quarta-feira, 19 de setembro de 2012

167. Fantasmas


Chovera naquela tarde de início de outono. Tinha findado um verão quente, um estio abafado, um sem conta de dias em que as terras e as plantas não tinham recebido nem uma gota de água. O tio João Fagundes andava desesperado. Os pastos secaram como nunca tinha visto em nenhum outro dos seus sessenta e oito anos de idade e nem valia a pena tentar lançar semente à terra. As vacas estavam a ser alimentadas a ração e a feno importado e bebiam água trazida pelos bombeiros, o que para as parcas economias do tio João Fagundes estava a ser um desmesurado rombo. Estava a ser uma catástrofe. Pedir dinheiro ao banco é que ele não ia. Nunca devera nada a ninguém.

 A noite fora atribulada. O tio João não sabia se tinha dormido se tinha sonhado. Estava muito desassossegado. Por isso, naquela madrugada, o Tio João levantou-se cedo. Cedo e sobressaltado. Antes de se deitar, fez o que fazia todas as noites ao longo dos vastos meses de seca. Olhara para o céu e não tinha tido nenhum sinal de que o tempo iria mudar. Mas o raiar da manhã desmentiu a sua enorme experiência de meteorologista empírico. A noite também tinha sido agitada na vacaria e o constante balir de ovelhas e cordeiros e o ensurdecedor berrar das cabras, mesmo a horas em deveriam estar a dormir traziam pressentimentos, insinuavam que algo estaria para acontecer. O tio João também o sabia. Melhor do que ninguém. O primeiro trovão fê-lo estremecer e trouxe-lhe uma alegria mórbida. A própria pele eriçou-se como se fosse a de uma galinha. Chegou-se ao poço e fez subir o balde de madeira. Só depois se lembrou de que o poço estava seco havia meses. Quis lavar a cara abundantemente com a água fresca acabada de tirar, como fora seu costume. Hoje principalmente. Agora nem água no poço para a sua higiene tinha. Ainda assim, vazou de um dos bidons de plástico, que os bombeiros tinham enchido, para uma bacia e, com as duas mãos, deu várias chapadas de água até que se encontrasse completamente acordado. Em face de toda a secura, de toda esta escassez não deixava de ser irónico o seu pensamento:
- Temos água.
- Temos água.
Repetiu. Depois chegou o banco às vacas, pegou no balde e começou a ordenhar. Toda a manhã trovejou, mas nem uma pinga de água havia caído. Ao meio-dia a fome apertou-lhe. Cortou um naco de toucinho e outro de pão. Serviu um copo de vinho de uma garrafa que havia tirado de uma meia-pipa de zinco, que lhe serve de garrafeira. Tirou do bolso do colete aos quadrados um velho relógio que lhe pendia de um cordão vindo da segunda casa da fila de botões a contar de cima. Estava na hora.

Tio João Fagundes tinha uma sobrinha. Nunca casou, nunca teve prole e a única herdeira, se é que se pode chamar herdeira de quase coisa nenhuma, era uma sobrinha, ainda jovem. Faria hoje 18 anos. Julieta nascera de uma aventura do seu único irmão, um doidivanas de grande coração e bom humor, sempre pronto para pregar partidas, conhecido como Joaquim Mineiro, com uma moça lá da terra, que diziam ter problemas. Quis o destino e o pó das minas que a silicose ceifasse a vida de Joaquim, quando a sobrinha era ainda uma criança. A mãe de Julieta, infelizmente, não tinha condição para a criar, vivendo desde há muito tempo internada numa casa de saúde, usufruindo de uma escassa pensão por mor da morte de Joaquim, com quem, por imposição deste, quando os pulmões quase já não respiravam, casou. O tio João Fagundes assumiu todas as despesas suplementares que não fossem cobertas pela pensão do falecido irmão, bem como todos os custos da educação da sobrinha. Internou-a num colégio de meninas e proporcionou-lhe uma esmerada educação. O irmão, lá no Céu onde repousava, não iria sofrer por isso. Hoje ela faria 18 anos, já tinha idade de herdar. As três vacas leiteiras estavam tratadas, as ovelhas, fora do redil, comiam o que restava de erva seca e as cabras remoíam raízes e pequenos troncos. Ele faria o ponto de situação com o Januário Pinheiro, o filho do seu melhor amigo, aquele a quem se acostumou a confidenciar coisas da vida. Mas não tudo. Absolutamente, não tudo. Estava na hora, mas não o faria ali. Não queria que a sua imagem, pendurada no tronco de uma oliveira, ensombrasse para sempre a pequena propriedade que ainda lhe restava e que a sobrinha lhe faria o que quisesse. O pouco que tinha seria para ela. No banco já estava até uma autorização para que a menina, a partir do dia em que fizesse 18 anos, pudesse “mexer-lhe” nas economias. Ele já estava ali a mais. Aliás, os homens da terra costumavam partir bem mais cedo.

