domingo, 25 de novembro de 2012

180. A coleção de cromos da D. Micá




O que se passou esta semana em casa de D. Micá é absolutamente indescritível. E hesitei muito em vos contar. Conhecem aquele dilema do conta-não-conta? Pois foi, fiquei com uma enorme vontade de vos contar mas também com um desmedido receio de que não acreditem em nenhuma das palavras que vos escreverei aqui. Mas, como já puderam constatar ao longo destes meus relatos em casa da também indescritível, passe a repetição do vocábulo, D. Micá, tirando a história da vida de D. Bonifácio d’Assunção, que a própria conta, nada há aqui que possa ser considerado inverosímil. E por falar em indescritível (lá estou eu a dar-lhe), quase que tinha vontade, antes de contar o que me propus, de dizer como estava deslumbrante a D. Micá, nessa noite. Mas não mais vou adiantar pois senão perder-me-ei do essencial. Se depois surgir a oportunidade falarei do novo Ana Salazar com que nos recebeu e do solitário de Neil Cane que trazia no anelar da mão direita. Foi no entanto uma noite hilariante e simultaneamente muito constrangedora. Principalmente para uma pessoa como eu. Por mero acaso o meu amigo Eduardo Aragão, que tem uma história de vida interessantíssima e que um dia destes ainda a contarei por aqui, não estava presente, poi se estivesse imagino como reagiria.

Até agora tudo parece muito confuso mas eu tentarei esclarecer o melhor possível, se para isso tiver engenho. Apesar da situação hilariante que vos vou descrever eu disse que a coisa, também se tornou constrangedora. Agora, cabe-vos a vós inteirarem-se de porque é que eu assim a classifico.

Foi a primeira vez que os vi por lá e não os conheço. Quando o Columbano Queirós me foi apresentado, estendeu-me a mão e disse, o trivial nestas circunstâncias:

- ulumbano eirós, muito prazer.

Peço desculpa por o confessar, mas deu-me uma vontade tremenda de me rir. Não que uma pessoa não possa falar sem o C numa palavra. Ou o Q, naturalmente. Mas uma pessoa que foi batizada como Columbano e que ainda haveria de ter como apelido Queirós, é que logo no seu desenvolvimento oral lhe haveria de acontecer não pronunciar o C. Na verdade eu próprio tenho um familiar que não pronuncia esse som e que, por ironia do destino, se chama Carlos. Mas, do mal, o menos. O seu apelido é Fernandes e a questão atenua-se. Estava eu com estas considerações com D. Micá quando ela me disse que para cúmulo o Columbano, não só se chama Columbano, como também tem como apelidos Cortes Queirós. Não houve compostura que resistisse e desatei-me a rir, de tal maneira que me engasguei e quase sufoquei. Felizmente estava presente um outro amigo de D. Micá que logo ali me socorreu. Embora não fosse das minhas relações já tinha visto, salvo erro na Baixa, uma placa do seu consultório, talvez na Rua dos Douradores, Luís Lacerda – Otorrinolaringologista. Pois já sei o que estão a pensar. Devem estar neste momento a pensar se o Constantino não vai aqui dizer que o homem não pronuncia o L. Na mouche. Simpático e desinibido o dr. Luís Lacerda ordenou-me «uevante os braços, senão está uichado». Bom, só faltava mesmo que o dr. Luís Lacerda se chamasse Luís Lopes Lacerda. Já seria demais. E enquanto pensava nisto, a D. Micá, quis inteirar-se do meu estado de saúde, trouxe-me um copo de leite magro com chocolate e um cacauzinho quente, que o tempo já convida, perguntando-me qual preferiria mas, antes que eu respondesse, atirei:

- Não me vai dizer que o homem se chama Lopes. 

Pois, desta vez pude tomar o cacau à vontade. Ela disse-me que não sabia, mas que tudo levaria a crer que não. Seria uma grande coincidência e aí sim, ninguém iria acreditar em mim quando eu o contasse. E estávamos nós nisto quando um tipo de fato escuro e gravata berrante, com um bigode à Emiliano Zapata e brilhantina na cabeça (acho que exagero, seria talvez wet gel), ar de vendedor de automóveis, dá uma palmada nas costas do otorrinolaringologista, que mais me apeteceria dizer otorrinouaringuogista, e saúda-o em voz alta, para quem o quis ouvir:

- Estás pogueigo ó Lopes, ou não quegues dizêgue?

Ao que o nosso médico especialista retorquiu:

- Oha o Rui Guiuerme. Bons ohos te vejam!

Eu deixei cair o cacau em cheio em cima de um tapete novo, um persa genuíno, que D. Micá tinha adquirido numa bienal em S. Bartolomeu de Messines, ficando ainda mais constrangido com o que tinha acabado de acontecer do que com o facto de me querer rir e não poder, tão perto que estávamos dos protagonistas. Só fiquei mais descansado porque a D. Micá logo me disse «não se preocupe Constantino, não tem importância». Afastamo-nos os dois enquanto uma rapariga, loira e muito branquinha, que falava com sotaque ucraniano, ia limpando tapete e chão para onde também tinha espirrado o meu copo de cacau quente. O vendedor de automóveis chamava-se Rui Guilherme ou, na sua própria maneira de dizer, Gui Guilhégueme.

