quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

187. Micá e os coentros picados





O meu amigo Eduardo Aragão, de quem um dia, se surgir a oportunidade, falarei mais em detalhe das suas qualidades de bom gastrónomo e requintado gourmet que não dispensa o fois gras e o champanhe, o goulash ou o cordero asado, as gambas a l’ajillo e a massada de cherne, é absolutamente doido por pataniscas de bacalhau com arroz de feijão.

Estávamos nós a falar nele, em casa da minha amiga Micá, D. Micá como todos lhe chamamos, quando a nova empregada, a Eduardinha, anunciou a chegada do sr. Eduardo Aragão. Já falaremos da sua entrada não muito triunfal para vos referir que hoje era Eduardinha quem estava de serviço. Perguntei a D. Micá que era feito da outra moça, a protegida do sr. Hortêncio, que costuma tropeçar nos tapetes e partir serviços. Então não é que a raparaguita se apaixonou pelo Faria, sendo que o Faria, que entretanto, diz-se no salão de D. Micá e não só, namora com uma viúva que lhe dá de tudo, do bom e do melhor, olá se dá, oh, oh, não foi capaz de resistir ao bater de pestana da empregadeca, o que aliás deixou deveras descontente o sr. Hortêncio que, parece, fala-se também, isto hoje é só má-língua, tinha um fracote por ela? Mas enfim, são vidas, quando o Faria que voltou a ser colocado em Santarém, voltar, lá pelas férias da Páscoa, altura em que, está até já prometido pela D. Micá, vamos comer o melhor borrego no forno que se come em toda a região de Lisboa e Vale do Tejo, cozinhado especialmente para nós pelo Januário Pitinha, que é um alentejano dos quatro costados e ainda é dos que aquecem o forno a xerogases e ramos secos de oliveira e chapotas de azinho para fazer brasa para isolar a porta do forno, quando ele vier de férias, dizia eu, vou-lhe perguntar se é verdade aquilo da pequena, pois todos já estávamos a começar a admirar as camisas de marca, os blasers da Sacoor, as gravatas de seda (para falar a verdade a que usou no réveillon, era um bocado apanascada), os sapatos Carpelio, enfim, tudo do bom e do melhor, repito o que já tinha dito acima, que a viúva lhe orientava. Mas com este derivar, já me estava a esquecer que vos queria falar da Eduardinha. Há corpos que não foram feitos para serem criadas de servir. A Eduardinha, que é uma rapariga alta, terá talvez o seu metro e setenta e três, metro e setenta e quatro, usava uma farda preta que devia ser da outra, que era bem mais baixa, pois a saia ficava-lhe tão curtinha que deixava transparecer as rendas das meias brancas e até as molas do cinto de ligas, a blusa, preta também, estava-lhe bem apertada no busto deixando que os fartos seios com que Deus a brindou, realçados por um wonderbra branco, que se testemunhava pela parte superior da copa no decote da blusa, até pareciam querer sair-lhe da sua encapsulada indumentária. Ficava-lhe também a matar um aventalzinho branco, com bordado inglês do mesmo tecido que o cabeção. O mais interessante é que Eduardinha, fez há pouco uma plástica, colocou botox nas maçãs do rosto e nos lábios e maquilha-lhe primorosamente. Quando olhamos para Eduardinha, a lembrar os mais irreverentes desenhos de José Vilhena, não queremos saber para nada porque é que o Eduardo Aragão entrou, naquele dia, menos bem no salão de D. Micá ou se tinha jantado pataniscas de bacalhau com arroz de feijão, salpicado com coentros picados e decorado com quatro azeitonas novas. Quem é que quer saber disso?…   

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

186. As passas de D. Micá ou uma noite de Réveillon com fantasmas



Uma sala com pouco mais de vinte e cinco metros quadrados ostentava um bar, todo em mogno, fazendo um recanto onde algumas dezenas de copos se suspendiam de um teto incorporado e onde uma lanterna com lâmpadas de halogénio fazia refletir o brilho imaculado do cristal de chumbo. Nas prateleiras, garrafas com os mais finos whiskies, maltes de 30 anos, blendedes das mais diversas origens, alguns bourbons e vários irlandeses. Numa secção reservada aos nacionais, não escasseavam os Porto e os Madeira, alguns moscatéis de Setúbal, nomeadamente roxos e outros do Douro e, como não podia deixar de ser, o nosso bem conhecido Licor Beirão. Noutra prateleira perfilavam-se as cachaças, vodkas, runs e aguardentes velhas e mais umas quantas bebidas que nem vale a pena referir, tal é a diversidade de espirituosas que D. Micá faz questão que constituam recheio do seu famoso bar. Como era de se prever, estava reservado algum espaço para umas garrafinhas muito simpáticas de 0,25 l contendo leite magro com chocolate, um ex-libris da Fundação. Um sofá em forma de círculo e uma mesa de centro em pau-brasil completavam a mobília, com dois bancos altos junto ao balcão do referido bar.

