Olá, eu sou o Sebastião. Bem sei que o inspetor Ismael
Sacadura Flores não vai gostar nada que eu me antecipe à sua oratória na tasca
do famoso galego, amigo do escritor. Mas já não aguento mais. Tenho estado,
quase desde o dia em que fui referido pelo autor, creio que na mercearia do
senhor Ismael Rodrigues, na corda bamba desta novela. Ora se dá a entender que
eu não tive nada a ver com o crime, ora se insinua que talvez eu não estivesse
embarcado naquele fatídico dia, e que tudo era uma proteção maternal da minha tia
Francisca, que sempre de mim falava com muito carinho no seu manuscrito. Eu sei
que contar aqui a história da minha vida seria deveras maçador para quem está a
ler. Além disso, eu não tenho a verve do narrador, nem a capacidade de
efabulação do escritor, que me permita deixar-vos uma biografia. Mas tenho que
vos dizer, para que não restem dúvidas, que eu não matei a pobre da Isabella.
Bem sei que muitos de vocês, mas principalmente muitas de vocês, que ao longo
deste medley que o escritor decidiu
fazer no blog do senhor Constantino, misturando as histórias que têm como pano
de fundo a tasca do honesto galego, com o crime da rua dos Correeiros e com o
Conto que a minha pobre e frágil tia anda a escrever sobre umas ilhas, que por
acaso nunca visitei, dizia eu que, muitas de vós já sois grandes fãs deste
jovem marinheiro e que suspireis de alívio, ao lerdes esta minha afirmação. Mas
a verdade, verdadinha, relato-vos em duas ou três linhas, se para isso
conseguir beber a arte de narrar do famoso contador de histórias que tem estado
omnipresente desde o início do fascículo. Ora, se a minha tia deixou claro no
seu manuscrito que eu tinha embarcado para o Coraçau pouco tempo antes do
horripilante crime que mandou Isabella para junto do Criador, então é porque é
verdade. A minha tia não é mentirosa e até estou todo arrepiadinho só de o
estar a afirmar e duas lágrimas, aliás três, já me escorrem rosto abaixo. O que
aconteceu, porém, foi que tive uma daquelas crises de enjoo em alto-mar. Bem
que o enfermeiro me encheu de comprimidos, o meu chefe até bolachinhas e chá
mandou levar ao meu camarote, sabe Deus mais quantos mimos, mas nada. Levantava
a carola do travesseiro e parecia que o beliche se virava de pernas para o ar. Até
que ao fim de algumas horas fui encontrado verde, desbundado num mar de
vomitado. Não tiveram outro remédio senão desviar a rota e deixarem-me na ilha
de S. Vicente onde me apaixonei, como não podia deixar de ser, por uma crioula
com 16 anos. Passada uma semana já se faziam os preparativos para o casamento e
não fosse ter-me escondido num porão de um navio da Companhia Colonial de Navegação que
tinha feito escala para deportar uns revolucionários a mando do Salazar, nunca
eu teria feito parte da novela do escritor Constantino. É assim que na
véspera do sanguinário assassinato da minha querida bailarina, sou visto num
bar do Cais do Sodré, o Barba Roxa, onde me venho a encontrar com o meu antigo
protetor o Dr. Castro Ribeiro. Falamos de tudo e de mais um par de botas
enquanto virámos, a bem dizer, uma garrafa de VAT 69. Quando ele soube que a
Isaurinha Bate-Sola partilhava a cama comigo, para me poder esconder da minha
tia, a quem eu não queria atormentar com a minha repentina doença, saiu do bar
aos gritos de «Eu mato aquela puta! Eu mato aquela puta!», sendo que desde essa
data nunca mais o vi, até alguns dias depois de finada a pobre corista
italiana. Também estranhei a boa disposição de Isaurinha em todos aqueles dias,
quer antes, quer após o fatídico dia, mas sempre atribuí isso ao meu desempenho,
passe a imodéstia, só que vou deixar essa questão para outra ocasião. Por uma
mera coincidência, realmente divina, a noite em que foi vilmente assassinada
Isabella, posso prová-lo, tenho várias testemunhas disso, passei-a escondido
num alçapão do Barba Roxa, por conselho do Dr. Castro, que mesmo já com os
copitos teve um bom discernimento, onde o dono, o meu amigo Ismael Júlio, que
alguém confundia propositadamente com Ismael chulo, escondia as caixas de
whisky de contrabando e duas espanholas que ele trazia por conta, mas que
estavam por cá clandestinas. E indagam-se depois os leitores, que não percebem
porque é que eu passei essa noite escondido no alçapão do chulo, quer dizer do
Júlio e eu não tenho outro remédio senão explicar a minha cobardia, pois o pai
da jovem cabo-verdiana andava há três dias a percorrer tudo o que era cais, bar
ou casas de má-porte, já para não falar nas vigílias que fazia à porta da casa
da minha tia na Quinta do Conde, com uma catana na mão e a toda a gente dizia,
em viva voz e num misto de crioulo e de português «Eu faço aquele malandro em
fatias!». Portanto, peço-vos apenas uma coisa. Quando na sua preleção
determinante, o inspetor Ismael Sacadura Flores declarar que o marinheiro Sebastião
nada tem a ver com as facadas em Isabella, nem com as sete nem com nenhuma das
sete que a vitimaram, façam de conta que ainda não sabem. É que, quando o
inspetor se sente ultrapassado, desata a comer rissóis de berbigão, a beber copos
de branco saídos diretamente do barril, a comer croquetes de sangacho de atum,
salada de tomate com requeijão, a beber bagaços caseiros, a comer jaquinzinhos
fritos de um dia para o outro, sardinha de caldeirada à moda de Setúbal,
pasteis de Tentugal e queijadas de Sintra, ervilhas com ovos escalfados e
chouriço encarnado, feijão frade temperado com cebola, pimenta, azeite e
vinagre, a beber café sem açúcar, a comer sopa de feijão branco com couve
lombarda e chispe de porco, espetadas de asinhas de frango com pimentos e
toucinho e morango saloio com açúcar mascavado. E depois não querem que o homem
fique com gases.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
149. Ismael (62) - Posfácio
Em primeiro lugar quero agradecer ao escritor desta coisa
ter-me convidado para escrever o posfácio da dita e em segundo quero agradecer
ao editor por ter permitido que o posfácio fosse inserido neste momento na
obra.
