quinta-feira, 5 de julho de 2012

156. Ismael (69) - O inspetor solta puns ou ela deu a sexta?



Eu dei a sexta. Já não aguento mais este despejar de argumentos, preleção, como tem referido amiúde o escritor, que o inspetor Ismael Sacadura Flores está a fazer em plena tasca, que não ata nem desata, pois o homem passa a vida a interromper-se para comer e para beber. Ainda há pouco, estava com um copo de vinho pelos queixos, não sei como é que não perde o equilíbrio. Eu que sou enfermeira farto-me de dizer aos doentes que o vinho faz mal à saúde, mas se é o próprio Senhor Doutor Oliveira Salazar, que Deus o conserve por muitos anos, que diz que “beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, quem sou eu, uma simples enfermeira, nada em S. Pedro do Sul, criada a águas minerais e termais, que vai desmentir o nosso mais alto dignatário o nosso querido e benfazejo Professor Doutor. E não digo isto por causa daquele agente da PIDE que desde o princípio se sentou naquele canto da sala e ali ficou sem tirar o chapéu preto, não, não é por causa dele. Até porque a mim é difícil alguém me poder fazer mal. O meu falecido e bom pai era muito querido na Legião e por isso, eu não tenho receio dele. Nem da comissária Xana, pois eu não matei aquela vadia da bailarina, deixa-me cá benzer e bater na madeira três vezes, mas lá na minha terra não há nada disto, destas mulheres que se põem com as pernas ao léu e, depois, não querem que os homens se portem mal com elas. Deus nos livre se algum dia isto vier chegar ao ponto de se verem mulheres a mostrar os seios nas praias da Caparica ou de Algés, ou rapariguinhas, algumas até bem jeitosas, a usarem calções tão curtinhos que se lhes veem as badanas do rabo. Mas isto devo ser eu a delirar pois aqui as minhas saias e as das mulheres decentes são bem abaixo do joelho e ninguém tem nada para me apontar. Ah, vocês não querem saber nada disto, não é seus desavergonhados? Pois então eu conto-vos o que vocês querem saber e que não se perca mais tempo! Eu nem estava de serviço naquela manhã. Ou melhor, estava mas já quase que não estava. Eu ia sair às oito. Tinha entrado no turno da meia-noite. O Dr. Ben, que é como o judeu é aqui conhecido entre os colegas, resolveu deixar uma cirurgia a meio e sair com a enfermeira Helena. Ainda por cima, com um desplante jamais visto ou imaginado, provocou-me. Eu não sou bufa, só porque o meu pai era legionário, Deus tenha a sua alma em descanso que não é para aqui chamado e o escritor já o fez, propositadamente, mais de uma vez. Pois sabem como é que eu fiquei? Fiquei em brasa. A sério! Onde é que aqueles dois iriam? Saíram do hospital, foram a pé até ao Campo Santana e aí entraram num táxi. Saí atrás deles e tomei outro que, por sua vez, os seguiu. Descemos a Rua de S. Lázaro onde uma senhora dos seus pouco mais de vinte anos, entrava feliz na Magalhães Coutinho, com um saco de enxoval numa mão, dando a outra ao marido e empinando uma barriga de nove meses e dias, descemos ao Martim Moniz, passamos pela Rua da Palma, onde um dia não deixei presa a minha alma porque por mim não passou nenhum fadista de cor morena e boca pequena, entramos na Praça da Figueira, onde pescadores de pé descalço, calça arregaçada e camisa aos quadrados acartavam cestas de peixe, peixeiras já saiam de rodilha e canastra na cabeça ensaiando os primeiros pregões matinais, carroças com burros amarrados em argolas, junto à fonte onde as alimárias beberricavam e saloios despejavam couves, alfaces e nabiças em molhos, e uma melancia se desfazia em mil pedaços, caída das mãos de um transeunte, percorremos a Rua dos Fanqueiros a caminho do Tejo, cujos últimos néones se apagavam com o nascer da manhã e as portas de alfaiates, costureiras e vendedores de fancarias ainda não tinha aberto as portas e, antes de chegarmos ao Tejo, cujo Terreiro do Paço lhe serve de varanda, cortamos a Rua da Conceição, ainda sem aquele cheiro típico do molho de escabeche, dos tordos fritos ou das tiras de toucinho passadas na chapa, até que, finalmente, embicámos na Rua dos Correeiros. Pedi ao taxista que abrandasse, deixasse sair o casal que seguia no táxi em frente e, quando eles entraram no número 43, pé ante pé segui-os escadas acima, fazendo por me esconder em cada vão de porta em cada patim da escadaria. A porta do sexto andar estava aberta. Seria então ali o antro da perdição. Seria então ali que o Dr. Ben e a sua concubina se enrolariam em porcarias inenarráveis. Seria ali que trocariam beijos sujos de boca e línguas. Seria então ali que o médico judeu desapertaria a blusa branca de Helena, a blusa plissada de enfermeira, quiçá ainda com o distintivo do hospital e as letras HM representando o nome de Helena Meireles, bordadas junto ao coração. Seria então ali que os seios da bela Helena se refletiriam, como dois bolbos de candeeiro de rua, nos brilhantes olhos do jovem médico. Seria então ali que, empurrada sobre a cama, o doutor raios-o-parta de depravado, iria tirar as ligas à enfermeira Helena e baixar-lhe as meias brancas, deixando à imaginação dos leitores deste pecaminoso prospeto, que o escritor teima em que venha a ser livro, quantas das rendas das lindas cuequinhas de Helena denunciariam o calor que por dentro se avolumava. Seria então ali que Helena desapertaria os botões da camisa de cambraia daquele doidivanas sem classificação e lhe desapertaria o cinto das calças, em couro genuíno. Seria então ali…

