quarta-feira, 6 de junho de 2012

147. Ismael (60) - Misteriosa





Em Trás-os-Montes e no Canadá não se falava noutra coisa. O borburinho era tamanho que até levou o escritor a afirmar uma coisa destas, sabendo-se de antemão a dimensão de Trás-os-Montes, a dimensão incomparável do Canadá e até a dimensão que viria a atingir a Quinta do Conde, onde também não se falava de outra coisa. Exageros poéticos à parte, a Lua beijava já o Atlântico Norte e o Sol despontava nos raianos montes. Toronto ainda dormia, enquanto a Quinta do Conde esfregava as remelas de uma noite bem sonhada. Na Rua dos Correeiros, uma italiana, que poucas horas antes acabava de chegar a casa, vinda de mais uma noite árdua de trabalho e de um frugal jantar numa cervejaria de esquina, iria ser assassinada. Uma misteriosa senhora quis ser testemunha de um crime e afirma nada ter visto. Sentado, num disfarce indelével, de nutridor de pombos, um tal chefe de brigada de sua graça Ismael de Almeida, constituir-se-ia fiel depositário de testemunho e emoção. E enquanto a Ginjinha do Rossio abria as suas portas e os primeiros pedintes se colocavam estrategicamente nas portas da Igreja de S. Domingos, as fontes da Praça de D. Pedro IV não paravam de brotar água. Na Praça da Figueira ouviam-se os primeiros pregões do dia, o peixe chegava em carroças vindas do cais de Santos e do Cais do Sodré, Rachel já era morta havia tempos, a Quinta do Conde preparava-se para rumar a Cacilhas onde um vapor a esperava para a levar a trabalhar em Lisboa, Toronto dormia o sono dos justos. E, no entanto, naquela aldeia raiana de Trás-os-Montes, naquele bairro de Toronto onde as línguas latinas eram lei e um italiano vendia móveis num pavilhão envidraçado, naquela quinta onde clandestinamente se erigiam vivendas sem água canalizada, nem luz elétrica, paredes meias com Sesimbra e com a Serra da Arrábida, não se falava noutra coisa. As sobrinhas juravam que se a tia rumasse aos calabouços, elas viriam em seu auxilio e testemunhariam que uma pessoa de bem, que cuidou desde pequenino de Ismaelzinho Gusman, neto do amigo do escritor desde quando, fatidicamente, o seu pai, sendo que o escritor promete ainda vir a contar esta história, se finou, uma mulher que não aguentava o frio de paragens tão distantes, rumando seis meses em cada ano ao seu país natal, uma mulher que apenas ouviu os passos de alguém que lhe parecia coxo no andar de cima, não poderia nunca, mas nunca por nunca ser, ser autora de um tão hediondo crime que já todos conhecemos e que não vale a pena repetir, apenas registando que sete facadas não se dão a ninguém, muito menos no peito e ainda menos a uma pobre corista, cujo pecado foi ter uma medalha de Nossa Senhora num fio de ouro.

O inspetor Ismael Sacadura Flores, pôs os pontos nos is. Aquela era a sessão final. Depois dela, mais nada. Ou melhor. Depois dela os calabouços. Depois deles o julgamento. Depois dele a condenação. Depois dela, de novo, os calabouços. Depois deles o recurso. Quiçá, depois dele, os calabouços. O inspetor Sacadura não tinha a menor dúvida. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes ouviu passos. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não mentiu ao disfarçado homem que alimenta pombos nas galerias exteriores do Teatro Nacional. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não foi para a sua casa da Quinta do Conde, onde luzes foram vistas acesas e, se não escapa à memória do escritor, se viram vultos passeando no primeiro andar, preferindo ficar no apartamento da Rua dos Correeiros, por uma inesperada coincidência como são inesperadas todas as coincidências da vida. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes sofria de insónias. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes não matou Isabella Vicentini  é o que conclui o relatório de Ismael Sacadura Flores. Ninguém entendeu esta conclusão do inspetor. O escritor está com dificuldades em explicá-la. O inspetor olha para Espinheira. Espinheira, por sua vez, olha para Francisca. As sobrinhas da misteriosa senhora não estavam presentes, não faria, como não fez aliás, falta nenhuma o seu testemunho. A misteriosa senhora de Trás-os-Montes e idosa também, como sabemos de episódios anteriores ouviu passos. “Isso chega?”, perguntarão os leitores. Não, isso não chega, responderá o escritor. E se o engenho permitir ainda vos demonstrará porque é que o inspetor chegou à conclusão que a misteriosa e idosa, agora sim, está bem adjetivada, senhora de Trás-os-Montes não matou Isabella Vicentini. E para comemorar o evento, a misteriosa e idosa senhora levantou-se do seu banco, pois já estava aflita das cruzes, e mandou Ismael Gusmán servir uma rodada para todos, enquanto foi fazer um chichi.