Tenho a certeza de que quando eu for contar isto ao meu amigo Eduardo Aragão, jocoso como ele é, não só me vai dizer que eu poderia ter arranjado melhor, que poderia ter arranjado um tipo que não falasse com nenhuma daquelas três letras, que se chamasse Rui Luís Columbano Guilherme de Lopes Lacerda e Cortes Queirós. E no fim ainda remataria: “E que fosse gago”.

domingo, 18 de novembro de 2012

179. Eu também era capaz de me arrepiar




Eduardo Aragão, o meu grande amigo de quem vos falarei um dia mal o tempo mo permita, teve alguns problemas na vida que o deixaram, como na gíria se poderia dizer, a bater mal da bola. Nessa época e apesar da crise porque passava, só lhe apetecia namorar. Infelizmente para a sua relação com Maria do Carmo Centelho de Albuquerque e Silva, uma moça da classe média alta, gerente de uma cadeia de distribuição de cosméticos, filha de um ex-secretário de Estado e neta de um maçon de grande nomeada na nossa praça, esta sua tendência para outras saias que não as da esposa e o pior, porque se enrabichava frequentemente com mulheres casadas, isto não eram comportamentos toleráveis. Mas de Eduardo Aragão, não vos falarei agora já que o que mesmo me interessa é contar-vos o que D. Micá nos narrou sobre aquela ida de D. Bonifácio d’Assunção à quinta, numa noite de tempestade, negra como breu e com Aristides a queixar-se do reumático. Então se o objetivo não era contar-vos a vida do meu amigo Eduardo, porque é que eu comecei este capítulo falando nele? A coisa é simples de explicar, mas terei de deixar um pouco mais para o fim, para manter o suspense.

Ora, D. Micá, empolgava-se sempre que falava de D. Bonifácio. Que se saiba nunca houve qualquer relação entre este fleumático senhor e o empreendedor Jovelino Azeredo, pai de D. Micá e comendador, ele mesmo o congregador da confraria do leite magro com chocolate. E se se empolgava, não se sabe porquê pois tudo leva a crer que, sendo D. Micá uma excelente contadora de histórias cor-de-rosa, episódios passados sob chuva torrencial, trovoada imensa e ensurdecedora, raios que riscam os céus, capazes de fazer em carvão qualquer sobreiro por mais altaneiro e produtivo que seja, ou qualquer gigantesca araucária por mais que o seu porte imponente tente dominar o parque, o jardim, a quinta ou o cerrado, ela não estaria na sua praia quando se tinha de referir a espíritos, fantasmas, almas passeantes, conversas com o além. E sobretudo, histórias que tenham velas que não sejam para alumiar o caminho de uma princesa ao altar, nunca foram ao que D. Micá mais se dedicou.

E foi, apesar do já referido supra, que D. Micá, hoje vestida com um par de calças branco, bem justo que não só lhe realçava os glúteos, mas também deixava transparecer os contornos de uma cueca em asa delta, deixando alguns dos paspalhões dos seus amigos com a água na boca, isto para não dizer que os whiskies ou os conhaques, tomados a certas horas, quando provavelmente já deveriam estar a preparar um copinho de leite magro e aquele comprimido para a enxaqueca, de roupão e chinelas, já com o pijama vestido, se toma nestas noites de outono, tem destas coisas e faz pensar em alcançar o inatingível, pois todos sabemos que D. Micá não é senhora dessas coisas.

«Sem receito, cabeça levantada, D. Bonifácio retomou o curto caminho. Agora a chuva intensificava-se e o pastor belga dava alguns sinais de inquietação. Começou a ladrar. Começou a ladrar forte. Um relâmpago iluminou todo o átrio em frente da ampla porta da mansão. Não havia dúvidas. Desta vez não havia dúvidas. O cão ladrou, o relâmpago deu luz aos céus, o trovão ecoou no cerro que de dia se vislumbra nas traseiras. Antonieta, a esbelta Antonieta, imota no cimo da escadaria. Serena, como serena foi levando a sua vida. Uma vida ceifada quando ainda não tinha completado trinta anos. Testemunhas, Ermelinda, Juvenália e Facinho. Ermelinda a parteira chamada às pressas por D. Bonifácio seu esposo. Juvenália a criada de quarto que foi também ama-de-leite da senhora e ali a viu desfalecer. Facinho que chorou quando nasceu. Chorou também a morte da mãe, a linda, a esbelta Antonieta».