Passou pela casa de Januário Pinheiro e cumprimentaram-se. O diálogo entre os dois era sempre muito profícuo e alegre, mas hoje pouco falaram. O Tio João conhecia-o desde garoto. Era o filho único do seu grande amigo Inocêncio Pinheiro, homem da mesma idade, tinham ido às sortes juntos, bebiam na mesma taberna, cantavam as mesmas modas. O seu maior desejo era que um dia, Januário, casasse com Julieta.
- Hoje vossemecê não está bom, ti João.
O tio João Fagundes não respondeu à observação do jovem Januário. Respondeu-lhe como se não o tivesse ouvido.
- Estive a tratar das vacas, ordenhei-as, dei-lhes feno e comi um naco de toucinho.
E depois rematou,
- Cheira-me que vai chover.
- Huuumm, hoje o ti João não está bom - disse-lhe Januário franzindo o sobrolho. O tio João, voltou a não ligar importância às observações do rapaz. Só lhe interessava fazer o ponto da situação, discretamente. O moço haveria de perceber, mas que não fosse logo. O velho castanheiro no cruzamento do álamo para a várzea, já estava escolhido. Por detrás ele tinha escondido um pedregulho. Era à medida. Num buraco do tronco tinha escondido a corda. Seria ao lusco-fusco.
- Sabes que quase não sei como dar de comer às ovelhas e às cabras? Hoje tive de lhes abrir o redil e deixá-las procurar. Está tudo seco.
- Lá isso está, homem. Mas ó ti João, vossemecê está-me a esconder qualquer coisa.
- Isso é impressão tua - respondeu, dando pela primeira vez atenção ao jovem amigo - Está tudo bem, não te preocupes – rematou.
Bebeu um copo de água e saiu. Januário tirou a boina e coçou a cabeça. Depois voltou a colocar a boina e resmungou entre os dentes «o ti João hoje não está bom».

No caminho, tio João Fagundes tirou o terço do bolso e começou a rezar. Sem esperança nem Fé. O tio João sempre ouvira que quem põe fim à vida de alguém não terá as bênçãos do Céu. Muito menos se for a sua própria vida. Ainda assim rezava. Rezava o padre-nosso e as avé-marias na ordem do terço. Fazia-o quase mecanicamente pois se iria cometer um pecado, que fosse só um, que de não ter rezado não se arrependeria.

Atravessou o parque que dividia os terrenos do amigo Januário Pinheiro dos terrenos da várzea. Os plátanos estavam repletos de castanho e verde numa combinação de cores a anteceder o fim. O Céu era de um cinzento carregado. Iria chover, mas agora já era tarde. Um pequeno passeio em pedra vermelha, iria, alguns minutos mais tarde, depois do grande aguaceiro, refletir os tons das árvores e as cores do céu, nessa altura, talvez já salpicado de azul. Se tivesse sorte alguém o veria antes do cair da noite. Não estava feliz por ir passar uma noite que se adivinhava de breu e chuvosa, esticado e encharcado naquele ramo. Mas era tarde. Vinha tarde, muito tarde a água.

Uma primeira gota caiu-lhe na cabeça destapada. O tio João não gostava de boinas. Tinha bom cabelo e gostava de o mostrar. Depois outra e ainda outra. A chuva começara a cair com intensidade. O tio João só acelerou o passo, quando na orla do parque que dava para os terenos da várzea, um chapéu e uma bengala jaziam no único banco daquele jardim. O coração bateu-lhe forte.
- Ó raios!
Exclamou e guardou o terço no bolso do casaco.
- Ó raios!
Exclamou de novo e parou como se fosse uma estátua. Olhou o chapéu e olhou a bengala. Olhou de novo. Ele conhecia aquele chapéu. E da bengala ele não tinha a mínima dúvida. O tio João desatou a correr em direção ao castanheiro. Pelo caminho exclamou de novo «ó raios!».

Joaquim, o seu único irmão, mais novo e mais rápido, tomou-lhe a dianteira. Pendurado pelo pescoço jazia morto e frio, suspenso num ramo do castanheiro. Um pedregulho aos seus pés. E continuava a chover. Choveu durante toda aquela tarde de início de Outono.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

166. Há coincidências?



Quando peço licença e me sento naquele banco corrido de madeira na venda do mestre Tomé, que em tempos já foi carpinteiro mas que, por morte do velho Domingos Colaço, seu pai, acabou do lado de lá do balcão a servir copos de branco e agora, minis, que a modernidade é assim mesmo, oiço histórias que vá lá saber-se se são verdadeiras ou não, mas que nos fazem pensar. Eu, que estou sempre a dizer que não acredito em coincidências, tenho dias em que me sinto quase a dar a mão à palmatória. A história que vos trago hoje compu-la a partir da narração empolgada do Carita, que se virou para o filho do ti Manel Torrado, de quem agora não me lembro do nome e que tem andado emigrado lá para a Bélgica «Ah não há coincidências, não? Então toma lá esta!».

D. Cerise era a professora primária. Senhora dos seus sessenta anos há mais de trinta que vivia na aldeia. Uns dizem que tinha sido freira e que por mor de um amor ardente teria quebrado os votos. Não aceite na sua terra natal, cedo viria para Portugal e se fixara naquela aldeia raiana. Outros que era filha de emigrantes e que por ter nascido em França logo lhe prantaram o nome de Cerise. Para muitos lá na aldeia era a senhora professora, para outros era a francesa. Para o senhor doutor que lá ia, de início de mês a mês e que, não se sabe porque feitiço, passou a ir todas as semanas, D. Cerise era uma mulher doente. Para outros era a amantizada do médico.

Anastácio Canilhas era um miúdo que gostava de armar aos pássaros. Gostava também de jogar à bola na eira, de arranjar bicicletas e de pescar nos barrancos e tapadas. Canilhas era sobrenome que lhe vinha do avô, pois tinha por profissão remendar tetos de canas. Anastácio Canilhas era aluno de D. Cerise mas aos treze anos era já marçano na venda do velho Domingos Colaço, aos dezasseis aprendiz de padeiro na padaria da D. Eugénia, aos vinte foi às sortes a Beja, aos vinte e três arrumou emprego na Carris em Lisboa, aos vinte cinco regressou à terra e foi tomar conta das alfarrobeiras do patrão Carapeto, das ovelhas, dos pomares e da menina Genoveva a quem todos chamavam de Veva ou mais carinhosamente de Vevinha. O que nunca lhe passou foi a mania de pescar achegãs nas tapadas.