Quem nunca se conformou com este desfecho foi uma pequena aldeia trasmontana, foi um bairro de Toronto e foi uma ruela da Quinta do Conde. A inveja do mundo é uma coisa muito feia.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

146. Ismael (59) - Não morras ainda, Francisca



Tive um medo terrível. Francisca apareceu-me lá em casa com umas olheiras que me arrepiaram. Se Francisca não fosse um personagem vivo deste romance, desta novela, deste, enfim, qualquer coisa, eu diria que Francisca tinha-me entrado morta, porta adentro. Francisca vinha branca, a tez, o rosto, as mãos, o colo, do pouco que se via do pescoço. A blusa quase apertada até ao cimo e a saia comprida, as meias de mousse pretas, não deram para ver nenhuma outra parte do seu, ainda esbelto, embora dos quarenta quase terminados, longe assim dos doirados anos de Balzac, corpo de mulher. Vinha branca, não de branco, pois a cor das meias já o sabemos, eram pretas, onde apenas destoava a cor dos olhos. Não àquela cor que lhe conhecíamos desde menina, desde muito jovem, quando se embeiçou por Castro Ribeiro, mas aquela cor roxa de olhos doentios, mal dormidos e como, nem com o seu quê de violento, putanheiro, homem de muitas mulheres, notívago profissional, a que se veio a transformar o seu ex-marido, o aposentado juiz do Porto, o Dr. Castro Ribeiro, a tinha deixado. Não, aquilo não foi pancada, não foi queda. Francisca estava doente. E tive medo. Por ela senti pena. Uma pena que se sente quando se gosta de alguém. Não uma pena caritativa, mas um projeto de saudade. Poderia Francisca morrer e ainda viva já me estar a deixar saudade? Poderia sim. E tive medo, medo que Francisca não pudesse terminar o seu “Conto das ilhas de lá”. Medo por ela, pois se preciso for o publicarei a título póstumo. E se a sua obra ficar inacabada, poderei sempre, a meu jeito, se assim o entender e se para isso for solicitado pelo amor à pena, terminar a sua obra. Mas tenho pena, muita pena, por Francisca. Ela que foi a chave perfeita para a descoberta do crime da Rua dos Correeiros, ela que sem o seu manuscrito nunca teríamos conhecido o jovem Espinheira, ela que sem a sua envolvência teria banalizado a uma qualquer figura o figurão do Castro Ribeiro, ela que sem manuscrito também reduziria a uma inutilidade para a história, o, nos dias de hoje, já aposentado inspetor, aquele que na tasca do meu amigo Ismael pôs tudo a nu e mandou para os calabouços da esquadra da Mouraria, acompanhados pela bela Xana, a comissária, quem devia mandar, ela sem a qual a Quinta do Conde não teria tido nem metade do protagonismo que tem tido nesta história, ela entra-me porta adentro escaveirada, branca, sem cor, sem batom, só branca e roxa, sem cor, com o roxo dos olhos mais escaveirado do que a caveira em que se tinha transformado o seu rosto sem cor.

Cheguei-lhe uma cadeira, ofereci-lhe um copo de água, perguntamos um ao outro como é que cada um ia, como se isso fosse preciso, nela tudo se via, tudo era transparente, em mim tudo era cinzento, opaco. Francisca transparente, Francisca de olhos roxos, de um roxo transparente. E eu, cabisbaixo, retrospetivo, emimesmado, triste, fechado, eu que apenas tinha a frincha da janela aberta por onde uma ténue luz agora rasgava o cortinado, mas que iluminava na perfeição o rosto branco e roxo refletido de Francisca no cinzento dos meus pensamentos, tentei despreocupá-la mais do que me despreocupei a mim. «Vou-lhe publicar o capítulo oito». E como se fosse membro de uma rara tribo, sorriu um sorriso roxo. E pude verificar-lhe que os lábios também eram roxos. Sem cor.

“O nubente assistiu macambúzio ao ritual que se seguiu. De facto não era espetável que, após uma tão excitante cerimónia de iniciação, a passagem seguinte assumisse um tão maçadiço teor. Assim para vos poupar a uma macarrónea crónica, apenas refiro que a jovem foi conduzida numa maca, acompanhada por duas anciãs, para uma tenda isolada, colocada nas cercanias da aldeia. Mal acabou de entrar, o futuro noivo estendeu-me a mão, no que foi retribuído. E sem a largar conduziu-me ao meu lugar, previamente reservado na mesa principal, precisamente do lado direito do chefe. Ele sentar-se-ia à esquerda. Os pratos exóticos de jamantes e jeticas, de miolos de macaco servidos na própria cabeça, de língua de jacaré numa espécie de estufado, que ia chegando em grandes travessa de barro cru, de espetos de láparos apenas separados por folhas de urtiga fresca, de jambé, de rabo de boi com natas de leite de morcega, misturavam-se com alguns dos mais conhecidos pratos ocidentais, como o javali assado em forno de lenha, estaladiço, rodeado de laranja e maçarocas de mabalemade cozido, macedónia de frutas, lulas (embora de um tamanho inusitado) recheadas com linguiça, nêsperas em calda de açúcar, muito marisco de casca e pardais nidífugos fritos em óleo de nicori. E foi com este repasto, de que não hesitei em provar todas as iguarias, que me saciei de uma fome de três dias. Adormeci bebendo um chimarrão, não de erva-mate como seria de esperar, mas de uma mistura de gengibre e macela”. 