Eduardo Aragão estava arrepiado. Puxou do lenço de seda amarelo com estampagens em azul, com certeza um Dior, que lhe pendia do bolso superior do casaco e limpou algumas gotas de suor que lhe surgiam na fronte. Virou de uma só vez o copo de Johnny Walker, black label, pediu licença para sair, despediu-se com um aceno. No hall de entrada, decorado com uma pequena escultura, em mármore, de Cutileiro ou imitação, chamou um táxi pelo celular. Antonieta era uma mulher casada, quando, ainda adolescente a namorou. Durante uns anos nada soube dela. No dia em que ela foi a enterrar, encostado a uma árvore, a muitos metros do jazigo dos D’Assunção, puxou por um cigarro e fumou.

domingo, 11 de novembro de 2012

178. A janela de Efigénia



Passou a correr Marieta, a chuva começava a cair. Molhou os sapatos numa poça de água à beira do passeio. Molhou os peúgos brancos que lhe chegavam ao joelho. Não molhou a saia, Marietta. Disse-lhe adeus através dos vidros fechados. Marieta sorriu e agitou o braço. Marieta ainda corria e desapareceu na esquina da rua. Pedalava lento o Pedrito saboreando a chuva miudinha que lhe salpicava as melenas. Sentiu água nas grandes pestanas e sorriu a pensar que se Idalisa ali estivesse lhe beijaria as pálpebras, saboreando o salobro da água da chuva nas suas pestanas reviradas. Idalisa não estava nem passou por ali. D. Leopoldina carregava dois sacos, um em cada mão. Em passo lento, curvada nos seus quase oitenta anos, não lhe incomodava a cacimba. Nos ombros o casaco de malha já pesava alguns gramas mais, mas isso era o menos. Tomara que Pedrito ou Idalisa por ela passassem e a ajudassem na carga. Pedrito já tinha passado. Idalisa não iria passar. Passou um cão branco de pelo encaracolado, pequeno e irrequieto, sem o dono. Passou um dono depois com calça de golfe, quadrados largos, de tecido escocês, usava um boné, fumava cachimbo, sem o cão. Cão e dono se encontrariam já depois da curva da rua que se fazia para a esquerda. Ele levantaria a patita de trás e mijaria contra um candeeiro. Ou contra uma árvore. O cão. À direita tinha uma esquina por onde se tinha deixado de ver Marieta. À esquerda tinha uma curva por onde se tinha deixado de ver o cão e o dono do cão. Antes da curva o dono voltou-se e olhou para cima. Estendeu o braço e virou a mão, primeiro a palma para cima depois virou-a de novo e as costas da mão ficaram viradas para as nuvens. Tirou o chapéu e coçou a cabeça. Assobiou duas vezes em silvos estridentes. O cão branco, de encaracolado pelo, não se lhe chegou. Limpou a água, que lhe tinha molhado as costas da mão, à perna da calça de lã escocesa, quadrados verde e pretos desenhados a linhas amarelas. Não o conhecia por isso não lhe acenou. Mas acenou a D. Leopoldina, que de curva nas costas e olhos no chão não lhe reparou no gesto. Não retribuiu o aceno D. Leopoldina, nem o Camilo da lambreta que hoje vinha a pé. Às quartas-feiras folga o Camilo da lambreta que trabalha na pastelaria do senhor Francisco Sebastião. O Camilo da lambreta vai e volta do emprego sempre de lambreta. Mora a oitenta metros da pastelaria e diz que é porque não quer que a lambreta se não habitue a não trabalhar. Também lhe chamam Camilo padeiro mas ele afina porque diz não ser padeiro, mas sim pasteleiro. Talvez por isso, para que não seja incomodado pelo caminho, se desloca de lambreta. Hoje vinha a pé porque era quarta-feira. Quando alguém, às quartas-feiras se lhe dirige, clamando-o como Camilo padeiro, ele não responde. À quarta-feira ele está totalmente de folga. Não é nem padeiro, nem pasteleiro, nem tem de se justificar. Passou um casal de namorados, já a chuva tinha parado. Ainda assim, enquanto ele segurava um guarda-chuva de cor grená, aberto por cima das suas cabeças, mas não necessário, pois já não chovia, ela abraçava-o pela cintura para que se não afastasse de modo que o guarda-chuva cumprisse a sua função quando fosse caso de ter função para cumprir. E como não era de facto necessário, aproveitaram para se beijarem. O guarda-chuva tapou-lhes a visão da vidraça da janela, onde entre vidros, que agora já podiam ser abertos, ela os observava e os cumprimentava. Por isso não lhes acenou e por isso eles não lhe acenaram. Abriu a janela. Chegou-se à sacada. Um gato miava na varanda da vizinha. A vizinha não estava, o gato estava. Só. A janela fechada, o gato na varanda. O gato queria saltar e a altura, tal como qualquer desmancha-prazeres a desmotivá-lo. A água da chuva, que lhe caíra no pelo, desconfortava-o. Ela teve pena do gato e mandou-lhe uma carícia verbal. Chamou-lhe Tareco e se assim lhe chamou é porque era Tareco. Para ela todos os gatos são Tarecos, todos os cães são Bobis. Um Bobi de pelo encaracolado branco regressava agora vindo da curva da estrada e atrás dele, também com as pontas dos cabelos encaracolados e ruivos, o dono com um cachimbo apagado no canto da boca, vestindo calças escocesas e assobiando Flower of Scotland. Um Bife. Para ela todos os estrangeiros são Bifes. Todos os cães são Bobis e todos os gatos, Tarecos. Passou um amola-tesouras com calças de bombazina e uma flauta de beiço. Reparava guarda-chuvas, pano e varetas e afiava facas. Punha rebites em tachos de alumínio. Ela recuou 30 anos. Há trinta anos, da mesma janela via a peixeira passar com a canastra à cabeça, apregoando sardinhas, carapaus e chaputas frescas. Via passar um chinês com uma corrente de couro ao pescoço onde se suspendia um suporte de gravatas. O chinês apregoava gravatas substituindo o erre pelo ele. Achava glaça ouvir o chinês. O ardina apregoava o Século pela manhã e voltava à tarde para vender o Lisboa e o Popular. Vendiam-se figos da capa-rota e passava todas as tardes o senhor Gervásio que já faleceu, para visitar a mãezinha dele que também já morreu. Hoje lembrou-se do senhor Gervásio quando viu a neta dele, a Henriqueta. Coitadinha, caiu na vida, mas é tão simpática. Disse-lhe adeus, como lhe diz todas as manhãs, bem junto ao meio-dia quando sai para tomar o pequeno almoço. De manhã não se aperalta, mas à tardinha sai sempre de minissaia e botas altas. Seja verão, seja inverno. Parara de chover e o passeio estava escorregadio. Passou o 42 que parou na paragem em frente ao consultório do dentista. Entraram duas pessoas que ela não reconheceu e saiu a D. Evita da veterinária. Pôs mal o pé, espalhou-se ao comprido. Ficou toda molhada e um pouco enlameada. Benfeita, pois tinha sido por culpa dela que passou uma tarde da semana passada a chorar. Não lhe salvou o Bobi, coitadinho, o seu melhor amigo.