Morria eu de ciúmes e de ardor quando deparo com Helena e o Dr. Ismael Ben-Avraham debruçados sim, mas não um sobre o outro, antes porém sobre um corpo já cadáver caído no corredor, alguns palmos bem medidos entre a porta de um quarto e a porta da rua. Ben-Avraham apenas balbuciou «está morta». Helena respondeu «nada mais temos a fazer aqui». Só tive tempo de entrar no quinto andar abandonado antes que o casal saísse. Subi depois. Quis ver o que se passava. Uma mulher, jovem, mais jovem que a enfermeira Helena e bem mais jovem do que eu e muito mais bonita que ambas, prostrava-se no chão com uma faca espetada no peito. Que raiva, esta mulherzinha, provavelmente uma corista de teatro, ruiu os meus planos de apanhar aqueles dois em flagrante. Peguei na faca e espetei-a de novo no seu corpo já quase frio. Seria a sexta facada, não as contei, mas na polícia disseram-me que sim. Só peço que não digam ao inspetor que vos contei o que contei para que ele não se sinta ultrapassado. Ou se quiserem contem. Ele soltará puns, mas isso não é coisa que vocês já não estejam acostumados. Quanto a mim? Não se preocupem. Nada me acontecerá. Afinal de contas, mesmo feia, não é impunemente que se nasce filha de um legionário.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

155. Ismael (68) - Uma persona non grata



Não sei se Isaurinha Bate-Sola matou ou não Isabella Vicentini. Ainda não me decidi se a hei de crucificar em detrimento de outras pessoas que já me passaram pela mente como presumíveis assassinos. Para dizer a verdade, Isaurinha Bate-Sola não me é uma persona mui grata. Em primeiro lugar, como todos sabem, por ter vivido com o meu amigo Ismael Gusmán, depois de este ter ficado viúvo e, sem mais nem menos, bem calçada e bem vestida, se bem que bem calçada não precisava que tivesse sido por obra do galego, pois lá em casa o senhor Peres, o mais famoso sapateiro da Quinta do Conde, tratava ele próprio disso, mas bem vestida sim, não lhe faltava nada, ia uma vez por semana ao coiffeur e à manicure, lavava, cortava ou fazia mises, era como ela quisesse, quis o cabelo à garçonne então cortou-o curto, quis vírgulas, então fê-las, quis permanentes para ficar parecida com a Grace Kelly, ficou. A tudo o meu amigo galelo dizia sim, e ela, coisa rara, tratava até das unhas dos pés, viram-nos sair bastas vezes do Cineteatro Quinta-Condense e dizem, as alcoviteiras das vizinhas, que numa noite ventosa de Outubro, chegou de táxi com Ismael Gusmán, de vestido preto e sapatos de verniz e ostentando um bonito e caríssimo casaco de peles, sendo que essas mesmas más línguas disseram que o «senhor espanhol, estabelecido em Lisboa e com certeza bem na vida», a tinha levado ao Casino Estoril. Pois se nada lhe faltava, de um dia para o outro pôr os cornos a «tão boa pessoa», diz-se na vizinhança e eu corroboro, pois não deve haver no mundo uma pérola de pessoa como era o meu amigo Ismael, ainda por cima um benfiquista dos quatro costados, não pugnava nada pela sua, dela, reputação. Mas não foi só por causa do que ela fez ao meu amigo Ismael que eu não topo, quero dizer não gramo, aliás não curto, ou por outras palavras, deixando para trás o reles calão empregado nos sinónimos, não vou muito à bola com a Isaurinha Bate-Sola. Foi, principalmente, porque ela era uma verdadeira leviana. Porque é que ela, se tinha deixado o Ismael porque, confessou até à Francisca, estava perdida de amores pelo Sebastião e estar em casa, mais propriamente na cama com um homem em cima, neste caso o Ismael e estar a pensar noutro, neste caso o Sebastião, não era do seu feitio e que, portanto, o melhor era acabar de uma vez por todas com o galego, retomo a pergunta, porque é que ela, se era assim como dizia, enquanto catrapiscava o Sebastião, se deitava com o filho do Esteves? Pois é uma pergunta a que não vou responder, se não tinha de perguntar e responder também porque é que ela se deitava ainda com o Adalberto da pastelaria, com o Quim da mula, com o Ferro-Velho e com, aqui já não garanto pois a vox populi é lixada, com o genro do Tio Manel da retrosaria que, por acaso é muito bem casado com a filha deste, uma belíssima costureira da Rua Direita. Pois, como disse no princípio, não gosto nada desta Isaura Peres e se o seu percurso continuar a dar-me insónias, sem saber como rematar o livro, uma vez que já tenho mais de cento oitenta páginas escritas e quase prontas para edição, ponho a naifa na mão da Isaurinha, espeto no peito da Isabella, uma duas ou três facadas fatais, pois a quarta já sabemos quem a deu e arrumo logo a questão. Porque eu ainda tenho mais um motivo para dar como assassina Isaurinha Bate-Sola. E esse motivo que se chama Sebastião, também se chama ciúme. Tinha algum cabimento eu ter, ao mesmo tempo que arranjo namoradas atrás de namoradas para Sebastião, posto mão com mão, mão com coxa, lábios com lábios e outras coisas que aqui não se devem descrever, o Sebastião com a Isabella? Eu já sabia que ia causar uma carga de ciúmes à Isaurinha e que isso podia dar para o torto. Vamos lá a ver, a menos que entretanto me suja uma ideia melhor, fica aqui a Isaurinha de reserva para matar a morta. Mas isto não acabou ainda. Garanto-vos.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