E se lhe prometi, também o cumpri porque sou um escritor de palavra.





sábado, 2 de junho de 2012

145. Ismael (58) - Época balnear



Nem sei como é que, no meio do tabu que está subjacente à revelação do autor ou dos autores do crime da rua dos Correeiros que vos tenho vindo a contar, numa novela de faca e alguidar e alguma comida de fazer crescer água na boca a mim próprio, se bem que alguns leitores também confessem que não são avessos aos prazeres da mesa e de alguns vinhos de estalo, desde os brancos alentejanos e da península de Setúbal ou mesmo da região oeste, até aos tintos mais apreciados por este escriba que passam pela Granja da Amareleja, por Monsaraz ou por Borba, não descurando os de Pegões, os de Alcoentre e um ou outro Douro reserva ou garrafeira, passando pelos verdes da sub-região do Lima, onde pontificam Alvarinhos e Loureiros brancos e o belíssimo vinhão de Aguiã, me fui lembrar de uma conversa entre os jovens que nós éramos, naquela época ainda sem os nossos vinte anos feitos, mas que gostávamos de, com uma bica na mesa, duas baforadas de cigarro, alguns copos de água e muitas sebentas em cima da mesa, aproveitar as horas mortas da taberna do meu amigo Ismael para estudarmos um bocado e, as mais das vezes, para ficarmos realmente à conversa.

Calculo que, para quem segue novela que se intitulará provisoriamente “O inexplicável crime à beira de uma travessa de carapaus alimados” e pouco ligados ao “Conto das ilhas de lá”, apesar da sua carga erótica, misteriosas e polvilhada de vocábulos que não dispensam a presença de Houaiss a mostrarem que o autor, perdão a autora, a nossa bem conhecida Francisca, é uma pessoa erudita que, se escreve um ou outro vocábulo a roçar o calão, isso é apenas porque os personagens não passam de uns sem-vergonhas, pode-se mesmo dizer de uns pelintras de conhecimento linguístico que a riqueza do luso idioma enclausura, pouco se lhe importa que no meio de tudo isto, Constantino continue a contar histórias que se passaram na taberna de um amigo seu, galego de nascimento, lisboeta por opção, benfiquista de coração, um amigo também ao vosso dispor, Ismael de sua graça. Mas tenham paciência, bem sei que sem sangue não se faz arroz de cabidela, mas contos menos dramáticos, acompanhados a café e a bolos de arroz, vá lá, a queques de laranja, também têm o seu lugar, mesmo que seja na mesma mesa onde já se comeu o belo paio de porco preto, umas amêijoas à Bulhão Pato, um bacalhau à Zé do Pipo ou um queijo de Serpa, DOP com pão de forno de lenha.

Pois para que não se perca mais tempo, vou já direto ao assunto, repitam comigo pois já o sabem de cor, como é apanágio aqui do vosso amigo Constantino. As férias de alguns de nós, eu excluído, pois nesse tempo andava a vender livros pelos refeitórios das empresas, durante as minhas férias de verão, mas é história para vos contar noutra altura, tinham sido no Algarve, alguns dos quais na região de Lagos. Lagos é e continua a ser um destino de férias muito bonito, um destino balnear de excelência e, pena é, que muitos de nós não tenha subsídio de férias para gastar. Lagos tem praias típicas, todas rodeadas de rochas mas,  naquele tempo, algumas só acessíveis através de escadarias escavadas na falésia que se permitiam descer ou escalar agarrados a cabos de aço forrados a borracha. Estas eram as praias-tipo para a proibidíssima prática de nudismo mas que dava muito trabalho aos cabos de mar, descer e subir aquelas escarpas só para irem pespegar multas aos naturistas, ainda por cima fardados a rigor. Ora, na nossa idade, a curiosidade alia-se à aventura e houve quem de nós se dedicasse também a tão pura, quanto saudável, prática. Saudável pensávamos nós sem a devida proteção e se o Paiva se queixava que tinha os genitais a arder, que lhe doía tudo, em linguagem mais vernácula própria da irreverência juvenil se dizia por claro o “coiso” e se chamavam tomates aos testículos, já o Oliveira, sem saber do que se falava na tertúlia, irrompe porta dentro, perna aberta quase sem poder andar, dirige-se à mesa onde nos encontrávamos uns seis ou sete curiosos, ávidos daquelas histórias para nós surpreendentes ou surreais, a desabafar alto e bom som «porra que estou à rasca do cú!». Claro que ele veio depois a saber porque é que em uníssono desatamos todos à gargalhada.