D. Micá pediu a Efigénia que lhe ajudasse a animar o serão. Efigénia não era uma pessoa alegre. Ainda era relativamente jovem, não tinha sequer completado os cinquenta. Era solteirona e fazia garbo nisso. Dizia que não queria sentir a trela de um dono. Se nem o Bobi usou trela… Efigénia sempre disse que não sabia contar histórias que não tinha o dom de D. Micá, que a sua vida não daria um filme. «Ó, mulher, conte o que vê quando vai à janela», disse em voz alta o meu amigo Eduardo Aragão, de quem um dia vos falarei. E Efigénia contou.


domingo, 4 de novembro de 2012

177. Micá já sabia que ele gostava de bola




Eduardo Aragão entrou triunfante. Fato completo, príncipe de Gales, cor de mel e gravata vermelha, sobre camisa lisa bege, lenço no bolso superior a condizer, um sorriso rasgado nos lábios. Eduardo Aragão um amigo meu, creio que o sabem, falar-vos-ei do seu feitio um dia destes, estava eufórico. D. Micá que lhe conhece a pinta, quase que poderia adivinhar o que se passava, mas não se abriu, não deu a entender. Quem conhece D. Micá como eu a conheço, saberia que ela estava, na calada dos costumes, a gozar o pratinho. Passou por Felisberto Passinhas e piscou-lhe o olho. Passou por Sebastião Jerónimo e deu-lhe uma palmada nas costas. Passou por Ezequiel Canário e, agarrando-lhe um braço, puxou-o para se juntar ao grupo de comedores de tapas de atum com maionese e tostinhas com salmão e cebola, acompanhadas de espumante da Bairrada, apesar de Ezequiel Canário não ser um tão seu indefetível correligionário como o gesto de Eduardo, aparentemente, o deixaria antever. Quem não quis perder nada do que se ia passar foi D. Micá que, de vestido de seda vermelho, um xaile carmim e uma boquilha madrepérola, fumava um cigarro mentolado, quase que estabelecia o par perfeito com Eduardo, o meu amigo de quem se diz ser ainda aparentado com os Martins da Maia, uma família aristocrática da alta de Lisboa com apartamento nas Avenidas Novas e casa apalaçada, ou melhor dizendo, uma verdadeira mansão na Covilhã, brasonados, da tradicional e secular família Maia que deu, como um dos seus filhos maiores, D. Policarpo da Maia, insigne monge e erudito prosador e poeta. Eu que, desde que os tempos têm memória, o conheço como um pelintra, embora exímio nos expedientes e cujo bem-estar social, chamemos-lhe assim, advém de um casamento mal consumado com D. Hermengarda de Santo António e Pireza, mas que vos proponho contar mais tarde, não sou nenhum desmancha-prazeres, deixo-o vadiar na sua gabarolice, alinho no seu bom humor, rio com os seus devaneios, chego a arrepiar-me com a sua veia dramática de que não perco pitada, aproximei-me também do grupo e fui-lhe escutar a história que os seus brilhantes olhos nos teriam para contar.

