quinta-feira, 6 de setembro de 2012

165. Espelhos da minha infância



O meu espelho começa a cansar-me. Não que não seja um espelho bonito, numa decoração, quiçá já um pouco démodé, mas ainda assim funcional e condicente com o ambiente. Não que não esteja em condições, sem quebra da película que o espelha, sem rachas no vidro, sem perdas nos cantos, sem manchas. Não que não reflita o ambiente calmo em tons de verde-água que permite uma suave transição entre o matinal despertar e o mundo azul brilhante que nos chega pela janela. Não que ao olhar o espelho, olhos nos olhos, não possa detetar mais uma cã, mais um pé de galinha, mais um engelho na mão que pega a lâmina com que de manhã me barbeio, me penteio, me apronto. O meu espelho não tem defeitos e apesar disso começa a cansar-me. Talvez, se um dia se quebrar eu venha a ter saudades dele, mas agora…

Agora, saudades tenho do espelho do senhor Zé Barbeiro, o barbeiro, claro, onde em miúdo ia para cortar o cabelo. Na verdade o senhor Zé Barbeiro não tinha um mas sim dois espelhos. Exatamente um em frente ao outro. Eu não gostava muito do senhor Zé Barbeiro que me obrigava a permanecer imóvel na cadeira, minutos sem fim, eternidades, a ponto de me ameaçar cortar-me uma orelha se eu não estivesse quieto. Estar sentado na cadeira do babeiro era para mim um suplício mas também um fascínio. No espelho do senhor Zé Barbeiro eu via-me e o espelho via-me a mim. Quando eu me olhava por detrás, o espelho olhava-me de frente e quando eu me olhava de frente o espelho olhava-me por trás. E se a minha cabeça ficava à frente de um e de outro e de outro e de outro e de outro e de outro, eu inclinava-a um pouco e ficava a ver uma infinidade de Constantinos, uns de frente outros de trás, pelos espelhos fora. Queria lá saber se o senhor Zé Barbeiro me cortava uma orelha ou não. Até aposto que aquilo era mentira dele. 

Gostava também do espelho do senhor Isidro. O senhor Isidro, para dizer a verdade não tinha só um espelho, ele tinha muitos. E todos eles também me fascinavam e intrigavam. Eram pequenos, colados nos pilares da loja e em qualquer deles não se via a pessoa mais do que dos joelhos para baixo. Com os meus três anos, mais que me fascinarem, intrigavam-me. Eu via as pessoas inteiras e no espelho só tinham calças e sapatos, ou então um bocadinho de vestido meias e sapatos. E então eu agachava-me para ver se percebia por que é que quando eu andava a rastejar pelo chão via as pessoas inteiras nos espelhos. E então vinha o fascínio da descoberta. E por isso a exaustivamente repetida pergunta, que por vezes já lhe enchia a paciência «mãe, quando é que vamos ao senhor Isidro comprar umas sandálias?». Até sonhava com os espelhos da sapataria.

Dona Carmo, que é como lhe chamavam mas que eu sempre duvidei de que se chamasse assim, pois tinha sotaque espanhol, só tinha um espelho. Eu, quando era garoto estranhava e perguntava à minha mãe porque é que a Dona Carmo tinha um espelho tão velho. Acho que a resposta que obtive foi porque Dona Carmo também já era velhota, mas a verdade é que em termos fashion, Dona Carmo estava muito à frente. O espelho dela era propositadamente velho, numa moldura de castanho, parecia salpicado e escurecia nos cantos. Quem visitava a loja da D. Carmo era gente fina que ia lá comprar ou alugar chapéus de cerimónia. Era a chapelaria mais importante da vila, vendia boinas, bonés, chapéus de coco e até cartolas. O espelho condizia com a decoração “de época” da loja da Dona Carmo. Balcões, armários, prateleiras e espelho, tudo a condizer. Uma vez o meu pai alugou na loja Dona Carmo um chapéu parecido com o do Fernando Pessoa. Quando olhou para o espelho da Dona Carmo saiu de lá com a sensação que havia qualquer coisa que não estava bem e quase culpou o espelho por isso. Só dois dias depois é que se lembrou que não tinha bigode.

Na Feira Popular era rir até mais não poder. Quando cá fora ouvíamos aquela cassete que não parava de gargalhar, numa antecipação dos risos enlatados das séries televisivas, sabíamos que estávamos perto do Palácio dos Espelhos. É claro que lá dentro todos nos partíamos a rir, mas nunca eramos tantos quanto as gargalhadas vindas do altifalante poderia induzir. Espelhos que nos distorciam a imagem, onde tão rapidamente eramos anões, como jogadores de basquetebol, onde reproduzíamos o Bucha e Estica lado a lado, onde eramos marrecos ou barrigudos, e onde até tínhamos os maxilares de lado sem termos jogado boxe. Se ainda houvesse Feira Popular voltaria ao Palácio dos Espelhos. Ando a precisar de rir.