quarta-feira, 30 de maio de 2012

144. Ismael (57) - Foi tamanha a confusão



«Vamos lá acabar com isto». Como não podia deixar de ser, foi Isaurinha Bate-Sola quem levantou a voz. E o borburinho, os diálogos cruzados e, às tantas, a gritaria instalou-se. «O que você quer é conversa», disse com uma total falta de respeito o Castro Ribeiro, um meritíssimo juiz, jubilado, que para os seus pergaminhos deveria ter tido mais tento na língua. «Pantomineiro és tu, ó cabeça de burro», disse, sem pudor nem decoro, o inspetor de estribeiras perdidas, virando-se para o rececionista. O filho do senhor Ismael da farmácia também não se quis ficar atrás e virou-se para o meu amigo Ismael aos gritos «ó galego manda mas é uma frigideira de óleo a ferver por cima destas cabeças de atum algarvio». A peixeirada estava instalada. Ninguém se entendia e Francisca chegou mesmo a vias de facto dando dois tabefes ao sobrinho e exigindo respeitinho. Dizia ela «o respeitinho é muito bonito». A senhora de Trás-os-Montes, que de idosa que era, já não tinha coração para aguentar tanto, encostou-se a um canto e desatou a chorar e a comissária Xana, fazendo jus à sua autoridade, pegou no cassetete e bateu duas vezes no fundo de um alguidar de latão que servia de decoração na parede dos fundos da tasca do meu amigo Ismael. «Parem já com esta merda ou vai tudo para a choldra. Mas vocês pensam que isto é o Pátio da Cantigas ou quê?». E virando-se para o dr. Castro Ribeiro disse-lhe «eu perco o respeito a um doutor juiz mas ou você se mete na ordem ou meto-o eu, seu António Silva de meia tijela». Depois virou-se para os outros polícias, tendo saído na rifa o anafado do chefe de brigada, Ismael de Almeida. «Olhe lá ó gordo do caraças. E se você parasse de comer esses passarinhos fritos e ajudasse a pôr ordem nisto? Daqui a bocado está mais bêbado que o Vasco Santana e nem haverá candeeiro que o valha para o levar para casa». O chefe de brigada não tugiu nem mugiu e foi necessária a intervenção de Ismaelix que gritou alto e bom som «Estes portugueses estão loucos!», tendo, ato contínuo, desatado à chapada por tudo quanto lhe apareceu à frente. Levou o Espinheira, coitado, que não tinha largado a sua gasosa nem aberto a boca a não ser para arrotar, levou o filho do senhor Ismael da farmácia que engoliu o Português Suave sem filtro que tinha acabado de acender. Levou a Isaurinha Bate-sola que deu uma volta no ar que até se lhe viram as cuecas, por acaso bem bonitas, brancas com rendinhas. Levou a empregada do Ismael Gusmán que fez voar uma travessa de jaquinzinhos e o respetivo arroz de tomate. Levou o rececionista que contar aos amigos, se viesse a sair dali ilibado, porque o bruto do Ismaelix partiu-lhe a cana do nariz com um bofetão. Levou a Ekatrina dois beijos nos beiços ou melhor dizendo, atirou-se esta ao pescoço do namorado tentando acalmá-lo e beijando-o afincadamente mas ele desviou-a calma e docemente, como se faz a uma namorada. Levou o velho Ishmail Baruch um empurrão na cadeira de rodas, que rodopiou de tal maneira que parecia que estava no poço da morte da feira popular. Levou o sobrinho, o judeu Ismael ben-Avraham, que até tem andado calmo, desde o dia em que por engano se sentou em cima de uma seringa com um sedativo que era para um paciente com perturbações no córtex, uma tapona no focinho que se deitou adormecido ao colo da enfermeira feia. Levou a enfermeira feia por se meter onde não era chamada. Levou o marinheiro Sebastião um sopapo, que se aquilo fosse um navio do século XVII teria voado até ao cesto da gávea. Voltou a levar a Isaurinha Bate-Sola porque o povo, empolgado, gritou bis na ânsia de lhe voltar a ver as cuecas com rendas. Levou o chefe de brigada Ismael de Almeida com um saco de milho na cabeça que até começou a ver pombos e, finalmente, levou Francisca um raspanete por ter escrito nos seus apontamentos que se um dia, o inspetor Ismael Sacadura Flores se armasse em Poirot de S. Nicolau, haveria um borburinho tamanho que era preciso ir chamar os franceses para acalmar a coisa. E assim foi, depois da coisa acalmada, pode Ismael Sacadura Flores dizer quem matou e porquê, a malograda Isabella, corista do Parque Mayer, com sete facadas no peito.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