De pouco nos serviu tanta importância dedicada à alegria de Eduardo Aragão. D. Micá, para seguir aquela euforia, tinha interrompido, uma vez mais, a história de de Bonifácio d’Assunção e, Graziela, a baixinha empregada dos Carocha & Co. que hoje tinham sido contratados para o catering do serão, onde não pode faltar o croquete e o rissol de camarão, não sabia para onde se havia de virar, estando mesmo quase a passar-se com o Julião Guedes que lhe apalpava o rabo sempre que ela passava. Cheguei mesmo a pensar sair deste episódio, debruçar-me sobre o varandim já que, embora todo o dia tenha chovido, a noite apresentava-se serena e ainda luminosa de luar e ficar por ali a saborear uma pequena cigarrilha que me havida sido ofertada pelo poeta Santa Rita de Azurara, só não o tendo feito por consideração  ao entusiasmo de D. Micá e à amizade que tenho por Eduardo, meu amigo de quem voltarei a falar.

Eduardo com a voz embargada falava da sua satisfação pela vitória por três a zero do seu Glorioso. E eu, encolhendo os ombros pensei, «olha que novidade». D. Micá, embora feliz com o desfecho, abandonou o grupo ao mesmo tempo que eu e disse-me ao ouvido: «e ainda nos  roubaram dois penalties».

domingo, 28 de outubro de 2012

176. A ovelha do Ricardo segundo D. Micá



Acordei com a fronha da almofada ligeiramente sangrada e a rir às gargalhadas. Gosto de acordar assim. Não, não gosto de acordar com a almofada suja mas gosto de acordar bem disposto. Às vezes até acabo, eu, por desatar a rir do pretenso disparate de acordar a rir. Parece confuso mas não é, só que agora não tenho tempo de vos desfazer este laço de risos e contra risos. Mas tenho para vos contar porque é que acordei a rir e também porque é que acordei com a fronha com uma mancha de sangue. Abro entretanto um parêntesis, para referir que a minha mulher me fez uma observação descabida. Dizia-me ela que sendo o conjunto de cama de fina cambraia branca de algodão, as rendas dos lençóis e das almofadas de bilros genuínos de Peniche e a cama feita de lavado, porque é que, tendo eu ido ao dentista na véspera, não protegera a almofada com uma fraldinha do meu neto? Claro que é descabida. A criança usa fraldas descartáveis. Mas, fraldas à parte era qui mesmo que eu queria chegar. Na véspera, uma desgraçada dor de dentes tinha-me mandado para o consultório do dentista. Como a coisa se precipitou e eu não tinha consulta marcada, o Dr. Eurípedes não teve compaixão. Mandou-me esperar, com uma gaze embebida em álcool etílico feita um pasto junto ao dente e um lenço de assoar de fino pano, que por sinal era ainda da minha toilette do casamento da minha filha, em verde-claro que condizia com a gravata e com o lenço de lapela que usei nesse dia, monografado, onde, do lado de fora da bochecha eu encostava a mão, de cabeça inclinada, num ar dramático e de sofrimento que quem por ali passasse saberia que estava a olhar para um coitadinho. E foi por causa deste episódio doloroso e sangrento, que cheguei atrasado ao serão na casa da D, Micá, a minha amiga contadora de histórias cor-de-rosa e órfã do magnata do leite com chocolate, à dimensão deste cantinho à beira mar plantado, como seria apanágio o poeta dizê-lo. O magnata, claro.

Quando entrei no majestoso salão de D. Micá, onde o chão de carvalho sueco tinha acabado de ser embelezado com uma maravilhosa carpete de Arraiolos, no canto onde o piano se situava, fazendo de chão ao mesmo, o que acabou por dar uma qualidade superior à já inconfundível vibração das cordas do Steinway, um magote de convivas, entre os quais o Ricardo, ria à gargalhada, O Ricardo era a exceção pois, ao redor de um tema que o embaraçava, D. Micá tinha acabado de contar a história dessa noite. Ainda muito desinsofrido do meu passado recente, que não contava mais de uma hora de antiguidade, protagonizado na cadeira do dentista e que não passou despercebido aos meus companheiros de serão, muito menos a D. Micá que, com um maternal «então senhor Constantino, o que é que lhe aconteceu?», sem que eu pudesse balbuciar mais do que uma ou duas palavras impercetíveis, resolveu contar, quase só para mim, o que tinha sido motivo de tanta risada naquele grupinho. O Ricardo, saiu de mansinho, disse-nos até já, foi para o varandim saborear um Glenlivet longe da chacota, acompanhado de Rafaela, que também tinha ido ao serão, a quem convidou a olhar para as estrelas e a identificarem as constelações. Lá dentro, D. Micá estava imparável e a história foi esta.

