domingo, 17 de junho de 2012

151. Ismael (64) - Depoimento ou a história de uma prisão providencial



Olá, eu sou o doutor Castro Ribeiro e quero pedir-vos, solenemente, um favor. Um daqueles favores que se fazem aos amigos e eu sei, que entre vós, leitoras e leitores dos livros do senhor Constantino, posso contar alguns amigos. Amigos que acreditam na justiça e nos seus agentes, tal como eu o fui e ainda sou. Um homem que apesar do percalço que houve com a minha Rachel nunca abandonou Sebastião, nem nunca desprotegeu Francisca. Se o senhor Ishmail Baruch não percebe isto, é porque ou é burro, ou é um avarento judeu que apenas se preocupa com o negócio dos charutos cubanos, Ou ainda, talvez um pouco mais deprimente, talvez seja um agente secreto israelita à procura de um número de uma conta na Suíça, que desde há muito se desconfia estar inscrito numa medalha de ouro presa a um fino fio. A verdade é que eu, ainda enquanto advogado, fui solicitado para um caso parecido, que envolvia judeus de origem russa e uma velhinha que vendia arenque fumado numa aldeia caucasiana, mas que, acabei por ter de desistir do caso por mor de ter começado a exercer a minha profissão de juiz. Pois só vos quero dizer que tenho cá um feeling de que um caso não tem nada a ver com o outro e que o escritor, que gosta de enigmas, introduziu-me, numa certa fase da minha vida, na busca de um caso similar e que, graças a Deus, apesar de eu nunca ter tido conhecimento do final, nunca se constou que tivesse culminado numa morte e, muito menos, por esfaqueamento. E agora peço-vos desculpa. Alonguei-me tanto que nem vos cheguei a pedir o favorzinho. Pois é o seguinte, meus amigos. Não digam nada ao inspetor Ismael Sacadura Flores, que a estas alturas da narrativa, pressuponho, esteja na tasca do amigo do senhor Constantino, o nosso bem conhecido Ismael Gusmán e que é galego e que por isso usa boina e fala com xizes, a fazer uma preleção dedutiva e lógica para chegar à conclusão de quem é que vai para a prisão, sendo que eu também fui intimado a comparecer, por via da minha ex, a Francisca, boa gente sim senhora, que vive atualmente na Quinta do Conde que também é uma boa terra, sim senhora. Não digam nada, pedia-vos eu, não lhe digam que eu me vou antecipar, pois vou, desde já e para sempre, declarar pela minha honra, de que não matei a jovem bailarina. E perguntam-me vocês, principalmente aqueles que são menos meus amigos, que nunca me perdoaram eu ter feito um filho à peixeira judia, desconfiando mesmo que eu tivesse alguma coisa a ver com a sua morte, e me ter apaixonado logo a seguir pela Francisca, nunca me ter assumido como pai, ser putanheiro, beber uns copos, enfim, um safado de primeira, se eu tenho provas do que afirmei. Também foi bem perguntado, sim senhores mas até para vocês, amigos da onça, eu tenho provas. Sei também que o senhor Constantino insinuou que poderia ter sido eu, pois denunciou-me naquela noite em que eu saí aos gritos de «eu mato aquela puta! Eu mato aquela puta!», do bar Barba Roxa, o bar do célebre Ismael Júlio que tem espanholas por conta e vende whisky de contrabando. Mas olhem que para vosso conhecimento é muito melhor o VAT 69 que ele vende, vindo por portas e travessas parar ao seu alçapão, do que muita mixórdia de Sacavém que alguns já beberam por aí. E quais são as provas? Bom, naquelas noites que antecederam a morte da pobre catraia, que eu nem conhecia muito bem, embora já tivesse ouvido falar dela várias vezes, até porque o Sebastião andava a bater-lhe os olhos e a apalpar-lhe as coxas, eu parei muito por aqui por Lisboa. Estava a gozar os primeiros dias da minha reforma, a minha vida é Vila Nova de Gaia, mas a carne é fraca e um dia em que fui dar assistência jurídica a Francisca, por causa de umas desavenças com uma vizinha que não a deixava pintar uma empena da moradia que confinava com o quintal da outra, dei de caras com a filha do sapateiro da Quinta do Conde, a vossa já bem conhecida Isaurinha. Ora eu, um homem livre, não tendo que dar satisfações a ninguém, hospedei-me numa pensão lisboeta, famosa pelo cozido à portuguesa que fazia à quinta feira, pelas favas com entrecosto que confecionava às terças feiras, pela caldeirada à fragateiro que servia às quartas feiras, pelo pargo no forno com batatinha nova, pelo cabrito à padeiro e outras iguarias, infelizmente ao alcance de poucas bolsas, mas eu, verdade seja dita, não tenho desses quiproquós. E também sei, tenho a certeza disso, que não foi por causa do meu dinheiro, nem da minha posição social, que a Isaurinha Bate-Sola se me vinha juntar nos lavados e engomados lençóis da minha cama, no quarto 202 da referida pensão. E se eu disse que matava aquela puta, só vos quero dizer que isso foi apenas um desabafo de indignação por ter sabido que o meu próprio filho andava na pouca-vergonha com aquela rapariga, a esbelta e sensual Isaurinha Bate-Sola. Mas querem testemunhas, querem, não é verdade? Pois então vamos lá a ver se vos consigo ditar uma a uma. O senhor Ismael Gusmán serviu-me o jantar perto das oito da noite. Comi uma posta de bacalhau com batatas e grelos, por acaso muito fresquinhos se não me falha a memória. «Então daqui é para a caminha, não é senhor doutor?», perguntou-me depois de ter bebido o meu cafezinho e um bagaço, por acaso coisa de estalo, que recomendo para quando lá passarem, e ter pago onze escudos e trinta centavos pelo repasto. «Ainda não, senhor Ismael, ando cá com uns pressentimentos, que isto não é coisa boa. Pode crer senhor Ismael que esta noite vai haver coisa, lá isso vai. Por isso vou até ao Barba Roxa». Ora o senhor Ismael que me deixou de ver pelas nove e meia da noite não pode ser minha testemunha, mas pode conferir o que acabei de dizer. No Barba Roxa, onde entrei por volta da uma da manhã, depois de ter ido jogar um pouco de bilhar na Rua do Jardim do Regedor, encontrei o Sebastião, com cara de caso. Depois de alguns VATs, contou-me a história da crioula e eu aconselhei-o a procurar um lugar seguro para se esconder. Se o indígena do pai da mulata o apanhasse ainda teríamos marinheiro às fatias. Foi então que ele me falou do caso dele com a Isaurinha Bate-Sola, naquela ingenuidade de que poderia ir até à Quinta do Conde mas que em vez de ir para casa da tia, iria dormir para casa de Isaurinha. Assim, como assim, não seria a primeira vez e depois começou a gabar-se e tal e coisa. Eu, no princípio, não disse nada porque o sangue corre-lhe nas veias, tem a quem sair. Mas quase chegada a madrugada, desta vez com o sangue bem carregado de álcool, saio do Barba Roxa e já com os olhos turvados pois não voltei a ver o Sebastião, que segundo consta estaria já escondido num alçapão com duas espanholas, o malandraço, a correr e aos gritos de que a matava. «Eu mato aquela puta! Eu mato aquela puta!». Ai se apanhasse a jeito aquela filha de um sapateiro, ai pressinto que perderia a cabeça. Mas não, quem encontrei foi a comissária Xana, que já conhecem também e que, portanto, me dispenso de fazer apresentações. Uma rapariguinha, por caso de boas famílias, coitadita, que vinha também sair do bar até me perguntou «Ó doutor, vai preso?» e eu, com a paciência esgotada, até fui mal-educado e peço-lhe daqui desculpa por isso, respondi «não querida, vou dormir com a chefe». E foi assim que passei essa noite nos calabouços da esquadra da Mouraria, eu um juiz jubilado que só quase à hora de almoço do dia seguinte, quando a buba me passou é que me pude identificar e sair em liberdade. E se o Ismael Júlio não pode ser testemunha porque saí do seu bar antes de ter sido esfaqueada a italiana, já do auto da ocorrência e da minha noite entre grades, ninguém pode duvidar.

