavam o Fagundes e o Justino Carlos sobre o mal-estar de D. Micá enquanto beberricavam, o Fagundes porque ainda teria de regressar essa noite a Santarém, um copo de leite magro com chocolate e o Justino Carlos um licor de avelã, que ele dizia gostar muito. Um, que D. Micá andava com uma inflamação no nervo ciático, que já tinha ouvido a D. Ermelinda falar de que a filha tinha problemas de coluna e outras coscuvilhices menos próprias de um professor do ensino secundário e o outro, que lhe tinha chegado aos ouvidos pela mulher, “nos dias em que não anda entretida com o ricalhaço”, terá pensado o Fagundes, coitado, que da Graziela nunca mais terá sabido o paradeiro, que D. Micá tinha um problema no menisco e que seria operada em breve, mas que fazia um certo tabu com a coisa.

Num outro canto da sala, a Marta Caracinha, hoje exageradamente vestida em estilo juvenil, com um vestido cor-de-rosa às bolinhas com um grande laçarote na cintura, os totós que parece não querer largar, meias até ao joelho e uns sapatos de ténis, da mesma cor do vestido, ninguém lhe dá os vinte dois anos já feitos, mais parece uma colegial de doze ou treze, preparada para ir a um show da Xana Toc-Toc no campo do Atlético, à Tapadinha, conversava com a Geninha, esta, como sempre, de copo de vodka na mão, preparada para o despejar de um shot, sobre uma pequena desavença que teve com o Pedro Rebocho, devido ao facto do namorado só gostar de vestir preto, o que não lhe ficava nada bem com o cabelo pintado de roxo e um novo penteado funk que ele tinha decidido fazer num novo cabeleireiro que abriuna Ericeira e que é propriedade de um amigo dele de infância. Consta que o amigo é gay e a Geninha desconfia que ela está mais preocupada com a aproximação do Pedro Rebocho ao Dinis do que com cor do cabelo, pois que para Geninha fica-lhe mesmo a matar. E deram por finda a conversa quando a Marta se virou para Geninha e disse:

- Por este andar hoje não vamos ter história.
- Parece que não; parece que a D. Micá está com umas horríveis dores nas pernas – assentiu a Geninha, depois de mais um shot de vodka.
- E ao que consta, ninguém sabe de onde lhe vêm aquelas dores – disse, com um ar algo pesaroso e intrigada, a Marta Caracinha.
- Desconfia-se que a coitada tem reumático. Vê lá tu, Marta, tão nova e já a sofrer tanto. Eu nem quero imaginar o que será de mim daqui a uma meia dúzia de anos – lastimava-se Geninha.
- Oh filha, não bebas tanto. Olha que a vodka não dá saúde a ninguém – desdenhou a Marta.
- Olha quem fala. Tu, que toda a gente sabe és uma viciada em leite magro com chocolate, qualquer dia estás cheia de colesterol – disse sem muita convicção, mas também com alguma falta de argumentos, a Geninha.
- Do quê? Do leite magro? Deves estar a passar-te – riu-se Marta e voltou-lhe as costas, até porque naquele momento, chegava, muito bem disposto, o meu amigo Eduardo Aragão.

Eduardo que sempre foi um bom atleta, mas que falaremos disso logo que for oportuno, cumprimentou um a um, por quem ia passando, deixava umas chalaças sobre o estado do tempo ou sobre os últimos resultados da bola e dirigindo-se a D. Micá, beijou-a na mão e perguntou-lhe:
- Então, gostou da caminhada? Amanhã vamos a outra. Olhe que dizem que faz muito bem para os diabetes. E para o coração – acrescentou e, virando-se para Eduardinha, cada dia mais provocante no seu traje de empregada de dentro, piscou-lhe o olho e perguntou: - O que é que vamos beber hoje?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

188. O chichizinho de D. Micá




“Antonieta desaparecera tão misteriosamente da sala como misteriosa tinha sido a sua aparição na mansão. D. Bonifácio d’Assunção, na verdade, nunca se impressionou com a sua presença. Por isso, não se estranha que não se tenha impressionado com o seu desaparecimento. Parece que quem não ficou assim tão indiferente foi Gatófio que desatou a miar compulsivamente que até parecia uma gata no cio, embora, os próprios testículos, os dele, o testemunhem como um gato macho como poucos e não há telhado nas redondezas que não os conheça. E vice-versa.