Mas se o posfácio é inserido neste momento na obra não é um
posfácio, poderão dizer, com muita propriedade, ou apenas pensar, obviamente,
alguns leitores mais atentos. Pois então, sem vos querer tirar nadinha da razão
que vos assiste, vamos cá por partes.
Agradeço ao Constantino que tanto se empenhou em escrever “Ismael um homem à margem de qualquer
facada”, título provisório, já que o autor parece ainda não se ter
decidido, ter-me escolhido a mim, um simples leitor de blogs, humilde até dizer
chega, e incapaz de criticar pela negativa qualquer escrito, seja ele um poema,
por mais satírico que seja, por tão épico que chegue a chatear, por tão lírico
que me deixe cor-de-rosa só de o cheirar, por tão narrativo que me canse só de
o ler, por tão dramático que não haja pedras de calçada onde não me ajoelhe e
chore perdidamente, por tão bucólico que me deixe a ver passarinhos voarem
sobre a minha cabeça enquanto navego em alvas nuvens à busca do meu éter, ou
água oxigenada, ou betadine, quer seja uma prosa, por mais biográfica que seja,
principalmente se autorizada, por mais ensaísta que seja, com cegueira ou sem
lucidez, por mais diarista que seja, que até nos apeteça dizer «Ana, francamente!», por mais histórica que seja,
que nos obrigue a reviver a batalha de Trafalgar ou o desembarque na Normandia pela
centésima vigésima sexta vez, por mais romanceada que seja, que faça ruborescer
uma jovem adolescente ao ler lençóis de linho, rendas de bilros ou pensos
diários, por mais infantil que seja, que adormeça belas moças ou faça subir em feijões
em escada com gatos e sem botas. E talvez fosse porque eu não sou capaz de
caraterizar negativamente nenhuma forma de escrita nem o seu conteúdo que
Constantino me tenha solicitado para que eu fizesse um posfácio.
Pois meus amigos, só vos tenho que dizer, sem esquecer
também as amigas, que gostei. Pois gostei. O rapaz escreve bem, é um pouco
confuso por vezes, lá isso é, mas coitado, não se pode ter tudo, isto é,
talento e uma mente clara. Ou se tem uma coisa ou se tem outra e não é por
acaso, ah pois não, que o Einstein às vezes ia dar aulas com um peúgo de cada
cor. E se calhar nem cuecas usava. Quando alguém lhe perguntava, «Sr. Einstein,
o senhor hoje trás cuecas?», ele deitava a língua de fora. E não era por uma
coisa nem outra que ele deixou de ser um génio. Portanto, para poder passar à
parte em que vou agradecer ao editor ter aderido à minha pretensão de colocar o
posfácio nesta parte do livro, tenho de repetir que gostei. Gostei, sim senhor
do senhor Constantino ter introduzido o conto da Francisca, coitadinha, uma
mulher que se esforçou tanto para que o crime das sete facadas se resolvesse mesmo
quando já estava fraquinha das pernas, disse-me o autor, devido a uma trombose
que lhe deixou os olhos roxinhos, roxinhos, como aquela couve que se come às
tirinhas nas saladas e que por pouco não a matava de vez. Também gostei do
autor a contar contos, se bem que pequenos, no meio da narrativa de suspense em
que se transformou o já terminado mas ainda não publicado na totalidade, crime
da rua dos Correeiros, onde se esfaqueou uma pobre jovem que se sabe ter sido
corista no Parque Mayer, pois é verdade. Apesar desta rapsódia, gostei. A
sério, pá. E o que se pode mais dizer num posfácio, se não que o livro ou o
quer que seja esta coisa, está bem escrito, tem ritmo, prende o leitor à trama
do crime, emociona o leitor com contos reais, como aquele em que os seus
colegas, bebiam sevenápes e bicas e tinham as partes à arder por causa do Sol,
o que eu me emocionei, leitores e até obriga o leitor a recorrer ao Houaiss ou
ao Priberam online para entender o que Francisca quis dizer com jacular, com
achapuçar ou, por exemplo, com galóli e, finalmente, dá ao leitor um sabor assim
a cocktail ou a macedónia. É verdade que por vezes o escritor passa-se, como
aquela vez em que fez um disclaimer a
meio da prosa quando o devia ter feito no início, mas se o Constantino me
escolheu para fazer o posfácio, não é exatamente aqui que o vou criticar.