154. Ismael (67) - Uma questão de estilo



- Estou a gostar.
- Sério?
- Sério.
- Obrigado.
- De nada. Estou a ser sincera.
- Eu sei.
- Mas tenho uma crítica.
- Qual?
- A forma.
- A forma?
- Sim!
- E o conteúdo?
- Não. Para mim está bem assim. Está como combinámos.
- Mas há quem diga que estou a ser chato.
- Não está nada. Se já tivesse revelado o final também não estaria mal, mas assim, como está a fazê-lo, parece-me bem.
- Então e a forma?
- É a escrita.
- O que é que tem a escrita?
- É simples demais.
- Achas?
- Acho.
- Mas é abrangente, ou para ti isso não importa.
- Não digo o contrário, mas a crítica…
- A crítica? A crítica literária, queres tu dizer…
- Sim, são muito exigentes, são a verdadeira ASAE da escrita.
- Estás-me a querer dizer o quê? Que não posso usar colheres de pau e tenho de forrar as cozinhas com azulejos?
- Exatamente.
- Palavras caras?
- Não só.
- Mais metáforas?
- Não propriamente.
- Intrigante…
- Nem por isso.
- Queres desembuchar?
- Alegorias.
- É uma falha, mas isto é só um policial igual a mais um milhão e quatrocentos mil que já se escreveram.
- Não se minimize.
- Ok, um bocado enredado e que mais?
- Sinédoques, metonímias.
- Está bem, é verdade, mas ironia não falta, comparações, eufemismos, imagens não faltam.
- E se bem que não descurou as exclamações nem as perguntas de retórica, tem estado um bocado longe das apóstrofes e das prosopopeias.
- Mas conseguiste descobrir zeugmas, anáforas, hipérbatos, silepses?
- Nem por isso. Acho que trabalhou pouco as figuras de construção.
- Posso dar a mão à palmatória mas não é nesta fase da escrita que me vou empenhar mais.
. Nem eu lhe estou a sugerir isso, mas nunca se esqueça do que dizia o Conde de Buffon.
- Mas eu não só não estou a lutar para a posteridade como também, não escrevo tão mal como isso. Penso eu.
- Uma coisa lhe reconheço. Você tem o seu estilo e isso é inegável.
- Le style c’est l’homme même.
- Nem mais.

Retirou um cigarro da cigarreira que parece ser de prata. Continuo sem saber bem quem é a “minha” rapariga da esplanada. Ela sabe mais do que eu penso que sabe ou estará a armar-se?  Deu duas baforadas, levantou o indicador direito e chamou o garçon. Perguntou-lhe se o pão era fresco e bem cozido. Perguntou-lhe se o fiambre era cortada da peça na altura ou tirado às fatias do frigorífico onde estaria embrulhado em celofane. Quis saber a origem da manteiga, ao que correspondi com uma gargalhada. E mais admirada ficou do que o próprio empregado do bar quando eu disse «hoje não há sandes de fiambre com manteiga para ninguém. Traga-nos uma travessa de caracóis, se faz favor, e duas imperiais». Não me admira que ela, tivesse, em pensamento, me chamado rústico. Mas como dizia Aquilino Ribeiro “Em literatura o estilo é como o álcool para os corpos embalsamados: conserva-os” . Eu hoje fico pela cerveja. 


domingo, 24 de junho de 2012

153. Ismael (66) - Limpeza de balneário


Quis o escritor que desta vez o narrador tomasse o protagonismo e viesse aqui contar para todos vós o que se passou a seguir. Considerou o escritor e com alguma razão que os seus leitores já devem estar cansados de ler esta sequela sem fim à vista e que o melhor, para que descansassem os olhos fosse o narrador a contar. Ora então, cabendo-me a mim fazer esse papel de narrador, prestem atenção ao que vos tenho para dizer. No entanto, se no final do que vos relatar não estiverem de acordo com o que aqui foi dito devem reclamar com o escritor e não comigo porque sou apenas o mensageiro. Oiçam então.