No prédio em frente ao que eu morava, vivia num segundo andar a Dona Perpétua. Dizem que a Dona Perpétua era uma senhora que tinha tido uma casa de passe na Baixa Lisboeta. Quando a D. Perpétua se retirou dessa vida, tendo-se casado com um senhor que tinha um carro desportivo verde-claro e era, pelo menos, uns vinte anos mais novo do que ela, vimos um dia chegar uma furgoneta e descarregar umas peças de mobília à porta do prédio. Ouvimos da janela do segundo andar a Dona Perpétua, com ar de quem se levantara tarde, com um cigarro numa mão e embrulhada num robe azul-escuro de cetim, gritar «cuidado com o espelho!». Dizia a malta mais velha, com ar de malandrice, de que era o espelho que ela punha aos pés da cama quando atendia os clientes. E a gente, na nossa ingenuidade de putos, ria-se sem saber porquê.

Ah, é verdade, não podia acabar esta minha memória de espelhos sem vos contar duas coisas. A primeira é que todo este desenrolar de pensamentos sobre os espelhos da minha criancice não demorou mais tempo do que o de cortar a barba matinal. A segunda é para dizer que quando o padre fez as exéquias de Dona Carmo chamou-lhe Mari Carmén. Eu bem me parecia que ela era espanhola.




domingo, 26 de agosto de 2012

164. Pôr-do-Sol



O Sol já se punha e Marina estava preocupada. Àquela hora o seu homem já costumava estar a dar a saudação de santas noites no umbral da porta, algumas vezes, diga-se em abono de Marina e não tanto de Eliseu, com um grãozinho na asa, pois que na antiga carvoaria do senhor Bartolomeu, hoje um moderno café de aldeia, mas que ainda é conhecido pela carvoaria, pinga da boa era o que não faltava. De Pias vinham, e eram despachados, quase todas as semanas um duzentos litros de tinto, hoje já não em pipas mas sim em garrafões devidamente selados e certificados. Não era parvo nenhum o carvoeiro, que sempre colocava na mesa ou no balcão um pires de azeitonas, com orégãos e uma boa pitada de sal, temperadas na hora, que deixavam as bocas do Eliseu, do Gamito, do ti João da Burra e mesmo do Dr. Sesinando, numa sequeira de repetir a dose. Por vezes não eram só dois nem três copos que o Eliseu já levava a mais no bandulho, mas àquela hora já Eliseu trespassava o portão, com «santas noites, minha esposa». 

Desligou da tomada o ferro elétrico, pousou-o no descanso para que arrefecesse e debruçou-se no fogão para cuidar do jantarinho de feijões que já fumegava. Cheirava a carnes cozidas, mas os melhores aromas vinham de um chouriço de porco preto, de uma morcela de sangue e de uma moira de Barrancos, já para não falar do perfume da hortelã da ribeira que inundava toda a cozinha e que, trespassando as cortinas de fitas, mergulhava agora no alpendre. Se o seu Eliseu não vinha ao isco de tão eloquente aroma, então era porque alguma coisa lhe haveria de ter acontecido. Ter-se-ia ele esquecido que hoje era o seu aniversário? Ou então desta vez abusou, ficou pelo café do carvoeiro, teria já bebido para além da conta, não se daria por levantado da cadeira, o Dr. Sesinando ou o Gamito, principalmente este, a contarem anedotas brejeiras, o ti João da Burra a abanar a cabeça e a chamar-lhes pantomineiros, o senhor Bartolomeu a encher mais um canjirão de barro decorado de S. Pedro do Corval. Já lá iria ver, era só acabar de arrumar os lençóis no gavetão da cómoda, tirar o avental, passar água pelo rosto, alisar os cabelos, abaixar o lume no fogão e seguir para o centro da aldeia. Haveria de dizer-lhe das boas. Ai diria, diria.

Eliseu não estava no café do senhor Bartolomeu. Nem lá dentro, onde o calor começava a ficar incomodativo, nem na esplanada onde uma brisa, vinda do lado da barragem, convidava a mais um copo e a dois dedos de conversa. Mas não. Hoje nem o Gamito tinha passado por lá, nem o Dr. Sesinando que fora chamado de urgência ao casal do agricultor Romão para assistir ao parto de uma bezerra que estava em vias de correr mal, nem o ti João da Burra o tinha visto, isso confirmou-o ele mesmo, abanando a cabeça e dizendo para Marina que o Eliseu ainda não tinha parecido por lá hoje. O mesmo o confirmaram outros fregueses que, com ou sem azeitonas retalhadas, bebiam o seu copito, uns ainda encostados ao balcão, outros cá fora, em roda, entoando modas alentejanas em local onde o cante nunca se extinguiu. Despediram-se de Marina levando a mão ao chapéu, num ritual que parecia ensaiado, dado a simultaneidade do ato e ficaram a comentar entre eles, coisas que já se ouviam dizer, que não há fumo sem fogo, que era fim do mês, que o moço tinha recebido a féria, aquilo tinha apanhado comboio para Beja, onde de certeza se fora juntar com uma outra, para uns mulher perdida, para outros vadia, outros falando numa antiga namorada nunca esquecida, para os demais a amante. Pelo menos da fama e das bocas do mundo não se livrava, assim se calhandrava no intervalo entre dois Pias tintos ou brancos frescos, próprio dos fins de tarde no café do carvoeiro.

