Se há uma
coisa que não me cai bem, já para não dizer que embirro, é com a mania que o
Pedro Rebocho e a namorada, a Marta Caracinha, têm para acharem que os serões
de D. Micá são a entrega de prémios da Caras ou o lançamento de um livro de
Margarida Rebelo Pinto no Lux. Porque é que aqueles gajos não vestem
normalmente? Será que é mesmo só para darem nas vistas? Já comentei até com a
D. Micá, que agora anda com a mania que eu a devo tratar só por Micá, já que é
quase vinte anos mais nova do que eu, e que quem tem de ser tratado por Senhor
Constantino tenho que ser eu e mais isto e mais aquilo, colocando-me numa
situação que não sei se me deixa mais embaraçado ou mais apreensivo com a
quantidade de cabelos brancos que já povoam a minha melena. Contestei-a dizendo
que isso não estava certo, ela era uma senhora poderosa, filha de um milionário
da criação de vacas e do negócio de cacau em grão, em pó, transformado em
chocolate e, consequentemente, do leite com chocolate, um homem que, por
ventura, não gostaria de ver o seu nome de leiteiro-mor do “reino” associado com
um plebeu que escreve prosas e diz poemas em bares e tabernas, desde S. Pedro
de Alcântara até ao Jardim do Tabaco, sem esquecer os que circundam a Sé. Ela
riu-se, disse-me que o pai, apesar do património, tinha sido um homem simples e
adiantou-me que um dos seus grandes desgostos foi ter morrido sem ter visto a
filha casada, nomeadamente com um homem como eu. É verdade que me lisonjeou, embora
ela saiba que de mim não pode ter esperanças, eu sou um homem casado e se é
verdade que a minha mulher raramente vai assistir às nossas soirées, isso é porque a poesia lhe dá
enxaquecas, a guitarra portuguesa lhe afeta a tiroide, o notas agudas do piano
deixam-lhe os pelos dos braços tão eriçados e as histórias, por mais
cor-de-rosa que sejam, lhe dão um soninho de morte. Ela passou-me um dedo pela
cana do nariz, deu uma baforada na sua cigarrilha com sabor a mentol,
espalhando depois, num sopro malicioso, um cheiro de menta na atmosfera,
piscou-me o olho e murmurou carinhosamente «malandreco». Deu meia volta e
anunciou que ia começar a contar a sua história de hoje.
«Quando D. Bonifácio da Assunção,
abriu a caixa, nunca imaginou que aquele seria o primeiro dia do resto da vida
dele. Chamou Aristides, o seu criado de confiança, pediu-lhe a cartola e
mandou-o avisar o motorista. Dento de cinco minutos sairiam no Rolls-Royce».
Todos
estavam com atenção à história de D. Micá, menos eu. Não parava de olhar para o
casal Rebocho e Caracinha. Hoje ele vem todo vestido de preto, fato completo
fresco de verão, cujo blaser tem
elasticidade para ele puxar a manga para cima até ao meio do antebraço, uma t-shirt Armani também preta e pelo
cruzar das pernas, meias negras quase de vidro mas elegantes, e, nos pés, uns
elegantes mocassins Dolce &
Gabanna a condizer, apresentando um entrelaçado fino no peito do pé, terminados
por uma fivela metálica, dando um ar jovial mas requintado, enquanto que a
Marta Caracinha parece acabada de sair da Alice no País das Maravilhas ou do
Feiticeiro de Oz, parecendo ela que vem para uma sessão de contos infantis,
vestida com uma jardineira azul bebé e camiseira branca, calçando umas meias de
ténis New Balance rematadas com umas
sapatilhas tricolor com a inscrição Google, comprados provavelmente numa netshop. Eu, quando os vi entrar, nem
queria acreditar, ele de cabelo empinado com montanhas de wet gel, fazendo uma crista como se fosse o último dos moicanos ou
o Cristiano Ronaldo e ela de totós como uma colegial. Mas eles são mesmo assim,
extravagantes, o que é que se há de fazer? E mais estranhos parecem ser que
cumprimentam todos com três beijos, reminiscências de quando viveram em
Aix-en-Provence, na velha Gália do Sul, que é como quem diz em França. Pois
então vou deixar-vos com água na boca já que a D. Micá tem uma cena deliciosa
deste casalinho, relacionada com ervas e mais não digo. Agora vou prestar
atenção a mais um bocadinho da história de D. Micá.
«Chovia. Chovia muito como é costume
nas Ilhas Britânicas. Embora D. Bonifácio já tenha regressado há mais de uma
década de Londres onde fora responsável pelo programa cultural da embaixada,
tudo lhe lembrava a velha Albion. O Rolls Royce parou suavemente em frente a um
velho portão de quinta. A chuva lá fora e o breu, não deixavam ver para além da
porta…»