D. Bonifácio colocou os dois dedos, indicador e médio, ligeiramente fletidos, nos lábios, dobrou a língua e assobiou. O silvo foi tão agudo que Penafiel se assustou. Um gato a miar como miava Gatófio e um cão que ora ladra ora uiva, como o faz Penafiel, transformaram o silêncio que se tinha feito cerca da meia-noite e meia hora, quando a música brasileira, que tinha substituído o canto gregoriano, também já se havia finado, num arraial da animália. Para agravar a situação, lá fora, dois cavalos relinchavam e ao longe ouvia-se o piar de uma coruja. Ao som do silvo emitido por D. Bonifácio de Assunção, que do barulho dos animais não fora com certeza, atendeu Aristides que compareceu prontamente mas não se pode dizer que a correr, pois Aristides já não tinha idade para grandes velocidades, trazendo a bengala e o chapéu de D. Bonifácio. Este, dispensando por enquanto o chapéu, pois não tinha intenção de se ausentar de imediato da mansão, pegou na bengala e pediu a Aristides que o acompanhasse à capela do edifício. À sua espera, estava já Frei Bento Patinho, um frade dominicano falecido em 1478 e que tinha por costume passear-se altas noites, sem nunca ter sido visto, pelos claustros do convento onde viveu no século XV, em pleno reinado de D. Afonso V, o Africano e pela mansão de D. Bonifácio, mais de quinhentos anos depois, sabe-se lá porquê. A verdade é que a sua presença era muito querida a D. Bonifácio e nada dizia a Aristides que, por mais que ouvisse o patrão falar com uma terceira pessoa, nunca tal criatura houvera visto e, por isso, chegou a pensar que D. Bonifácio estaria xexé da cabeça”.

D. Micá fez uma pausa. As pessoas protestaram, pois queriam saber o que se passou entretanto na capela da mansão. D. Micá disse que precisava de ir fazer um chichi porque as pessoas da sociedade, apesar do ar sempre descontraído, dos vestidos bonitos, dos chapéus de cerimónia, dos varandins com mesas de ferro forjado e trabalhadas, pintadas de branco, com toalhas de renda de Viana do Castelo ou da Madeira, com canapés século XIX, das fotos de pose sentadas ao lado dos filhos e o marido por detrás em pé, com amigos e amigas chamados Vavá e Vivi, Lili e Liluxa, Pepas e Pipas, essas pessoas também fazem o seu chichi e, claro está, quando a necessidade assim o obriga, também dão o seu, delas, punzinho.

É claro que a pausa se prolongou mais do que era esperado, ou então não, pois todos sabem que quando alivia um português, aliviam logo dois ou três, as conversas são como as cerejas, ficamos ali a conversar de banalidades, até que Eduardo Aragão propôs que jogássemos uma partida de poker. Que pena o Eduardo estar a ter esta recaída. Acho que vocês vão gostar no dia em que eu aqui vos contar como Eduardo Aragão gastou uma fortuna, uma não, duas, por causa do vício do jogo. Mas hoje a história já vai longa e Eduardo provavelmente não gostará que eu mexa nos seus fantasmas, pois quem é boa, boa mesmo, a contar histórias, cor-de-rosa ou não, é a nossa querida D. Micá.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

187. Micá e os coentros picados





O meu amigo Eduardo Aragão, de quem um dia, se surgir a oportunidade, falarei mais em detalhe das suas qualidades de bom gastrónomo e requintado gourmet que não dispensa o fois gras e o champanhe, o goulash ou o cordero asado, as gambas a l’ajillo e a massada de cherne, é absolutamente doido por pataniscas de bacalhau com arroz de feijão.