143. Ismael (56) - Por fim, o final


Desta vez ela foi efusiva. Confesso que a um dado momento até fiquei encabulado. Eu estava na praia com um bloco de apontamentos, uma anemómetro, um papagaio de papel, um cronómetro e uma fita métrica. Nem sei porque é que vos estou a contar isto, ainda são capazes de pensar que me estou a passar. É verdade que já faltou mais, mas estava eu nas minhas experiências de caráter cientifico quando ela gritou de cima do paredão «senhor escritor, senhor escritor», enquanto acenava o braço com uma carcaça com fiambre na mão, à qual, ato contínuo, deu uma dentada. Acenei-lhe de volta com o caderno de apontamentos em riste, já que não me dava jeito nenhum acenar-lhe com o anemómetro, nem mesmo com o cronómetro. E antes que eu pudesse arrumar tudo na caixa de cartão canelado, que me sobrou de uma oferta de vinhos no Natal passado, já ela tinha entrado areal adentro e inclinado a cabeça para me cumprimentar com dois beijos. A rapariga da esplanada, fanática de sandes de fiambre com manteiga, amante de Luís Sepúlveda, que quase me havia tratado com indiferença no nosso último encontro em Sesimbra, aparece-me quase eufórica a correr em pleno areal da Costa da Caparica, quase tropeçando numa prancha de surf espetada na areia, indo de encontro a uma criancinha que caiu de cu e ficou a chorar, enquanto uma rapariguinha, talvez dos seus doze anos, talvez irmão da mais pequena, a comer um chupa de rebuçado cor-de-laranja e a segurar na outra mão um moinho feito de papel de lustro, se virou para ela e lhe chamou «estúpida!». Indiferente, sorriso de orelha a orelha, depois das tais duas beijocas, perguntou-me «novidades?», e eu «nada».

Subimos lado a lado a escada de acesso ao paredão, ela já tinha acabado de comer a sandes, ajudou-me na caixa, não que fosse pesada, mas apenas por gentileza, eu «não te incomodes», ela «ora essa», eu «mas o contrário é que normal», ela «deixe-se de machismo», eu «estás então a chamar-me velho», ela «novo, não estou, mas você vai aí ocupado com o seu caderninho, não para de tirar apontamentos» e eu «já acabei», ela «o livro?», eu «não, os apontamentos», ela «pode-se saber de quê?», eu «não tem nenhum interesse para o crime do número 43» e ela «a propósito, eu estive cá a pensar umas coisas…». Chegamos finalmente á esplanada de um conhecido restaurante, em que o seu dono usa uma barba muito comprida e é um fanático adepto do Glorioso e sentamo-nos. E foi aí, já com dois cafés à nossa frente, ela a fumar um cigarro e eu «ainda fumas?», ela «infelizmente», eu «não deixas porque não queres», ela «qualquer dia vai ter uma surpresa», eu «pensa nisso», que reiniciamos o diálogo.

- Pensaste em quê?
- No seu livro.
- Nem sei se alguma vez irá ser um livro…
- Tenho andado a segui-lo.
- Não me digas que também lês blogs…
- E quem é que não lê?
- Tens razão.
- Eu arranjava-lhe já um final.
- Não tenhas pressa.
- Mas os seus leitores estão impacientes.
- hum..
- Nunca se deu conta?
- Dei.
- E então?
- Acho que só ficam a ganhar se esperarem.
- Senhor escritor, não sei se o hei-de tratar assim ou por senhor Constantino…
- Fica à vontade, podes mesmo tirar o senhor.
- Estava eu a dizer-lhe que pensei num final surpreendente.
- Não me digas que não estás a achar surpreendente a maneira como eu estou a preparar o final.
- Não é isso…

Tenho de interromper aqui o diálogo para vos dizer que em todas as frases eu poderia ter escrito disse ela franzindo um sobrolho, disse eu encolhendo os ombros, disse ela com um sorriso nos lábios, disse eu com ar preocupado e outras coisas que se costumam escrever e até mesmo pôr aspas. Mas não o fiz, propositadamente para não quebrar o ritmo e a fluência. Creio que me entenderão e provavelmente até aprovarão, neste caso concreto, esta tomada de opção.