Finalmente o editor. Bem-haja senhor editor. Vossa
excelência, permita-me que o trate assim, é um santo. É um santo até maior do
que o nosso primeiro-ministro e do que o nosso ministro das finanças que tanto
bem nos têm feito, subtraindo-nos os subsídios de férias e Natal para que a
gente não gaste em porcarias como sejam o autocarro para a Costa da Caparica,
ou mesmo para Fonte da Telha no verão, em que toda a gente vai poluir as
praias, aproveitando até para tomar banho e pôr cremes, que é cá uma despesona e
depois o nosso querido governo é que paga com a malta a gastar acima das suas
possibilidades, ou gastar em outras porcarias, como sejam as broas e as passas
e os brinquedos fabricados na China, pois por isso, por nos ensinarem a
pouparem também para vocês, ministros, o meu grande bem-haja. Mas ia eu a dizer
que o senhor editor nem sabe o bem que fez ao meu ego, principalmente ao meu,
já para não falar da alegria que deu ao senhor Constantino em deixar que o
posfácio aqui fosse publicado. É que como todos sabem, depois de lido um livro
ninguém lê posfácios. A malta acabou, volta para estante, tira-se-lhe o
marcador que serve para outro livro e siga a marinha.
Ai sim? Então siga a marinha que o próximo capítulo é que
vai ser bom.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
148. Ismael (61) - Um Ismael para cada gosto
Se eu estivesse a escrever um livro policial não poderia
fazer tantas interrupções pelo meio do romance. Corria o risco de não se
perceber nada e de as pessoas acharem, com alguma razão, que todas as regras da
literatura romanesca estavam a ser cilindradas. Os críticos literários cair-me-iam
em cima e, se calhar, diriam «bela merda» com ponto de exclamação à frente. Os
editores, perguntar-me-iam «afinal que brincadeira vem a ser esta», mas com
ponto de interrogação. Os leitores andariam para trás e para a frente com as
páginas e acabariam pensando ou desabafando «mal empregadinho dinheiro» e, até
eu ,escritor do texto, quando o faço na terceira pessoa e narrador do dito na
primeira ou então vice-versa, me sentiria envergonhado por não saber estruturar
uma coisa com principio meio e fim e, no fim, claro está, acabar com isto de
uma vez por todas. Mas, felizmente para todos, críticos, editores, escritor,
narrador e leitores por esta ou por qualquer outra ordem, nomeadamente a
inversa, isto não é um livro policial, isto não é um romance, isto não é uma
novela, isto não é um ensaio, isto não é um diário, isto não é uma biografia.
Isto é um entretém e como entretém que é, não só já me fizeram chegar aos
ouvidos que está muito bem assim, mas também me incentivaram a colocar no
contexto palavras cruzadas e puzzles
do sodoku. Eu é que não vou nessa
porque para confusão já basta assim. Mas se isto fosse mesmo um romance
policial, o inspetor Ismael Sacadura Flores estaria neste momento da sua
preleção a referir-se ao velho Ishmail Baruch, quiçá (eu já escrevi quiçá
mais de uma dezena de vezes desde que comecei a escrever esta sequência, quiçá
mais de duas dezenas), nos termos em que os parágrafos seguintes o fazem.
«E», continuava o Inspetor Ismael Sacadura Flores, «não
pense que me esqueci de si, meu caro senhor Baruch», virando-se para o senhor
Ishmail Baruch a contas com uma gripe, já no limite da broncopneumonia, débil
de pernas, pois só uma cadeira de rodas o fez movimentar até à taberna onde
decorria a preleção de Sacadura, «não me esqueci, não senhor, e a prova disso é
que agora, neste momento, neste preciso momento», referiu com enfâse Ismael
Sacadura Flores, «me virei para si». Pigarreou, bebeu um gole de tinto,
assoou-se com algum estrondo, desconfiando os presentes que a gripe do senhor
Ishmail Baruch se poderia estar a propagar. «Despache-se que eu tenho mais que
fazer», disse em surdina a Isaurinha Bate-Sola, mas que foi ouvido pela
comissária Xana que a cotocou duas vezes e também por Sebastião que pôs a mão
em frente da boca e sussurrou «cala-te, minha grande vaca», o que fez com que
Ismael Gusmán passasse por ele e lhe deixasse cair um café quente em cima dos
músculos tatuados do braço direito. Afinal de contas, mesmo com um par de
chifres, Ismael nunca deixou de nutrir alguns sentimentos por Isaurinha. «O
senhor Ishmail Baruch, tanto quanto se percebe pelo manuscrito de Francisca»,
esta sorriu, «e pela investigação pericial feita pelos meus chefes de brigada»,
olhou para Ismael de Almeida e para Ismaelix, tendo estes baixado ligeiramente
a cabeça em sinal de respeito e veneração, «não está em Portugal apenas por
causa de sua sobrinha Rachel, nem do seu sobrinho-neto Sebastião, aqui presente
e, até prova em contrário, eventual suspeito da morte de uma jovem italiana,
nesta mesma rua, porém no número 43». O escritor sente-se na obrigação de
alertar os seus leitores que o uso amiúde de quiçá e de porém nada tem de
fetiche mas, porque não conhece muitas palavras caras, assim como os bons
escritores e os poetas, palavras do tipo haurir, diatónico ou invetivo, vai
usando estas que são mais de uso comum. Continuando com as palavras de Ismael
Sacadura Flores, «o senhor Ishmail Baruch, é um espião ao serviço da Mossad,
bem como o seu dito sobrinho, que sabemos agora não o ser, Ismael ben-Avhraam!».