Cansado com a confusão de Ismaeis e com a presença de pessoas que nada tinham a ver com o crime ou com o bom andamento do relato, já há muito que o escritor tinha abandonado qualquer referência ao falecido Günter Freitag , eis se não quando no último episódio o voltou a fazer, mas jurando que não o repete e à velhinha que nos alpes possuía uma medalha em forma de coração com uma nossa senhora e um número inscrito e que já nem o próprio escritor se lembrava de o ter feito. Também o senhor Ismael da Ervanária que ainda era qualquer coisa à moça da esplanada e que gosta, não só de sandes de fiambre com manteiga, mas também de finais esquisitos para as novelas, só foi referido uma vez, tendo em compensação sido chamado o senhor Ismael da Farmácia, por mor de um filho que gostava de vir para Lisboa, ainda não se sabe bem, fazer o quê, mas que era a grande preocupação daqueles pais, o senhor Ismael da Farmácia e a sua esposa, a senhora dona Marcília, entrevada numa cama com enxergão de palha. Já da Micas, secretária de Ismael Sacadura Flores, apenas se ouviu falar dela no dia de Carnaval, não se sabendo se se baldou ou não para a Costa da Caparica com algum brasileiro ou se tem uma vida pacata de dona de casa na Quinta do Conde. Decidiu portanto o escritor e incumbiu-me de vos comunicar que fez uma limpeza de balneário limpando todos estes nomes de episódios futuros. A eles, juntou-lhe ainda Herr Jürgen Grass que cumprida que foi a sua missão junto à Mossad mais nada tinha que fazer aqui, e cortou também Rafaello Vicentini, não o declarando morto mas a quem lhe aconteceu qualquer coisa pela certa. Ora para esta missão de limpeza, que poderia, sem dúvida, ter sido executada pelo escritor, homem humilde, que não gosta de assumir protagonismos e que, por isso mesmo, decidiu designar o inspetor Ismael Sacadura Flores como presidente da comissão liquidatária de nomes da novela “Sete facadas à procura de um autor”, título provisório, para que este pudesse pôr ordem nesta casa, já que polícia é polícia e escritor é escritor, não vamos nós inverter os papéis, ao que aquele acedeu e este sorriu e eu vos narrei.

Ismael Sacadura Flores agora empossado de novos poderes, decidiu por sua vez que o senhor Ismael da Farmácia, a enfermeira feia e o agente da Pide, não obstante a resistência deste e as chatices futuras que o inspetor Sacadura veio a ter, não precisavam constar mais desta história, embora ao senhor Ismael da Farmácia ainda se lhe possa fazer uma ou outra nomeação mormente quando alguém se refira ao seu filho. Mas por causa de uma amizade antiga entre o escritor e o taberneiro Ismael Gusmán, não esteve este muito de acordo com esta ideia do homem da Judiciária e disso incumbiu-me também de vos dizer que este descontentamento adiria da possibilidade dos proventos do galego naturalmente diminuírem, já que menos três frequentadores da tasca lhe dariam algum arrombo no orçamento porque se tinha que ter em conta que a enfermeira feia comia que nem uma lontra, o senhor Ismael da Farmácia bebia mais do que uma esponja natural e o agente da Pide, porque passava lá os dias inteiros sempre ia consumindo a suas cervejinhas. O escritor que não tinha nenhuma intenção de discutir com o polícia, nem tampouco ou, melhor dizendo, ainda menos, de prejudicar o seu amigo galego, decidiu manter a enfermeira feia, que provavelmente fará também um depoimento à margem do conhecimento de Ismael Flores e o agente da Pide, tendo então eliminado de episódios futuros Ismael da Farmácia. Posto isto pediu à comissária Xana que pusesse as algemas a Ishmail Baruch que, se bem que não tivesse matado Isabella Vicentini, tinha dado a quarta facada no peito da malograda corista, nesse momento já cadáver.

Temos agora que aqui fazer um pequeno parêntesis, porque a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Ficaria mal deixar passar em claro a discrição dos leitores deste volumen ao ouvirem o Inspetor referir que Ishmail Baruch pespegou a quarta facada no peito de Isabella, que não balbuciaram uma única palavra sobre o caso do qual já tinham conhecimento. talvez os leitores não quisessem efetivamente que o homem ficasse com gases por se ter sentido ultrapassado. Como todos sabem, esses gases advêm do facto de que quando o inspetor se sente ultrapassado, desatar a comer ensopado de borrego, frango no forno com coentros, bifinhos de cebolada, beber vinho branco de Almeirim com aspirinas, comer passas de uvas, azeitonas pretas, paté de atum, arroz de lingueirão, melão com presunto e café sem açúcar.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