Sentada num destes bancos, D. Micá, vestido vermelho comprido com uma racha lateral que surgia do tornozelo e terminava na anca, apesar dos folhos translúcidos, deixava ver as rendas das meias pretas. Nos pés os sapatos com salto de agulha de doze centímetros eram de verniz e o seu longo cabelo, penteado por Felisbela, a sua cabeleireira preferida do salão das Amoreiras, culminava em duas loiras tranças enroladas e cruzadas na testa como se fosse uma grinalda vitoriana. Nos pulsos, várias pulseiras de ouro e prata, em aros entrecruzados cujo blaisé do conjunto, fazia contraste com uma gargantilha preta incrustada de brilhantes Swarovsky e discretos brincos com aplicações de fino cristal. Na mão direita fazia girar, em gestos suaves, um copo em forma de flute, meio cheio de D. Perignon, ora cheirando ora degustando, com elegância, o seu conteúdo. A mão esquerda, com um anel solitário no anelar e um relógio Gucci com incrustações de diamante, deambulava de um lado para o outro ou em círculos, acompanhando o ritmo do conto com que nos tem vindo a entreter e que também nos brindou naquela noite de réveillon.

«De repente, como que por magia, a trovoada parou e nem mais uma gota de água caiu da negro cinzento dos céus. Penafiel sossegou em cima do tapete e Gatófio foi-se enrolar nas suas patas dianteiras. D. Bonifácio, tentou encetar o diálogo com Antonieta. Ou com o seu fantasma para se ser mais preciso.
- O que queres com essa caixa?
Fez-se um silêncio sepulcral. Penafiel rosnou. Gatófio nem se mexeu. D. Bonifácio, pacientemente, esperou uma resposta. Uma forte corrente de ar, de desconhecida origem, apagou o castiçal que estava em cima do aparador. Então uma voz cavada, com o timbre da outrora voz de Antonieta mas com um assustador vibrato, respondeu.
- São os teus restos.
Não se notou nenhum ar de perplexidade no rosto de D. Bonifácio. Bateu três vezes com a bengala no chão. Penafiel ergueu-se e espreguiçou-se. Uma buzina de carro escutou-se, vinda algures do portão de ferro. Um fogo-fátuo acendeu-se sobre a cabeça de Antonieta e Gatófio soltou uma gargalhada, uma humana gargalhada, talvez melhor dizendo, uma sobre humana gargalhada e o som de um violino, tocando uma música triste começou a encher o compartimento.
- O que queres de mim, Antonieta? – Perguntou, mantendo uma calma que ora parecia real ora se assemelhava a uma calma aparente.
- Tens de te confessar - disse-lhe Antonieta, e o som do violino foi agora substituído por cânticos gregorianos como se a mansão de D. Bonifácio fosse agora um enorme convento.
Gatófio voltou a rir-se e Penafiel ladrou-lhe. Gatófio esticou as quatro patas e elevou a cauda que, entretanto, parecia um escovilhão.
De novo se ouviu a buzina do carro, agora acompanhado de mais umas quantas buzinas de outros carros estacionados na ampla garagem da mansão. Antonieta sobrevoou o chapéu de D. Bonifácio e dirigiu-se à janela. A noite estava calma, mas Aristides estava com um apito na boca e fazia gestos como que a regular o trânsito. Uma música brasileira substituiu o cântico gregoriano.»

D. Micá calou-se. Pediu às quatro pessoas que a ouviam com atenção e interesse o desenrolar da fantasmagórica e, mais tarde, ver-se-á, arrepiante história de D. Bonifácio da Assunção, paciência, mas naquela noite ela não estava em condições de continuar a narração. Estava preocupada com outra coisa. Faltavam cinco minutos para a meia-noite e Eduardo Aragão ainda não tinha chegado. E se apesar do champanhe e de uma mesa bem farta, com leitão da Bairrada e camarões de Madagáscar, champanhe genuíno e algum, pouco, leite magro com chocolate, se Eduardo não chegasse antes das doze badaladas com a caixa de passas de uva sem grainha que ela lhe tinha encomendado, aquilo não era meia-noite digna de uma passagem de ano, não era nada. Mas antes que o anúncio da Raposeira ou da Coca-cola, do Óleo Fula ou da Aqua de Gio passassem nos écrans das televisões, interrompendo a contagem decrescente, a campainha da porta tocou.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

185. A consoada de D. Micá



As portas da sala de jantar de D. Micá raramente eram franqueadas aos seus convidados. O salão, o varandim, a copa de apoio e os WCs socias eram mais do que suficientes para se passarem serões agradáveis. Ali se tocava piano, ali se tocavam guitarras, ali, principalmente, se contavam histórias. Uma vez por outra, se falava de moda e, com menos frequência, se falava da vida alheia. A não ser que isso viesse a propósito. Quanto a religião, futebol e política eram quase temas tabú embora não fossem proibidos. Só que havia sempre alguém que, quando a conversa decaía para esses temas, se propunha a contar uma história e todos assumiam que os serões na D. Micá eram para isso mesmo. Mas naquela noite foi diferente.