Mas olhem que isso de não contarem nada ao inspetor de que eu me antecipei é a sério. O homem, quando se sente ultrapassado, desata a comer fofinhos de pescada panados em farinha de milho, folhadinhos de salsicha tipo Francoforte, a beber vinho tinto do canjirão, a comer bolinhos de côco, pastéis de feijão, dobradinha à moda do Porto, sandes de torresmos, queijo fresco da Malveira, azeitonas de Elvas sem caroço, a beber ginjinha de Óbidos com e sem elas, a comer chanfana de cabra e a beber café sem açúcar. Depois não querem que o homem fique com gases.  


quarta-feira, 13 de junho de 2012

150. Ismael (63). Depoimento ou a história da crioula



Olá, eu sou o Sebastião. Bem sei que o inspetor Ismael Sacadura Flores não vai gostar nada que eu me antecipe à sua oratória na tasca do famoso galego, amigo do escritor. Mas já não aguento mais. Tenho estado, quase desde o dia em que fui referido pelo autor, creio que na mercearia do senhor Ismael Rodrigues, na corda bamba desta novela. Ora se dá a entender que eu não tive nada a ver com o crime, ora se insinua que talvez eu não estivesse embarcado naquele fatídico dia, e que tudo era uma proteção maternal da minha tia Francisca, que sempre de mim falava com muito carinho no seu manuscrito. Eu sei que contar aqui a história da minha vida seria deveras maçador para quem está a ler. Além disso, eu não tenho a verve do narrador, nem a capacidade de efabulação do escritor, que me permita deixar-vos uma biografia. Mas tenho que vos dizer, para que não restem dúvidas, que eu não matei a pobre da Isabella. Bem sei que muitos de vocês, mas principalmente muitas de vocês, que ao longo deste medley que o escritor decidiu fazer no blog do senhor Constantino, misturando as histórias que têm como pano de fundo a tasca do honesto galego, com o crime da rua dos Correeiros e com o Conto que a minha pobre e frágil tia anda a escrever sobre umas ilhas, que por acaso nunca visitei, dizia eu que, muitas de vós já sois grandes fãs deste jovem marinheiro e que suspireis de alívio, ao lerdes esta minha afirmação. Mas a verdade, verdadinha, relato-vos em duas ou três linhas, se para isso conseguir beber a arte de narrar do famoso contador de histórias que tem estado omnipresente desde o início do fascículo. Ora, se a minha tia deixou claro no seu manuscrito que eu tinha embarcado para o Coraçau pouco tempo antes do horripilante crime que mandou Isabella para junto do Criador, então é porque é verdade. A minha tia não é mentirosa e até estou todo arrepiadinho só de o estar a afirmar e duas lágrimas, aliás três, já me escorrem rosto abaixo. O que aconteceu, porém, foi que tive uma daquelas crises de enjoo em alto-mar. Bem que o enfermeiro me encheu de comprimidos, o meu chefe até bolachinhas e chá mandou levar ao meu camarote, sabe Deus mais quantos mimos, mas nada. Levantava a carola do travesseiro e parecia que o beliche se virava de pernas para o ar. Até que ao fim de algumas horas fui encontrado verde, desbundado num mar de vomitado. Não tiveram outro remédio senão desviar a rota e deixarem-me na ilha de S. Vicente onde me apaixonei, como não podia deixar de ser, por uma crioula com 16 anos. Passada uma semana já se faziam os preparativos para o casamento e não fosse ter-me escondido num porão de um navio da Companhia Colonial de Navegação que tinha feito escala para deportar uns revolucionários a mando do Salazar, nunca eu teria feito parte da novela do escritor Constantino. É assim que na véspera do sanguinário assassinato da minha querida bailarina, sou visto num bar do Cais do Sodré, o Barba Roxa, onde me venho a encontrar com o meu antigo protetor o Dr. Castro Ribeiro. Falamos de tudo e de mais um par de botas enquanto virámos, a bem dizer, uma garrafa de VAT 69. Quando ele soube que a Isaurinha Bate-Sola partilhava a cama comigo, para me poder esconder da minha tia, a quem eu não queria atormentar com a minha repentina doença, saiu do bar aos gritos de «Eu mato aquela puta! Eu mato aquela puta!», sendo que desde essa data nunca mais o vi, até alguns dias depois de finada a pobre corista italiana. Também estranhei a boa disposição de Isaurinha em todos aqueles dias, quer antes, quer após o fatídico dia, mas sempre