Chegou a casa já a noite se cerrava e só tanto não se notava porque o quarto crescente alumiava com as suas sombras os caniços do valado, prateava as ramagens do pequeno ulmeiro prantado quase à porta do quintal e projetava limões a preto e branco na alva parede da casa. Marina, ao ver o seu homem já chegado, encostado na ombreira olhando o portão por onde era agora ela que entrava, não conseguiu evitar que lhe escorresse uma lágrima pelo rosto. Primeiro ficou especada, sem saber o que fazer. Mas alguma fração de segundo depois correu para ele e abraçou-o pela cintura. Ela não podia crer que logo hoje, no dia do seu aniversário, o seu homem a fosse abandonar sem água vai, nem água vem. E ela que nunca tinha acreditado nos rumores e nas más-línguas estava quase a sucumbir ao teor dos mesmos. Um milhão de pensamentos lhe percorreram o corpo durante todo aquele tempo de espera mas agora só a intrigava aquele tarrasso que o marido trazia pendurado ao pescoço. «Oh homem, onde é que foste descobrir essa coisa que trazes aí pendurada ao pescoço, valha-me Deus», e benzeu-se. «É uma máquina fotográfica, novinha em folha. Encomendei-a para hoje, já que recebia a féria e que tinha de a trazer para te oferecer no teu aniversário. Só que o Gamito foi buscá-la a Beja e atrasou-se um pouco. Mas até há males que vêm por bem, como se costuma dizer», rematou. E para se explicar melhor ficaram os dois a contemplar o bonito pôr-do-sol que poucas horas antes Eliseu captara com a sua máquina nova. 


terça-feira, 21 de agosto de 2012

163. Enganar guarda-redes





Eugénio. Ainda me lembro dele como se fosse hoje. A malta chamava-lhe quase sempre Ogénio. Aliás, ele próprio, quando lhe perguntavam o nome, dizia chamar-se Ogénio. No meu bairro habitava muita gente com pouca formação escolar, como aliás era comum no país inteiro, por isso não era de estranhar que tivesse como vizinhas a Ofrásia, a Estrudes e até a Esprança. E cada um deles, independente do seu nome, cada um deles tinha o seu sonho. A Ofrásia sempre sonhou ser cançonetista mas, coitada, quando abria a boca as palavras articulavam-se menos do que as de Hermínia Silva quando caricaturava, nas suas populares entradas em cena, no Maria Vitória ou nos filmes do Lopes Vieira. Acabou sendo a melhor cerzideira lá da rua, apanhava malhas em meias como nenhuma outra e, com o seu pé-de-meia, abriu uma oficina de arranjos, ela era fazer bainhas, ela era apertar saias ou alargar outras e até arranjar mangas de camisas ou casear braguilhas de calças. Já a Estrudes, que ainda andou no segundo ano da Escola Comercial, mas teve que desistir quando o velho Sarafim, seu pai, viúvo e trolha de profissão, um dia desapareceu sem deixar rasto, deixando a miúda de 12 anos aos seus próprios cuidados. Começou a lavar escadas mas, felizmente, ao crescer, tornou-se uma bela moça e cobiçada, até que um senhor bem-posto na vida, já ela ia bem nos seus dezoito anos, fez caso dela, saiu do bairro, um dia apareceu lá a conduzir um belo espada e quando a cumprimentaram, as velhas amigas, «ó Estrudinhas isto, ó Estrudinhas aquilo», ela ripostava, «Estrudes não, Gertrudes, que eu agora sou uma gaja fina» e acabavam todas à gargalhada. Da Esprança fala-se pouco, até porque nunca foi rapariga de muitas confianças, quando conversava com as vizinhas era apenas no lugar de frutas do ti Toino, falavam do belo olho das couves, da frescura do feijão verde, das batatas que se desfaziam ao cozer e finalmente bom dia, boa tarde, que a Esprança não era de muitas falas. Quem nunca mais apareceu foi o velho Sarafim.

Mas eu comecei esta história para falar do Ogénio e não das minhas vizinhas, isso é conversa para calhandreiras, eu sou um mero contador de histórias, chamo-me Constantino e estou aqui para vos deixar testemunhos. O sonho do Ogénio era ser jogador de futebol e habilidade não lhe faltava. Quando, entre a rapaziada, se tratava de escolher equipas o Ogénio era sempre o primeiro a ser escolhido, dado o seu jeito inato para o pontapé na bola. E, para que conste, o Ogénio jogava descalço. Naquele tempo, a miudagem não tinha as condições que hoje os jovens têm, pavilhões, ringues de tartan ou de outros sintéticos e outras modernices e, diga-se de passagem, aqui o vosso contador de histórias acha muito bem. Jogávamos nos pátios, no intervalo entre prédios, pracetas e quintas onde não era pouco frequente termos de pisar os cardos para podermos fazer rolar a bola. E, de entre todos os que davam o pontapé na chincha, era o Ogénio quem se destacava. É claro que os putos de doze anos cresceram, cada um seguiu a sua vida, nem todos conseguiram ir ao encontro dos seus sonhos, como não o foi a Ofrásia, como não teve tempo de os ter a Estrudes e como nunca se soube se alguma vez os teve ou não a Esprança porque só falava da textura dos nabos, do viço das nabiças, da flor dos grelos, dos alhos chochos e da cebola grelada e bom dia ou boa tarde, conforme a hora do dia. Mas o Ogénio conseguiu o seu desiderato, veio a ser jogador de futebol, o problema dele não era a bola, o problema dele não era o pelado ou o relvado, o problema dele não era o elástico dos calções, pois acostumado a andar de calções atados com um baraço ou apertados com uma fita de nastro ou com um elástico de cuecas enfiado, comprado na capelista da dona Júlia do quarente e sete, por acaso uma boa senhora que até tinha uma filha bem engraçadinha, estava ele. O problema do Ogénio eram as chuteiras, para ele autênticos OVNIs, coisa que nunca tinha visto na vida e que nem sabia se saberia jogar com elas, resumindo, um suplício. Quem teve o privilégio de contar com o Ogénio nas suas fileiras foi o Atlético do Pragal, mas teve de haver condições e compromissos, parte a parte. O Ogénio podia treinar descalço mas nos jogos era obrigado a jogar com chuteiras, assim o exigiam os regulamentos e sem isso, nada feito. Ogénio anuiu e no primeiro dia que calçou as botas, um colega da equipa, para não o magoar, já que Ogénio fazia mesmo falta à equipa e não era conveniente que amuasse disse-lhe, baixinho e com cuidado, que ele tinha calçado as botas ao contrário. Ogénio, colocou o dedo em frente ao nariz e aos lábios e ripostou «chiu, isto é só para enganar guarda-redes».