- Então é o quê?
- Um final sem final.
- O que é que queres dizer com isso?
- Senhor Constantino, podemos falar baixinho para ninguém nos ouvir?
- Podemos…
- Então seria assim, bzz bzz bzz.
- bzz, bzz, bzz?
- Sim, bzz bzz bzz e ainda bzz bzz bzz. O que é que acha?
- Olha eu até há uns quinze minutos atrás pensei que, a seguir a Francisca, eu era o mestre dos finais complicados, mas estou a ver que tu superas-me.
- Acha que é complicado este raciocínio?
- Não acho, nem deixo de achar, vai é contra tudo o que eu tinha pensado para terminar o crime da rua 43.
- Por falar nisso, Já tem título?
- Bom, um crime… é um «Crime …»
- Eu estou é a perguntar-lhe pelo tríptico Crime da rua 43 – Histórias de Constantino e Ismael – Conto das ilhas de lá.
-Tenho alguns nomes provisórios. Gostas de “Hoje há pezinhos de coentrada”?
- E eu tenho dúvidas se será suficientemente apelativo. Ainda vão pensar que é um livro de culinária.
- Lá isso não é, mas que não se safa de ser uma grande caldeirada, isso não!

Convidei-a para almoçar. Aceitou. Chamamos o empregado e pedimos caldeirada para dois. Enquanto degustávamos um branco da península de Setúbal, acordamos os detalhes para o final do crime que vitimou Isabella Vicentini. No fim, depois da sobremesa, ainda me disse que teve pena de nunca ter conhecido Ismael Gusmán. Com certeza que os petiscos dele dariam um bom livro de culinária. E eu respondi-lhe que não me meteria nisso. E enquanto dois tratores alisavam o areal da Caparica eu, decididamente, achei que seria muita areia para a minha camioneta.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

142. Ismael (55) - Angústia para o almoço


O esplendor da tasca do meu amigo Ismael deu-se na segunda metade dos anos oitenta do século passado. Para se almoçar na sua tasca, que não era muito grande, diga-se em abono da verdade, era necessário fazer fila à porta. Ismael, que respeitava todos os seus clientes por igual, não aceitava marcações, tinha um serviço rápido e eficaz, trazia um rapazito a biscate, que lá ia apenas fazer os almoços, mas que era muito despachado, simpático e diligente. Lembro-me de ele gritar para a cozinha «uma laranja descascada ao momento, para o senhor Constantino» e a cozinheira, a velhota, a que já me conhecia desde os meus tempos de universidade, por passar por lá aos fins de tarde quase sempre para petiscar, chegava a cabeça no passa-pratos, olhava para mim, dava um sorriso e dizia ao Ricardo, «aqui está a laranja do senhor Constantino». Mais do que ficar na bicha (*), custava-me estar a comer, com os olhos famintos daqueles que tinham chegado depois e que olhavam para as mesas quase como que a suplicar «despachem-se, pá, que a gente também quer comer». Lia-se-lhes nos olhos a frase «despachem-se, pá, que a gente também quer comer», pareciam trazer na testa um post-it colado em que se lia em letra impressa «despachem-se, pá, que a gente também quer comer», traziam na lapela dos casacos, nos colarinhos do polos, nas mangas das camisetas, néones que acendiam e apagavam com a dilacerante frase, para o meu coração de manteiga, «despachem-se, pá, que a gente também quer comer». Tatuagens, grafitis, cartazes, etiquetas, livros de instruções, bilhetes de elétrico, estampagens, anúncios classificados, publicidade estática, bonés, bulas de medicamentos, capas de discos, badanas de livros, caixas de jornais, subtítulos, sinalização horizontal, cupões de concursos de TV, talões de desconto em supermercado, identificadores dos polícias, placas de matrícula, campainhas das portas, em tudo e em todo o lado, aparecia a frase, «despachem-se, pá, que a gente também quer comer». Agora podem os leitores, destes momentos que eu passei com o meu amigo Ismael ou na sua tasca e que aqui vos costumo relatar, imaginar se um almoço pode cair bem a alguém, que está a comer uma posta barrosã grelhada ao ponto, com batata frita, dois ovos estrelados, duas fatias de bacon na chapa, estaladiças, uma travessa de arroz e uma salada mista e que está a acompanhar esta refeição, mais ou menos ligeira, com uma garrafa de vinho tinto do Douro, colheita selecionada ou garrafeira do enólogo, e os outros, coitados, famintos, desesperados a olharem para um tipo, com aquela cara de onde sobressaem dois olhos de carneiro mal morto, olhos de quem está com uma vontade inebriante de chegarem junto a nós e suplicarem de joelhos, de mãos postas, «despachem-se, pá, que a gente também quer comer». Eram tempos em que o governo não tinha ainda proibido que se fumasse nos restaurantes. Antes de serem pedidas as farófias ou o leite-creme, os morangos com chantili, o doce da avó, o bolo de bolacha, a manga de avião fatiada, o melão de Almeirim ou a maçã reineta assada com vinho do Porto, não para mim porque eu comia «laranja descascada ao momento para o senhor Constantino», como dizia o Ricardo, havia sempre um ou dois no grupo que tiravam o seu cigarro do maço. E antes que chegassem á mesa as sobremesas, o queijo da serra, o requeijão com mel, a sericaia com ameixas de Elvas, o toucinho-do-céu, o pudim flan, as cerejas, a tarte de amêndoa, já havia uma nuvem de fumo, ligeiramente acima das nossas cabeças que nos impedia de ficarmos olhos nos olhos com os olhos de desespero, os post-its nas cabeça, os néones nas lapelas dos casacos ou nas mangas das camisetas, as tatuagens, os cartazes, suplicando quase em delirium tremens, os rótulos das garrafas, o remetente da carta, o bordado de Viana, a frase, a frase, a frase, «despachem -se, pá, que a gente também quer comer». Ou então não. Talvez que em vez a carne das terras do Barroso, o bife do Alto Minho, o naco na pedra, a posta mirandesa, o bife à casa com ovo a cavalo, o prego especial à moda da Tasca, estivéssemos a comer uma posta de bacalhau na brasa acompanhada de brócolos e batata a murro, temperada com azeite quente e alho fervido no próprio azeite e com umas rodelas de cebola fininhas por cima e, quem sabe, acompanhado por um vinho branco de Borba, de Reguengos ou da Vidigueira e aqueles olhos suplicantes, aqueles post-its na cabeça, aqueles néones nas lapelas, as tatuagens, os grafitis, os cartazes, a publicidade estática, as senhas de almoço, o verniz das unhas, os monogramas do lenço de assoar, a capa do último LP dos Led Zeppelin, os versos do Ary dos Santos, a canção do Sérgio Godinho, a campanha eleitoral às sete da tarde na RTP, os toldos das esplanadas, os outdoors nas paragens de autocarros, a voz rouca da Kim Karnes, o Passeio dos Alegres e a frase, sempre a frase, a dilacerante, a desesperada, a suplicante … Também não me parece que fosse necessário tanto desespero, tanta angústia. A gente só ia demorar mais um bocadinho. Assim que tomássemos a bica. E além disso a gente já pediu a conta.