A comprida mesa estava posta e o lugar de topo reservado para D. Ermelinda. À sua direita, a cadeira pertencia a sua filha D. Micá e os restantes lugares seriam ocupados por um protocolo muito pouco definido, mas que todos assumiam que os lugares mais próximos das anfitriãs seriam ocupados pelos amigos mais antigos. Eu, que por deferência de D. Ermelinda e por insistência de D. Micá, me viria a sentar no topo oposto da mesa, perdia assim a oportunidade de privar mais de perto com a mãe e a filha mas, em contrapartida, ficava num lugar privilegiado para tomar nota de todo e qualquer detalhe. E é por isso que vos digo que a mesa de consoada de D. Ermelinda, fazia juz à atual presidente, por inerência, da Fundação para a divulgação e incentivo ao consumo do leite magro com chocolate ou, abreviando, da FPADEIACDLMCC.

O serviço de copos era completo e estava quase completo na mesa. Só para que conste, o cristal era Atlantis de 24% de Pb3O4, isto é, de extrema pureza, constituído por um copo para água, dois copos para vinho, branco e tinto e ainda uma flute para os apreciadores de champanhe à refeição. Apenas os copos de licor se reservaram para a sobremesa. Um lindo serviço Vista Alegre, com prato de entrada, um prato de sopa e dois pratos de prato principal, pois, na noite da consoada, havia não só o tradicional bacalhau com couves, ovo cozido e batata, mas também o mais suculento peru assado em forno de lenha, que acabara de chegar diretamente da Arruda. Eram aliás dois perus e não apenas um, dado o número de convidados que se sentariam à mesa. No salão, uma grande mesa de vidro, ali colocada apenas para a época, estava recheada das mais apetitosas vitualhas, onde não faltavam as filhós, os sonhos e as azevias, as rabanadas, a aletria doce por cortesia ao Armindo e à Tansinha que são do Porto, os figos secos e as nozes, as amêndoas torradas e pinhões descascados, as frutas cristalizadas e as avelãs, a lampreia de ovos e o tronco de chocolate, ameixas secas, damascos, sultanas doiradas, passas de uvas sem grainha, já para não falar de uma taça com mousse de chocolate e um cesto de frutas frescas com líchias, romãs, ananás dos Açores, mamão do Brasil, mangas importadas via aérea, laranja do Algarve, uvas chilenas e uma enorme taça com cerejas compradas numa frutaria da baixa que as importa diretamente da África do Sul, especialmente para esta época festiva. Infelizmente, o Armindo não chegaria a tempo para jantar, pois uma tão arreliadora como inesperada avaria no seu novo automóvel, fê-lo ser anunciado pelo segurança Alfredo já passava das 23:00h. Ainda assim, na copa, a sempre diligente Estela, uma empregada que veio servir para Lisboa no século passado e que já passada dos cinquenta anos foi cooptada por D. Ermelinda, preparou-lhe uma sandes de peito de peru com maionese e uma folha de alface e um copo de vinho tinto. Depois juntou-se ao grupo para comer uma broa castelar já que os diabetes não lhe permitiam abusos de qualidade nenhuma.