Disse-o com tanta eloquência que todos desviaram os olhos de Ishmail Baruch, concentrando-os
com tanta energia em Ismael ben-Avrhaam que, se não tivéssemos visto um
isqueiro de torcida enrolado na sua mão direita, também conhecido por isca, afirmaríamos,
por ventura erradamente, que esses olhares fulminantes lhe teriam acendido um
charuto cubano. E continuou o inspetor, «é certo que o senhor tem de
propriedade a havanesa da Rua do Alecrim, paredes meias com o Cais do Sodré,
pelo que uns lhe chamam Havanesa do Alecrim e outros Havanesa do Cais (*), o
que para o caso nem sequer importa. Mas isso é negócio de fachada para esconder
as suas atividades ilícitas que apenas a PIDE tolera mas que nós, na
Judiciária, custe o que custar, não temos por hábito dar cobertura.
Principalmente quando está em causa um crime de sangue, e de muito sangue, que
o diga Ismael Pião, o nosso ex-fotógrafo, que ainda hoje anda às voltas com o
vómito». Ishmail Baruch permaneceu impávido e sereno ou não fosse a sua
formação militar, de alta patente no exército do país do Rei David, o ter
treinado para todas as circunstâncias.
Neste momento, o escritor interroga-se se há de dar
continuidade ao discurso do inspetor Ismael Sacadura Flores ou se há de ele
próprio fazer um resumo, chamando à liça o narrador. Mas como tem dúvidas que
matéria tão importante para a resolução desta trapalhada possa ser imputada a
um mero contador de histórias, acaba por dar resposta às suas próprias
interrogações e decide ser ele a escrever o que o inspetor da Judiciária disse,
mesmo correndo o risco de maçar os seus leitores. Mas, assim como assim, já que
ainda devemos estar a umas boas trinta e oito páginas do final, mais vale ser
agora do que mais tarde.
«Tem portanto, como é bom de ver, mesmo que aqui nada tenha
sido dito que conduza a isso» e querendo fazer algum suspense, não só nas
palavras mas também nos atos, virou-se o inspetor para o galego Ismael Gusmán e
pediu-lhe que se ele não se importasse, lhe trouxesse dois naquitos de
torresmos, pois estava a sentir alguma fraqueza. Ismael Gusmán limpou as mãos
ao avental azul-escuro e cortou de uma peça grande que tinha em cima do balcão
várias fatias de torresmos com que agraciou o inspetor, continuando este,
«fortes probabilidades de ter esfaqueado Isabella. Mas porquê, perguntarão
alguns de vós, atónitos com esta minha afirmação», considerou o inspetor sem
ter tido o cuidado de verificar se todos ou só alguns teriam ficado efetivamente
atónitos e, assim mesmo, foi continuando, «pois eu respondo-vos. Um espião, vem
à procura de uma medalha. Uma medalha tem um número. O número é de uma conta. A
conta está na Suíça. O seu valor quase só Ishmail Baruch e Ismael ben-Avrhaam o
sabem. O seu valor também o poderá saber Ekatrina Smirnova, esta linda jovem
por quem o nosso chefe de brigada Ismaelix se apaixonou e cujo desfecho desta
paixão, ninguém sabe ao certo no que vai dar. O valor dessa conta na Suíça, interrogo-me
se o saberá o senhor Vicentini ou não, mas que hoje já saberá por certo da
morte de sua filha e que nunca se dignou aparecer, quiçá ele também morto
algures numa valeta duma rua de Lugano ou numa viela de Alfama, onde um rufia
terá decidido defender a honra de sua dama. O valor dessa medalha talvez não o
soubesse a pobre, a infeliz, nunca é de mais repetir, a inocente menina que
mostrava as pernas como mais nenhuma corista o sabia fazer na nossa Revista à Portuguesa,
apesar de usar uma imitação ao pescoço. Portanto, temos presentes as três
pessoas que poderiam ter morto Isabella, mas que, por motivos que mais tarde
explicarei, há mais quem o pudesse fazer». Naquele momento ouviu-se a voz do
senhor Ismael da farmácia que não se sabe por que razão lhe foi franqueada a porta,
dizer que «bom, a esta hora eu deveria estar a encerrar a minha farmácia lá na
Quinta do Conde e a bem dizer, não sei porque é que estou aqui. Mas disseram-me
que fazia falta mais um Ismael neste capítulo e portanto cá estou eu, às ordens
de vossas excelências».