Ricardo saíra de um bar com alguns companheiros, numa das pausas de quinze dias para preparação de exames, que o curso de arquitetura, que frequentava em Lisboa, lhe concedia. O bar situava-se fora das paredes da cidade, numa região semirrural. Para lá irem, ter-se-iam de deslocar de carro. Ricardo conduziu o todo-o-terreno do tio Artur, que era o carro com que normalmente se deslocava nestes períodos de miniférias. Quando saíram do bar, onde duas brasileiras e uma ucraniana, dançavam e se despiam contra um varão de aço inoxidável e os shots de vodka e as cervejas importadas tomavam conta da cabeça dos clientes, eles que tinham começado brejeiramente a fazer trocadilhos com a palavra vaca, a propósito não se sabe de quê ou de quem, sem demora passaram a discutir chocas, cavalos, toiros e touradas, uns prós e outros contra, resolveram que estava na hora de fazerem uma pega de caras. É claro que nem Ricardo, nem os seus companheiros, tinham arcaboiço para pegar um boi, nem tão pouco um vitelo de dois meses, nada melhor do que pegarem de caras uma ovelha. E ainda com o álcool a falar mais alto do que eles, roubaram um borrego ao rebanho do ti Benevides, cujo dito rebanho bem berrou da invasão mas, de cujo facto, o ti Benevides nem deu conta, pois que era surdo que nem uma porta. Afastados que estavam do bar, do rebanho, com a vodka a tomar-lhes conta da lembrança, sem o borrego avançar, também ele um pouco amorfo, com sono e sem saber o que era investir contra uma t-shirt vermelha, apenas berrando uns estridentes més. Acabaram por meter o borrego no jeep. E pela manhã, sem saber mais o que fazer, Ricardo levou o borrego para casa com a promessa do Adriano de que iria lá resolver a situação. Na pior das hipóteses matavam o borrego, tiravam-lhe a lã para mandar fazer um casaquinho para a Rafaela e deliciar-se-iam com uns ensopados e umas costeletas grelhadas na brasa. A verdade é que o Adriano, nunca mais se lembrou da história, varreu-se-lhe da cabeça como se um tufão lhe tivesse soprado, naquela noite, o crânio, desatou a estudar para os exames, desligou o telemóvel e esteve quinze dias incontatável. Ricardo dormiu, dizem as más-línguas, quinze dias com o borrego, alimentou-o, deu-lhe carinhos. Maldizem outros que até Rafaela teve ciúmes. Eu, pessoalmente, tantas eram as dores na minha boca, não consegui nem rir nem desdenhar da sorte de Ricardo. Mas na manhã seguinte acordei a rir às gargalhadas. E não foi apenas da história. Foi por causa do agasalho que a Rafaela tinha vestido nessa noite. Parecia uma ovelhinha num casaco rústico de lã, comprado numa loja de artesanato da Serra da Estrela. A verdade é que segundo nos disse a própria D. Micá, assim trajada, ela sentia-se muito mais acarinhada por Ricardo, que até comidinha lhe dava à boca. E foi isso que me fez dar aquelas gargalhadas.   


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

175. D. Micá e uma história com chifres



Talvez há mais de um ano que não via o artista. Justino Carlos é um grande amigo meu. O que eu não sabia era que o Justino também era amigo dela. Foi com surpresa que o encontrei lá numa das nossas famosas soirées literárias onde pontuam os contos da D. Micá. Mas há quem, à sua revelia, vá também contando histórias, em pequenos grupos que se formam no salão e muitas vezes contadas na primeira pessoa pelos próprios protagonistas. Foi o que aconteceu esta noite em que, depois de ouvir esta delícia, decidi pedir licença à D. Micá, ausentei-me uns quinze minutos, fui ao carro, tirei o iPad do porta-luvas e escrevi-a todinha para não me esquecer de nada.

O Justino Carlos era o centro das atenções. Normalmente o Justino era um tipo discreto no vestir. A sua roupa mais usual era jeans e polo de três botões de marcas suspeitas, o crocodilo nunca parecia o original e outros símbolos que são as griffes mais conhecidas no mercado da moda eram produto de contrafação. Mas arreava bem. Não era nenhum borrabotas. Mesmo com esta casualidade ao vestir, o Justino nunca andava de sapatos de ténis e os sapatos, podiam não ser de grande qualidade mas andavam sempre limpos e tinham quase sempre um aspeto novo. Quando se apresentava em lugares em que o dress code fosse mais rigoroso, vestias blasers e calças finas, camisas de risca ou até mesmo fato completo, algumas vezes de três peças e bonitas gravatas. Admirei-me pois de o ver no serão da D. Micá, vestindo como se fosse um yuppie bem sucedido, a virar classe média alta e só não digo como é que se apresentou para que o Gaspar não lhe vá mais aos bolsos. À sua volta ria-se à gargalhada e quando me viu não só me deu um abraço que me ia esmagando as costelas, mas também me passou um copo de champanhe, convidou-me a juntar-me ao grupo e quando eu inquiri o motivo de tão boa disposição respondeu-me «ainda tu não ouviste nada».