atribuí isso ao meu desempenho, passe a imodéstia, só que vou deixar essa questão para outra ocasião. Por uma mera coincidência, realmente divina, a noite em que foi vilmente assassinada Isabella, posso prová-lo, tenho várias testemunhas disso, passei-a escondido num alçapão do Barba Roxa, por conselho do Dr. Castro, que mesmo já com os copitos teve um bom discernimento, onde o dono, o meu amigo Ismael Júlio, que alguém confundia propositadamente com Ismael chulo, escondia as caixas de whisky de contrabando e duas espanholas que ele trazia por conta, mas que estavam por cá clandestinas. E indagam-se depois os leitores, que não percebem porque é que eu passei essa noite escondido no alçapão do chulo, quer dizer do Júlio e eu não tenho outro remédio senão explicar a minha cobardia, pois o pai da jovem cabo-verdiana andava há três dias a percorrer tudo o que era cais, bar ou casas de má-porte, já para não falar nas vigílias que fazia à porta da casa da minha tia na Quinta do Conde, com uma catana na mão e a toda a gente dizia, em viva voz e num misto de crioulo e de português «Eu faço aquele malandro em fatias!». Portanto, peço-vos apenas uma coisa. Quando na sua preleção determinante, o inspetor Ismael Sacadura Flores declarar que o marinheiro Sebastião nada tem a ver com as facadas em Isabella, nem com as sete nem com nenhuma das sete que a vitimaram, façam de conta que ainda não sabem. É que, quando o inspetor se sente ultrapassado, desata a comer rissóis de berbigão, a beber copos de branco saídos diretamente do barril, a comer croquetes de sangacho de atum, salada de tomate com requeijão, a beber bagaços caseiros, a comer jaquinzinhos fritos de um dia para o outro, sardinha de caldeirada à moda de Setúbal, pasteis de Tentugal e queijadas de Sintra, ervilhas com ovos escalfados e chouriço encarnado, feijão frade temperado com cebola, pimenta, azeite e vinagre, a beber café sem açúcar, a comer sopa de feijão branco com couve lombarda e chispe de porco, espetadas de asinhas de frango com pimentos e toucinho e morango saloio com açúcar mascavado. E depois não querem que o homem fique com gases.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

149. Ismael (62) - Posfácio



Em primeiro lugar quero agradecer ao escritor desta coisa ter-me convidado para escrever o posfácio da dita e em segundo quero agradecer ao editor por ter permitido que o posfácio fosse inserido neste momento na obra.

Mas se o posfácio é inserido neste momento na obra não é um posfácio, poderão dizer, com muita propriedade, ou apenas pensar, obviamente, alguns leitores mais atentos. Pois então, sem vos querer tirar nadinha da razão que vos assiste, vamos cá por partes.

Agradeço ao Constantino que tanto se empenhou em escrever “Ismael um homem à margem de qualquer facada”, título provisório, já que o autor parece ainda não se ter decidido, ter-me escolhido a mim, um simples leitor de blogs, humilde até dizer chega, e incapaz de criticar pela negativa qualquer escrito, seja ele um poema, por mais satírico que seja, por tão épico que chegue a chatear, por tão lírico que me deixe cor-de-rosa só de o cheirar, por tão narrativo que me canse só de o ler, por tão dramático que não haja pedras de calçada onde não me ajoelhe e chore perdidamente, por tão bucólico que me deixe a ver passarinhos voarem sobre a minha cabeça enquanto navego em alvas nuvens à busca do meu éter, ou água oxigenada, ou betadine, quer seja uma prosa, por mais biográfica que seja, principalmente se autorizada, por mais ensaísta que seja, com cegueira ou sem lucidez, por mais diarista que seja, que até nos apeteça dizer «Ana,  francamente!», por mais histórica que seja, que nos obrigue a reviver a batalha de Trafalgar ou o desembarque na Normandia pela centésima vigésima sexta vez, por mais romanceada que seja, que faça ruborescer uma jovem adolescente ao ler lençóis de linho, rendas de bilros ou pensos diários, por mais infantil que seja, que adormeça belas moças ou faça subir em feijões em escada com gatos e sem botas. E talvez fosse porque eu não sou capaz de caraterizar negativamente nenhuma forma de escrita nem o seu conteúdo que Constantino me tenha solicitado para que eu fizesse um posfácio.

