Estou
irritadíssimo. Ando com gases e desconfio porquê. Já tive de me ausentar desta
sala bastas vezes, vocês deram conta disso, vou à casa de banho e só solto
puns. Depois regresso à tasca e faço o Ismael e a sua empregada, cujo nome o
autor não nos quer dizer desde que eliminamos Fernandinha destes capítulos,
trabalharem que nem uns mouros, para me prepararem um ensopado de borrego, umas
pataniscas de bacalhau, umas fatias de queijo tipo flamengo, um jarrinho de
tinto da casa, uns filetes de peixe-espada, uma omeleta de chouriço, umas
azeitonas com alho e um café sem açúcar. E cá para nós, que ninguém nos lê,
estes puns só podem significar uma coisa. Ando a ser ultrapassado. Alguém anda
a contar aos leitores do Constantino que não tem nada a ver com a morte de
Isabela. Até me dão suores frios. De repente apetece-me uma salada de ovas de
saboga, um cozido de grão, um bacalhau à Valentim, uma garrafa de água castelo
e um toucinho-do-céu. Depois dão-me cólicas, dirijo-me de novo aos lavados e
solto mais uns quantos puns. E assim, meus amigos, não pode ser. Nunca mais eu
acabo esta preleção, já são quase onze da noite e se vocês não acabam com as inconfidências,
ficamos com a quarta facada dada por Ishmail Baruch, pela sexta dada pela enfermeira feia e pronto
acaba-se aqui o romance. Se quiserem saber o resto perguntem ao ceguinho da
concertina que ele conta-vos tudo assim tipo,
Se querem
saber quem matou
É preciso paciência
Também já eu sou avô
Esperar é
uma ciência.
E se o velho israelita
Tem as
algemas, não nego
Safa-se porque
tem muita guita
Ou eu não seja mais cego.
E por aí a
fora que o escritor é um prosita e não um António Aleixo da criminologia. Pois
então, peço-vos apenas um pouco mais de paciência. Quando a vaca da Isaurinha
Bate-Sola, sim a vaca aí ao seu lado, senhor Ismael, ela que nem se atreva a
levantar de novo a voz senão vai para os calabouços à chapada, irrompe pela
porta aberta deixada por Baruch, o único Ismael desta história que, vá-se lá saber
porquê se chama Ishmail, com a intenção de dar duas bofetadas em Isabella, sem
fazer a mínima ideia do qual era o grau de importância que uma medalha com um
número escrito atrás de uma imagem de Nossa Senhora tinha, mas apenas por
ciúme, encontra a pobre corista, inanimada, violentada por uma faca que ainda
lhe cravava o peito e já com quatro facadas bem contadas em seu peito.
Isaurinha ainda se encheu mais de raiva. Ela que sempre fez o que quis,
mormente em sentido sexualmente assumido, tinha em sua frente uma morta que nem
o seu Sebastião poderia mais traí-la com (reparem nestas inversões, seguindo as
críticas ao estilo, feitas pela rapariga da esplanada, que come sandes de
fiambre com manteiga), e nem duas bofetadas lhe poderia dar. Tanta raiva, tanto
ódio, tanta execração, tanto rancor, tanta sanha e fazer o quê com isto? Sem
refletir mais, sem pensar duas vezes, coisa que também achamos que Isaurinha
não é capaz de o fazer, iça a faca espetada no peito da pobre italiana, da
malograda transalpina, da triste tricolor e baixa-a tão violentamente que a
quinta facada na coitadinha, já estendida, até parecia ter sido a primeira. E
enquanto a comissária Xana colocava as algemas em Isaurinha, o inspetor Ismael
flores soltava mais puns e fazia o seguinte à parte.
E esta
agora, escritor? Com que então você pensava que era só de sua autoria estragar
a vida a quem aqui anda a ganhar o pão, não? Pois a autoridade sou eu. Andava
hesitante se punha a Isaurinha Bate-Sola, insisto, uma meretriz de primeira
água, a protagonizar o crime, não andava? Pois lixei-o! Há vários capítulos que
nas minhas costas tem andado a publicar os depoimentos dos suspeitos e eu aqui
a enfardar comida atrás de comida e a ficar com gases, por ter sido altamente
ultrapassado e você a engendrar que a filha do sapateiro e tal e coisa, como já
teve oportunidade de o dizer. Pois se quiser fique aí com mais umas noitinhas
de insónia a procurar quem matou a dançarina e abra a janela. Não é por causa
do calor, não. É que os gases, sabe não é, não preciso de dizer mais nada, pois
não?