«Vamos lá acabar com isto». Como não podia deixar de ser,
foi Isaurinha Bate-Sola quem levantou a voz. E o borburinho, os diálogos
cruzados e, às tantas, a gritaria instalou-se. «O que você quer é conversa»,
disse com uma total falta de respeito o Castro Ribeiro, um meritíssimo juiz,
jubilado, que para os seus pergaminhos deveria ter tido mais tento na língua.
«Pantomineiro és tu, ó cabeça de burro», disse, sem pudor nem decoro, o
inspetor de estribeiras perdidas, virando-se para o rececionista. O filho do
senhor Ismael da farmácia também não se quis ficar atrás e virou-se para o meu
amigo Ismael aos gritos «ó galego manda mas é uma frigideira de óleo a ferver
por cima destas cabeças de atum algarvio». A peixeirada estava instalada.
Ninguém se entendia e Francisca chegou mesmo a vias de facto dando dois tabefes
ao sobrinho e exigindo respeitinho. Dizia ela «o respeitinho é muito bonito». A
senhora de Trás-os-Montes, que de idosa que era, já não tinha coração para
aguentar tanto, encostou-se a um canto e desatou a chorar e a comissária Xana,
fazendo jus à sua autoridade, pegou no cassetete e bateu duas vezes no fundo de
um alguidar de latão que servia de decoração na parede dos fundos da tasca do
meu amigo Ismael. «Parem já com esta merda ou vai tudo para a choldra. Mas
vocês pensam que isto é o Pátio da Cantigas ou quê?». E virando-se para o dr. Castro
Ribeiro disse-lhe «eu perco o respeito a um doutor juiz mas ou você se mete na
ordem ou meto-o eu, seu António Silva de meia tijela». Depois virou-se para os
outros polícias, tendo saído na rifa o anafado do chefe de brigada, Ismael de
Almeida. «Olhe lá ó gordo do caraças. E se você parasse de comer esses
passarinhos fritos e ajudasse a pôr ordem nisto? Daqui a bocado está mais
bêbado que o Vasco Santana e nem haverá candeeiro que o valha para o levar para
casa». O chefe de brigada não tugiu nem mugiu e foi necessária a intervenção de
Ismaelix que gritou alto e bom som «Estes portugueses estão loucos!», tendo,
ato contínuo, desatado à chapada por tudo quanto lhe apareceu à frente. Levou o
Espinheira, coitado, que não tinha largado a sua gasosa nem aberto a boca a não
ser para arrotar, levou o filho do senhor Ismael da farmácia que engoliu o Português
Suave sem filtro que tinha acabado de acender. Levou a Isaurinha Bate-sola que
deu uma volta no ar que até se lhe viram as cuecas, por acaso bem bonitas,
brancas com rendinhas. Levou a empregada do Ismael Gusmán que fez voar uma
travessa de jaquinzinhos e o respetivo arroz de tomate. Levou o rececionista
que contar aos amigos, se viesse a sair dali ilibado, porque o bruto do
Ismaelix partiu-lhe a cana do nariz com um bofetão. Levou a Ekatrina dois
beijos nos beiços ou melhor dizendo, atirou-se esta ao pescoço do namorado
tentando acalmá-lo e beijando-o afincadamente mas ele desviou-a calma e
docemente, como se faz a uma namorada. Levou o velho Ishmail Baruch um empurrão
na cadeira de rodas, que rodopiou de tal maneira que parecia que estava no poço
da morte da feira popular. Levou o sobrinho, o judeu Ismael ben-Avraham, que
até tem andado calmo, desde o dia em que por engano se sentou em cima de uma
seringa com um sedativo que era para um paciente com perturbações no córtex,
uma tapona no focinho que se deitou adormecido ao colo da enfermeira feia. Levou
a enfermeira feia por se meter onde não era chamada. Levou o marinheiro
Sebastião um sopapo, que se aquilo fosse um navio do século XVII teria voado
até ao cesto da gávea. Voltou a levar a Isaurinha Bate-Sola porque o povo,
empolgado, gritou bis na ânsia de lhe voltar a ver as cuecas com rendas. Levou
o chefe de brigada Ismael de Almeida com um saco de milho na cabeça que até
começou a ver pombos e, finalmente, levou Francisca um raspanete por ter
escrito nos seus apontamentos que se um dia, o inspetor Ismael Sacadura Flores
se armasse em Poirot de S. Nicolau, haveria um borburinho tamanho que era
preciso ir chamar os franceses para acalmar a coisa. E assim foi, depois da
coisa acalmada, pode Ismael Sacadura Flores dizer quem matou e porquê, a malograda
Isabella, corista do Parque Mayer, com sete facadas no peito.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
143. Ismael (56) - Por fim, o final