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

162. Tripas



Não se contavam as minis que invadiam o tampo da mesa do café. Gervásio Garção e Jacinto Jesus tinham tirado a tarde para se enfrascarem e falarem dos velhos tempos. À pala de um pratinho de caracóis a que se seguiu um pires de polvo vinagrete e um de ovas de bacalhau temperadas com cebola, pimenta moída, azeite e vinagre, já lá iam mais de duas dúzias de minis.

Gervásio e Jacinto são amigos de longa data. Já se conheciam nos tempos de liceu. Tendo sido cada um de sua turma não tinham a intimidade que vieram a ter e a usufruir quando ambos decidiram, cada um por sua própria vontade, tirar o curso de oficial da marinha mercante, na Escola Náutica em Paço d’Arcos. Se o liceu não os juntou tanto quanto o comboio da CP, que os levava do Cais do Sodré à estação de Paço de Arcos, não raro até Oeiras, pois que na conversa amiúde se esqueciam de sair na estação devida, tendo de inverter a marcha para poderem chegar à escola, o João Balão e os seus petiscos eram de facto o elo de união que soldava como prata a amizade destes dois jovens estudantes. Tão amigos eram que quando acabavam o namoro com uma já o outro se agarrava à mesma febra e vice-versa para não complicar a prosa. Acabavam sempre na tasquinha a queixarem-se um do outro a atirarem culpas de um para outro «pois cedeste-ma porque a gaja não vale um pires de caracóis». E o outro «ó meu grande pilantra, para não te chamar outra coisa, a tua, mal se senta no banco do carro, adormece e começa a ressonar que eu, em vez de a levar até à praia de Santo Amaro, deixo-a mas é à porta dos paizinhos». E riam à gargalhada, sem nunca antes terem deixado de bater os fundos da garrafa, uma na outra, e soasse um uníssono «à nossa!».
Passaram mais de quatro anos sem se verem. Os cursos acabados, um ingressou na Soponata, o outro foi para a CTM, infelizmente companhias de navegação que a desastrosa política económica cá do burgo resolveu destruir, as rotas e os destinos eram diferentes e, quando um desembarcava, o outro navegava e de novo vice-versa, também para não complicar a prosa.

Foi um recado dado por Gervásio à mãe de Jacinto, num tempo em que nem telemóveis ainda existiam em Portugal, que acabou por reunir os dois amigos, primeiro num rememorativo almoço no Chico e, depois de um passeio pelas instalações da Náutica e alguns dedos de conversa com antigos professores e com a bonita empregada da secretaria, acabarem, finalmente, a tarde no João Balão.
- Lembras-te da Carolina Cintra que andava com a gente no quinto ano do liceu e que todos a conheciam pela fuinha? – Perguntou o Gervásio Garção, a propósito ninguém sabe de quê e já com mais álcool no estômago e no sangue do que aquele que lhe permitia abrir os olhos com firmeza.
- Se me lembro, ó Gervas – que era assim que Jacinto Jesus tratava o amigo – se me lembro. Era uma miúda que veio transferida de um liceu do Porto não foi? Andei caidinho por ela e ela nunca me deu a mínima bola.
- Vê lá se te portas com juízo, já não somos garotos – atalhou Gervásio com receio de que o Jacinto entrasse nas propostas e apostas que faziam com que trocassem de namoradas um com o outro, como quem empresta uma camisa para um jantar com a professora de inglês. – Eu agora sou um homem casado e já não vou nessas maluquices.
- Mas diz-me cá, ó Gervas. O que é que a Carolina Cintra tem a ver com o teu casamento?
- Caraças, pá, parece que não percebeste, ó tanso. – E virou mais uma mini de um só gole. – Casei com a Cintra, pá. Não deu para entenderes?
Naquele momento era difícil que alguém entendesse alguém. Tal era o arrastar de línguas que parecia não se descolarem do céu da boca e nem se desprenderem dos dentes. Já se tornava até difícil perceberem-se um ao outro, quanto mais entenderem-se.
- Pois ouve bem.  ó Gervas. À Cintra até as tripas lhe comia. – rematou o Jacinto que entre as miúdas do liceu, era conhecido pelo Jacintão, no seu metro e noventa e dois e quase 100 quilos de peso e deixando cair a pesada cabeça sobre o braço, adormecendo de seguida.
Nem a conta pagaram. O senhor João chamou-lhes um táxi, assentou com o taxista que primeiro deixaria em casa o Jacinto pois morava mais perto e estava bem pior da buba e só depois entregaria Gervásio à porta de sua casa. Pagou ao taxista a corrida por antecipação e recomendou-lhe, «cuide bem desses dois».