Pedi-lhe apenas um momento, que não começasse sem eu voltar e, paulatinamente dirigi-me a D. Micá, segredei-lhe o que se estava a passar e aguçando-lhe o apetite trouxe-a pelo meu braço até ao grupo de quatro homens e três senhoras, uma das quais não conheço mas vim a saber que se trata da nova namorada do meu amigo Eduardo Aragão, de quem vos falarei oportunamente e provoquei-o «Então conta lá Justino. Quais são as novas?», perguntei-lhe, presumindo que ele as tinha na ponta da língua e que “morria e estalava” para no-las contar. E foi assim que o Justino Carlos contou a sua história recente:

«A semana passada surpreendi a minha mulher em casa na cama com outro... Devagar fui à sala buscar uma pistola que costumo ter escondida numa gaveta, com a intenção de matar os dois… parei para pensar e fui percebendo como a minha vida de casado tinha melhorado nos últimos tempos. A minha mulher já me não pedia dinheiro para comprar carne ou peixe, fruta e legumes, aliás, nem para comprar lingerie, vestidos, joias e sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma sandalinha da moda, lindas e rendadas cuecas, fio dental que ela nunca tinha usado antes e uma vez por outra, um bonito anel, uma pulseira, uma gargantilha. Os meus filhos mudaram da escola oficial para o externato mais fino lá da zona. Só para verem, ela trocou um opel astra que tínhamos comprado a prestações por um audi a3, sem sequer me avisar e sem termos de fazer contas, se o podia fazer ou não, pois há quatro anos que estou sem aumento e termos decidido dar um corte radical na mesada que lhe costumava dar, já que sem subsídio de férias nem subsídio de Natal e com o IRS a subir não tinha maneira de a manter. Quanto à despensa recheada e ao frigorífico e arca congeladora, nem se fala. Lá em casa nunca tivemos tanta fartura quanto ultimamente. E as contas da luz, água, gás, telefone, internet, telemóvel e cartão de crédito, faz tempo que ela não me pede um tostão e quando vou para as pagar, está sempre tudo pago. Vocês ainda se lembram de como é jeitosa a Filomena, não se lembram? Pois agora ela está um autêntico avião, frequenta ginásio, faz depilação laser, tem sessões de yoga, a gaja nunca esteve tão boa nem tão apresentável em toda a vida dela. 

Resolvi guardar de novo a arma. Saí, pé ante pé para não incomodar nenhum deles e, escada abaixo, vim a pensar sozinho: O tipo paga o empréstimo da casa ao banco, o supermercado, a escola das crianças, as contas da casa, o carro, o shopping, todas as despesas e eu ainda vou para cama com ela todas as noites, o que é que eu quero mais?».

É evidente que à perplexidade que se seguiu e que foi generalizada, boquiabertos que estávamos com a história, pensando, alguns de nós se aquilo era verdade ou mentira pois nos pareceu muito efabulada, sem saber o que dizer, se assentar ou se criticar, não podíamos deixar de, em uníssono, presentearmos o nosso Justino Carlos com uma sonora gralhada e até com uma grande salva de palmas. Não é que Justino rematou a faena com esta pérola?

«Pois meus amigos, é que eu cheguei à brilhante conclusão de que afinal de contas quem é o corno é ele e não eu».



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

174. D. Bonifácio entrou no portão



Tenho muita vontade em vos falar do meu amigo Eduardo Aragão. E não podia escolher melhor época do que a estação da queda das folhas, a estação das chuvas. Mal os plátanos começam a encher o chão do jardim com folhas castanhas, Eduardo Sequeira Aragão, meu amigo de há muitos anos, começa a entrar em depressão. Mas não é o único da família pois o seu primo Pedro, o Pedro Pinto Aragão, tem o mesmo problema. Só que enquanto o Eduardo planta nos roupeiros, à espera que a primavera volte, os seus fatos de calça branca e blaser azul, de calça bege e polo Fred Perry azul claro, os lenços de seda de bolso ou os que lhe fazem gargantilha, as calças de caqui e camisas de meia manga aos quadrados e sapatos vela, que usa para, nos fins de tarde, dar um salto até ao bar do Quim Geraldes, um rapaz, também da nossa criação que sempre sonhou ter um bar de praia com karaoke e écrans gigantes a projetarem, em sessões contínuas, imagens de desportos náuticos, de quem vos terei ocasião de falar, eu ou a D. Micá, pois ele é, para ela, como o irmão que nunca teve e que, tirando aquelas tardes de canícula em que não dá para abandonar o barco, que é como quem diz, o balcão dos cocktails, não falta a um serão no salão mais famoso da Lapa, o Pedro há muitos anos que não sabe o que são, nem outonos nem invernos. Quando a temperatura do ar baixa dos vinte graus, uma pequena mala com alguns parcos haveres e produtos de higiene para as primeiras horas e ala que se faz tarde, já o Pedro está no aeroporto com bilhete para o Rio de Janeiro. Ele diz que é por causa das alergias, mas ninguém acredita nisso.