Estávamos nós a falar nele, em casa da minha amiga Micá, D. Micá como todos lhe chamamos, quando a nova empregada, a Eduardinha, anunciou a chegada do sr. Eduardo Aragão. Já falaremos da sua entrada não muito triunfal para vos referir que hoje era Eduardinha quem estava de serviço. Perguntei a D. Micá que era feito da outra moça, a protegida do sr. Hortêncio, que costuma tropeçar nos tapetes e partir serviços. Então não é que a raparaguita se apaixonou pelo Faria, sendo que o Faria, que entretanto, diz-se no salão de D. Micá e não só, namora com uma viúva que lhe dá de tudo, do bom e do melhor, olá se dá, oh, oh, não foi capaz de resistir ao bater de pestana da empregadeca, o que aliás deixou deveras descontente o sr. Hortêncio que, parece, fala-se também, isto hoje é só má-língua, tinha um fracote por ela? Mas enfim, são vidas, quando o Faria que voltou a ser colocado em Santarém, voltar, lá pelas férias da Páscoa, altura em que, está até já prometido pela D. Micá, vamos comer o melhor borrego no forno que se come em toda a região de Lisboa e Vale do Tejo, cozinhado especialmente para nós pelo Januário Pitinha, que é um alentejano dos quatro costados e ainda é dos que aquecem o forno a xerogases e ramos secos de oliveira e chapotas de azinho para fazer brasa para isolar a porta do forno, quando ele vier de férias, dizia eu, vou-lhe perguntar se é verdade aquilo da pequena, pois todos já estávamos a começar a admirar as camisas de marca, os blasers da Sacoor, as gravatas de seda (para falar a verdade a que usou no réveillon, era um bocado apanascada), os sapatos Carpelio, enfim, tudo do bom e do melhor, repito o que já tinha dito acima, que a viúva lhe orientava. Mas com este derivar, já me estava a esquecer que vos queria falar da Eduardinha. Há corpos que não foram feitos para serem criadas de servir. A Eduardinha, que é uma rapariga alta, terá talvez o seu metro e setenta e três, metro e setenta e quatro, usava uma farda preta que devia ser da outra, que era bem mais baixa, pois a saia ficava-lhe tão curtinha que deixava transparecer as rendas das meias brancas e até as molas do cinto de ligas, a blusa, preta também, estava-lhe bem apertada no busto deixando que os fartos seios com que Deus a brindou, realçados por um wonderbra branco, que se testemunhava pela parte superior da copa no decote da blusa, até pareciam querer sair-lhe da sua encapsulada indumentária. Ficava-lhe também a matar um aventalzinho branco, com bordado inglês do mesmo tecido que o cabeção. O mais interessante é que Eduardinha, fez há pouco uma plástica, colocou botox nas maçãs do rosto e nos lábios e maquilha-lhe primorosamente. Quando olhamos para Eduardinha, a lembrar os mais irreverentes desenhos de José Vilhena, não queremos saber para nada porque é que o Eduardo Aragão entrou, naquele dia, menos bem no salão de D. Micá ou se tinha jantado pataniscas de bacalhau com arroz de feijão, salpicado com coentros picados e decorado com quatro azeitonas novas. Quem é que quer saber disso?…   