A dona Isménia de Jesus, mãe de Jacinto era uma senhora que sempre tivera Gervásio na melhor das contas. Assim, cada recado que recebia do Gervas com destino ao seu filho era como se fosse uma ordem a cumprir com a maior brevidade possível. Até entrava em ansiedade. Era quase meio-dia e o Jacinto ainda nem tinha acordado para o almoço. Ora essa! Agora que o moço gozava de umas merecidas férias de embarcadiço era deixá-lo descansar, mas assim não. Assim era demais. Mas enfim, hoje era desculpável porque na véspera não tinha chegado muito católico a casa. A olhar de mãe, ninguém engana. Mas logo que o viu descer a escadaria que ligava os quartos à sala, onde habitualmente tomava o pequeno almoço em casa, nem o deixou respirar.
- O Gervásio ligou-te
- E o que lhe disse, mãe? – Perguntou-lhe esfregando os olhos.
- Olha, disse-lhe que deves ter abusado um bocadinho, que nem jantar quiseste e que ainda estavas a dormir.
- Fez bem, mãe, em não me acordar. Obrigado, mãezinha. – E deu-lhe um beijo repenicado na bochecha que deixou dona Isménia toda embevecida. – O que é que o Gervas queria?
- Quer que vás lá jantar esta noite.

Carolina Cintra abriu a porta ao amigo do marido num à vontade de andar por casa. Um short mostra-badana de ganga azul-clara , uma blusa branca de alças, com um coração aplicado ao meio do peito de onde parecia as mamas quererem saltar e chinelas havaianas cor de rosa. Dava-lhe um ar desarranjado, meio blaisé, mas sexy. Jacinto não podia, nem evitou fulminá-la com os olhos.
- Olá fuinha - disse com um sorriso de estupefação mas de uma timidez mal disfarçada, quando Carolina lhe abriu a porta.
- Olá Jacintão. Entra. Não faças cerimónia.
- E o meu amigo Gervásio? – Perguntou, por não ter encontrado outra maneira para se desbloquear.
- Vê lá a chatice Jacinto. Sem mais nem menos, recebeu ao meio da tarde um telefonema da companhia, teve de fazer as malas à pressa. Apanhou um voo de última hora e já deve estar a caminho do Dubai. Vai render um piloto que adoeceu de repente. Coitado.
- Sendo assim se calhar é melhor eu voltar noutro dia. Até porque, com certeza não estavas à minha espera.
- Aí é que tu te enganas, Jacinto. Foi tudo combinado com o Gervásio. Não lhe disseste que a mim, me comias as tripas?
- Disse. Não posso mentir. – Respondeu ainda mais acabrunhado Jacinto, tentando desviar o olhar das cavas da blusa de Carolina, por lhe ter vindo à memoria o que Gervásio disse e deixou claro, de que os tempos de adolescente já tinham passado.
- Pois então passa ali para a sala de jantar. Vou-te servir um vinho fino enquanto se apuram as tripas. Hoje vais comer umas tripas à moda do Porto como nunca te passaram pelo estreito, carago.