Joaquim Perna, era um garoto muito pacato. Se Perna que já vinha de tantas gerações, alguma vez foi alcunha, ele não o sabe. Na escola, era o melhor aluno de D. Cerise, passava sempre de lição e sabia de trás para a frente e de frente para trás o primeiro catecismo. Estudou o segundo e o terceiro, fez o quarto catecismo, a comunhão solene e o crisma. Por não se dar a grandes brincadeiras com os outros rapazes, não tinha muitos amigos. D. Cerise, uma mulher doente, como dizia o Dr. Armindo, todas as semanas faltava um dia às lições. Ora porque tinha de ir ao consultório do senhor doutor, ora porque uma maldita enxaqueca não a deixava sair de casa, outras vezes um desarranjo e ainda outras, a espondilose não a deixava endireitar a espinha. Mas da boca de Maria Amélia, a moça, hoje uma mulher, embora solteira e dizem as línguas da terra, ainda virgem, que lhe faz a lida da casa e lhe é companhia nos fins de tarde solitários e sonolentos, nunca se lhe ouviu palavra, nem mesmo quando a vizinhança jurava a pés juntos que a porta dos fundos que dava para um amplo quintal, mas protegido pela frondosidade da sua vegetação, rangia em dia de médico.

Nesses dias de ausência da professora, uns iam ajudar os pais nas hortas, outros ficavam no átrio a jogar à bola, outros, os mais pequenos saltavam para casa onde uma avó, uma tia mais velha ou a própria mãe, que de falta de trigo não saíra para jorna, lhes dava café quente quando era inverno ou água da infusa quando o calor apertava, um naco de pão e por vezes uma fatia de toucinho e os protegiam da estiagem abrasadora ou dos ventos gelados vindos da vizinha Espanha. Joaquim Perna só depois de se certificar que o Padre Francisco não precisava de mais nada, mudava de roupa, que a roupa de ir à escola era sagrada, vestia una calçanitos mais velhos e uma blusa também coçada, pegava numa vara de bambu que já fora de seu pai e saía com Anastácio Canilhas para pescarem na tapada do Carapeto. Eram tão amigos que um dia, quando olharam para as sacolas e viram que ambos tinham exatamente o mesmo número de achigãs pescados, proibiram-se mutuamente de um morrer primeiro do que o outro. E quem desobedecesse, lá no Céu teria de pagar um pirolito ou uma laranjada ao amigo. Ao que Canilhas, rapaz mais vivido acrescentou «para mim pode ser uma amêndoa amarga». E deram os dois em uníssono, uma valente gargalhada.

Vevinha, andava numa demanda louca, num desvario nunca visto, numa ânsia indescritível. A sua casa era um corrupio, com as vizinhas a saírem e a entrarem para a consolarem e dizerem de circunstância «vai ver que não há de ser nada». Anastácio tinha saído para pescar. Já passava da meia-noite e do homem não havia notícia nem mandado. Ninguém pesca naquele charco à noite, ainda mais com lua cheia, terra de lobisomens e de outros perigos, com a guarda atrás dos contrabandistas, os tiros que rasgavam em clarões no meio da noite, o bornal pela certa já vazio, haveria de ter fome. E sede. Anastácio desde que conheceu Genoveva era homem de casa e o patrão Carapeto, tinha por ele muita estima. Que alguma coisa lhe havia de ter acontecido, isso havia. Joaquim Perna, que conhecia o lugar como ninguém, ou melhor, tanto como o amigo, desde os tempos da escola primária que ali pescavam juntos, já tinha feito mais de duas batidas e nada de Anastácio. Vencido pelo cansaço e pelo medo dos sons da noite, regressou e foi-se anichar no sino da igreja, onde fez de vigia e passou a noite.

No adro da igreja jazia inanimado, sem dar cor de si e esvaindo-se em sangue. «Coitadinho», diziam umas. «Pobrezinho», ouviam-se a outras. «Desgraçado», lamuriavam uns. «Coisas…», sem terminar a frase balbuciavam outros. Eram duas horas naquele início de tarde, onde uma chuva miudinha teimava em prometer que nessa noite não haveria lua. Alguém chegou a correr com os braços no ar gritando que o corpo de Anastácio Canilhas tinha sido encontrado no charco. Vevinha, em sua casa, vestida de negro desde a véspera, cobria a cabeça com um lenço e deixava cair duas lágrimas enquanto se ajoelhava junto ao nicho de Nossa Senhora. A seu lado ardiam duas velas. O velho padre Francisco, não encontrou o Joaquim Perna que era quem lhe tocava o sino. À falta do sacristão foi ele mesmo quem foi tocar a rebate. Lá em cima, dormitando encostado ao sino após uma longa noite de vigília, sem de nada se aperceber estava Joaquim Perna. O sino atingiu-o numa fonte e Joaquim não teve pernas para se aguentar. Quando caiu no adro da igreja, já estava morto. Anastácio morreu primeiro. Fariam as contas da aposta daí a algumas horas. Agora era tempo de mudarem de fato.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

165. Espelhos da minha infância



O meu espelho começa a cansar-me. Não que não seja um espelho bonito, numa decoração, quiçá já um pouco démodé, mas ainda assim funcional e condicente com o ambiente. Não que não esteja em condições, sem quebra da película que o espelha, sem rachas no vidro, sem perdas nos cantos, sem manchas. Não que não reflita o ambiente calmo em tons de verde-água que permite uma suave transição entre o matinal despertar e o mundo azul brilhante que nos chega pela janela. Não que ao olhar o espelho, olhos nos olhos, não possa detetar mais uma cã, mais um pé de galinha, mais um engelho na mão que pega a lâmina com que de manhã me barbeio, me penteio, me apronto. O meu espelho não tem defeitos e apesar disso começa a cansar-me. Talvez, se um dia se quebrar eu venha a ter saudades dele, mas agora…