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

186. As passas de D. Micá ou uma noite de Réveillon com fantasmas



Uma sala com pouco mais de vinte e cinco metros quadrados ostentava um bar, todo em mogno, fazendo um recanto onde algumas dezenas de copos se suspendiam de um teto incorporado e onde uma lanterna com lâmpadas de halogénio fazia refletir o brilho imaculado do cristal de chumbo. Nas prateleiras, garrafas com os mais finos whiskies, maltes de 30 anos, blendedes das mais diversas origens, alguns bourbons e vários irlandeses. Numa secção reservada aos nacionais, não escasseavam os Porto e os Madeira, alguns moscatéis de Setúbal, nomeadamente roxos e outros do Douro e, como não podia deixar de ser, o nosso bem conhecido Licor Beirão. Noutra prateleira perfilavam-se as cachaças, vodkas, runs e aguardentes velhas e mais umas quantas bebidas que nem vale a pena referir, tal é a diversidade de espirituosas que D. Micá faz questão que constituam recheio do seu famoso bar. Como era de se prever, estava reservado algum espaço para umas garrafinhas muito simpáticas de 0,25 l contendo leite magro com chocolate, um ex-libris da Fundação. Um sofá em forma de círculo e uma mesa de centro em pau-brasil completavam a mobília, com dois bancos altos junto ao balcão do referido bar.

Sentada num destes bancos, D. Micá, vestido vermelho comprido com uma racha lateral que surgia do tornozelo e terminava na anca, apesar dos folhos translúcidos, deixava ver as rendas das meias pretas. Nos pés os sapatos com salto de agulha de doze centímetros eram de verniz e o seu longo cabelo, penteado por Felisbela, a sua cabeleireira preferida do salão das Amoreiras, culminava em duas loiras tranças enroladas e cruzadas na testa como se fosse uma grinalda vitoriana. Nos pulsos, várias pulseiras de ouro e prata, em aros entrecruzados cujo blaisé do conjunto, fazia contraste com uma gargantilha preta incrustada de brilhantes Swarovsky e discretos brincos com aplicações de fino cristal. Na mão direita fazia girar, em gestos suaves, um copo em forma de flute, meio cheio de D. Perignon, ora cheirando ora degustando, com elegância, o seu conteúdo. A mão esquerda, com um anel solitário no anelar e um relógio Gucci com incrustações de diamante, deambulava de um lado para o outro ou em círculos, acompanhando o ritmo do conto com que nos tem vindo a entreter e que também nos brindou naquela noite de réveillon.

«De repente, como que por magia, a trovoada parou e nem mais uma gota de água caiu da negro cinzento dos céus. Penafiel sossegou em cima do tapete e Gatófio foi-se enrolar nas suas patas dianteiras. D. Bonifácio, tentou encetar o diálogo com Antonieta. Ou com o seu fantasma para se ser mais preciso.
- O que queres com essa caixa?
Fez-se um silêncio sepulcral. Penafiel rosnou. Gatófio nem se mexeu. D. Bonifácio, pacientemente, esperou uma resposta. Uma forte corrente de ar, de desconhecida origem, apagou o castiçal que estava em cima do aparador. Então uma voz cavada, com o timbre da outrora voz de Antonieta mas com um assustador vibrato, respondeu.
- São os teus restos.
Não se notou nenhum ar de perplexidade no rosto de D. Bonifácio. Bateu três vezes com a bengala no chão. Penafiel ergueu-se e espreguiçou-se. Uma buzina de carro escutou-se, vinda algures do portão de ferro. Um fogo-fátuo acendeu-se sobre a cabeça de Antonieta e Gatófio soltou uma gargalhada, uma humana gargalhada, talvez melhor dizendo, uma sobre humana gargalhada e o som de um violino, tocando uma música triste começou a encher o compartimento.
- O que queres de mim, Antonieta? – Perguntou, mantendo uma calma que ora parecia real ora se assemelhava a uma calma aparente.
- Tens de te confessar - disse-lhe Antonieta, e o som do violino foi agora substituído por cânticos gregorianos como se a mansão de D. Bonifácio fosse agora um enorme convento.
Gatófio voltou a rir-se e Penafiel ladrou-lhe. Gatófio esticou as quatro patas e elevou a cauda que, entretanto, parecia um escovilhão.
De novo se ouviu a buzina do carro, agora acompanhado de mais umas quantas buzinas de outros carros estacionados na ampla garagem da mansão. Antonieta sobrevoou o chapéu de D. Bonifácio e dirigiu-se à janela. A noite estava calma, mas Aristides estava com um apito na boca e fazia gestos como que a regular o trânsito. Uma música brasileira substituiu o cântico gregoriano.»