sábado, 28 de julho de 2012

161. Um dia cinzento



Nas traseiras da minha casa há um céu azul. Hoje ele está cinzento porque o Sol se zangou com os meus vizinhos e não compareceu à hora marcada. Em seu lugar, carregadas com chumbo, pelo menos a cor assim o indica, vieram as nuvens, numa marcha ora lenta, ora rápida, ao sabor e aos caprichos do vento. Nas traseiras do meu prédio hoje há vento que faz vergar árvores de folhas verdes e árvores de folhas grená. Um vermelho tão escuro e tão belo que se diria que cada folha foi cuidadosamente mergulhada numa tina de tinta da mesma cor. E há também uma árvore com flores cor-de-rosa. Da mesma cor das flores desta árvore são os prédios, cujas varandas se veem da minha janela das traseiras. O prédio que fica mesmo por detrás de mim, está pintado em dois tons de cor-de-rosa. O prédio em si, de cor-de-rosa claro, como se fosse um vermelho-água, diluídas que foram as folhas das árvores que povoam as minhas traseiras e as varandas, num cor-de-rosa mais escura como se o tintureiro tivesse retirado as folhas das árvores de dentro do químico um pouco antes do tempo. Do quase branco ao grená, passam-se tantos tons da mesma cor que imagino que das folhas daquela árvore também saiu o vermelho do sangue do tintureiro. E do cabelo da vizinha que mora no rés-do-chão das traseiras do meu prédio. Nas varandas veem-se estendais mil com roupas de mil cores. Hoje o céu está cinzento e o Sol não brilha amarelo na anilada abóbada. Se o Sol estivesse amarelo, ver-se-ia que nos estendais dos meus vizinhos das traseiras haveria calças azuis, pretas e castanhas, blusas vermelhas, amarelas, violeta, vermelhas e até brancas e roupas íntimas pretas da minha vizinha do rés-do-chão, do prédio que me fica nas traseiras. Pretas e azuis, com florinhas. Ah não, não são todas pretas e azuis com florinhas. Essas são as da vizinha do rés-do-chão do prédio cor-de-rosa que fica  mesmo nas traseiras do meu prédio. No terceiro andar, a vizinha usa sutian cor de salmão e no sétimo esquerdo a cor roxa é a predominante. Roxa mas com rendas pretas. Não compreendo é porque é que nenhuma das minhas vizinhas usa lingerie verde-mar. Por exemplo, quando vem à janela fumar o seu cigarro, a vizinha do segundo andar do prédio cor-de-rosa, esse, sim esse que estão a pensar, o que fica mesmo nas traseiras do meu prédio, ela que é loira, o seu cabelo de um loiro quase branco, não sei se o pinta se lhe nasceu assim, tem uns lindos olhos verde-mar. Se eu tivesse uns olhos da cor dos dela e se eu fosse mulher, naturalmente, usaria lingerie verde-mar. Acho que condiria com a cor dos meus olhos. Mas na janela dela, a par de um vestido cor de mel que deve ter levado a uma festa, pois o vestido é um vestido de se levar as festas, de uma camisa branca com um bordado, também branco no peitilho, umas calças azuis do dia-a-dia, uns shorts cor-de-laranja, um camisolão que apenas deve estar a apanhar ar, pois é tempo da roupa grossa estar arrumada nos armários, de lã purpura, tem também no estendal duas cuecas brancas e um sutiã preto e branco, sarapintado. Não tem lingerie verde-água. Incrível! As cortinas da varanda da vizinha do rés-do-chão do prédio cor-de-rosa que fica nas traseiras do meu prédio são amarelas, com umas aplicações verdes desenhadas. A esta distância eu poderia dizer que ela não teve mau gosto na escolha da cor e do motivo das cortinas. Parecem-me harmoniosas. Quando ela vem à varanda, porque ela gosta de vir à varanda, naturalmente, sobressai o seu cabelo pintado de vermelho, um cabelo com um corte d’époque, uma blusa fina de licra branca, bem colada ao corpo e umas cuecas azuis com florzinhas. Sim porque quando o céu está azul e o sol está amarelo, a minha vizinha gosta de vir em cuecas para a varanda. Só não entendo porque é que não vem de cuecas vermelhas. Ficar-lhe-ia melhor com o cabelo.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

160. Ismael (72) - Capítulo nono, por amor a Francisca


“Despertei com a luz do Sol que penetrava na fresta que servia de entrada à tenda. Mal me levantei, as duas anciãs, que permaneciam de cócoras vigiando a jovem, cobertas por pequenas marlotas, braços carregados de mananas cujas agulhas, batendo umas nas outras, faziam um estranho tilintar, com ar de malcomidas, saíram sem içar as cabeças. Dirigi-me à fenda, semicerrada por dois magnetos, espreitei a machamba que a rodeava. Num ápice, toda a tenda fora inundada pelo cheiro das madressilvas e das magnólias. Fiquei ainda uns momentos escutando o chilrear dos maria-é-dia, antes de reentrar. Nunca tinha visto a jovem “quase-virgem” à claridade da luz. Deitada em marroquinas, longas madeixas de cabelo cobriam-lhe o peito. À espreita, não maiores que marmelos, os seios que, apesar de insensíveis, ainda me seduziam”. 

Foi assim que acabou o nono episódio do «Conto das ilhas de lá». Francisca estava feliz com o escritor. Sabia que ele não iria terminar «Sete facadas e carapaus de escabeche», o seu novo livro, sem antes lhe fazer a vontade de publicar o capítulo nono. Por estas alturas, Francisca andava um pouco descaída. Todos sabemos quanto mói a saúde de uma pessoa ser protagonista de um romance sem pés nem cabeça como este que o escritor tem andado a escrever e que, só por muita consideração a uns amigos seus, que também moram na Quinta do Conde é que lá vai dizendo, sim senhor e tal. O que de facto, na opinião de Francisca, safa o escritor é, não só se ter dignado em publicar os nove primeiros episódios do «Conto das ilhas de lá», deixando para uma nova novela a sua continuidade, mas também o ter-se munido de um narrador competente, esse sim um cinco estrelas, que sabe contar contos e que por sinal descreve bem alguns acepipes culinários que são de comer e chorar por mais.