Vieram o Pedro Rebocho e a Marta Caracinha, como não podia deixar de ser, ela de totós e ele com mais gel do que cabelo, mas ambos, desta vez, impecáveis no traje, se bem que eu não tenha gostado muito da bolsa da Marta. Havia ali qualquer coisa que não condizia, mas tenho de olhar com mais atenção para as fotos para o poder detalhar. Foram também convidadas a Geninha e a Luisinha Monteiro, que por pouco não virava, esta, uma garrafa de champanhe na antecâmara do jantar, enquanto a primeira, para não se ficar atrás, ia bebendo shots de vodka. Pelo que se me foi dado observar a Geninha já estava bêbada antes de ser servido o bacalhau, mas se, mesmo atendendo a este comportamento desviante e habitual da Geninha, a D. Micá a continua a convidar, é lá com ela que eu não tenho nada a ver com isso. O Fagundes também veio, trazia uma bonita gravata Hermès e um blaser muito fino comprado na Sacoor, azul-escuro com botões dourados. Segundo consta, depois do par de cornos que Graziela lhe tinha pespegado com o Faria, o professor do ensino secundário, andou um bocado abalado e um tanto ou quanto à deriva mas, parece-me (e também consta aqui nos bastidores dos soirées da D. Micá), que namora uma senhora fina, mais velha que ele uns catorze anos, viúva, com uma boa renda mensal, mas que, talvez por estratégia, ainda não contou nada aos seus parceiros das quintas-feiras à noite. Mas a D. Micá, inevitavelmente já conhece a história toda. Um dia contar-nos-á. O Pedro Pinto Aragão, primo do Eduardo, por se encontrar a usufruir dos quarenta graus do Rio de Janeiro mandou uma mensagem de Boas Festas para todos e claro está com os desejos de um Feliz e Santo Natal. O Justino Carlos veio com a mulher, ela toda espampanante, com uma gargantilha incrustada de brilhantes e uma pulseira a fazer pandan e o Justino com um alfinete de gravata, em ouro de lei de 24 quilates. No aperitivo, enquanto eu espetava um palito num camarão com alho e ervas provençais, segredou-me, «isto foi o corno», que era como ele designava o amante da mulher, «que pagou» e apontou para o alfinete. Jantaram também connosco o Ricardo e o Adriano, uma vez que a Rafaela iria consoar com os pais dela e que os pais do Ricardo estavam emigrados na Suíça. Já o Adriano, por questões relacionadas com a crise no seu emprego, não pode ir seque à terra e por isso também se juntou a nós. Felisberto Passinhas e Sebastião Jerónimo fizeram a noite de consoada com as respetivas famílias mas o Ezequiel Canário e o Julião Guedes vieram. este último muito mais atinado do que é habitual pois passou pela Luisinha Monteiro e não lhe apalpou o rabo. Com certeza que era por ser noite de Natal. Foi bonito ver Efigénia chegar com Henriqueta. Apesar da condição de prostituta da Henriqueta, D. Micá gostava dela. Só lhe pediu para desta vez não vir de minissaia cor-de-rosa por cima das leggings brancas, nem de casaquinha de pelúcia roxa, ao que Henriqueta deu uma gargalhada e segredou-lhe «Ó filha eu vou ser a gaja mais elegante da tua mesa de consoada». E só não o foi porque D. Micá nunca deixava os seus créditos por mãos alheias, ou seja, quero dizer exatamente o contrário, pois foi pelas mãos de Tenente que ela estava deslumbrante que nem uma princesa. E com um decote que, olalá, nem vos conto.

Pois eram mais os convidados, os vinte e quatro lugares estavam ocupados, até o otorrinolaringologista Luís Lopes Lacerda, o casal Carlota e Paciência Monteiro, o dr. Fabrício Páscoa e, claro está, o meu amigo Eduardo Aragão estiveram na nossa consoada. Hoje, Eduardo entrou discretamente, vinha acompanhado por uma senhora casada, sei-o eu porque a conheço de outras andanças e, quiçá, sabê-lo-á D. Micá, que ele apresentou como menina Lucinda, obrigando-me a disfarçadamente pigarrear e receber um olhar cúmplice da “menina”, cujo marido é oficial da marinha mercante e estaria nesta noite a consoar com uma turbina a vapor ou um motor a fuel . Trazia com ele um saco de grandes dimensões e, tendo segredado qualquer coisa a Estela, entregou-lhe o saco, sendo que, depois, mais descontraído serviu-se de um Chivas Regal de 18 anos, olhou para D. Micá e brindou à FPADEIACDLMCC.

Já vinte e três se tinham sentado à mesa, quando olhando uns para os outros, inquirimos a menina Lucinda sobre o paradeiro de Eduardo. Ela, corou, colocou a mão à frente dos lábios e sorriu. Eis se não quando, vindo do WC contíguo, logo atrás de Estela, que saía da copa com uma bandeja cheia de postas de bacalhau asa branca do Atlântico Nordeste e ornamentada com ovos cozidos, surge o nosso Eduardo Aragão, em traje de Pai Natal. Todos riram, só eu não achei qualquer piada porque uma rocambolesca história, com traje similar, em outro Natal fê-lo consoar nos calabouços da polícia, ainda por cima, podre de bêbado. Mas da vida de Eduardo Aragão falar-vos-ei quando for oportuno, que hoje é noite de Natal. E pode também trazer o peru, amiga Estela.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