D. Micá calou-se. Pediu às quatro pessoas que a ouviam com atenção e interesse o desenrolar da fantasmagórica e, mais tarde, ver-se-á, arrepiante história de D. Bonifácio da Assunção, paciência, mas naquela noite ela não estava em condições de continuar a narração. Estava preocupada com outra coisa. Faltavam cinco minutos para a meia-noite e Eduardo Aragão ainda não tinha chegado. E se apesar do champanhe e de uma mesa bem farta, com leitão da Bairrada e camarões de Madagáscar, champanhe genuíno e algum, pouco, leite magro com chocolate, se Eduardo não chegasse antes das doze badaladas com a caixa de passas de uva sem grainha que ela lhe tinha encomendado, aquilo não era meia-noite digna de uma passagem de ano, não era nada. Mas antes que o anúncio da Raposeira ou da Coca-cola, do Óleo Fula ou da Aqua de Gio passassem nos écrans das televisões, interrompendo a contagem decrescente, a campainha da porta tocou.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

185. A consoada de D. Micá



As portas da sala de jantar de D. Micá raramente eram franqueadas aos seus convidados. O salão, o varandim, a copa de apoio e os WCs socias eram mais do que suficientes para se passarem serões agradáveis. Ali se tocava piano, ali se tocavam guitarras, ali, principalmente, se contavam histórias. Uma vez por outra, se falava de moda e, com menos frequência, se falava da vida alheia. A não ser que isso viesse a propósito. Quanto a religião, futebol e política eram quase temas tabú embora não fossem proibidos. Só que havia sempre alguém que, quando a conversa decaía para esses temas, se propunha a contar uma história e todos assumiam que os serões na D. Micá eram para isso mesmo. Mas naquela noite foi diferente.

A comprida mesa estava posta e o lugar de topo reservado para D. Ermelinda. À sua direita, a cadeira pertencia a sua filha D. Micá e os restantes lugares seriam ocupados por um protocolo muito pouco definido, mas que todos assumiam que os lugares mais próximos das anfitriãs seriam ocupados pelos amigos mais antigos. Eu, que por deferência de D. Ermelinda e por insistência de D. Micá, me viria a sentar no topo oposto da mesa, perdia assim a oportunidade de privar mais de perto com a mãe e a filha mas, em contrapartida, ficava num lugar privilegiado para tomar nota de todo e qualquer detalhe. E é por isso que vos digo que a mesa de consoada de D. Ermelinda, fazia juz à atual presidente, por inerência, da Fundação para a divulgação e incentivo ao consumo do leite magro com chocolate ou, abreviando, da FPADEIACDLMCC.