Quem parece também ter ficado contente com este epílogo em relação ao «Conto das ilhas de lá» foi o Espinheira, que desde muito cedo se veio a revelar o fã número um de Francisca, não pelo hercúleo trabalho que ela lhe deu ao decifrar os proto-hieróglifos que constituem a sua escrita, à conta do qual a chegou a esconjurar, mas sim, como é bom de ver pela beleza narrativa, pela exoticidade das situações e pela riqueza de vocabulário em perfeito contraste com o tom simplista e por vezes coloquial com que foi escrito «Sete facadas e carapaus de escabeche». Se o escritor não se lhe der na cabeça matar Francisca, não de morte matada, mas sim de morte morrida, antes do final do romance, é de crer que esta um dia venha a acabar tão linda prosa.

Orgulhoso estava Sebastião. Ele que era sobrinho emprestado de Francisca mas que a amava mais do que à mãe, diga-se em abono da verdade nem mais se lembrava de Raquel ou, como queiram, Rachel, ter como mãe uma escritora de romances a roçar o erotismo era coisa que nunca lhe tinha passado pela cabeça, mas que lhe bateu o orgulho de ter como mãe uma pessoa que não via apenas o que estava nos tornozelos das mulheres da Quinta do Conde, que frequentavam a mercearia do senhor Ismael Rodrigues, mas que lhes explorava os conhecimentos que iam para cima das ligas das meias de vidro.

Finalmente quem não tem estado a gostar nada desta conversa toda é o escritor que parece que aqui é um verbo de encher e que amuando entorna o caldo a modos de acabar por aqui este episódio sem mais uma única palavra.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

159. Ismael (71) - Detalhes, porque a 5ª já era.




«Ó Espinheira, você quer ajudar-me na minha exposição?» perguntou o inspetor Ismael Sacadura Flores ao jovem avençado que desde quase o início desta trama nos acompanha. «Você quer ajudar-me nesta fase em que a Isaurinha Bate-Sola está em maus lençóis, Espinheira?», repetiu a pergunta, agora acrescentando algum detalhe. O jovem Espinheira que já estava a sentir-se cansado de tanta interrupção à preleção perpetrada pelo inspetor, ora para comer sem nexo quando desconfiava estar a ser ultrapassado, ora para beber mais um copo daquele tinto que só na tasca de Ismael Gusmán era servido, ora para ir à casa de banho, sendo até, que já havia consultado o relógio de pulso pelo menos umas boas três vezes, nem hesitou em aceitar o pedido de Sacadura. É assim que iremos ouvir durante mais de dezoito minutos, mais precisamente dezoito minutos e vinte e quatro segundos, o jovem Espinheira, com o manuscrito de Francisca em riste, debitar a cronologia daquele dia fatídico que retirou do mundo dos vivos tão promissora bailarina de teatro e italiana, o que dá sempre jeito para apresentar em cartaz. O narrador, porque é um homem de consciência e não gosta de maçar os seus leitores com detalhes, preferindo ser pragmático e contar logo as coisas como elas foram, sem se perder em floreados gramaticais nem em retórica de romanos tribunos, ao contrário do escritor que é um verdadeiro empata, que já poderia ter dito de uma vez por todas quem foi que matou a desgraçada da bailarina e anda aqui de episódio em episódio, armado em Agatha Christie de calças e a transformar Ismael Flores num Poirot, sendo que aquele, o inspetor, não usa suspensórios e este, o Poirot usa fatos de tweed a cujo preço o pobre policia português não pode sequer se aproximar. Portanto, vamos já ao fim desta coisa, a que o escritor gosta de chamar episódio e pronto, eu também não me importo, há que ser organizado. Assim, segundo o manuscrito de Francisca, os apuramentos da investigação, o resumo feito para exposição pública e a preciosa ajuda de Espinheira, paleólogo e futuro licenciado em filologia românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, temos:


a)      Isaurinha entrou num autocarro às 7h05 da manhã, na paragem da Nacional 10, junto à Quinta do Conde.
b)      Esta informação é confirmada por Ismael Trava-fundo, o motorista dos Belos, que conhecia muito bem Isaurinha, pois todos os dias, esta passageira apanhava, sempre à mesma hora, o autocarro na Quinta do Conde.
c)      Esta informação é também confirmada pela D. Eugénia Bacalhoa, na verdade Eugénia Bacalhau, apelido de seu pai, mas que na terra, devido ao sexo, sempre foi conhecida por Bacalhoa, aliás como a sua mãe também o era como consequência do casamento com Bernardo Bacalhau, um abastado agricultor. D. Eugénia Bacalhoa, apesar de já contar com sessenta e cinco anos de idade era tratada por Géninha, pela sua amiga e companheira de banco de autocarro, fazia mais de 10 anos, desde que Isaurinha arranjara emprego na fábrica de camisas.
d)      O Mário dos jornais confirmou que já passava das sete e meia da manhã quando lhe vendeu a Crónica Feminina. Ele tem a certeza porque naquele dia, ao vender a Crónica a Isaurinha, lhe disse «aqui está a sua Crónica, menina Isaura». Depois olhou para o relógio e, com a vossa licença, disse «foda-se, pouco passa das sete e meia e já não tenho mais Crónicas».
e)      Segundo o médico legista, Isabella foi morta entre as sete e as sete e meia.
f)       Mas, começando a alínea com mas o escritor arrisca-se, não deixando de ser ossos do ofício, Isaurinha só chegou à fábrica de camisas do Sr. Barrocas na Rua de S. Lázaro, já passava das oito e meia da manhã, portanto, meia hora atrasada em relação à hora da entrada.
g)      Ismaelix que nessa noite tinha estado com Ekatrina a consolá-la do súbito pedido do KGB para que regressasse à Rússia, mas não no apartamento desta, nem na casa daquele, que como sabemos se situa na nossa conhecida Quinta do Conde, mas que não interessa para nada aqui saber onde, já que Ekatrina não poderia ter melhor alibi do que um próprio chefe de brigada da Judiciária, embora de aspeto estranho, uma vez que além de uma comprida trança tem também um bigode à Chalana, porém branco, viu Isaurinha Bate-Sola entrar no número 43 da Rua dos Correeiros, sem ter de tocar à campainha. Seria quase oito da manhã desse fatídico dia.