Agora, saudades tenho do espelho do senhor Zé Barbeiro, o barbeiro, claro, onde em miúdo ia para cortar o cabelo. Na verdade o senhor Zé Barbeiro não tinha um mas sim dois espelhos. Exatamente um em frente ao outro. Eu não gostava muito do senhor Zé Barbeiro que me obrigava a permanecer imóvel na cadeira, minutos sem fim, eternidades, a ponto de me ameaçar cortar-me uma orelha se eu não estivesse quieto. Estar sentado na cadeira do babeiro era para mim um suplício mas também um fascínio. No espelho do senhor Zé Barbeiro eu via-me e o espelho via-me a mim. Quando eu me olhava por detrás, o espelho olhava-me de frente e quando eu me olhava de frente o espelho olhava-me por trás. E se a minha cabeça ficava à frente de um e de outro e de outro e de outro e de outro e de outro, eu inclinava-a um pouco e ficava a ver uma infinidade de Constantinos, uns de frente outros de trás, pelos espelhos fora. Queria lá saber se o senhor Zé Barbeiro me cortava uma orelha ou não. Até aposto que aquilo era mentira dele. 

Gostava também do espelho do senhor Isidro. O senhor Isidro, para dizer a verdade não tinha só um espelho, ele tinha muitos. E todos eles também me fascinavam e intrigavam. Eram pequenos, colados nos pilares da loja e em qualquer deles não se via a pessoa mais do que dos joelhos para baixo. Com os meus três anos, mais que me fascinarem, intrigavam-me. Eu via as pessoas inteiras e no espelho só tinham calças e sapatos, ou então um bocadinho de vestido meias e sapatos. E então eu agachava-me para ver se percebia por que é que quando eu andava a rastejar pelo chão via as pessoas inteiras nos espelhos. E então vinha o fascínio da descoberta. E por isso a exaustivamente repetida pergunta, que por vezes já lhe enchia a paciência «mãe, quando é que vamos ao senhor Isidro comprar umas sandálias?». Até sonhava com os espelhos da sapataria.

Dona Carmo, que é como lhe chamavam mas que eu sempre duvidei de que se chamasse assim, pois tinha sotaque espanhol, só tinha um espelho. Eu, quando era garoto estranhava e perguntava à minha mãe porque é que a Dona Carmo tinha um espelho tão velho. Acho que a resposta que obtive foi porque Dona Carmo também já era velhota, mas a verdade é que em termos fashion, Dona Carmo estava muito à frente. O espelho dela era propositadamente velho, numa moldura de castanho, parecia salpicado e escurecia nos cantos. Quem visitava a loja da D. Carmo era gente fina que ia lá comprar ou alugar chapéus de cerimónia. Era a chapelaria mais importante da vila, vendia boinas, bonés, chapéus de coco e até cartolas. O espelho condizia com a decoração “de época” da loja da Dona Carmo. Balcões, armários, prateleiras e espelho, tudo a condizer. Uma vez o meu pai alugou na loja Dona Carmo um chapéu parecido com o do Fernando Pessoa. Quando olhou para o espelho da Dona Carmo saiu de lá com a sensação que havia qualquer coisa que não estava bem e quase culpou o espelho por isso. Só dois dias depois é que se lembrou que não tinha bigode.

Na Feira Popular era rir até mais não poder. Quando cá fora ouvíamos aquela cassete que não parava de gargalhar, numa antecipação dos risos enlatados das séries televisivas, sabíamos que estávamos perto do Palácio dos Espelhos. É claro que lá dentro todos nos partíamos a rir, mas nunca eramos tantos quanto as gargalhadas vindas do altifalante poderia induzir. Espelhos que nos distorciam a imagem, onde tão rapidamente eramos anões, como jogadores de basquetebol, onde reproduzíamos o Bucha e Estica lado a lado, onde eramos marrecos ou barrigudos, e onde até tínhamos os maxilares de lado sem termos jogado boxe. Se ainda houvesse Feira Popular voltaria ao Palácio dos Espelhos. Ando a precisar de rir.

No prédio em frente ao que eu morava, vivia num segundo andar a Dona Perpétua. Dizem que a Dona Perpétua era uma senhora que tinha tido uma casa de passe na Baixa Lisboeta. Quando a D. Perpétua se retirou dessa vida, tendo-se casado com um senhor que tinha um carro desportivo verde-claro e era, pelo menos, uns vinte anos mais novo do que ela, vimos um dia chegar uma furgoneta e descarregar umas peças de mobília à porta do prédio. Ouvimos da janela do segundo andar a Dona Perpétua, com ar de quem se levantara tarde, com um cigarro numa mão e embrulhada num robe azul-escuro de cetim, gritar «cuidado com o espelho!». Dizia a malta mais velha, com ar de malandrice, de que era o espelho que ela punha aos pés da cama quando atendia os clientes. E a gente, na nossa ingenuidade de putos, ria-se sem saber porquê.