Pedro conhece perfeitamente o Rio. Viveu lá, em jovem, com os pais, quando o senhor Segismundo Aragão foi nomeado Encarregado de Negócios no Rio de Janeiro e São Paulo. Infelizmente para uma maior proximidade entre Eduardo e Pedro, D. Custódia, mãe deste, não tem afinidades com a tia Perpétua, a mãe do Eduardo, embora entre eles haja amizade e até algum companheirismo e cumplicidade, sempre que podem. E por falar em poder, algumas vezes planearam irem os dois passar o inverno europeu nos 40 graus do Leblon, nos chopes em Copacabana, assistir ao Carnaval mais quente do mundo, «em tudo» diz o Pedro e repete «em tudo, em tudo». Mas não, nunca se concretizou, a família Pinto e a família Sequeira já se conhecem há décadas e nunca se deram bem. Coisas de família, invejas, namoros cruzados, umas terras na Charneca da Caparica, uns pinheiros que eram de uma e afinal, vai-se a ver as cadernetas eram da outra, enfim uma trapalhada das antigas, que já contava duas, três gerações e com a agravante de Custódia e Perpétua terem acabado por casar com os irmãos Aragão, Segismundo e Alfredo. E como se não bastassem os problemas e conflitos antigos, trocaram-se namoros, primeiro a filha do Sequeira namorou com um, vindo depois a casar com o outro e vice-versa no que diz respeito à filha do Pinto, parece que calhando a fava aos coitados dos irmãos Aragão. Para agravar e complicar a coisa se o Pedro e o Eduardo não fossem primos, seriam praticamente gémeos, nasceram com três dias de diferença. Nos bastidores das famílias diz-se à boca pequena, que é como quem diz em surdina, que ninguém tem a certeza quem é o pai de quem, obviamente falamos de Pedro e Eduardo e isso, além de ter atiçado as desavenças entre os Pinto e os Sequeira, desde há mais de cinquenta anos que tem trazido as agora septuagenárias numa pilha de nervos e em mútuos ódios.

A esta hora, Pedro já viaja ou já estará instalado no Caesar Park de Ipanema ou no Pestana Atlântico só não se sabendo ao certo porque, é como D. Micá sempre diz, ele morre de amores tanto por Ipanema como por Copacabana e que nunca sabe onde há-de ficar, tendo por costume desempatar em Angra dos Reis. Ia eu a pensar nisto quando, ao sair de um cocktail bar ali para Santos e ao subir calmamente a Rua das Trinas para me desviar e me perder do Museu da Rádio, uma das minhas grandes paixões, fazendo tempo para me encontrar com Eduardo com quem iria jantar antes de nos dirigirmos ao palacete de D. Micá para o nosso serão das quintas-feiras, dou de caras com a própria Micá. Pedi-lhe imensa desculpa por na última noite ter tido de sair antes dela acabar o conto que estava contando, mas um desarranjo intestinal impedia-me de continuar no serão, sob pena da minha presença se tornar incomodativa para os restantes convidados. D. Micá riu-se, ou porque achou piada ao dichote ou porque se pôs a imaginar a cena e não se fazendo rogada acompanhou-me ao museu e recontou-me a história da semana anterior.

“D. Bonifácio saiu do carro depois de Aristides lhe ter aberto a porta. Não foi fácil para um homem, que embora não seja ainda um idoso, teve uma trombose que o deixou muto maltratado. Hoje desloca-se sempre com a ajuda de uma bengala, uma bengala personalizada, feita em amaranto com punho em osso de tartaruga das Seychelles, efetivamente muito bonita, com as suas iniciais incrustadas em bronze polido, fabricada por um famoso ebanista francês. O seu ar imponente, o chapéu alto, o sobretudo em pura lã, clássico, a bengala personalizada com as iniciais BA, faziam-no parecer um homem não de hoje, mas de meados do século passado. D. Bonifácio era um conservador, um homem de porte, uma pessoa elegante. O portão abriu-se e D. Bonifácio seguiu a pé, acompanhado pelos dois homens que traziam as lanternas na mão e um pastor belga, de pelo lindo bem tratado, altivo e dócil. Um dos homens segurou no guarda-chuva que entretanto Aristides lhe passara, protegendo o patrão, o outro foi alumiando o caminho. Desde que aquela herdade lhe pertencia, nunca D. Bonifácio transpusera o portão que não fosse a pé. Quando conduzia, deixava o carro na parte de fora e era um dos criados que o estacionava no parque da casa. Agora é Aristides quem o faz. Superstição, alguém comentava. Afinal são só trinta metros, sempre se desculpou. O vulto que o esperava na escadaria da porta principal intrigou-o. Fechou os olhos e parou. Teve uma vontade enorme de voltar para trás, mas hesitou. O pastor belga, parou e sentou-se ao seu lado e, com a língua de fora, olhava para onde D. Bonifácio olhava”.

Entramos no museu e visitámo-lo em silêncio. Isso faz com que não posso continuar a falar do meu amigo Eduardo. Fá-lo-ei, com certeza numa próxima oportunidade.