152. Ismael (65) - Depoimento ou despacha-te que se faz tarde



Olá, eu sou Ismael ben-Avraham. Sou um judeu, de uma família tradicional, nascido nas montanhas da Áustria e que, graças a um esquiador austríaco que, cheio de cerveja no bucho, resolveu esquecer-se do blusão numa estância de esqui, consegui safar-me aos esbirros nazis e regressar à terra de Davi. (O escritor reflete sobre a rima usada na frase. Quem sabe um dia se dedique a histórias infantis onde o género tem mais impacto.) Curiosamente, pertenço a um ramo de uma família que nos tempos da Inquisição em Portugal fugiu para outros países da Europa, nomeadamente a Holanda e a Áustria. Nesse tempo ainda era a família Oliveira que aos poucos foi perdendo a identidade lusa, embora se encontrem todavia alguns עץ שמן em Israel e alguns olijfboom na Holanda, bem como, pelo menos uma família Olivenbaum na Áustria. Mas nunca fomos uma família muito unida pois consta dos anais e da história da família, várias ofensas entre ramos, de tal modo que na Áustria chamávamos aos Oliveira holandeses, os Oliveira da ganza e eles chamavam-nos, a nós, os da montanha, os Oliveira da serra que era um eufemismo para não nos chamarem azeiteiros. E eram muito invejosos. Quando eu me formei em medicina chamavam-me o Oliveira do hospital para ver se eu me chateava, eles que, além da ganza, sempre foram Oliveiras de piercings com brilhantes, a lembrar certas ligações com o futebol. Mas adiante, porque vários descendentes foram perdendo o Oliveira e eu, já sou um ben-Avraham da parte do meu pai mas, quem sabe, algum tetravô se chamaria Ismael de Oliveira ben-Avraham. Bom, mas isto que vos contei, das minhas ascendências, parece nada ter a ver com a resolução do crime da Rua dos Correeiros, mas tem. Foi exatamente por causa de eu ainda ter sangue português que a Mossad me mandou para Portugal à procura da medalha que o fascista Rafaello Vicentini roubou a Jürgen Grass, num comboio na Suíça, com o número da conta onde está guardada a fortuna da família Schneider. Mas, antes de continuar tenho de vos pedir um favor que, se calhar, nunca ninguém antes vos pediu. Eu vou fazer uma revelação, mas não gostaria que, no final, quando o inspetor vos dissesse quem matou a Isabella, a filha do ladrão e fascista Rafaello, coisa que naturalmente fará no final da alocução que está em curso na tasca de Ismael Gusmán, não desatassem todos a dizer, «eu já sabia, eu já sabia». Até porque o inspetor não gosta de se sentir ultrapassado, mas que, para não me perder, já vos falarei disso mais adiante. Pois a minha revelação é a seguinte. Eu não matei Isabella Vicentini! Passavam poucos minutos das sete da manhã quando, no meio de uma cirurgia de pequena importância, que os meus assistentes puderam facilmente terminar, fui chamado ao telefone do Hospital. O senhor Ishmail Baruch, tinha conseguido infiltrar-se em casa de Isabella, graças a uma gazua feita com um clip de aço inoxidável, como ele tinha aprendido nas escolas da Mossad e em alguns filmes em cinemascópio que começavam a passar nos écrans israelitas e, também, graças ao estado de cansaço de Isabella, que descurou a tranca e o ferrolho, deixando-os abertos. Isabella dormia, pois, segundo o senhor Baruch e tal como o manuscrito de Francisca o confirma, teria chegado, naquela noite, bem mais tarde do que o costume. Sem que ela o notasse, pois o sono era profundo, começou o senhor Baruch a utilizar as técnicas de busca noturnas, típicas das polícias políticas e serviços secretos sofisticados. Foi abrindo gavetas e armários, apalpando sutiãs e cuecas de renda, camisas de dormir em algodão e em cetim, meias de vidro, com e sem renda, com e sem costura, com e sem pé, tutus em tule italiana, o que mostra que o senhor Baruch até pelo quarto de Ekatrina se movimentou, sapatos de ballet, penaches de corista, batons, rouges, pós de arroz, lápis de sobrancelhas e espelhos, pinceis de rimmel, saias e vestidos de chita, aventais e panos de cozinha, botas de cano alto e sabrinas, toalhas turcas e casacos de abafar, gabardinas, canadianas e camiseiras, cujas cores não me pode referir, dado que toda a pesquisa se fez durante a noite. Teve mesmo o cuidado de andar devagar para que o seu defeito na perna esquerda não o traísse com o mancar descoordenado que poderia despertar a bela corista adormecida. De nada lhe valeu toda aquela apalpação. Nem sinal de medalha, nem de fio, nem de nada que interessasse a um espião, pelo que com a raiva que se lhe acometeu, só lhe apeteceu mesmo foi pegar numa faca e matar logo ali aquela filha de um fascista. Eis senão quando, um reboliço se ouve no corredor, por onde alguém, aproveitando a porta, inadvertidamente deixada aberta, pelo senhor Baruch tinha acabado de entrar. O individuo, sem experiência para se deslocar no escuro, batera contra uma coluna e fez tombar um vaso de flores, onde despontava uma chamaedora elegans que se estatelou direta no chão, desfazendo-se numa dezena de fanicos. Isabella assustou-se e deu um pulo da cama. O senhor Baruch, mais surpreendido do que assustado, escondeu-se no guarda-fatos do quarto de Ekatrina. Isabela precipitou-se para o corredor. O senhor Baruch colou o ouvido na porta do roupeiro. Isabella deu um grito e depois outro. O senhor Baruch ouviu o barulho seco como o de um corpo a cair no chão e saiu de imediato do armário. Correu direito ao corredor no seu, apesar de tudo, engraçado mancar. Alguém no andar de baixo, se lá estivesse, com certeza teria notado isso. Pela escada abaixo, uma correria louca. Ao senhor Baruch seria impossível acompanhar. No chão jazia e esvaía-se em sangue a corista Isabella Vicentina. Estava morta. No peito uma faca. No corpo, três facadas.

Foi isto que escutei ao telefone. Pedi ao meu assistente principal que tomasse conta da cirurgia. Segredei ao ouvido da enfermeira Helena que teria de me ausentar com urgência. A enfermeira Helena, entendeu erradamente o que eu queria dizer e saiu comigo. Quando me apercebi e vi que a enfermeira feia, que me andava a perseguir já há algumas semanas, teria topado o meu segredo, passei por ela, e disse-lhe «anote a hora e amanhã não se esqueça de ir fazer queixa ao senhor Diretor». Pisquei-lhe o olho e olhei para o relógio. Eram sete e meia da manhã. Disso, a enfermeira feia, deu conta ao inspetor Ismael Sacadura Flores, pelo que, como irão ouvir na alocução do polícia, eu estou inocente. Infelizmente, o senhor Baruch, numa crise de nervos, de raiva e de frustração, desenterrou a faca do peito do cadáver e fez-lhe um quarto golpe. Depois saiu.