quarta-feira, 6 de junho de 2012
147. Ismael (60) - Misteriosa
Em Trás-os-Montes e no Canadá não se falava noutra coisa. O
borburinho era tamanho que até levou o escritor a afirmar uma coisa destas,
sabendo-se de antemão a dimensão de Trás-os-Montes, a dimensão incomparável do
Canadá e até a dimensão que viria a atingir a Quinta do Conde, onde também não
se falava de outra coisa. Exageros poéticos à parte, a Lua beijava já o Atlântico
Norte e o Sol despontava nos raianos montes. Toronto ainda dormia, enquanto a
Quinta do Conde esfregava as remelas de uma noite bem sonhada. Na Rua dos Correeiros,
uma italiana, que poucas horas antes acabava de chegar a casa, vinda de mais
uma noite árdua de trabalho e de um frugal jantar numa cervejaria de esquina,
iria ser assassinada. Uma misteriosa senhora quis ser testemunha de um crime e
afirma nada ter visto. Sentado, num disfarce indelével, de nutridor de pombos,
um tal chefe de brigada de sua graça Ismael de Almeida, constituir-se-ia fiel
depositário de testemunho e emoção. E enquanto a Ginjinha do Rossio abria as
suas portas e os primeiros pedintes se colocavam estrategicamente nas portas da
Igreja de S. Domingos, as fontes da Praça de D. Pedro IV não paravam de brotar
água. Na Praça da Figueira ouviam-se os primeiros pregões do dia, o peixe
chegava em carroças vindas do cais de Santos e do Cais do Sodré, Rachel já era
morta havia tempos, a Quinta do Conde preparava-se para rumar a Cacilhas onde
um vapor a esperava para a levar a trabalhar em Lisboa, Toronto dormia o sono
dos justos. E, no entanto, naquela aldeia raiana de Trás-os-Montes, naquele
bairro de Toronto onde as línguas latinas eram lei e um italiano vendia móveis
num pavilhão envidraçado, naquela quinta onde clandestinamente se erigiam
vivendas sem água canalizada, nem luz elétrica, paredes meias com Sesimbra e com
a Serra da Arrábida, não se falava noutra coisa. As sobrinhas juravam que se a
tia rumasse aos calabouços, elas viriam em seu auxilio e testemunhariam que uma
pessoa de bem, que cuidou desde pequenino de Ismaelzinho Gusman, neto do amigo
do escritor desde quando, fatidicamente, o seu pai, sendo que o escritor
promete ainda vir a contar esta história, se finou, uma mulher que não
aguentava o frio de paragens tão distantes, rumando seis meses em cada ano ao
seu país natal, uma mulher que apenas ouviu os passos de alguém que lhe parecia
coxo no andar de cima, não poderia nunca, mas nunca por nunca ser, ser autora
de um tão hediondo crime que já todos conhecemos e que não vale a pena repetir,
apenas registando que sete facadas não se dão a ninguém, muito menos no peito e
ainda menos a uma pobre corista, cujo pecado foi ter uma medalha de Nossa
Senhora num fio de ouro.
O inspetor Ismael Sacadura Flores, pôs os pontos nos is.
Aquela era a sessão final. Depois dela, mais nada. Ou melhor. Depois dela os
calabouços. Depois deles o julgamento. Depois dele a condenação. Depois dela,
de novo, os calabouços. Depois deles o recurso. Quiçá, depois dele, os
calabouços. O inspetor Sacadura não tinha a menor dúvida. A misteriosa senhora
de Trás-os-Montes ouviu passos. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não
mentiu ao disfarçado homem que alimenta pombos nas galerias exteriores do
Teatro Nacional. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não foi para a sua casa
da Quinta do Conde, onde luzes foram vistas acesas e, se não escapa à memória
do escritor, se viram vultos passeando no primeiro andar, preferindo ficar no
apartamento da Rua dos Correeiros, por uma inesperada coincidência como são
inesperadas todas as coincidências da vida. A misteriosa senhora de
Trás-os-Montes sofria de insónias. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não
matou Isabella Vicentini é o que conclui
o relatório de Ismael Sacadura Flores. Ninguém entendeu esta conclusão do
inspetor. O escritor está com dificuldades em explicá-la. O inspetor olha para
Espinheira. Espinheira, por sua vez, olha para Francisca. As sobrinhas da
misteriosa senhora não estavam presentes, não faria, como não fez aliás, falta
nenhuma o seu testemunho. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes e idosa
também, como sabemos de episódios anteriores ouviu passos. “Isso chega?”,
perguntarão os leitores. Não, isso não chega, responderá o escritor. E se o
engenho permitir ainda vos demonstrará porque é que o inspetor chegou à
conclusão que a misteriosa e idosa, agora sim, está bem adjetivada, senhora de
Trás-os-Montes não matou Isabella Vicentini. E para comemorar o evento, a
misteriosa e idosa senhora levantou-se do seu banco, pois já estava aflita das
cruzes, e mandou Ismael Gusmán servir uma rodada para todos, enquanto foi fazer
um chichi.