184. D. Micá e a fruta do tempo (ou a história de D. Camelinha)



“Antonieta parecia calma. Uma calma fantasmagórica, na palidez do seu rosto. Fez que se sentou ficando a planar sobre o sofá, perna traçada, deixando cair o branco véu que, na posição em que ficou, se deixava embalar pela corrente de ar, aparentemente injustificada, já que a criadagem se encarregara de cerrar portas e janelas, deixando ambos trancafiados no vasto salão dos espelhos. Apenas Penafiel, o fiel cão de D. Bonifácio, um pastor belga de leonina juba e Gatófio, um gato magrelas que Antonieta tinha adotado antes de morrer, tinham sido autorizados a ficar. No momento em que a corrente de ar se acentuou, pondo a nu, as alvas coxas de Antonieta, não conseguindo D. Bonifácio, ou não tendo tempo para, desviar o olhar, o ribombar de um forte trovão fez estremecer todo o edifício. Instantaneamente, Penafiel começou a ladrar e Gatófio deu um fabuloso salto tentando anichar-se no regaço de Antonieta. Em vão esperneou pois que trespassou roupas e colo, tendo-se estatelado no chão, por falta de sustentáculo. Em boa verdade, dada a sua natureza felina, Gatófio caiu sobre as quatro patas mas, ato contínuo, desatou a correr de cauda eriçada pela estupefação, percorrendo os quatros cantos da sala à procura de um onde se escondesse. Não contente com tanta algazarra e ainda assustado com o estrondoso trovão, Penafiel dirigiu os seus latidos a Gatófio ao que este lhe fez “fuuuuummm”. Contado que foi os desatinos de gato e cão, deve dizer-se que Antonieta assistiu a toda esta balbúrdia como se nada se tivesse passado e que D. Bonifácio mostrou alguns sinais de nervosismo, pois por duas vezes deixou apagar o fósforo quando tentava acender um charuto. Ou então não. Ou então foi a brisa que lhe apagou os fósforos. Mas isso nunca se virá a saber porque que também não o sei”, concluiu D. Micá, visivelmente empolgada com o desenrolar da sua história.

Parou por aqui a sua narração, levantou os olhos com um olhar de preocupação e olhou em redor. Se bem que lhe era notório que hoje também não estaria nos seus melhores dias, tendo por mais do que uma vez puxado pelo lenço, por sinal da mais fina cambraia, magistralmente bordado por dona Camelinha, uma minhota que há muito se radicou nas avenidas novas, desde os tempos em que veio acompanhar um afilhado que cursou engenharia metalúrgica no Instituto Superior Técnico, acabando por cá se radicar, ao contrário do afilhado, que também era sobrinho, que regressou a Viana, mais propriamente a Afife de onde era natural, por mor de trabalhar nos estaleiros. Pudera que dona Camelinha não por cá se tivesse quedado pois, quando ainda nem os quarenta anos houvera feito, conheceu o senhor Policarpo Santana, um abastado comerciante de bacalhau da Rua do Arsenal e com ele se amantizou, até que o senhor Policarpo Santana se finou com um enfarte, pois ter relações sexuais tão intensas com uma mulher ainda no fogo da idade, ele que já tinha quase trinta e cinco em cada perna, como gostava de se gabar, não lhe era muito aconselhável e dizem as más-línguas que tão pouco era proficiente. Deixou-lhe um dinheirinho, coisa pouca, dizia dona Camelinha, mas não se sabe bem ao certo de quantos contos de reis se tratou, já que dois prédios, um dos quais no Areeiro, deixou ele a um sobrinho que era magarefe no matadouro dos Olivais e outras propriedades a uma afilhada, também ela sobrinha, que era beata e que vivia mais tempo entre paredes seculares do que em sua própria casa, se bem que toda a gente afirmasse que era uma santa mulher e que a ela nada se podia apontar nem com a cabeça do dedo mindinho que fosse. Pois o lenço de D. Micá já tinha todo bastante uso essa noite e o mesmo se pode dizer de Januário Pireza, que até tinha espirrado seis vezes consecutivas e do Carlinhos Epicurista, assim chamado desde que se formou em filosofia e defendia teorias bem próximas de Epicuro, que andava a tossir uma tosse cavada que o deixava quase sem ar. Já a Graciete Malheiro, colocou várias vezes as costas das mãos na testa, fazendo com esse gesto como que uma elegante vénia, uma vez que tirava sempre a luva arrendada da mão direita, dizendo, para que todos ouvissem, «parece-me que estou com febre». A um canto, D. Ermelinda, sua mãe, mãe de D. Micá está bem de ver, bebia um chá de limão bem quente, adoçado com mel e sorvia um cálice de uma boa aguardente de vinho verde que desde miúda o via fazer a seu falecido pai. É assim, neste clima de espirros, assoadelas e estados febris que, com ar preocupado, D. Micá se virou para mim e perguntou, afirmado ao mesmo tempo:

- E o Eduardo Aragão? Ainda não o vi por aqui hoje.

- Pois não - respondi. Telefonou-me a dizer que não viria. Parece que está com gripe.     