Não quero terminar esta minha revelação sem acabar o que comecei. E o que comecei foi por pedir-lhes que não dissessem nada ao inspetor Ismael Flores de que já sabem que eu estou inocente. Ele vai sentir-se ultrapassado e quando ele se sente ultrapassado, desata a comer berbigões abertos ao natural com coentros picados e sumo de limão, requeijão com doce de abóbora, profiteroles com molho de chocolate, a beber moscatel de Setúbal, a comer pistachos da Pérsia e a cuspir as cascas, tremoço saloio com cerveja a copo, caracóis refogados em tomatada e bocadinhos de chouriço, a beber vinho rosé bem gelado, a comer choco frito à setubalense, a beber poncha da Madeira, a comer alcagoitas torradas e a beber café sem açúcar. E depois não querem que o homem fique com gases.


domingo, 17 de junho de 2012

151. Ismael (64) - Depoimento ou a história de uma prisão providencial



Olá, eu sou o doutor Castro Ribeiro e quero pedir-vos, solenemente, um favor. Um daqueles favores que se fazem aos amigos e eu sei, que entre vós, leitoras e leitores dos livros do senhor Constantino, posso contar alguns amigos. Amigos que acreditam na justiça e nos seus agentes, tal como eu o fui e ainda sou. Um homem que apesar do percalço que houve com a minha Rachel nunca abandonou Sebastião, nem nunca desprotegeu Francisca. Se o senhor Ishmail Baruch não percebe isto, é porque ou é burro, ou é um avarento judeu que apenas se preocupa com o negócio dos charutos cubanos, Ou ainda, talvez um pouco mais deprimente, talvez seja um agente secreto israelita à procura de um número de uma conta na Suíça, que desde há muito se desconfia estar inscrito numa medalha de ouro presa a um fino fio. A verdade é que eu, ainda enquanto advogado, fui solicitado para um caso parecido, que envolvia judeus de origem russa e uma velhinha que vendia arenque fumado numa aldeia caucasiana, mas que, acabei por ter de desistir do caso por mor de ter começado a exercer a minha profissão de juiz. Pois só vos quero dizer que tenho cá um feeling de que um caso não tem nada a ver com o outro e que o escritor, que gosta de enigmas, introduziu-me, numa certa fase da minha vida, na busca de um caso similar e que, graças a Deus, apesar de eu nunca ter tido conhecimento do final, nunca se constou que tivesse culminado numa morte e, muito menos, por esfaqueamento. E agora peço-vos desculpa. Alonguei-me tanto que nem vos cheguei a pedir o favorzinho. Pois é o seguinte, meus amigos. Não digam nada ao inspetor Ismael Sacadura Flores, que a estas alturas da narrativa, pressuponho, esteja na tasca do amigo do senhor Constantino, o nosso bem conhecido Ismael Gusmán e que é galego e que por isso usa boina e fala com xizes, a fazer uma preleção dedutiva e lógica para chegar à conclusão de quem é que vai para a prisão, sendo que eu também fui intimado a comparecer, por via da minha ex, a Francisca, boa gente sim senhora, que vive atualmente na Quinta do Conde que também é uma boa terra, sim senhora. Não digam nada, pedia-vos eu, não lhe digam que eu me vou antecipar, pois vou, desde já e para sempre, declarar pela minha honra, de que não matei a jovem bailarina. E perguntam-me vocês, principalmente aqueles que são menos meus amigos, que nunca me perdoaram eu ter feito um filho à peixeira judia, desconfiando mesmo que eu tivesse alguma coisa a ver com a sua morte, e me ter apaixonado logo a seguir pela Francisca, nunca me ter assumido como pai, ser putanheiro, beber uns copos, enfim, um safado de primeira, se eu tenho provas do que afirmei. Também foi bem perguntado, sim senhores mas até para vocês, amigos da onça, eu tenho provas. Sei também que o senhor Constantino insinuou que poderia ter sido eu, pois denunciou-me naquela noite em que eu saí aos gritos de «eu mato aquela puta! Eu mato aquela puta!», do bar Barba Roxa, o bar do célebre Ismael Júlio que tem espanholas por conta e vende whisky de contrabando. Mas olhem que para vosso conhecimento é muito melhor o VAT 69 que ele vende, vindo por portas e travessas parar ao seu alçapão, do que muita mixórdia de Sacavém que alguns já beberam por aí. E quais são as provas? Bom, naquelas noites que antecederam a morte da pobre catraia, que eu nem conhecia muito bem, embora já tivesse ouvido