Ah, é verdade, não podia acabar esta minha memória de espelhos sem vos contar duas coisas. A primeira é que todo este desenrolar de pensamentos sobre os espelhos da minha criancice não demorou mais tempo do que o de cortar a barba matinal. A segunda é para dizer que quando o padre fez as exéquias de Dona Carmo chamou-lhe Mari Carmén. Eu bem me parecia que ela era espanhola.




domingo, 26 de agosto de 2012

164. Pôr-do-Sol



O Sol já se punha e Marina estava preocupada. Àquela hora o seu homem já costumava estar a dar a saudação de santas noites no umbral da porta, algumas vezes, diga-se em abono de Marina e não tanto de Eliseu, com um grãozinho na asa, pois que na antiga carvoaria do senhor Bartolomeu, hoje um moderno café de aldeia, mas que ainda é conhecido pela carvoaria, pinga da boa era o que não faltava. De Pias vinham, e eram despachados, quase todas as semanas um duzentos litros de tinto, hoje já não em pipas mas sim em garrafões devidamente selados e certificados. Não era parvo nenhum o carvoeiro, que sempre colocava na mesa ou no balcão um pires de azeitonas, com orégãos e uma boa pitada de sal, temperadas na hora, que deixavam as bocas do Eliseu, do Gamito, do ti João da Burra e mesmo do Dr. Sesinando, numa sequeira de repetir a dose. Por vezes não eram só dois nem três copos que o Eliseu já levava a mais no bandulho, mas àquela hora já Eliseu trespassava o portão, com «santas noites, minha esposa». 

Desligou da tomada o ferro elétrico, pousou-o no descanso para que arrefecesse e debruçou-se no fogão para cuidar do jantarinho de feijões que já fumegava. Cheirava a carnes cozidas, mas os melhores aromas vinham de um chouriço de porco preto, de uma morcela de sangue e de uma moira de Barrancos, já para não falar do perfume da hortelã da ribeira que inundava toda a cozinha e que, trespassando as cortinas de fitas, mergulhava agora no alpendre. Se o seu Eliseu não vinha ao isco de tão eloquente aroma, então era porque alguma coisa lhe haveria de ter acontecido. Ter-se-ia ele esquecido que hoje era o seu aniversário? Ou então desta vez abusou, ficou pelo café do carvoeiro, teria já bebido para além da conta, não se daria por levantado da cadeira, o Dr. Sesinando ou o Gamito, principalmente este, a contarem anedotas brejeiras, o ti João da Burra a abanar a cabeça e a chamar-lhes pantomineiros, o senhor Bartolomeu a encher mais um canjirão de barro decorado de S. Pedro do Corval. Já lá iria ver, era só acabar de arrumar os lençóis no gavetão da cómoda, tirar o avental, passar água pelo rosto, alisar os cabelos, abaixar o lume no fogão e seguir para o centro da aldeia. Haveria de dizer-lhe das boas. Ai diria, diria.

Eliseu não estava no café do senhor Bartolomeu. Nem lá dentro, onde o calor começava a ficar incomodativo, nem na esplanada onde uma brisa, vinda do lado da barragem, convidava a mais um copo e a dois dedos de conversa. Mas não. Hoje nem o Gamito tinha passado por lá, nem o Dr. Sesinando que fora chamado de urgência ao casal do agricultor Romão para assistir ao parto de uma bezerra que estava em vias de correr mal, nem o ti João da Burra o tinha visto, isso confirmou-o ele mesmo, abanando a cabeça e dizendo para Marina que o Eliseu ainda não tinha parecido por lá hoje. O mesmo o confirmaram outros fregueses que, com ou sem azeitonas retalhadas, bebiam o seu copito, uns ainda encostados ao balcão, outros cá fora, em roda, entoando modas alentejanas em local onde o cante nunca se extinguiu. Despediram-se de Marina levando a mão ao chapéu, num ritual que parecia ensaiado, dado a simultaneidade do ato e ficaram a comentar entre eles, coisas que já se ouviam dizer, que não há fumo sem fogo, que era fim do mês, que o moço tinha recebido a féria, aquilo tinha apanhado comboio para Beja, onde de certeza se fora juntar com uma outra, para uns mulher perdida, para outros vadia, outros falando numa antiga namorada nunca esquecida, para os demais a amante. Pelo menos da fama e das bocas do mundo não se livrava, assim se calhandrava no intervalo entre dois Pias tintos ou brancos frescos, próprio dos fins de tarde no café do carvoeiro.

Chegou a casa já a noite se cerrava e só tanto não se notava porque o quarto crescente alumiava com as suas sombras os caniços do valado, prateava as ramagens do pequeno ulmeiro prantado quase à porta do quintal e projetava limões a preto e branco na alva parede da casa. Marina, ao ver o seu homem já chegado, encostado na ombreira olhando o portão por onde era agora ela que entrava, não conseguiu evitar que lhe escorresse uma lágrima pelo rosto. Primeiro ficou especada, sem saber o que fazer. Mas alguma fração de segundo depois correu para ele e abraçou-o pela cintura. Ela não podia crer que logo hoje, no dia do seu aniversário, o seu homem a fosse abandonar sem água vai, nem água vem. E ela que nunca tinha acreditado nos rumores e nas más-línguas estava quase a sucumbir ao teor dos mesmos. Um milhão de pensamentos lhe percorreram o corpo durante todo aquele tempo de espera mas agora só a intrigava aquele tarrasso que o marido trazia pendurado ao pescoço. «Oh homem, onde é que foste descobrir essa coisa que trazes aí pendurada ao pescoço, valha-me Deus», e benzeu-se. «É uma máquina fotográfica, novinha em folha. Encomendei-a para hoje, já que recebia a féria e que tinha de a trazer para te oferecer no teu aniversário. Só que o Gamito foi buscá-la a Beja e atrasou-se um pouco. Mas até há males que vêm por bem, como se costuma dizer», rematou. E para se explicar melhor ficaram os dois a contemplar o bonito pôr-do-sol que poucas horas antes Eliseu captara com a sua máquina nova. 