O serviço de copos era completo e estava quase completo na mesa. Só para que conste, o cristal era Atlantis de 24% de Pb3O4, isto é, de extrema pureza, constituído por um copo para água, dois copos para vinho, branco e tinto e ainda uma flute para os apreciadores de champanhe à refeição. Apenas os copos de licor se reservaram para a sobremesa. Um lindo serviço Vista Alegre, com prato de entrada, um prato de sopa e dois pratos de prato principal, pois, na noite da consoada, havia não só o tradicional bacalhau com couves, ovo cozido e batata, mas também o mais suculento peru assado em forno de lenha, que acabara de chegar diretamente da Arruda. Eram aliás dois perus e não apenas um, dado o número de convidados que se sentariam à mesa. No salão, uma grande mesa de vidro, ali colocada apenas para a época, estava recheada das mais apetitosas vitualhas, onde não faltavam as filhós, os sonhos e as azevias, as rabanadas, a aletria doce por cortesia ao Armindo e à Tansinha que são do Porto, os figos secos e as nozes, as amêndoas torradas e pinhões descascados, as frutas cristalizadas e as avelãs, a lampreia de ovos e o tronco de chocolate, ameixas secas, damascos, sultanas doiradas, passas de uvas sem grainha, já para não falar de uma taça com mousse de chocolate e um cesto de frutas frescas com líchias, romãs, ananás dos Açores, mamão do Brasil, mangas importadas via aérea, laranja do Algarve, uvas chilenas e uma enorme taça com cerejas compradas numa frutaria da baixa que as importa diretamente da África do Sul, especialmente para esta época festiva. Infelizmente, o Armindo não chegaria a tempo para jantar, pois uma tão arreliadora como inesperada avaria no seu novo automóvel, fê-lo ser anunciado pelo segurança Alfredo já passava das 23:00h. Ainda assim, na copa, a sempre diligente Estela, uma empregada que veio servir para Lisboa no século passado e que já passada dos cinquenta anos foi cooptada por D. Ermelinda, preparou-lhe uma sandes de peito de peru com maionese e uma folha de alface e um copo de vinho tinto. Depois juntou-se ao grupo para comer uma broa castelar já que os diabetes não lhe permitiam abusos de qualidade nenhuma.

Vieram o Pedro Rebocho e a Marta Caracinha, como não podia deixar de ser, ela de totós e ele com mais gel do que cabelo, mas ambos, desta vez, impecáveis no traje, se bem que eu não tenha gostado muito da bolsa da Marta. Havia ali qualquer coisa que não condizia, mas tenho de olhar com mais atenção para as fotos para o poder detalhar. Foram também convidadas a Geninha e a Luisinha Monteiro, que por pouco não virava, esta, uma garrafa de champanhe na antecâmara do jantar, enquanto a primeira, para não se ficar atrás, ia bebendo shots de vodka. Pelo que se me foi dado observar a Geninha já estava bêbada antes de ser servido o bacalhau, mas se, mesmo atendendo a este comportamento desviante e habitual da Geninha, a D. Micá a continua a convidar, é lá com ela que eu não tenho nada a ver com isso. O Fagundes também veio, trazia uma bonita gravata Hermès e um blaser muito fino comprado na Sacoor, azul-escuro com botões dourados. Segundo consta, depois do par de cornos que Graziela lhe tinha pespegado com o Faria, o professor do ensino secundário, andou um bocado abalado e um tanto ou quanto à deriva mas, parece-me (e também consta aqui nos bastidores dos soirées da D. Micá), que namora uma senhora fina, mais velha que ele uns catorze anos, viúva, com uma boa renda mensal, mas que, talvez por estratégia, ainda não contou nada aos seus parceiros das quintas-feiras à noite. Mas a D. Micá, inevitavelmente já conhece a história toda. Um dia contar-nos-á. O Pedro Pinto Aragão, primo do Eduardo, por se encontrar a usufruir dos quarenta graus do Rio de Janeiro mandou uma mensagem de Boas Festas para todos e claro está com os desejos de um Feliz e Santo Natal. O Justino Carlos veio com a mulher, ela toda espampanante, com uma gargantilha incrustada de brilhantes e uma pulseira a fazer pandan e o Justino com um alfinete de gravata, em ouro de lei de 24 quilates. No aperitivo, enquanto eu espetava um palito num camarão com alho e ervas provençais, segredou-me, «isto foi o corno», que era como ele designava o amante da mulher, «que pagou» e apontou para o alfinete. Jantaram também connosco o Ricardo e o Adriano, uma vez que a Rafaela iria consoar com os pais dela e que os pais do Ricardo estavam emigrados na Suíça. Já o Adriano, por questões relacionadas com a crise no seu emprego, não pode ir seque à terra e por isso também se juntou a nós. Felisberto Passinhas e Sebastião Jerónimo fizeram a noite de consoada com as respetivas famílias mas o Ezequiel Canário e o Julião Guedes vieram. este último muito mais atinado do que é habitual pois passou pela Luisinha Monteiro e não lhe apalpou o rabo. Com certeza que era por ser noite de Natal. Foi bonito ver Efigénia chegar com Henriqueta. Apesar da condição de prostituta da Henriqueta, D. Micá gostava dela. Só lhe pediu para desta vez não vir de minissaia cor-de-rosa por cima das leggings brancas, nem de casaquinha de pelúcia roxa, ao que Henriqueta deu uma gargalhada e segredou-lhe «Ó filha eu vou ser a gaja mais elegante da tua mesa de consoada». E só não o foi porque D. Micá nunca deixava os seus créditos por mãos alheias, ou seja, quero dizer exatamente o contrário, pois foi pelas mãos de Tenente que ela estava deslumbrante que nem uma princesa. E com um decote que, olalá, nem vos conto.