Pois meus amigos, só vos tenho que dizer, sem esquecer também as amigas, que gostei. Pois gostei. O rapaz escreve bem, é um pouco confuso por vezes, lá isso é, mas coitado, não se pode ter tudo, isto é, talento e uma mente clara. Ou se tem uma coisa ou se tem outra e não é por acaso, ah pois não, que o Einstein às vezes ia dar aulas com um peúgo de cada cor. E se calhar nem cuecas usava. Quando alguém lhe perguntava, «Sr. Einstein, o senhor hoje trás cuecas?», ele deitava a língua de fora. E não era por uma coisa nem outra que ele deixou de ser um génio. Portanto, para poder passar à parte em que vou agradecer ao editor ter aderido à minha pretensão de colocar o posfácio nesta parte do livro, tenho de repetir que gostei. Gostei, sim senhor do senhor Constantino ter introduzido o conto da Francisca, coitadinha, uma mulher que se esforçou tanto para que o crime das sete facadas se resolvesse mesmo quando já estava fraquinha das pernas, disse-me o autor, devido a uma trombose que lhe deixou os olhos roxinhos, roxinhos, como aquela couve que se come às tirinhas nas saladas e que por pouco não a matava de vez. Também gostei do autor a contar contos, se bem que pequenos, no meio da narrativa de suspense em que se transformou o já terminado mas ainda não publicado na totalidade, crime da rua dos Correeiros, onde se esfaqueou uma pobre jovem que se sabe ter sido corista no Parque Mayer, pois é verdade. Apesar desta rapsódia, gostei. A sério, pá. E o que se pode mais dizer num posfácio, se não que o livro ou o quer que seja esta coisa, está bem escrito, tem ritmo, prende o leitor à trama do crime, emociona o leitor com contos reais, como aquele em que os seus colegas, bebiam sevenápes e bicas e tinham as partes à arder por causa do Sol, o que eu me emocionei, leitores e até obriga o leitor a recorrer ao Houaiss ou ao Priberam online para entender o que Francisca quis dizer com jacular, com achapuçar ou, por exemplo, com galóli e, finalmente, dá ao leitor um sabor assim a cocktail ou a macedónia. É verdade que por vezes o escritor passa-se, como aquela vez em que fez um disclaimer a meio da prosa quando o devia ter feito no início, mas se o Constantino me escolheu para fazer o posfácio, não é exatamente aqui que o vou criticar.

Finalmente o editor. Bem-haja senhor editor. Vossa excelência, permita-me que o trate assim, é um santo. É um santo até maior do que o nosso primeiro-ministro e do que o nosso ministro das finanças que tanto bem nos têm feito, subtraindo-nos os subsídios de férias e Natal para que a gente não gaste em porcarias como sejam o autocarro para a Costa da Caparica, ou mesmo para Fonte da Telha no verão, em que toda a gente vai poluir as praias, aproveitando até para tomar banho e pôr cremes, que é cá uma despesona e depois o nosso querido governo é que paga com a malta a gastar acima das suas possibilidades, ou gastar em outras porcarias, como sejam as broas e as passas e os brinquedos fabricados na China, pois por isso, por nos ensinarem a pouparem também para vocês, ministros, o meu grande bem-haja. Mas ia eu a dizer que o senhor editor nem sabe o bem que fez ao meu ego, principalmente ao meu, já para não falar da alegria que deu ao senhor Constantino em deixar que o posfácio aqui fosse publicado. É que como todos sabem, depois de lido um livro ninguém lê posfácios. A malta acabou, volta para estante, tira-se-lhe o marcador que serve para outro livro e siga a marinha.

Ai sim? Então siga a marinha que o próximo capítulo é que vai ser bom.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

148. Ismael (61) - Um Ismael para cada gosto



Se eu estivesse a escrever um livro policial não poderia fazer tantas interrupções pelo meio do romance. Corria o risco de não se perceber nada e de as pessoas acharem, com alguma razão, que todas as regras da literatura romanesca estavam a ser cilindradas. Os críticos literários cair-me-iam em cima e, se calhar, diriam «bela merda» com ponto de exclamação à frente. Os editores, perguntar-me-iam «afinal que brincadeira vem a ser esta», mas com ponto de interrogação. Os leitores andariam para trás e para a frente com as páginas e acabariam pensando ou desabafando «mal empregadinho dinheiro» e, até eu ,escritor do texto, quando o faço na terceira pessoa e narrador do dito na primeira ou então vice-versa, me sentiria envergonhado por não saber estruturar uma coisa com principio meio e fim e, no fim, claro está, acabar com isto de uma vez por todas. Mas, felizmente para todos, críticos, editores, escritor, narrador e leitores por esta ou por qualquer outra ordem, nomeadamente a inversa, isto não é um livro policial, isto não é um romance, isto não é uma novela, isto não é um ensaio, isto não é um diário, isto não é uma biografia. Isto é um entretém e como entretém que é, não só já me fizeram chegar aos ouvidos que está muito bem assim, mas também me incentivaram a colocar no contexto palavras cruzadas e puzzles do sodoku. Eu é que não vou nessa porque para confusão já basta assim. Mas se isto fosse mesmo um romance policial, o inspetor Ismael Sacadura Flores estaria neste momento da sua preleção a referir-se ao velho Ishmail Baruch, quiçá (eu já escrevi quiçá mais de uma dezena de vezes desde que comecei a escrever esta sequência, quiçá mais de duas dezenas), nos termos em que os parágrafos seguintes o fazem.