falar dela várias vezes, até porque o Sebastião andava a bater-lhe os olhos e a apalpar-lhe as coxas, eu parei muito por aqui por Lisboa. Estava a gozar os primeiros dias da minha reforma, a minha vida é Vila Nova de Gaia, mas a carne é fraca e um dia em que fui dar assistência jurídica a Francisca, por causa de umas desavenças com uma vizinha que não a deixava pintar uma empena da moradia que confinava com o quintal da outra, dei de caras com a filha do sapateiro da Quinta do Conde, a vossa já bem conhecida Isaurinha. Ora eu, um homem livre, não tendo que dar satisfações a ninguém, hospedei-me numa pensão lisboeta, famosa pelo cozido à portuguesa que fazia à quinta feira, pelas favas com entrecosto que confecionava às terças feiras, pela caldeirada à fragateiro que servia às quartas feiras, pelo pargo no forno com batatinha nova, pelo cabrito à padeiro e outras iguarias, infelizmente ao alcance de poucas bolsas, mas eu, verdade seja dita, não tenho desses quiproquós. E também sei, tenho a certeza disso, que não foi por causa do meu dinheiro, nem da minha posição social, que a Isaurinha Bate-Sola se me vinha juntar nos lavados e engomados lençóis da minha cama, no quarto 202 da referida pensão. E se eu disse que matava aquela puta, só vos quero dizer que isso foi apenas um desabafo de indignação por ter sabido que o meu próprio filho andava na pouca-vergonha com aquela rapariga, a esbelta e sensual Isaurinha Bate-Sola. Mas querem testemunhas, querem, não é verdade? Pois então vamos lá a ver se vos consigo ditar uma a uma. O senhor Ismael Gusmán serviu-me o jantar perto das oito da noite. Comi uma posta de bacalhau com batatas e grelos, por acaso muito fresquinhos se não me falha a memória. «Então daqui é para a caminha, não é senhor doutor?», perguntou-me depois de ter bebido o meu cafezinho e um bagaço, por acaso coisa de estalo, que recomendo para quando lá passarem, e ter pago onze escudos e trinta centavos pelo repasto. «Ainda não, senhor Ismael, ando cá com uns pressentimentos, que isto não é coisa boa. Pode crer senhor Ismael que esta noite vai haver coisa, lá isso vai. Por isso vou até ao Barba Roxa». Ora o senhor Ismael que me deixou de ver pelas nove e meia da noite não pode ser minha testemunha, mas pode conferir o que acabei de dizer. No Barba Roxa, onde entrei por volta da uma da manhã, depois de ter ido jogar um pouco de bilhar na Rua do Jardim do Regedor, encontrei o Sebastião, com cara de caso. Depois de alguns VATs, contou-me a história da crioula e eu aconselhei-o a procurar um lugar seguro para se esconder. Se o indígena do pai da mulata o apanhasse ainda teríamos marinheiro às fatias. Foi então que ele me falou do caso dele com a Isaurinha Bate-Sola, naquela ingenuidade de que poderia ir até à Quinta do Conde mas que em vez de ir para casa da tia, iria dormir para casa de Isaurinha. Assim, como assim, não seria a primeira vez e depois começou a gabar-se e tal e coisa. Eu, no princípio, não disse nada porque o sangue corre-lhe nas veias, tem a quem sair. Mas quase chegada a madrugada, desta vez com o sangue bem carregado de álcool, saio do Barba Roxa e já com os olhos turvados pois não voltei a ver o Sebastião, que segundo consta estaria já escondido num alçapão com duas espanholas, o malandraço, a correr e aos gritos de que a matava. «Eu mato aquela puta! Eu mato aquela puta!». Ai se apanhasse a jeito aquela filha de um sapateiro, ai pressinto que perderia a cabeça. Mas não, quem encontrei foi a comissária Xana, que já conhecem também e que, portanto, me dispenso de fazer apresentações. Uma rapariguinha, por caso de boas famílias, coitadita, que vinha também sair do bar até me perguntou «Ó doutor, vai preso?» e eu, com a paciência esgotada, até fui mal-educado e peço-lhe daqui desculpa por isso, respondi «não querida, vou dormir com a chefe». E foi assim que passei essa noite nos calabouços da esquadra da Mouraria, eu um juiz jubilado que só quase à hora de almoço do dia seguinte, quando a buba me passou é que me pude identificar e sair em liberdade. E se o Ismael Júlio não pode ser testemunha porque saí do seu bar antes de ter sido esfaqueada a italiana, já do auto da ocorrência e da minha noite entre grades, ninguém pode duvidar.