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

183. Micá e o chá de Eduardo



Quando o meu amigo Eduardo Aragão ouve falar em chá começa a ficar em transe. Nem por brincadeira, quando ele saboreia um puro malte, se lhe pode referir ao chá da Escócia e se, nalguma tertúlia, alguém se refresca na mousse de uma cerveja bem tirada, nenhum infeliz tente sequer insinuar a expressão plebeia do “chá” de Vialonga. Muitas das pessoas que frequentam os serões de D. Micá, a bem dizer a maioria, não conhece Eduardo Aragão tão bem como eu o conheço pelo que, a história de hoje foi contada por mim próprio e não, como habitualmente, pela nossa incontornável D. Micá. A propósito deste meu conhecimento profundo de Eduardo Aragão, talvez um dia, se se proporcionar, eu aqui vos conte detalhadamente a história da sua vida. Mas se o fizer será bem mais lá para a frente, já que a outras coisas mais importantes se deve dar prioridade.

- Conte-nos cá essa história, Constantino – pediu-me D. Micá depois de Eduardo ter dado as boas noites e, com o argumento de que teria uma viagem bem cansativa este fim de semana, colocara um boné de pura caxemira aos quadrados em dois tons de azul, um marinho, outro azul ultramarino, já que o frio se faz sentir, levantou a gola do sobretudo, atou ao pescoço um cachecol Pierre Cardin, e saíra. Poucos minutos passados, a dr.ª Gisela, esposa de um diplomata itinerante, saiu também.

- Com certeza, por quem é – respondi-lhe cordial e formalmente, como quase sempre é o nosso tratamento. E foi assim, que depois de ter aquecido as entranhas com uma chávena de cacau quente e fumado uma cigarrilha espanhola que me foi ofertada pelo Ezequiel Pintasilgo, um novo camarada destas tertúlias, figura caricata, com uma pequena barbicha a pender-lhe do queixo e um bigode tipo mosca não mais largo que as narinas que veste camisas com gola à padre e coletes de cores garridas e que só fuma cigarrilhas espanholas, pigarreei para aclarar a voz e comecei, mais do que a explicar a fobia de Eduardo Aragão ao chá, a contar a história que lhe deu origem.

Como já vos falei anteriormente, não que com isso queira falar da vida de Eduardo Aragão, este meu amigo sempre teve um fetiche, chamemos-lhe uma queda, para evitar estrangeirismos, por mulheres casadas. E, apesar da educação que os pais lhe deram, em bons colégios de base religiosa, Eduardo Aragão não conhecia por vezes os seus limites. Não foi portanto de estranhar que sempre que se cruzava com Carlota Monteiro, uma senhora a rondar os seus trinta e seis anos, bem empregadinhos, visto a correção do seu porte, as linhas definidas das suas ancas e a beleza das suas coxas, uma cintura quase que poderíamos dizer de vespa e um busto não demasiado farto mas que se realçava pela firmeza, fosse isso no restaurante que ambos frequentavam no intervalo para almoço, fosse na repartição de finanças onde a bela Carlota Monteiro trabalhava e que Eduardo frequentava sob qualquer pretexto, mesmo que não houvessem impostos para pagar, nem valores a declarar, fosse ainda no autocarro que, Eduardo Aragão, por mera “coincidência”, apanhava juntamente com Carlota Monteiro, nem que para isso fosse obrigado a regressar pela mesma via, para pegar o carro que entretanto estacionara num parque próximo da paragem, pois não havia ocasião que Eduardo não transmitisse a Carlota Monteiro o seu desejo de um dia tomar um chá com a senhora. Aqueles convites perturbavam Carlota. Se é verdade que a presença tão assídua de Eduardo na sua vida a começava a atrapalhar, não fossem as más-línguas começarem a fazer conotações erradas, não menos verdade é que a própria Carlota começou a sentir, ela própria um secreto desejo de tomar chá com o meu bom, mas um tanto ou quanto descabeçado amigo, Eduardo Aragão. Mas não. Ao invés do que os seus pecaminosos pensamentos tentados em desejos a invetivavam a fazer, Carlota introduziu cautelosamente o tema ao seu muito ciumento, quiçá por vezes colérico marido o senhor Paciência Monteiro, comerciante de prestígio, cujos armazéns importavam as mais belas e qualificadas sedas da Índia. Debalde toda a diplomacia e cautela de Carlota. Inesperadamente, o senhor Paciência Monteiro ordenou-lhe que ela aceitasse o convite mas na condição de o tomar em sua própria casa, a deles, a do casal Monteiro. E assim se decidiu, assim se fez, pois que Carlota Monteira, argumentando com Eduardo de que estava cansada de tanto assédio, se dispôs a aceitar o convite, mas fê-lo nas condições impostas pelo marido.

- E ele? - perguntou preocupado Eduardo Aragão.
- Não estará – respondeu, ligeiramente nervosa por estar a mentir, Carlota Monteiro.
- Não estará?! – perguntou exclamativamente Eduardo Aragão, parecendo incrédulo com a resposta, mas ao mesmo tempo denotando, para quem estuda essas coisas da expressão facial, um certo ar de satisfação. E ainda acrescentou, no mesmo tom: - Como não está?
- Este fim de semana, ele terá uma viagem de negócios pelo que se ausentará sábado de manhã e só regressará no domingo pela tardinha.