Pois eram mais os convidados, os vinte e quatro lugares estavam ocupados, até o otorrinolaringologista Luís Lopes Lacerda, o casal Carlota e Paciência Monteiro, o dr. Fabrício Páscoa e, claro está, o meu amigo Eduardo Aragão estiveram na nossa consoada. Hoje, Eduardo entrou discretamente, vinha acompanhado por uma senhora casada, sei-o eu porque a conheço de outras andanças e, quiçá, sabê-lo-á D. Micá, que ele apresentou como menina Lucinda, obrigando-me a disfarçadamente pigarrear e receber um olhar cúmplice da “menina”, cujo marido é oficial da marinha mercante e estaria nesta noite a consoar com uma turbina a vapor ou um motor a fuel . Trazia com ele um saco de grandes dimensões e, tendo segredado qualquer coisa a Estela, entregou-lhe o saco, sendo que, depois, mais descontraído serviu-se de um Chivas Regal de 18 anos, olhou para D. Micá e brindou à FPADEIACDLMCC.

Já vinte e três se tinham sentado à mesa, quando olhando uns para os outros, inquirimos a menina Lucinda sobre o paradeiro de Eduardo. Ela, corou, colocou a mão à frente dos lábios e sorriu. Eis se não quando, vindo do WC contíguo, logo atrás de Estela, que saía da copa com uma bandeja cheia de postas de bacalhau asa branca do Atlântico Nordeste e ornamentada com ovos cozidos, surge o nosso Eduardo Aragão, em traje de Pai Natal. Todos riram, só eu não achei qualquer piada porque uma rocambolesca história, com traje similar, em outro Natal fê-lo consoar nos calabouços da polícia, ainda por cima, podre de bêbado. Mas da vida de Eduardo Aragão falar-vos-ei quando for oportuno, que hoje é noite de Natal. E pode também trazer o peru, amiga Estela.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

184. D. Micá e a fruta do tempo (ou a história de D. Camelinha)



“Antonieta parecia calma. Uma calma fantasmagórica, na palidez do seu rosto. Fez que se sentou ficando a planar sobre o sofá, perna traçada, deixando cair o branco véu que, na posição em que ficou, se deixava embalar pela corrente de ar, aparentemente injustificada, já que a criadagem se encarregara de cerrar portas e janelas, deixando ambos trancafiados no vasto salão dos espelhos. Apenas Penafiel, o fiel cão de D. Bonifácio, um pastor belga de leonina juba e Gatófio, um gato magrelas que Antonieta tinha adotado antes de morrer, tinham sido autorizados a ficar. No momento em que a corrente de ar se acentuou, pondo a nu, as alvas coxas de Antonieta, não conseguindo D. Bonifácio, ou não tendo tempo para, desviar o olhar, o ribombar de um forte trovão fez estremecer todo o edifício. Instantaneamente, Penafiel começou a ladrar e Gatófio deu um fabuloso salto tentando anichar-se no regaço de Antonieta. Em vão esperneou pois que trespassou roupas e colo, tendo-se estatelado no chão, por falta de sustentáculo. Em boa verdade, dada a sua natureza felina, Gatófio caiu sobre as quatro patas mas, ato contínuo, desatou a correr de cauda eriçada pela estupefação, percorrendo os quatros cantos da sala à procura de um onde se escondesse. Não contente com tanta algazarra e ainda assustado com o estrondoso trovão, Penafiel dirigiu os seus latidos a Gatófio ao que este lhe fez “fuuuuummm”. Contado que foi os desatinos de gato e cão, deve dizer-se que Antonieta assistiu a toda esta balbúrdia como se nada se tivesse passado e que D. Bonifácio mostrou alguns sinais de nervosismo, pois por duas vezes deixou apagar o fósforo quando tentava acender um charuto. Ou então não. Ou então foi a brisa que lhe apagou os fósforos. Mas isso nunca se virá a saber porque que também não o sei”, concluiu D. Micá, visivelmente empolgada com o desenrolar da sua história.