«E», continuava o Inspetor Ismael Sacadura Flores, «não pense que me esqueci de si, meu caro senhor Baruch», virando-se para o senhor Ishmail Baruch a contas com uma gripe, já no limite da broncopneumonia, débil de pernas, pois só uma cadeira de rodas o fez movimentar até à taberna onde decorria a preleção de Sacadura, «não me esqueci, não senhor, e a prova disso é que agora, neste momento, neste preciso momento», referiu com enfâse Ismael Sacadura Flores, «me virei para si». Pigarreou, bebeu um gole de tinto, assoou-se com algum estrondo, desconfiando os presentes que a gripe do senhor Ishmail Baruch se poderia estar a propagar. «Despache-se que eu tenho mais que fazer», disse em surdina a Isaurinha Bate-Sola, mas que foi ouvido pela comissária Xana que a cotocou duas vezes e também por Sebastião que pôs a mão em frente da boca e sussurrou «cala-te, minha grande vaca», o que fez com que Ismael Gusmán passasse por ele e lhe deixasse cair um café quente em cima dos músculos tatuados do braço direito. Afinal de contas, mesmo com um par de chifres, Ismael nunca deixou de nutrir alguns sentimentos por Isaurinha. «O senhor Ishmail Baruch, tanto quanto se percebe pelo manuscrito de Francisca», esta sorriu, «e pela investigação pericial feita pelos meus chefes de brigada», olhou para Ismael de Almeida e para Ismaelix, tendo estes baixado ligeiramente a cabeça em sinal de respeito e veneração, «não está em Portugal apenas por causa de sua sobrinha Rachel, nem do seu sobrinho-neto Sebastião, aqui presente e, até prova em contrário, eventual suspeito da morte de uma jovem italiana, nesta mesma rua, porém no número 43». O escritor sente-se na obrigação de alertar os seus leitores que o uso amiúde de quiçá e de porém nada tem de fetiche mas, porque não conhece muitas palavras caras, assim como os bons escritores e os poetas, palavras do tipo haurir, diatónico ou invetivo, vai usando estas que são mais de uso comum. Continuando com as palavras de Ismael Sacadura Flores, «o senhor Ishmail Baruch, é um espião ao serviço da Mossad, bem como o seu dito sobrinho, que sabemos agora não o ser, Ismael ben-Avhraam!». Disse-o com tanta eloquência que todos desviaram os olhos de Ishmail Baruch, concentrando-os com tanta energia em Ismael ben-Avrhaam que, se não tivéssemos visto um isqueiro de torcida enrolado na sua mão direita, também conhecido por isca, afirmaríamos, por ventura erradamente, que esses olhares fulminantes lhe teriam acendido um charuto cubano. E continuou o inspetor, «é certo que o senhor tem de propriedade a havanesa da Rua do Alecrim, paredes meias com o Cais do Sodré, pelo que uns lhe chamam Havanesa do Alecrim e outros Havanesa do Cais (*), o que para o caso nem sequer importa. Mas isso é negócio de fachada para esconder as suas atividades ilícitas que apenas a PIDE tolera mas que nós, na Judiciária, custe o que custar, não temos por hábito dar cobertura. Principalmente quando está em causa um crime de sangue, e de muito sangue, que o diga Ismael Pião, o nosso ex-fotógrafo, que ainda hoje anda às voltas com o vómito». Ishmail Baruch permaneceu impávido e sereno ou não fosse a sua formação militar, de alta patente no exército do país do Rei David, o ter treinado para todas as circunstâncias.

Neste momento, o escritor interroga-se se há de dar continuidade ao discurso do inspetor Ismael Sacadura Flores ou se há de ele próprio fazer um resumo, chamando à liça o narrador. Mas como tem dúvidas que matéria tão importante para a resolução desta trapalhada possa ser imputada a um mero contador de histórias, acaba por dar resposta às suas próprias interrogações e decide ser ele a escrever o que o inspetor da Judiciária disse, mesmo correndo o risco de maçar os seus leitores. Mas, assim como assim, já que ainda devemos estar a umas boas trinta e oito páginas do final, mais vale ser agora do que mais tarde.