Quem nunca se conformou com este desfecho foi uma pequena
aldeia trasmontana, foi um bairro de Toronto e foi uma ruela da Quinta do
Conde. A inveja do mundo é uma coisa muito feia.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
146. Ismael (59) - Não morras ainda, Francisca
Tive um medo terrível. Francisca apareceu-me lá em casa com
umas olheiras que me arrepiaram. Se Francisca não fosse um personagem vivo
deste romance, desta novela, deste, enfim, qualquer coisa, eu diria que
Francisca tinha-me entrado morta, porta adentro. Francisca vinha branca, a tez,
o rosto, as mãos, o colo, do pouco que se via do pescoço. A blusa quase
apertada até ao cimo e a saia comprida, as meias de mousse pretas, não deram
para ver nenhuma outra parte do seu, ainda esbelto, embora dos quarenta quase
terminados, longe assim dos doirados anos de Balzac, corpo de mulher. Vinha
branca, não de branco, pois a cor das meias já o sabemos, eram pretas, onde
apenas destoava a cor dos olhos. Não àquela cor que lhe conhecíamos desde
menina, desde muito jovem, quando se embeiçou por Castro Ribeiro, mas aquela
cor roxa de olhos doentios, mal dormidos e como, nem com o seu quê de violento,
putanheiro, homem de muitas mulheres, notívago profissional, a que se veio a
transformar o seu ex-marido, o aposentado juiz do Porto, o Dr. Castro Ribeiro,
a tinha deixado. Não, aquilo não foi pancada, não foi queda. Francisca estava
doente. E tive medo. Por ela senti pena. Uma pena que se sente quando se gosta
de alguém. Não uma pena caritativa, mas um projeto de saudade. Poderia
Francisca morrer e ainda viva já me estar a deixar saudade? Poderia sim. E tive
medo, medo que Francisca não pudesse terminar o seu “Conto das ilhas de lá”.
Medo por ela, pois se preciso for o publicarei a título póstumo. E se a sua
obra ficar inacabada, poderei sempre, a meu jeito, se assim o entender e se
para isso for solicitado pelo amor à pena, terminar a sua obra. Mas tenho pena,
muita pena, por Francisca. Ela que foi a chave perfeita para a descoberta do
crime da Rua dos Correeiros, ela que sem o seu manuscrito nunca teríamos
conhecido o jovem Espinheira, ela que sem a sua envolvência teria banalizado a
uma qualquer figura o figurão do Castro Ribeiro, ela que sem manuscrito também
reduziria a uma inutilidade para a história, o, nos dias de hoje, já aposentado
inspetor, aquele que na tasca do meu amigo Ismael pôs tudo a nu e mandou para
os calabouços da esquadra da Mouraria, acompanhados pela bela Xana, a
comissária, quem devia mandar, ela sem a qual a Quinta do Conde não teria tido
nem metade do protagonismo que tem tido nesta história, ela entra-me porta
adentro escaveirada, branca, sem cor, sem batom, só branca e roxa, sem cor, com
o roxo dos olhos mais escaveirado do que a caveira em que se tinha transformado
o seu rosto sem cor.
Cheguei-lhe uma cadeira, ofereci-lhe um copo de água,
perguntamos um ao outro como é que cada um ia, como se isso fosse preciso, nela
tudo se via, tudo era transparente, em mim tudo era cinzento, opaco. Francisca
transparente, Francisca de olhos roxos, de um roxo transparente. E eu, cabisbaixo,
retrospetivo, emimesmado, triste, fechado, eu que apenas tinha a frincha da
janela aberta por onde uma ténue luz agora rasgava o cortinado, mas que
iluminava na perfeição o rosto branco e roxo refletido de Francisca no cinzento
dos meus pensamentos, tentei despreocupá-la mais do que me despreocupei a mim.
«Vou-lhe publicar o capítulo oito». E como se fosse membro de uma rara tribo,
sorriu um sorriso roxo. E pude verificar-lhe que os lábios também eram roxos.
Sem cor.