Para Eduardo, o meu bom amigo, mas um tanto ao quanto desbragado, outras coisas lhe começaram a passar pela ideia, visto tão prolongada ausência de Paciência Monteiro lhe poder proporcionar algo mais do que uma chávena de chá, quem sabe se acompanhada por algum biscoito caseiro, sim que Carlota, tinha ar de quem era mulher de perceber de pastelaria. E não lhe perguntem porquê que ele achou isso, que ele, com toda a certeza não responderá e já vão saber porquê.

Resumindo para que se não enfastiem, contar-vos-ei que, como era de esperar e com a desculpa de que o seu propósito, por motivos alheios à sua vontade fora adiado, Paciência Monteiro foi ele em pessoa quem veio à porta receber o meu amigo Eduardo que, com toda a educação que recebera em criança, não quis deixar as suas boas intenções a débito e aceitou entrar para tomar chá, desta vez, com o casal. Não se tocaria no assunto dos vários convites para um “chazinho” como o meu amigo se referia nas aproximações a Carlota, não fora o caso de depois de tomada a primeira chávena de chá e recusado que fora a degustação de um biscoito caseiro, Eduardo não tivesse resolvido que havia chegado a hora de agradecer tão amável receção e tenha decidido retirar-se.

- Ora essa – dizia Paciência Monteiro – não convidou Vossa Excelência por mais do que uma vez a minha esposa para um “chazinho”, como era sua a expressão? Pois se o fez não é agora que ainda mal começamos que já vai querer debandar de nossa casa.

E, ato contínuo, serviu-lhe mais uma chávena de chá e ainda outra, depois mais outra e tantas mais que Eduardo Aragão esteva à beira de uma congestão por excesso de líquido ingerido, tendo chegado a perder a consciência.

Vendo assim o convidado naquele despropósito, desmaiado sobre a carpete, uma chávena de porcelana inglesa decorada com motivos florais literalmente em cacos no meio do chão, pouco faltou para que o casal Monteiro entrasse em pânico. Mas, no meio da confusão e da aflição, sim da aflição, porque não dizê-lo, ainda houve o discernimento de Carlota para limpar os vestígios e levantar a mesa e para Paciência ligar para um amigo seu, o Dr. Fabrício Páscoa, que embora fosse médico veterinário, sempre saberia melhor do que eles resolver a situação. Sem explicar ao dr. o que exatamente se tinha passado, receberam o Dr. Fabrício como se fosse um Deus, deixaram que o médico mexesse e remexesse no corpo inanimado de Eduardo, apesar de tudo com uma respiração normal e sem sintomas de qualquer traumatismo, lhe abrisse a pestana para ver os olhos e até, talvez por deformação profissional, lhe abrisse a boca e desviasse a queixada, verificando-lhe assim língua e dentes. Com calma e usando uma solução que tresandava a amoníaco, fez o dr. Fabrício Páscoa com que o meu amigo retomasse os sentidos e, quando ele já parecia restabelecido, aconselhou-o:

- Agora vá para casa, descanse um pouco e antes de se deitar tome dois destes comprimidos – e passou-lhe para a mão um blister contendo quatro comprimidos brancos, pequeninos, acrescentado – e quando acordar tome os outros de dois. De preferência com uma chávena de chá.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

182. O colar de D. Micá



“Apenas uma mantilha, diáfana e branca, cobria o corpo de Antonieta. O clarão dos relâmpagos mostrava um corpo nu na translucidez do véu. Mas mais alvo que aquilo que a cobria era a sua pele. O seu rosto, de olhos encovados e debruados a preto, era como uma máscara veneziana. D. Bonifácio d’Assunção parou à sua frente. De repente não parecia ter-se impressionado. Apenas lhe perguntou:
- Que queres?
E lembrou-se da caixa que tinha recebido nessa tarde.
O fantasma de Antonieta girou sobre si próprio ficando de costas para D. Bonifácio. Deu alguns passos em frente e, ato contínuo, foi seguida pelo pastor belga que rosnou. D. Bonifácio fez um gesto e um dos empregados puxou a trela ao cão. Este sentou-se mas não parou de rosnar. Uma aura de luz circundava agora o fantasma. O criado da lanterna apagou-a e Aristides deu o braço a D. Bonifácio, apoiando-o”.