«Tem portanto, como é bom de ver, mesmo que aqui nada tenha sido dito que conduza a isso» e querendo fazer algum suspense, não só nas palavras mas também nos atos, virou-se o inspetor para o galego Ismael Gusmán e pediu-lhe que se ele não se importasse, lhe trouxesse dois naquitos de torresmos, pois estava a sentir alguma fraqueza. Ismael Gusmán limpou as mãos ao avental azul-escuro e cortou de uma peça grande que tinha em cima do balcão várias fatias de torresmos com que agraciou o inspetor, continuando este, «fortes probabilidades de ter esfaqueado Isabella. Mas porquê, perguntarão alguns de vós, atónitos com esta minha afirmação», considerou o inspetor sem ter tido o cuidado de verificar se todos ou só alguns teriam ficado efetivamente atónitos e, assim mesmo, foi continuando, «pois eu respondo-vos. Um espião, vem à procura de uma medalha. Uma medalha tem um número. O número é de uma conta. A conta está na Suíça. O seu valor quase só Ishmail Baruch e Ismael ben-Avrhaam o sabem. O seu valor também o poderá saber Ekatrina Smirnova, esta linda jovem por quem o nosso chefe de brigada Ismaelix se apaixonou e cujo desfecho desta paixão, ninguém sabe ao certo no que vai dar. O valor dessa conta na Suíça, interrogo-me se o saberá o senhor Vicentini ou não, mas que hoje já saberá por certo da morte de sua filha e que nunca se dignou aparecer, quiçá ele também morto algures numa valeta duma rua de Lugano ou numa viela de Alfama, onde um rufia terá decidido defender a honra de sua dama. O valor dessa medalha talvez não o soubesse a pobre, a infeliz, nunca é de mais repetir, a inocente menina que mostrava as pernas como mais nenhuma corista o sabia fazer na nossa Revista à Portuguesa, apesar de usar uma imitação ao pescoço. Portanto, temos presentes as três pessoas que poderiam ter morto Isabella, mas que, por motivos que mais tarde explicarei, há mais quem o pudesse fazer». Naquele momento ouviu-se a voz do senhor Ismael da farmácia que não se sabe por que razão lhe foi franqueada a porta, dizer que «bom, a esta hora eu deveria estar a encerrar a minha farmácia lá na Quinta do Conde e a bem dizer, não sei porque é que estou aqui. Mas disseram-me que fazia falta mais um Ismael neste capítulo e portanto cá estou eu, às ordens de vossas excelências».


quarta-feira, 6 de junho de 2012

147. Ismael (60) - Misteriosa





Em Trás-os-Montes e no Canadá não se falava noutra coisa. O borburinho era tamanho que até levou o escritor a afirmar uma coisa destas, sabendo-se de antemão a dimensão de Trás-os-Montes, a dimensão incomparável do Canadá e até a dimensão que viria a atingir a Quinta do Conde, onde também não se falava de outra coisa. Exageros poéticos à parte, a Lua beijava já o Atlântico Norte e o Sol despontava nos raianos montes. Toronto ainda dormia, enquanto a Quinta do Conde esfregava as remelas de uma noite bem sonhada. Na Rua dos Correeiros, uma italiana, que poucas horas antes acabava de chegar a casa, vinda de mais uma noite árdua de trabalho e de um frugal jantar numa cervejaria de esquina, iria ser assassinada. Uma misteriosa senhora quis ser testemunha de um crime e afirma nada ter visto. Sentado, num disfarce indelével, de nutridor de pombos, um tal chefe de brigada de sua graça Ismael de Almeida, constituir-se-ia fiel depositário de testemunho e emoção. E enquanto a Ginjinha do Rossio abria as suas portas e os primeiros pedintes se colocavam estrategicamente nas portas da Igreja de S. Domingos, as fontes da Praça de D. Pedro IV não paravam de brotar água. Na Praça da Figueira ouviam-se os primeiros pregões do dia, o peixe chegava em carroças vindas do cais de Santos e do Cais do Sodré, Rachel já era morta havia tempos, a Quinta do Conde preparava-se para rumar a Cacilhas onde um vapor a esperava para a levar a trabalhar em Lisboa, Toronto dormia o sono dos justos. E, no entanto, naquela aldeia raiana de Trás-os-Montes, naquele bairro de Toronto onde as línguas latinas eram lei e um italiano vendia móveis num pavilhão envidraçado, naquela quinta onde clandestinamente se erigiam vivendas sem água canalizada, nem luz elétrica, paredes meias com Sesimbra e com a Serra da Arrábida, não se falava noutra coisa. As sobrinhas juravam que se a tia rumasse aos calabouços, elas viriam em seu auxilio e testemunhariam que uma pessoa de bem, que cuidou desde pequenino de Ismaelzinho Gusman, neto do amigo do escritor desde quando, fatidicamente, o seu pai, sendo que o escritor promete ainda vir a contar esta história, se finou, uma mulher que não aguentava o frio de paragens tão distantes, rumando seis meses em cada ano ao seu país natal, uma mulher que apenas ouviu os passos de alguém que lhe parecia coxo no andar de cima, não poderia nunca, mas nunca por nunca ser, ser autora de um tão hediondo crime que já todos conhecemos e que não vale a pena repetir, apenas registando que sete facadas não se dão a ninguém, muito menos no peito e ainda menos a uma pobre corista, cujo pecado foi ter uma medalha de Nossa Senhora num fio de ouro.