Mas olhem que isso de não contarem nada ao inspetor de que eu me antecipei é a sério. O homem, quando se sente ultrapassado, desata a comer fofinhos de pescada panados em farinha de milho, folhadinhos de salsicha tipo Francoforte, a beber vinho tinto do canjirão, a comer bolinhos de côco, pastéis de feijão, dobradinha à moda do Porto, sandes de torresmos, queijo fresco da Malveira, azeitonas de Elvas sem caroço, a beber ginjinha de Óbidos com e sem elas, a comer chanfana de cabra e a beber café sem açúcar. Depois não querem que o homem fique com gases.  


quarta-feira, 13 de junho de 2012

150. Ismael (63). Depoimento ou a história da crioula



Olá, eu sou o Sebastião. Bem sei que o inspetor Ismael Sacadura Flores não vai gostar nada que eu me antecipe à sua oratória na tasca do famoso galego, amigo do escritor. Mas já não aguento mais. Tenho estado, quase desde o dia em que fui referido pelo autor, creio que na mercearia do senhor Ismael Rodrigues, na corda bamba desta novela. Ora se dá a entender que eu não tive nada a ver com o crime, ora se insinua que talvez eu não estivesse embarcado naquele fatídico dia, e que tudo era uma proteção maternal da minha tia Francisca, que sempre de mim falava com muito carinho no seu manuscrito. Eu sei que contar aqui a história da minha vida seria deveras maçador para quem está a ler. Além disso, eu não tenho a verve do narrador, nem a capacidade de efabulação do escritor, que me permita deixar-vos uma biografia. Mas tenho que vos dizer, para que não restem dúvidas, que eu não matei a pobre da Isabella. Bem sei que muitos de vocês, mas principalmente muitas de vocês, que ao longo deste medley que o escritor decidiu fazer no blog do senhor Constantino, misturando as histórias que têm como pano de fundo a tasca do honesto galego, com o crime da rua dos Correeiros e com o Conto que a minha pobre e frágil tia anda a escrever sobre umas ilhas, que por acaso nunca visitei, dizia eu que, muitas de vós já sois grandes fãs deste jovem marinheiro e que suspireis de alívio, ao lerdes esta minha afirmação. Mas a verdade, verdadinha, relato-vos em duas ou três linhas, se para isso conseguir beber a arte de narrar do famoso contador de histórias que tem estado omnipresente desde o início do fascículo. Ora, se a minha tia deixou claro no seu manuscrito que eu tinha embarcado para o Coraçau pouco tempo antes do horripilante crime que mandou Isabella para junto do Criador, então é porque é verdade. A minha tia não é mentirosa e até estou todo arrepiadinho só de o estar a afirmar e duas lágrimas, aliás três, já me escorrem rosto abaixo. O que aconteceu, porém, foi que tive uma daquelas crises de enjoo em alto-mar. Bem que o enfermeiro me encheu de comprimidos, o meu chefe até bolachinhas e chá mandou levar ao meu camarote, sabe Deus mais quantos mimos, mas nada. Levantava a carola do travesseiro e parecia que o beliche se virava de pernas para o ar. Até que ao fim de algumas horas fui encontrado verde, desbundado num mar de vomitado. Não tiveram outro remédio senão desviar a rota e deixarem-me na ilha de S. Vicente onde me apaixonei, como não podia deixar de ser, por uma crioula com 16 anos. Passada uma semana já se faziam os preparativos para o casamento e não fosse ter-me escondido num porão de um navio da Companhia Colonial de Navegação que tinha feito escala para deportar uns revolucionários a mando do Salazar, nunca eu teria feito parte da novela do escritor Constantino. É assim que na véspera do sanguinário assassinato da minha querida bailarina, sou visto num bar do Cais do Sodré, o Barba Roxa, onde me venho a encontrar com o meu antigo protetor o Dr. Castro Ribeiro. Falamos de tudo e de mais um par de botas enquanto virámos, a bem dizer, uma garrafa de VAT 69. Quando ele soube que a Isaurinha Bate-Sola partilhava a cama comigo, para me poder esconder da minha tia, a quem eu não queria atormentar com a minha repentina doença, saiu do bar aos gritos de «Eu mato aquela puta! Eu mato aquela puta!», sendo que desde essa data nunca mais o vi, até alguns dias depois de finada a pobre corista italiana. Também estranhei a boa disposição de Isaurinha em todos aqueles dias, quer antes, quer após o fatídico dia, mas sempre atribuí isso ao meu desempenho, passe a imodéstia, só que vou deixar essa questão para outra ocasião. Por uma mera coincidência, realmente divina, a noite em que foi vilmente assassinada Isabella, posso prová-lo, tenho várias testemunhas disso, passei-a escondido num alçapão do Barba Roxa, por conselho do Dr. Castro, que mesmo já com os copitos teve um bom discernimento, onde o dono, o meu amigo Ismael Júlio, que alguém confundia propositadamente com Ismael chulo, escondia as caixas de whisky de contrabando e duas espanholas que ele trazia por conta, mas que estavam por cá clandestinas. E indagam-se depois os leitores, que não percebem porque é que eu passei essa noite escondido no alçapão do chulo, quer dizer do Júlio e eu não tenho outro remédio senão explicar a minha cobardia, pois o pai da jovem cabo-verdiana andava há três dias a percorrer tudo o que era cais, bar ou casas de má-porte, já para não falar nas vigílias que fazia à porta da casa da minha tia na Quinta do Conde, com uma catana na mão e a toda a gente dizia, em viva voz e num misto de crioulo e de português «Eu faço aquele malandro em fatias!». Portanto, peço-vos apenas uma coisa. Quando na sua preleção determinante, o inspetor Ismael Sacadura Flores declarar que o marinheiro Sebastião nada tem a ver com as facadas em Isabella, nem com as sete nem com nenhuma das sete que a vitimaram, façam de conta que ainda não sabem. É que, quando o inspetor se sente ultrapassado, desata a comer rissóis de berbigão, a beber copos de branco saídos diretamente do barril, a comer croquetes de sangacho de atum, salada de tomate com requeijão, a beber bagaços caseiros, a comer jaquinzinhos fritos de um dia para o outro, sardinha de caldeirada à moda de Setúbal, pasteis de Tentugal e queijadas de Sintra, ervilhas com ovos escalfados e chouriço encarnado, feijão frade temperado com cebola, pimenta, azeite e vinagre, a beber café sem açúcar, a comer sopa de feijão branco com couve lombarda e chispe de porco, espetadas de asinhas de frango com pimentos e toucinho e morango saloio com açúcar mascavado. E depois não querem que o homem fique com gases.