(*) – Fila de espera

Nota:
A foto foi tirada à mesa do almoço na Casa do Xisto, que fica num desvio (5 kms), na estrada entre Paredes de Coura e Extremo (entroncamento com a Nacional entre Arcos de Valdevez e Monção). Além da simpatia do dono, o sr. Délcio e do empregado, o senhor António, come-se bem, mas é mesmo bem, bebe-se bom vinho e se quiserem podem pescar nos lagos de trutas. 


terça-feira, 22 de maio de 2012

141. Ismael (54) - The Nutcracker ou a tristeza de Ekatrina ou Isto para mim são facadas



«Ekatrina», começou por dizer o inspetor Ismael Sacadura Flores, fazendo com que todas as cabeças rodassem em direção à bailarina clássica bielorussa, umas virando-se para a direita e outras para a esquerda sem contar com aqueles que estavam praticamente defronte da jovem que apenas a fixaram com mais atenção, «andava triste nos dias que antecederam a morte da sua companheira de quarto», continuou o inspetor Flores, sem que esta frase impressionasse quem quer que fosse.  «A verdade é que Ekatrina Smirnova tinha razões para isso», frisou dramatizando, Ismael Sacadura Flores, inspetor chefe da brigada de homicídios da Polícia Judiciária, ao acrescentar o apelido da, apesar de magra, ainda assim elegante bailarina. E dito isto, fazendo uma pequena pausa para apalpar o ambiente, questionou os presentes, quase como que declamando a pergunta, «E será que vos interessa saber o motivo dessa tristeza?» A assistência vai trocando olhares entre si, uns vão abanando a cabeça no sentido do assentimento, outros encolhendo os ombros tentando demonstrar uma falsa indiferença, outros um sorriso nervoso e outros até uma expressão de cumplicidade, mas Francisca, essa não, essa estava empolgada. E ainda mais empolgada ficou quando o inspetor se virou para o jovem Espinheira e lhe disse «Ó Espinheira, esta reunião está a cansar-me, resuma você o meu relatório sem se esquecer de referir que Francisca teve papel preponderante na descoberta do enredo». Não é, portanto, de admirar, que só faltou ela levantar-se, fechar os dois punhos como faz o Cristiano Ronaldo e festejar com os restantes. Ou então dar um beijo na testa do inspetor.