O inspetor Ismael Sacadura Flores, pôs os pontos nos is. Aquela era a sessão final. Depois dela, mais nada. Ou melhor. Depois dela os calabouços. Depois deles o julgamento. Depois dele a condenação. Depois dela, de novo, os calabouços. Depois deles o recurso. Quiçá, depois dele, os calabouços. O inspetor Sacadura não tinha a menor dúvida. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes ouviu passos. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não mentiu ao disfarçado homem que alimenta pombos nas galerias exteriores do Teatro Nacional. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não foi para a sua casa da Quinta do Conde, onde luzes foram vistas acesas e, se não escapa à memória do escritor, se viram vultos passeando no primeiro andar, preferindo ficar no apartamento da Rua dos Correeiros, por uma inesperada coincidência como são inesperadas todas as coincidências da vida. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes sofria de insónias. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não matou Isabella Vicentini  é o que conclui o relatório de Ismael Sacadura Flores. Ninguém entendeu esta conclusão do inspetor. O escritor está com dificuldades em explicá-la. O inspetor olha para Espinheira. Espinheira, por sua vez, olha para Francisca. As sobrinhas da misteriosa senhora não estavam presentes, não faria, como não fez aliás, falta nenhuma o seu testemunho. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes e idosa também, como sabemos de episódios anteriores ouviu passos. “Isso chega?”, perguntarão os leitores. Não, isso não chega, responderá o escritor. E se o engenho permitir ainda vos demonstrará porque é que o inspetor chegou à conclusão que a misteriosa e idosa, agora sim, está bem adjetivada, senhora de Trás-os-Montes não matou Isabella Vicentini. E para comemorar o evento, a misteriosa e idosa senhora levantou-se do seu banco, pois já estava aflita das cruzes, e mandou Ismael Gusmán servir uma rodada para todos, enquanto foi fazer um chichi.

Quem nunca se conformou com este desfecho foi uma pequena aldeia trasmontana, foi um bairro de Toronto e foi uma ruela da Quinta do Conde. A inveja do mundo é uma coisa muito feia.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

146. Ismael (59) - Não morras ainda, Francisca



Tive um medo terrível. Francisca apareceu-me lá em casa com umas olheiras que me arrepiaram. Se Francisca não fosse um personagem vivo deste romance, desta novela, deste, enfim, qualquer coisa, eu diria que Francisca tinha-me entrado morta, porta adentro. Francisca vinha branca, a tez, o rosto, as mãos, o colo, do pouco que se via do pescoço. A blusa quase apertada até ao cimo e a saia comprida, as meias de mousse pretas, não deram para ver nenhuma outra parte do seu, ainda esbelto, embora dos quarenta quase terminados, longe assim dos doirados anos de Balzac, corpo de mulher. Vinha branca, não de branco, pois a cor das meias já o sabemos, eram pretas, onde apenas destoava a cor dos olhos. Não àquela cor que lhe conhecíamos desde menina, desde muito jovem, quando se embeiçou por Castro Ribeiro, mas aquela cor roxa de olhos doentios, mal dormidos e como, nem com o seu quê de violento, putanheiro, homem de muitas mulheres, notívago profissional, a que se veio a transformar o seu ex-marido, o aposentado juiz do Porto, o Dr. Castro Ribeiro, a tinha deixado. Não, aquilo não foi pancada, não foi queda. Francisca estava doente. E tive medo. Por ela senti pena. Uma pena que se sente quando se gosta de alguém. Não uma pena caritativa, mas um projeto de saudade. Poderia Francisca morrer e ainda viva já me estar a deixar saudade? Poderia sim. E tive medo, medo que Francisca não pudesse terminar o seu “Conto das ilhas de lá”. Medo por ela, pois se preciso for o publicarei a título póstumo. E se a sua obra ficar inacabada, poderei sempre, a meu jeito, se assim o entender e se para isso for solicitado pelo amor à pena, terminar a sua obra. Mas tenho pena, muita pena, por Francisca. Ela que foi a chave perfeita para a descoberta do crime da Rua dos Correeiros, ela que sem o seu manuscrito nunca teríamos conhecido o jovem Espinheira, ela que sem a sua envolvência teria banalizado a uma qualquer figura o figurão do Castro Ribeiro, ela que sem manuscrito também reduziria a uma inutilidade para a história, o, nos dias de hoje, já aposentado inspetor, aquele que na tasca do meu amigo Ismael pôs tudo a nu e mandou para os calabouços da esquadra da Mouraria, acompanhados pela bela Xana, a comissária, quem devia mandar, ela sem a qual a Quinta do Conde não teria tido nem metade do protagonismo que tem tido nesta história, ela entra-me porta adentro escaveirada, branca, sem cor, sem batom, só branca e roxa, sem cor, com o roxo dos olhos mais escaveirado do que a caveira em que se tinha transformado o seu rosto sem cor.

Cheguei-lhe uma cadeira, ofereci-lhe um copo de água, perguntamos um ao outro como é que cada um ia, como se isso fosse preciso, nela tudo se via, tudo era transparente, em mim tudo era cinzento, opaco. Francisca transparente, Francisca de olhos roxos, de um roxo transparente. E eu, cabisbaixo, retrospetivo, emimesmado, triste, fechado, eu que apenas tinha a frincha da janela aberta por onde uma ténue luz agora rasgava o cortinado, mas que iluminava na perfeição o rosto branco e roxo refletido de Francisca no cinzento dos meus pensamentos, tentei despreocupá-la mais do que me despreocupei a mim. «Vou-lhe publicar o capítulo oito». E como se fosse membro de uma rara tribo, sorriu um sorriso roxo. E pude verificar-lhe que os lábios também eram roxos. Sem cor.