Parou por aqui a sua narração, levantou os olhos com um olhar de preocupação e olhou em redor. Se bem que lhe era notório que hoje também não estaria nos seus melhores dias, tendo por mais do que uma vez puxado pelo lenço, por sinal da mais fina cambraia, magistralmente bordado por dona Camelinha, uma minhota que há muito se radicou nas avenidas novas, desde os tempos em que veio acompanhar um afilhado que cursou engenharia metalúrgica no Instituto Superior Técnico, acabando por cá se radicar, ao contrário do afilhado, que também era sobrinho, que regressou a Viana, mais propriamente a Afife de onde era natural, por mor de trabalhar nos estaleiros. Pudera que dona Camelinha não por cá se tivesse quedado pois, quando ainda nem os quarenta anos houvera feito, conheceu o senhor Policarpo Santana, um abastado comerciante de bacalhau da Rua do Arsenal e com ele se amantizou, até que o senhor Policarpo Santana se finou com um enfarte, pois ter relações sexuais tão intensas com uma mulher ainda no fogo da idade, ele que já tinha quase trinta e cinco em cada perna, como gostava de se gabar, não lhe era muito aconselhável e dizem as más-línguas que tão pouco era proficiente. Deixou-lhe um dinheirinho, coisa pouca, dizia dona Camelinha, mas não se sabe bem ao certo de quantos contos de reis se tratou, já que dois prédios, um dos quais no Areeiro, deixou ele a um sobrinho que era magarefe no matadouro dos Olivais e outras propriedades a uma afilhada, também ela sobrinha, que era beata e que vivia mais tempo entre paredes seculares do que em sua própria casa, se bem que toda a gente afirmasse que era uma santa mulher e que a ela nada se podia apontar nem com a cabeça do dedo mindinho que fosse. Pois o lenço de D. Micá já tinha todo bastante uso essa noite e o mesmo se pode dizer de Januário Pireza, que até tinha espirrado seis vezes consecutivas e do Carlinhos Epicurista, assim chamado desde que se formou em filosofia e defendia teorias bem próximas de Epicuro, que andava a tossir uma tosse cavada que o deixava quase sem ar. Já a Graciete Malheiro, colocou várias vezes as costas das mãos na testa, fazendo com esse gesto como que uma elegante vénia, uma vez que tirava sempre a luva arrendada da mão direita, dizendo, para que todos ouvissem, «parece-me que estou com febre». A um canto, D. Ermelinda, sua mãe, mãe de D. Micá está bem de ver, bebia um chá de limão bem quente, adoçado com mel e sorvia um cálice de uma boa aguardente de vinho verde que desde miúda o via fazer a seu falecido pai. É assim, neste clima de espirros, assoadelas e estados febris que, com ar preocupado, D. Micá se virou para mim e perguntou, afirmado ao mesmo tempo:

- E o Eduardo Aragão? Ainda não o vi por aqui hoje.

- Pois não - respondi. Telefonou-me a dizer que não viria. Parece que está com gripe.