“O nubente assistiu macambúzio ao ritual que se
seguiu. De facto não era espetável que, após uma tão excitante cerimónia de
iniciação, a passagem seguinte assumisse um tão maçadiço teor. Assim para vos
poupar a uma macarrónea crónica, apenas refiro que a jovem foi conduzida numa
maca, acompanhada por duas anciãs, para uma tenda isolada, colocada nas
cercanias da aldeia. Mal acabou de entrar, o futuro noivo estendeu-me a mão, no
que foi retribuído. E sem a largar conduziu-me ao meu lugar, previamente reservado
na mesa principal, precisamente do lado direito do chefe. Ele sentar-se-ia à
esquerda. Os pratos exóticos de jamantes e jeticas, de miolos de macaco
servidos na própria cabeça, de língua de jacaré numa espécie de estufado, que
ia chegando em grandes travessa de barro cru, de espetos de láparos apenas
separados por folhas de urtiga fresca, de jambé, de rabo de boi com natas de
leite de morcega, misturavam-se com alguns dos mais conhecidos pratos
ocidentais, como o javali assado em forno de lenha, estaladiço, rodeado de
laranja e maçarocas de mabalemade cozido, macedónia de frutas, lulas (embora de
um tamanho inusitado) recheadas com linguiça, nêsperas em calda de açúcar,
muito marisco de casca e pardais nidífugos fritos em óleo de nicori. E foi com
este repasto, de que não hesitei em provar todas as iguarias, que me saciei de
uma fome de três dias. Adormeci bebendo um chimarrão, não de erva-mate como
seria de esperar, mas de uma mistura de gengibre e macela”.
E se lhe prometi, também o cumpri porque sou um escritor de
palavra.
sábado, 2 de junho de 2012
145. Ismael (58) - Época balnear
Nem sei como é que, no meio do tabu que está subjacente à
revelação do autor ou dos autores do crime da rua dos Correeiros que vos tenho
vindo a contar, numa novela de faca e alguidar e alguma comida de fazer crescer
água na boca a mim próprio, se bem que alguns leitores também confessem que não
são avessos aos prazeres da mesa e de alguns vinhos de estalo, desde os brancos
alentejanos e da península de Setúbal ou mesmo da região oeste, até aos tintos
mais apreciados por este escriba que passam pela Granja da Amareleja, por
Monsaraz ou por Borba, não descurando os de Pegões, os de Alcoentre e um ou
outro Douro reserva ou garrafeira, passando pelos verdes da sub-região do Lima,
onde pontificam Alvarinhos e Loureiros brancos e o belíssimo vinhão de Aguiã,
me fui lembrar de uma conversa entre os jovens que nós éramos, naquela época
ainda sem os nossos vinte anos feitos, mas que gostávamos de, com uma bica na mesa,
duas baforadas de cigarro, alguns copos de água e muitas sebentas em cima da
mesa, aproveitar as horas mortas da taberna do meu amigo Ismael para estudarmos
um bocado e, as mais das vezes, para ficarmos realmente à conversa.
Calculo que, para quem segue novela que se intitulará
provisoriamente “O inexplicável crime à beira de uma travessa de carapaus
alimados” e pouco ligados ao “Conto das ilhas de lá”, apesar da sua carga
erótica, misteriosas e polvilhada de vocábulos que não dispensam a presença de
Houaiss a mostrarem que o autor, perdão a autora, a nossa bem conhecida
Francisca, é uma pessoa erudita que, se escreve um ou outro vocábulo a roçar o
calão, isso é apenas porque os personagens não passam de uns sem-vergonhas,
pode-se mesmo dizer de uns pelintras de conhecimento linguístico que a riqueza
do luso idioma enclausura, pouco se lhe importa que no meio de tudo isto,
Constantino continue a contar histórias que se passaram na taberna de um amigo
seu, galego de nascimento, lisboeta por opção, benfiquista de coração, um amigo
também ao vosso dispor, Ismael de sua graça. Mas tenham paciência, bem sei que
sem sangue não se faz arroz de cabidela, mas contos menos dramáticos,
acompanhados a café e a bolos de arroz, vá lá, a queques de laranja, também têm
o seu lugar, mesmo que seja na mesma mesa onde já se comeu o belo paio de porco
preto, umas amêijoas à Bulhão Pato, um bacalhau à Zé do Pipo ou um queijo de
Serpa, DOP com pão de forno de lenha.
Pois para que não se perca mais tempo, vou já direto ao
assunto, repitam comigo pois já o sabem de cor, como é apanágio aqui do vosso
amigo Constantino. As férias de alguns de nós, eu excluído, pois nesse tempo
andava a vender livros pelos refeitórios das empresas, durante as minhas férias
de verão, mas é história para vos contar noutra altura, tinham sido no Algarve,
alguns dos quais na região de Lagos. Lagos é e continua a ser um destino de
férias muito bonito, um destino balnear de excelência e, pena é, que muitos de
nós não tenha subsídio de férias para gastar. Lagos tem praias típicas, todas
rodeadas de rochas mas, naquele tempo,
algumas só acessíveis através de escadarias escavadas na falésia que se
permitiam descer ou escalar agarrados a cabos de aço forrados a borracha. Estas
eram as praias-tipo para a proibidíssima prática de nudismo mas que dava muito
trabalho aos cabos de mar, descer e subir aquelas escarpas só para irem
pespegar multas aos naturistas, ainda por cima fardados a rigor. Ora, na nossa
idade, a curiosidade alia-se à aventura e houve quem de nós se dedicasse também
a tão pura, quanto saudável, prática. Saudável pensávamos nós sem a devida
proteção e se o Paiva se queixava que tinha os genitais a arder, que lhe doía
tudo, em linguagem mais vernácula própria da irreverência juvenil se dizia por
claro o “coiso” e se chamavam tomates aos testículos, já o Oliveira, sem saber
do que se falava na tertúlia, irrompe porta dentro, perna aberta quase sem
poder andar, dirige-se à mesa onde nos encontrávamos uns seis ou sete curiosos,
ávidos daquelas histórias para nós surpreendentes ou surreais, a desabafar alto
e bom som «porra que estou à rasca do cú!». Claro que ele veio depois a saber
porque é que em uníssono desatamos todos à gargalhada.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
144. Ismael (57) - Foi tamanha a confusão
«Vamos lá acabar com isto». Como não podia deixar de ser,
foi Isaurinha Bate-Sola quem levantou a voz. E o borburinho, os diálogos
cruzados e, às tantas, a gritaria instalou-se. «O que você quer é conversa»,
disse com uma total falta de respeito o Castro Ribeiro, um meritíssimo juiz,
jubilado, que para os seus pergaminhos deveria ter tido mais tento na língua.
