Eugénio.
Ainda me lembro dele como se fosse hoje. A malta chamava-lhe quase sempre Ogénio. Aliás, ele próprio, quando lhe
perguntavam o nome, dizia chamar-se Ogénio.
No meu bairro habitava muita gente com pouca formação escolar, como aliás era
comum no país inteiro, por isso não era de estranhar que tivesse como vizinhas
a Ofrásia, a Estrudes e até a Esprança.
E cada um deles, independente do seu nome, cada um deles tinha o seu sonho. A Ofrásia sempre sonhou ser cançonetista
mas, coitada, quando abria a boca as palavras articulavam-se menos do que as de
Hermínia Silva quando caricaturava, nas suas populares entradas em cena, no
Maria Vitória ou nos filmes do Lopes Vieira. Acabou sendo a melhor cerzideira
lá da rua, apanhava malhas em meias como nenhuma outra e, com o seu pé-de-meia,
abriu uma oficina de arranjos, ela era fazer bainhas, ela era apertar saias ou
alargar outras e até arranjar mangas de camisas ou casear braguilhas de calças.
Já a Estrudes, que ainda andou no
segundo ano da Escola Comercial, mas teve que desistir quando o velho Sarafim, seu pai, viúvo e trolha de
profissão, um dia desapareceu sem deixar rasto, deixando a miúda de 12 anos aos
seus próprios cuidados. Começou a lavar escadas mas, felizmente, ao crescer,
tornou-se uma bela moça e cobiçada, até que um senhor bem-posto na vida, já ela
ia bem nos seus dezoito anos, fez caso dela, saiu do bairro, um dia apareceu lá
a conduzir um belo espada e quando a cumprimentaram, as velhas amigas, «ó
Estrudinhas isto, ó Estrudinhas aquilo», ela ripostava, «Estrudes não,
Gertrudes, que eu agora sou uma gaja fina» e acabavam todas à gargalhada. Da Esprança fala-se pouco, até porque nunca
foi rapariga de muitas confianças, quando conversava com as vizinhas era apenas
no lugar de frutas do ti Toino, falavam do belo olho das couves, da frescura do
feijão verde, das batatas que se desfaziam ao cozer e finalmente bom dia, boa
tarde, que a Esprança não era de
muitas falas. Quem nunca mais apareceu foi o velho Sarafim.
Mas eu
comecei esta história para falar do Ogénio
e não das minhas vizinhas, isso é conversa para calhandreiras, eu sou um mero
contador de histórias, chamo-me Constantino e estou aqui para vos deixar
testemunhos. O sonho do Ogénio era
ser jogador de futebol e habilidade não lhe faltava. Quando, entre a rapaziada,
se tratava de escolher equipas o Ogénio
era sempre o primeiro a ser escolhido, dado o seu jeito inato para o pontapé na
bola. E, para que conste, o Ogénio
jogava descalço. Naquele tempo, a miudagem não tinha as condições que hoje os
jovens têm, pavilhões, ringues de tartan ou de outros sintéticos e outras
modernices e, diga-se de passagem, aqui o vosso contador de histórias acha
muito bem. Jogávamos nos pátios, no intervalo entre prédios, pracetas e quintas
onde não era pouco frequente termos de pisar os cardos para podermos fazer rolar
a bola. E, de entre todos os que davam o pontapé na chincha, era o Ogénio quem
se destacava. É claro que os putos de doze anos cresceram, cada um seguiu a sua
vida, nem todos conseguiram ir ao encontro dos seus sonhos, como não o foi a Ofrásia, como não teve tempo de os ter a
Estrudes e como nunca se soube se
alguma vez os teve ou não a Esprança
porque só falava da textura dos nabos, do viço das nabiças, da flor dos grelos,
dos alhos chochos e da cebola grelada e bom dia ou boa tarde, conforme a hora
do dia. Mas o Ogénio conseguiu o seu
desiderato, veio a ser jogador de futebol, o problema dele não era a bola, o
problema dele não era o pelado ou o relvado, o problema dele não era o elástico
dos calções, pois acostumado a andar de calções atados com um baraço ou
apertados com uma fita de nastro ou com um elástico de cuecas enfiado, comprado
na capelista da dona Júlia do quarente e sete, por acaso uma boa senhora que
até tinha uma filha bem engraçadinha, estava ele. O problema do Ogénio eram as chuteiras, para ele
autênticos OVNIs, coisa que nunca tinha visto na vida e que nem sabia se
saberia jogar com elas, resumindo, um suplício. Quem teve o privilégio de
contar com o Ogénio nas suas fileiras
foi o Atlético do Pragal, mas teve de haver condições e compromissos, parte a parte.
O Ogénio podia treinar descalço mas
nos jogos era obrigado a jogar com chuteiras, assim o exigiam os regulamentos e
sem isso, nada feito. Ogénio anuiu e
no primeiro dia que calçou as botas, um colega da equipa, para não o magoar, já
que Ogénio fazia mesmo falta à equipa
e não era conveniente que amuasse disse-lhe, baixinho e com cuidado, que ele
tinha calçado as botas ao contrário. Ogénio,
colocou o dedo em frente ao nariz e aos lábios e ripostou «chiu, isto é só para
enganar guarda-redes».