terça-feira, 21 de agosto de 2012

163. Enganar guarda-redes





Eugénio. Ainda me lembro dele como se fosse hoje. A malta chamava-lhe quase sempre Ogénio. Aliás, ele próprio, quando lhe perguntavam o nome, dizia chamar-se Ogénio. No meu bairro habitava muita gente com pouca formação escolar, como aliás era comum no país inteiro, por isso não era de estranhar que tivesse como vizinhas a Ofrásia, a Estrudes e até a Esprança. E cada um deles, independente do seu nome, cada um deles tinha o seu sonho. A Ofrásia sempre sonhou ser cançonetista mas, coitada, quando abria a boca as palavras articulavam-se menos do que as de Hermínia Silva quando caricaturava, nas suas populares entradas em cena, no Maria Vitória ou nos filmes do Lopes Vieira. Acabou sendo a melhor cerzideira lá da rua, apanhava malhas em meias como nenhuma outra e, com o seu pé-de-meia, abriu uma oficina de arranjos, ela era fazer bainhas, ela era apertar saias ou alargar outras e até arranjar mangas de camisas ou casear braguilhas de calças. Já a Estrudes, que ainda andou no segundo ano da Escola Comercial, mas teve que desistir quando o velho Sarafim, seu pai, viúvo e trolha de profissão, um dia desapareceu sem deixar rasto, deixando a miúda de 12 anos aos seus próprios cuidados. Começou a lavar escadas mas, felizmente, ao crescer, tornou-se uma bela moça e cobiçada, até que um senhor bem-posto na vida, já ela ia bem nos seus dezoito anos, fez caso dela, saiu do bairro, um dia apareceu lá a conduzir um belo espada e quando a cumprimentaram, as velhas amigas, «ó Estrudinhas isto, ó Estrudinhas aquilo», ela ripostava, «Estrudes não, Gertrudes, que eu agora sou uma gaja fina» e acabavam todas à gargalhada. Da Esprança fala-se pouco, até porque nunca foi rapariga de muitas confianças, quando conversava com as vizinhas era apenas no lugar de frutas do ti Toino, falavam do belo olho das couves, da frescura do feijão verde, das batatas que se desfaziam ao cozer e finalmente bom dia, boa tarde, que a Esprança não era de muitas falas. Quem nunca mais apareceu foi o velho Sarafim.

Mas eu comecei esta história para falar do Ogénio e não das minhas vizinhas, isso é conversa para calhandreiras, eu sou um mero contador de histórias, chamo-me Constantino e estou aqui para vos deixar testemunhos. O sonho do Ogénio era ser jogador de futebol e habilidade não lhe faltava. Quando, entre a rapaziada, se tratava de escolher equipas o Ogénio era sempre o primeiro a ser escolhido, dado o seu jeito inato para o pontapé na bola. E, para que conste, o Ogénio jogava descalço. Naquele tempo, a miudagem não tinha as condições que hoje os jovens têm, pavilhões, ringues de tartan ou de outros sintéticos e outras modernices e, diga-se de passagem, aqui o vosso contador de histórias acha muito bem. Jogávamos nos pátios, no intervalo entre prédios, pracetas e quintas onde não era pouco frequente termos de pisar os cardos para podermos fazer rolar a bola. E, de entre todos os que davam o pontapé na chincha, era o Ogénio quem se destacava. É claro que os putos de doze anos cresceram, cada um seguiu a sua vida, nem todos conseguiram ir ao encontro dos seus sonhos, como não o foi a Ofrásia, como não teve tempo de os ter a Estrudes e como nunca se soube se alguma vez os teve ou não a Esprança porque só falava da textura dos nabos, do viço das nabiças, da flor dos grelos, dos alhos chochos e da cebola grelada e bom dia ou boa tarde, conforme a hora do dia. Mas o Ogénio conseguiu o seu desiderato, veio a ser jogador de futebol, o problema dele não era a bola, o problema dele não era o pelado ou o relvado, o problema dele não era o elástico dos calções, pois acostumado a andar de calções atados com um baraço ou apertados com uma fita de nastro ou com um elástico de cuecas enfiado, comprado na capelista da dona Júlia do quarente e sete, por acaso uma boa senhora que até tinha uma filha bem engraçadinha, estava ele. O problema do Ogénio eram as chuteiras, para ele autênticos OVNIs, coisa que nunca tinha visto na vida e que nem sabia se saberia jogar com elas, resumindo, um suplício. Quem teve o privilégio de contar com o Ogénio nas suas fileiras foi o Atlético do Pragal, mas teve de haver condições e compromissos, parte a parte. O Ogénio podia treinar descalço mas nos jogos era obrigado a jogar com chuteiras, assim o exigiam os regulamentos e sem isso, nada feito. Ogénio anuiu e no primeiro dia que calçou as botas, um colega da equipa, para não o magoar, já que Ogénio fazia mesmo falta à equipa e não era conveniente que amuasse disse-lhe, baixinho e com cuidado, que ele tinha calçado as botas ao contrário. Ogénio, colocou o dedo em frente ao nariz e aos lábios e ripostou «chiu, isto é só para enganar guarda-redes».

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

162. Tripas



Não se contavam as minis que invadiam o tampo da mesa do café. Gervásio Garção e Jacinto Jesus tinham tirado a tarde para se enfrascarem e falarem dos velhos tempos. À pala de um pratinho de caracóis a que se seguiu um pires de polvo vinagrete e um de ovas de bacalhau temperadas com cebola, pimenta moída, azeite e vinagre, já lá iam mais de duas dúzias de minis.