«Quer ajudar-me na minha preleção, menina Isaurinha Peres?», perguntou o inspetor Ismael Sacadura Flores, dirigindo-se à nossa conhecida filha do sapateiro. «Quer ajudar-me a esclarecer o que fazia naquele prédio que nem tão pouco fica em linha reta, entre o Cais das Colunas e a Rua de S. Lázaro, sendo que para isso teria sido melhor a menina ter subido pela Rua da Prata?», voltou a perguntar o inspetor, desta vez, de novo mais pormenorizado, coisa que ele fazia questão sempre que repetia uma pergunta. Por vezes, quando tinha de repetir ainda somaria algum detalhe, como foi o caso desta vez. «Quer ajudar-me, menina Isaura, a explicar o que foi fazer àquele prédio da Rua dos Correeiros, mais precisamente o número 43, por coincidência ou não, a morada da famigerada e triste dançarina de teatro de revista?». Ato contínuo, Isaurinha Bate-Sola entra num pranto e, entre lágrimas e soluços, mal se percebendo as primeira palavras por terem sido balbuciadas e porque para assoar o ranho que já ameaçava sair-lhe pela narina esquerda, Sebastião lhe estendeu um lenço de mão, por acaso de bom pano, com duas letrinhas gravadas pela sua tia Francisca, um S e um R de Sebastião Ribeiro, tão lindo, tão romântico isto que o narrador agora vos conta, dando conta, passe a repetição de que Castro Ribeiro, algures entre o nascimento do garoto e o dia em que Francisca bordou aquele lenço, o terá perfilhado e dado o seu apelido ao menino, hoje um jovem e promissor marinheiro, quiçá um futuro lobo-do-mar, capaz de dar novos mundos ao mundo se mais mundo houvera para se descobrir e, romântico também, embora pouco higiénico a oferenda de Sebastião a Isaurinha, logo o seu lenço bordado, para que esta o conspurcasse com as suas excrescências nasais, sabe-se lá em que quantidade. Então, Isaurinha falou em ciúmes, olhou para Sebastião, fingiu um desmaio, entrou em histerismo, levou duas chapadas da enfermeira feia, «ela tinha de mas pagar», quase não se percebendo pois era baba que agora lhe escorria do canto da boca, que até o agente da PIDE que lá no canto bebia uma Sagres, e que costumava arrotar malcriadamente a cada gole, já estava a ficar com nojo, imaginem as voltas ao estômago que estava a dar àqueles que, ainda alguns minutos atrás, se deliciavam com os belos petiscos de Ismael Gusmán, onde os carapaus de escabeche estavam de comer e de chorar por mais, o nojo dizia que a baba e o ranho do choro de Isaurinha provocava. Mais calma continuou. «Vinha, no vapor de Cacilhas para o Terreiro do Paço a ler distraidamente a Crónica Feminina, quando um senhor, por acaso muito bem-apessoado, me dá um encontrão, pois, com o balanço do Sul-expresso não se equilibrou. Levantei os olhos e reparei que lia o Século. Na primeira página uma notícia, “Ciúmes em Portugal acabam muitas vezes em crime passional”. Não era tarde, nem era cedo. Eu seria a próxima notícia do Século. Ou do Diário de Notícias, ou do Popular. Tinha de ser naquele dia. A italiana iria pagá-las. Se não a matasse dar-lhe-ia uma tareia que ela não iria esquecer tão cedo. Quem sabe se lhe partia as pernas. Vinha a sair no cais das colunas e já imaginava as parangonas: “Filha de sapateiro deixa bailarina em estado de coma” ou então “A pobre corista não voltará a dançar”. Até os olhos se me riam. Subi as escadas do número quarenta e três. Quando cheguei ao sexto andar, a porta estava aberta. Não me lembro em que pensei. Só sei que lhe iria puxar aqueles longos cabelos, pois nem uma lima das unhas tinha para usar como arma. À minha frente, deitada no chão, uma pobre rapariga esvaía-se em sangue. Era ela. Que raiva! Que ódio! Morta! Que grande deceção! Morta! Que ódio! Que raiva! Peguei na faca que tinha espetada no peito. Retirei-a e, com força, espetei-lha de novo, dizem os senhores inspetores que foi a 5ª facada. Que raiva! Que ódio! No Rossio lavei as mãos. Na rua da Palma bebi um copo de água com açúcar. Quando entrei na fábrica de camisas, sentei-me na máquina e não abri a boca toda a manhã. Eu ardia de raiva. De ódio»