À entrada da porta do salão ouviu-se um estardalhaço inesperado. Parecia que a criada de servir estava possuída. Sem nada que o fizesse esperar, tropeçou num Arraiolos que uma amiga de D. Micá fez numas aulas de artesanato que frequenta num Centro Social, por acaso muito bonito e que nada fica a dever aos mais famosos processados na Igrejinha ou em qualquer outra localidade de Arraiolos, e estatelou-se no meio do chão entornando todas as canecas de cacau quente e os copos de leite magro com chocolate, pirogravados com as armas da Confraria, e o nome escrito em gótico ou em letra francesa, não sendo eu um especialista para o poder distinguir. Todos os copos se quebraram e apenas uma das canecas, de fina loiça da Vista Alegre, não se partiu, mas, infelizmente, ficou sem asa o que acabou por dar no mesmo. A moça, que D. Micá tinha empregado a pedido do senhor Hortênsio, que já tinha sido merceeiro na Lapa e era muito amigo da família, veio, depois de ter bebido um copo de água com açúcar e se ter abanado com se sofresse de afrontamentos, já sentada numa cadeira, a confessar que ao ouvir, assim por alto, a D. Micá falar em fantasmas, lhe tinha passado uma coisa pela cabeça e que uma tontura muito grande a tinha desequilibrado. Os convidados de D. Micá, olharam uns para os outros e assentaram com a cabeça que poderia, sim, ter sido muito bem isso, já que há muita gente que se impressiona com estas coisas.

Restabelecida que foi a situação, foi a vez da Carlinha Menezes comentar o vestido branco com que D. Micá os recebia hoje, e do lindo colar, naturalmente caríssimo, que enfeitava o seu pescoço. Eduardo Aragão, um amigo meu que frequenta amiúde estes serões, foi ele mesmo à copa que serve de apoio não só ao aposento onde se contam as histórias, mas também a uma pequena sala de repouso para os que se “excedem” no consumo de copos de leite magro com ou sem chocolate, buscar um copo de água com açúcar para se acalmar. O colar que D. Micá ostentava era exatamente igual a um que Eduardo oferecera a Antonieta, nos tempos em que foram amantes. Mas da vida de Eduardo Aragão falar-vos-ei, quando for oportuno.





sexta-feira, 30 de novembro de 2012

181. Tempos difíceis




Uma nuvem de cheiros atravessou a casa e penetrou-o no estremunhado sono que ainda lhe restava. Um agradável odor, misto de café e torradas, anunciava-lhe a presença de alguém na cozinha, onde um tiritar de colher beijando a chávena confirmava um leve receio. Estendeu o braço esquerdo perpendicularmente ao corpo e obteve a certeza da primeira desconfiança. Ela já lá não estava e um apenas quase vazio era preenchido por uma almofada. Do outro lado com uma ligeira apalpadela descobriu os óculos e colocou-os. Depois abriu os olhos e pestanejou várias vezes como que a dar os bons dias ao raio de luz que atravessava a frincha da janela mal fechada. Desceu cuidadosamente da cama (a malvada dor de coluna acompanhava-o há largos anos), mal acordado, olhou em volta e descobriu na cadeira onde tinha deixado de véspera o roupão em cetim azul-escuro que ela lhe tinha oferecido no início deste verão. Por uns momentos ficou a pensar na importância que tem uma cadeira de quarto, no seu papel de fiel depositária e da tranquilidade de um objeto que durante anos não sai do mesmo local. Palermices, pensou, será a idade… De repente alteraram-se-lhe os humores (terá descoberto que dia era hoje?). Arrastou os pés até estes se enfiarem nos chinelos, quase com uma precisão matemática. Pudera. Durante mais de quarenta anos colocava os chinelos de quarto sempre no mesmo sítio e sempre que se levantava era a segunda coisa que procurava. A primeira eram os óculos depositados sobre o livro da noite na mesa-de-cabeceira. Pegou no roupão, seguiu a trilha dos cheiros e observou-lhe a nuca prateada na entrada da porta da cozinha. «Bom dia!», disse-lhe ela, mal o pressentiu. «Bom dia», respondeu-lhe ele, acariciando-lhe o cabelo e debruçando-se para lhe beijar o pescoço. «Acho que adormeci», acrescentou, como que a desculpar-se. «Porque não me acordaste?», perguntou-lhe semicrítico mas com uma entoação carinhosa. «Hoje vou chegar atrasado», concluiu. Depois numa autocrítica pesarosa terminou murmurando «maldito vício de adormecer agarrado aos livros. Esta noite, juro, apagarei a luz mais cedo e serei eu quem fará amanhã o pequeno-almoço». Ela rodou a cabeça, olhou-o com ternura nos olhos, pediu-lhe que se sentasse no lugar em frente e relembrou-o «Agora já não precisas». Uma pequena lágrima correu-lhe, inevitável, pelo rosto. Pela primeira vez, desde os seus vinte anos de idade, que não tinha de ir trabalhar à segunda-feira. E vieram-lhe à memória, numa catadupa de imagens, os anos da fábrica que acabara de fechar. Como que um macaréu, uma ânsia subiu-lhe corpo acima num curto percurso do estômago ao peito. Baixou a cabeça, e começou a barrar o pão com doce de cereja. Uma segunda lágrima caiu-lhe na chávena de café.


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