Espinheira, não obedeceu, em rigor, ao inspetor Sacadura Flores. Em vez de resumir como ele pediu, leu tudo com todo o detalhe. Leu mesmo coisas que para os meus leitores e principalmente leitoras, não interessam para nada, como, por exemplo, aquele dia em Ekatrina Smirnova encharcou a camisa de dormir com suor devido a um estado febril, derivado de uma gripe apanhada na praia do Meco. Ela, cujo corpo fora talhado e esculpido para as baixas temperaturas do clima continental europeu, onde ventos siberianos congelam até os bicos dos fogões, não aguentou os trinta e quatro graus que se fizeram sentir naquele dia. E porque é que eu digo que isto nada interessa às minhas leitoras? É porque no suor da crise, no culminar do delírio, vejam quanta poesia, aliás similar ao congelamento dos bicos do fogão, no ardor da leitura do termómetro, na efervescência da derme tisnada pelo sol, na cambraia branca da sua veste, deixava que os seios, não grandes como apraz a uma bailarina da Companhia Nacional, pouco maiores que dois limões, não raro a caberem sem excesso nas delicadas mãos do seu amado Ismaelix, deixassem desenhar dois escuros e salientes mamilos. Ora isto, como é bom de ver, não traz nenhum avanço para a divulgação, se bem que para a descoberta do crime já não seja assim tão linear, do autor de tão arrepiante crime que, como todos sabem, vitimou Isabella Vicentini. E se não o resumiu Espinheira, vai o escritor tentar fazer o melhor que sabe e pode, para que não fiquem nem confusos, nem com qualquer espécie de dúvida no contributo que Ekatrina aportou no desfecho desta novela.

Ekatrina andava triste. Recebera uma carta da União Soviética que o KGB conseguira fazer passar pelos canais clandestinos, escapando assim ao crivo da PIDE, em que se lhe anunciava que a sua missão tinha terminado. Sendo ela uma especialista em ouro, não ter descoberto onde Isabella Vicentini guardara a medalha original, fazendo-se passear com uma pequena joia de imitação, comprada algures num quiosque da Rua Barros Queiroz e comendo as papas na cabeça de uma espiã soviética, não abonava nada em seu favor pelo que teria de regressar de imediato à base. Este imediato, com uma condescendência inacreditável em serviços secretos, mas sabe-se também que o pai de Ekatrina tinha sido um homem muito influente no aparelho o que lhe dava uma pequenina margem de manobra, ressalvava o tempo que Ekatrina teria de gastar para poder partir sem dar nas vistas e muito menos que alguém desconfiasse, renunciasse ao seu contrato com a Companhia, fizesse uma pequena mala, adquirisse uma passagem para Paris e, não sabendo mais pormenores porque o Espinheira, apesar de detalhar não os referiu, atreve-se o escritor a dizer, etecetera e tal. 

Ekatrina andava triste, mas a grande tristeza de Ekatrina nada tinha que ver com o facto de não ter descoberto a medalha; nada tinha que ver com o ter de terminar assim abruptamente a sua carreira de bailarina, onde ela tinha investido quase tudo, nada tinha que ver com o ter de romper o namoro com o chefe de brigada Ismaelix, um homem que usava uma trança até ao meio das costas e um bigode à Chalana, porém branco, fosse naquela época, Chalana quem fosse, mesmo que ainda não tivesse nascido, que não tinha mesmo; não tinha que ver com a quantidade de cisnes que o lago tinha nem com a proteção do lobo e do Pedro; não tinha, também, que ver com a tasca do Ismael, que embora situada na mesma rua onde morava, servia uns carapaus de escabeche que lhe faziam lembrar o arenque de cebolada em conserva, mas para o bom, que ela não comia, como também não comia o arenque, por mor de manter a linha; não tinha nada que ver com o facto de em Belém se comerem pastéis de Belém; não tinha que ver com deixar uma cidade com marchas populares na avenida, com fado nas tascas e nas vielas, com pregões matinais ao figo da capa-rota e à fava-rica; não tinha nadinha, mesmo nadinha, que ver com a graça do amarelo da Carris nem com o azul do céu, espelho do azul reflexo do incomparável estuário, toalha do nosso contentamento. A sua tristeza prendia-se com uma coisa bem mais triste. Uma tristeza triste. Uma tristeza sombria. Uma tristeza pressagiada. Uma tristeza mais do que pressagiada, sabida. A tristeza que ela partiria para Paris e que Isabella partiria para nunca mais ser vista. Isso, ela sabia-o, não perguntem ao escritor porquê, porque o escritor acha que ainda não é tempo de o dizer. Quanto ao inspetor Ismael Sacadura Flores, virou-se para Ismael Gusmán, pediu-lhe para que ele servisse um copo de água ao jovem Espinheira, pois este estaria com certeza com a boca seca e virando-se para os assistentes, disse-lhes, com um embargo de voz, como se fosse uma noz a quebrar-se, que antes de saberem se Ekatrina iria ou não acompanhar a comissária Xana até aos calabouços da esquadra da Mouraria, o melhor era comerem todos um caldo-verde com uma rodela de chouriço, que era mesmo acabadinho de se fazer e escutarem o que ele tinha que dizer sobre a velha e misteriosa senhora de Trás-os-Montes.