“O nubente assistiu macambúzio ao ritual que se seguiu. De facto não era espetável que, após uma tão excitante cerimónia de iniciação, a passagem seguinte assumisse um tão maçadiço teor. Assim para vos poupar a uma macarrónea crónica, apenas refiro que a jovem foi conduzida numa maca, acompanhada por duas anciãs, para uma tenda isolada, colocada nas cercanias da aldeia. Mal acabou de entrar, o futuro noivo estendeu-me a mão, no que foi retribuído. E sem a largar conduziu-me ao meu lugar, previamente reservado na mesa principal, precisamente do lado direito do chefe. Ele sentar-se-ia à esquerda. Os pratos exóticos de jamantes e jeticas, de miolos de macaco servidos na própria cabeça, de língua de jacaré numa espécie de estufado, que ia chegando em grandes travessa de barro cru, de espetos de láparos apenas separados por folhas de urtiga fresca, de jambé, de rabo de boi com natas de leite de morcega, misturavam-se com alguns dos mais conhecidos pratos ocidentais, como o javali assado em forno de lenha, estaladiço, rodeado de laranja e maçarocas de mabalemade cozido, macedónia de frutas, lulas (embora de um tamanho inusitado) recheadas com linguiça, nêsperas em calda de açúcar, muito marisco de casca e pardais nidífugos fritos em óleo de nicori. E foi com este repasto, de que não hesitei em provar todas as iguarias, que me saciei de uma fome de três dias. Adormeci bebendo um chimarrão, não de erva-mate como seria de esperar, mas de uma mistura de gengibre e macela”. 

E se lhe prometi, também o cumpri porque sou um escritor de palavra.





sábado, 2 de junho de 2012

145. Ismael (58) - Época balnear



Nem sei como é que, no meio do tabu que está subjacente à revelação do autor ou dos autores do crime da rua dos Correeiros que vos tenho vindo a contar, numa novela de faca e alguidar e alguma comida de fazer crescer água na boca a mim próprio, se bem que alguns leitores também confessem que não são avessos aos prazeres da mesa e de alguns vinhos de estalo, desde os brancos alentejanos e da península de Setúbal ou mesmo da região oeste, até aos tintos mais apreciados por este escriba que passam pela Granja da Amareleja, por Monsaraz ou por Borba, não descurando os de Pegões, os de Alcoentre e um ou outro Douro reserva ou garrafeira, passando pelos verdes da sub-região do Lima, onde pontificam Alvarinhos e Loureiros brancos e o belíssimo vinhão de Aguiã, me fui lembrar de uma conversa entre os jovens que nós éramos, naquela época ainda sem os nossos vinte anos feitos, mas que gostávamos de, com uma bica na mesa, duas baforadas de cigarro, alguns copos de água e muitas sebentas em cima da mesa, aproveitar as horas mortas da taberna do meu amigo Ismael para estudarmos um bocado e, as mais das vezes, para ficarmos realmente à conversa.

Calculo que, para quem segue novela que se intitulará provisoriamente “O inexplicável crime à beira de uma travessa de carapaus alimados” e pouco ligados ao “Conto das ilhas de lá”, apesar da sua carga erótica, misteriosas e polvilhada de vocábulos que não dispensam a presença de Houaiss a mostrarem que o autor, perdão a autora, a nossa bem conhecida Francisca, é uma pessoa erudita que, se escreve um ou outro vocábulo a roçar o calão, isso é apenas porque os personagens não passam de uns sem-vergonhas, pode-se mesmo dizer de uns pelintras de conhecimento linguístico que a riqueza do luso idioma enclausura, pouco se lhe importa que no meio de tudo isto, Constantino continue a contar histórias que se passaram na taberna de um amigo seu, galego de nascimento, lisboeta por opção, benfiquista de coração, um amigo também ao vosso dispor, Ismael de sua graça. Mas tenham paciência, bem sei que sem sangue não se faz arroz de cabidela, mas contos menos dramáticos, acompanhados a café e a bolos de arroz, vá lá, a queques de laranja, também têm o seu lugar, mesmo que seja na mesma mesa onde já se comeu o belo paio de porco preto, umas amêijoas à Bulhão Pato, um bacalhau à Zé do Pipo ou um queijo de Serpa, DOP com pão de forno de lenha.

Pois para que não se perca mais tempo, vou já direto ao assunto, repitam comigo pois já o sabem de cor, como é apanágio aqui do vosso amigo Constantino. As férias de alguns de nós, eu excluído, pois nesse tempo andava a vender livros pelos refeitórios das empresas, durante as minhas férias de verão, mas é história para vos contar noutra altura, tinham sido no Algarve, alguns dos quais na região de Lagos. Lagos é e continua a ser um destino de férias muito bonito, um destino balnear de excelência e, pena é, que muitos de nós não tenha subsídio de férias para gastar. Lagos tem praias típicas, todas rodeadas de rochas mas,  naquele tempo, algumas só acessíveis através de escadarias escavadas na falésia que se permitiam descer ou escalar agarrados a cabos de aço forrados a borracha. Estas eram as praias-tipo para a proibidíssima prática de nudismo mas que dava muito trabalho aos cabos de mar, descer e subir aquelas escarpas só para irem pespegar multas aos naturistas, ainda por cima fardados a rigor. Ora, na nossa idade, a curiosidade alia-se à aventura e houve quem de nós se dedicasse também a tão pura, quanto saudável, prática. Saudável pensávamos nós sem a devida proteção e se o Paiva se queixava que tinha os genitais a arder, que lhe doía tudo, em linguagem mais vernácula própria da irreverência juvenil se dizia por claro o “coiso” e se chamavam tomates aos testículos, já o Oliveira, sem saber do que se falava na tertúlia, irrompe porta dentro, perna aberta quase sem poder andar, dirige-se à mesa onde nos encontrávamos uns seis ou sete curiosos, ávidos daquelas histórias para nós surpreendentes ou surreais, a desabafar alto e bom som «porra que estou à rasca do cú!». Claro que ele veio depois a saber porque é que em uníssono desatamos todos à gargalhada.