Gervásio e Jacinto são amigos de longa data. Já se conheciam nos tempos de liceu. Tendo sido cada um de sua turma não tinham a intimidade que vieram a ter e a usufruir quando ambos decidiram, cada um por sua própria vontade, tirar o curso de oficial da marinha mercante, na Escola Náutica em Paço d’Arcos. Se o liceu não os juntou tanto quanto o comboio da CP, que os levava do Cais do Sodré à estação de Paço de Arcos, não raro até Oeiras, pois que na conversa amiúde se esqueciam de sair na estação devida, tendo de inverter a marcha para poderem chegar à escola, o João Balão e os seus petiscos eram de facto o elo de união que soldava como prata a amizade destes dois jovens estudantes. Tão amigos eram que quando acabavam o namoro com uma já o outro se agarrava à mesma febra e vice-versa para não complicar a prosa. Acabavam sempre na tasquinha a queixarem-se um do outro a atirarem culpas de um para outro «pois cedeste-ma porque a gaja não vale um pires de caracóis». E o outro «ó meu grande pilantra, para não te chamar outra coisa, a tua, mal se senta no banco do carro, adormece e começa a ressonar que eu, em vez de a levar até à praia de Santo Amaro, deixo-a mas é à porta dos paizinhos». E riam à gargalhada, sem nunca antes terem deixado de bater os fundos da garrafa, uma na outra, e soasse um uníssono «à nossa!».
Passaram mais de quatro anos sem se verem. Os cursos acabados, um ingressou na Soponata, o outro foi para a CTM, infelizmente companhias de navegação que a desastrosa política económica cá do burgo resolveu destruir, as rotas e os destinos eram diferentes e, quando um desembarcava, o outro navegava e de novo vice-versa, também para não complicar a prosa.

Foi um recado dado por Gervásio à mãe de Jacinto, num tempo em que nem telemóveis ainda existiam em Portugal, que acabou por reunir os dois amigos, primeiro num rememorativo almoço no Chico e, depois de um passeio pelas instalações da Náutica e alguns dedos de conversa com antigos professores e com a bonita empregada da secretaria, acabarem, finalmente, a tarde no João Balão.
- Lembras-te da Carolina Cintra que andava com a gente no quinto ano do liceu e que todos a conheciam pela fuinha? – Perguntou o Gervásio Garção, a propósito ninguém sabe de quê e já com mais álcool no estômago e no sangue do que aquele que lhe permitia abrir os olhos com firmeza.
- Se me lembro, ó Gervas – que era assim que Jacinto Jesus tratava o amigo – se me lembro. Era uma miúda que veio transferida de um liceu do Porto não foi? Andei caidinho por ela e ela nunca me deu a mínima bola.
- Vê lá se te portas com juízo, já não somos garotos – atalhou Gervásio com receio de que o Jacinto entrasse nas propostas e apostas que faziam com que trocassem de namoradas um com o outro, como quem empresta uma camisa para um jantar com a professora de inglês. – Eu agora sou um homem casado e já não vou nessas maluquices.
- Mas diz-me cá, ó Gervas. O que é que a Carolina Cintra tem a ver com o teu casamento?
- Caraças, pá, parece que não percebeste, ó tanso. – E virou mais uma mini de um só gole. – Casei com a Cintra, pá. Não deu para entenderes?
Naquele momento era difícil que alguém entendesse alguém. Tal era o arrastar de línguas que parecia não se descolarem do céu da boca e nem se desprenderem dos dentes. Já se tornava até difícil perceberem-se um ao outro, quanto mais entenderem-se.
- Pois ouve bem.  ó Gervas. À Cintra até as tripas lhe comia. – rematou o Jacinto que entre as miúdas do liceu, era conhecido pelo Jacintão, no seu metro e noventa e dois e quase 100 quilos de peso e deixando cair a pesada cabeça sobre o braço, adormecendo de seguida.
Nem a conta pagaram. O senhor João chamou-lhes um táxi, assentou com o taxista que primeiro deixaria em casa o Jacinto pois morava mais perto e estava bem pior da buba e só depois entregaria Gervásio à porta de sua casa. Pagou ao taxista a corrida por antecipação e recomendou-lhe, «cuide bem desses dois».

A dona Isménia de Jesus, mãe de Jacinto era uma senhora que sempre tivera Gervásio na melhor das contas. Assim, cada recado que recebia do Gervas com destino ao seu filho era como se fosse uma ordem a cumprir com a maior brevidade possível. Até entrava em ansiedade. Era quase meio-dia e o Jacinto ainda nem tinha acordado para o almoço. Ora essa! Agora que o moço gozava de umas merecidas férias de embarcadiço era deixá-lo descansar, mas assim não. Assim era demais. Mas enfim, hoje era desculpável porque na véspera não tinha chegado muito católico a casa. A olhar de mãe, ninguém engana. Mas logo que o viu descer a escadaria que ligava os quartos à sala, onde habitualmente tomava o pequeno almoço em casa, nem o deixou respirar.
- O Gervásio ligou-te
- E o que lhe disse, mãe? – Perguntou-lhe esfregando os olhos.
- Olha, disse-lhe que deves ter abusado um bocadinho, que nem jantar quiseste e que ainda estavas a dormir.
- Fez bem, mãe, em não me acordar. Obrigado, mãezinha. – E deu-lhe um beijo repenicado na bochecha que deixou dona Isménia toda embevecida. – O que é que o Gervas queria?
- Quer que vás lá jantar esta noite.