«Pantomineiro és tu, ó cabeça de burro», disse, sem pudor nem decoro, o
inspetor de estribeiras perdidas, virando-se para o rececionista. O filho do
senhor Ismael da farmácia também não se quis ficar atrás e virou-se para o meu
amigo Ismael aos gritos «ó galego manda mas é uma frigideira de óleo a ferver
por cima destas cabeças de atum algarvio». A peixeirada estava instalada.
Ninguém se entendia e Francisca chegou mesmo a vias de facto dando dois tabefes
ao sobrinho e exigindo respeitinho. Dizia ela «o respeitinho é muito bonito». A
senhora de Trás-os-Montes, que de idosa que era, já não tinha coração para
aguentar tanto, encostou-se a um canto e desatou a chorar e a comissária Xana,
fazendo jus à sua autoridade, pegou no cassetete e bateu duas vezes no fundo de
um alguidar de latão que servia de decoração na parede dos fundos da tasca do
meu amigo Ismael. «Parem já com esta merda ou vai tudo para a choldra. Mas
vocês pensam que isto é o Pátio da Cantigas ou quê?». E virando-se para o dr. Castro
Ribeiro disse-lhe «eu perco o respeito a um doutor juiz mas ou você se mete na
ordem ou meto-o eu, seu António Silva de meia tijela». Depois virou-se para os
outros polícias, tendo saído na rifa o anafado do chefe de brigada, Ismael de
Almeida. «Olhe lá ó gordo do caraças. E se você parasse de comer esses
passarinhos fritos e ajudasse a pôr ordem nisto? Daqui a bocado está mais
bêbado que o Vasco Santana e nem haverá candeeiro que o valha para o levar para
casa». O chefe de brigada não tugiu nem mugiu e foi necessária a intervenção de
Ismaelix que gritou alto e bom som «Estes portugueses estão loucos!», tendo,
ato contínuo, desatado à chapada por tudo quanto lhe apareceu à frente. Levou o
Espinheira, coitado, que não tinha largado a sua gasosa nem aberto a boca a não
ser para arrotar, levou o filho do senhor Ismael da farmácia que engoliu o Português
Suave sem filtro que tinha acabado de acender. Levou a Isaurinha Bate-sola que
deu uma volta no ar que até se lhe viram as cuecas, por acaso bem bonitas,
brancas com rendinhas. Levou a empregada do Ismael Gusmán que fez voar uma
travessa de jaquinzinhos e o respetivo arroz de tomate. Levou o rececionista
que contar aos amigos, se viesse a sair dali ilibado, porque o bruto do
Ismaelix partiu-lhe a cana do nariz com um bofetão. Levou a Ekatrina dois
beijos nos beiços ou melhor dizendo, atirou-se esta ao pescoço do namorado
tentando acalmá-lo e beijando-o afincadamente mas ele desviou-a calma e
docemente, como se faz a uma namorada. Levou o velho Ishmail Baruch um empurrão
na cadeira de rodas, que rodopiou de tal maneira que parecia que estava no poço
da morte da feira popular. Levou o sobrinho, o judeu Ismael ben-Avraham, que
até tem andado calmo, desde o dia em que por engano se sentou em cima de uma
seringa com um sedativo que era para um paciente com perturbações no córtex,
uma tapona no focinho que se deitou adormecido ao colo da enfermeira feia. Levou
a enfermeira feia por se meter onde não era chamada. Levou o marinheiro
Sebastião um sopapo, que se aquilo fosse um navio do século XVII teria voado
até ao cesto da gávea. Voltou a levar a Isaurinha Bate-Sola porque o povo,
empolgado, gritou bis na ânsia de lhe voltar a ver as cuecas com rendas. Levou
o chefe de brigada Ismael de Almeida com um saco de milho na cabeça que até
começou a ver pombos e, finalmente, levou Francisca um raspanete por ter
escrito nos seus apontamentos que se um dia, o inspetor Ismael Sacadura Flores
se armasse em Poirot de S. Nicolau, haveria um borburinho tamanho que era
preciso ir chamar os franceses para acalmar a coisa. E assim foi, depois da
coisa acalmada, pode Ismael Sacadura Flores dizer quem matou e porquê, a malograda
Isabella, corista do Parque Mayer, com sete facadas no peito.
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