Carolina Cintra abriu a porta ao amigo do marido num à vontade de andar por casa. Um short mostra-badana de ganga azul-clara , uma blusa branca de alças, com um coração aplicado ao meio do peito de onde parecia as mamas quererem saltar e chinelas havaianas cor de rosa. Dava-lhe um ar desarranjado, meio blaisé, mas sexy. Jacinto não podia, nem evitou fulminá-la com os olhos.
- Olá fuinha - disse com um sorriso de estupefação mas de uma timidez mal disfarçada, quando Carolina lhe abriu a porta.
- Olá Jacintão. Entra. Não faças cerimónia.
- E o meu amigo Gervásio? – Perguntou, por não ter encontrado outra maneira para se desbloquear.
- Vê lá a chatice Jacinto. Sem mais nem menos, recebeu ao meio da tarde um telefonema da companhia, teve de fazer as malas à pressa. Apanhou um voo de última hora e já deve estar a caminho do Dubai. Vai render um piloto que adoeceu de repente. Coitado.
- Sendo assim se calhar é melhor eu voltar noutro dia. Até porque, com certeza não estavas à minha espera.
- Aí é que tu te enganas, Jacinto. Foi tudo combinado com o Gervásio. Não lhe disseste que a mim, me comias as tripas?
- Disse. Não posso mentir. – Respondeu ainda mais acabrunhado Jacinto, tentando desviar o olhar das cavas da blusa de Carolina, por lhe ter vindo à memoria o que Gervásio disse e deixou claro, de que os tempos de adolescente já tinham passado.
- Pois então passa ali para a sala de jantar. Vou-te servir um vinho fino enquanto se apuram as tripas. Hoje vais comer umas tripas à moda do Porto como nunca te passaram pelo estreito, carago.


sábado, 28 de julho de 2012

161. Um dia cinzento



Nas traseiras da minha casa há um céu azul. Hoje ele está cinzento porque o Sol se zangou com os meus vizinhos e não compareceu à hora marcada. Em seu lugar, carregadas com chumbo, pelo menos a cor assim o indica, vieram as nuvens, numa marcha ora lenta, ora rápida, ao sabor e aos caprichos do vento. Nas traseiras do meu prédio hoje há vento que faz vergar árvores de folhas verdes e árvores de folhas grená. Um vermelho tão escuro e tão belo que se diria que cada folha foi cuidadosamente mergulhada numa tina de tinta da mesma cor. E há também uma árvore com flores cor-de-rosa. Da mesma cor das flores desta árvore são os prédios, cujas varandas se veem da minha janela das traseiras. O prédio que fica mesmo por detrás de mim, está pintado em dois tons de cor-de-rosa. O prédio em si, de cor-de-rosa claro, como se fosse um vermelho-água, diluídas que foram as folhas das árvores que povoam as minhas traseiras e as varandas, num cor-de-rosa mais escura como se o tintureiro tivesse retirado as folhas das árvores de dentro do químico um pouco antes do tempo. Do quase branco ao grená, passam-se tantos tons da mesma cor que imagino que das folhas daquela árvore também saiu o vermelho do sangue do tintureiro. E do cabelo da vizinha que mora no rés-do-chão das traseiras do meu prédio. Nas varandas veem-se estendais mil com roupas de mil cores. Hoje o céu está cinzento e o Sol não brilha amarelo na anilada abóbada. Se o Sol estivesse amarelo, ver-se-ia que nos estendais dos meus vizinhos das traseiras haveria calças azuis, pretas e castanhas, blusas vermelhas, amarelas, violeta, vermelhas e até brancas e roupas íntimas pretas da minha vizinha do rés-do-chão, do prédio que me fica nas traseiras. Pretas e azuis, com florinhas. Ah não, não são todas pretas e azuis com florinhas. Essas são as da vizinha do rés-do-chão do prédio cor-de-rosa que fica  mesmo nas traseiras do meu prédio. No terceiro andar, a vizinha usa sutian cor de salmão e no sétimo esquerdo a cor roxa é a predominante. Roxa mas com rendas pretas. Não compreendo é porque é que nenhuma das minhas vizinhas usa lingerie verde-mar. Por exemplo, quando vem à janela fumar o seu cigarro, a vizinha do segundo andar do prédio cor-de-rosa, esse, sim esse que estão a pensar, o que fica mesmo nas traseiras do meu prédio, ela que é loira, o seu cabelo de um loiro quase branco, não sei se o pinta se lhe nasceu assim, tem uns lindos olhos verde-mar. Se eu tivesse uns olhos da cor dos dela e se eu fosse mulher, naturalmente, usaria lingerie verde-mar. Acho que condiria com a cor dos meus olhos. Mas na janela dela, a par de um vestido cor de mel que deve ter levado a uma festa, pois o vestido é um vestido de se levar as festas, de uma camisa branca com um bordado, também branco no peitilho, umas calças azuis do dia-a-dia, uns shorts cor-de-laranja, um camisolão que apenas deve estar a apanhar ar, pois é tempo da roupa grossa estar arrumada nos armários, de lã purpura, tem também no estendal duas cuecas brancas e um sutiã preto e branco, sarapintado. Não tem lingerie verde-água. Incrível! As cortinas da varanda da vizinha do rés-do-chão do prédio cor-de-rosa que fica nas traseiras do meu prédio são amarelas, com umas aplicações verdes desenhadas. A esta distância eu poderia dizer que ela não teve mau gosto na escolha da cor e do motivo das cortinas. Parecem-me harmoniosas. Quando ela vem à varanda, porque ela gosta de vir à varanda, naturalmente, sobressai o seu cabelo pintado de vermelho, um cabelo com um corte d’époque, uma blusa fina de licra branca, bem colada ao corpo e umas cuecas azuis com florzinhas. Sim porque quando o céu está azul e o sol está amarelo, a minha vizinha gosta de vir em cuecas para a varanda. Só não entendo porque é que não vem de cuecas vermelhas. Ficar-lhe-ia melhor com o cabelo.