Desta vez ela foi efusiva. Confesso que a um dado momento
até fiquei encabulado. Eu estava na praia com um bloco de apontamentos, uma
anemómetro, um papagaio de papel, um cronómetro e uma fita métrica. Nem sei
porque é que vos estou a contar isto, ainda são capazes de pensar que me estou
a passar. É verdade que já faltou mais, mas estava eu nas minhas experiências
de caráter cientifico quando ela gritou de cima do paredão «senhor escritor,
senhor escritor», enquanto acenava o braço com uma carcaça com fiambre na mão,
à qual, ato contínuo, deu uma dentada. Acenei-lhe de volta com o caderno de
apontamentos em riste, já que não me dava jeito nenhum acenar-lhe com o
anemómetro, nem mesmo com o cronómetro. E antes que eu pudesse arrumar tudo na
caixa de cartão canelado, que me sobrou de uma oferta de vinhos no Natal passado,
já ela tinha entrado areal adentro e inclinado a cabeça para me cumprimentar
com dois beijos. A rapariga da esplanada, fanática de sandes de fiambre com
manteiga, amante de Luís Sepúlveda, que quase me havia tratado com indiferença
no nosso último encontro em Sesimbra, aparece-me quase eufórica a correr em
pleno areal da Costa da Caparica, quase tropeçando numa prancha de surf
espetada na areia, indo de encontro a uma criancinha que caiu de cu e ficou a
chorar, enquanto uma rapariguinha, talvez dos seus doze anos, talvez irmão da
mais pequena, a comer um chupa de rebuçado cor-de-laranja e a segurar na outra
mão um moinho feito de papel de lustro, se virou para ela e lhe chamou
«estúpida!». Indiferente, sorriso de orelha a orelha, depois das tais duas
beijocas, perguntou-me «novidades?», e eu «nada».
Subimos lado a lado a escada de acesso ao paredão, ela já
tinha acabado de comer a sandes, ajudou-me na caixa, não que fosse pesada, mas apenas
por gentileza, eu «não te incomodes», ela «ora essa», eu «mas o contrário é que
normal», ela «deixe-se de machismo», eu «estás então a chamar-me velho», ela
«novo, não estou, mas você vai aí ocupado com o seu caderninho, não para de
tirar apontamentos» e eu «já acabei», ela «o livro?», eu «não, os apontamentos»,
ela «pode-se saber de quê?», eu «não tem nenhum interesse para o crime do
número 43» e ela «a propósito, eu estive cá a pensar umas coisas…». Chegamos
finalmente á esplanada de um conhecido restaurante, em que o seu dono usa uma
barba muito comprida e é um fanático adepto do Glorioso e sentamo-nos. E foi
aí, já com dois cafés à nossa frente, ela a fumar um cigarro e eu «ainda fumas?»,
ela «infelizmente», eu «não deixas porque não queres», ela «qualquer dia vai
ter uma surpresa», eu «pensa nisso», que reiniciamos o diálogo.
- Pensaste em quê?
- No seu livro.
- Nem sei se alguma vez irá ser um livro…
- Tenho andado a segui-lo.
- Não me digas que também lês blogs…
- E quem é que não lê?
- Tens razão.
- Eu arranjava-lhe já um final.
- Não tenhas pressa.
- Mas os seus leitores estão impacientes.
- hum..
- Nunca se deu conta?
- Dei.
- E então?
- Acho que só ficam a ganhar se esperarem.
- Senhor escritor, não sei se o hei-de tratar assim ou
por senhor Constantino…
- Fica à vontade, podes mesmo tirar o senhor.
- Estava eu a dizer-lhe que pensei num final
surpreendente.
- Não me digas que não estás a achar surpreendente a
maneira como eu estou a preparar o final.
- Não é isso…
Tenho de interromper aqui o diálogo para vos dizer que em
todas as frases eu poderia ter escrito disse ela franzindo um sobrolho, disse
eu encolhendo os ombros, disse ela com um sorriso nos lábios, disse eu com ar
preocupado e outras coisas que se costumam escrever e até mesmo pôr aspas. Mas
não o fiz, propositadamente para não quebrar o ritmo e a fluência. Creio que me
entenderão e provavelmente até aprovarão, neste caso concreto, esta tomada de
opção.
- Então é o quê?
- Um final sem final.
- O que é que queres dizer com isso?
- Senhor Constantino, podemos falar baixinho para ninguém
nos ouvir?
- Podemos…
- Então seria assim, bzz bzz bzz.
- bzz, bzz, bzz?
- Sim, bzz bzz bzz e ainda bzz bzz bzz. O que é que acha?
- Olha eu até há uns quinze minutos atrás pensei que, a
seguir a Francisca, eu era o mestre dos finais complicados, mas estou a ver que
tu superas-me.
- Acha que é complicado este raciocínio?
- Não acho, nem deixo de achar, vai é contra tudo o que
eu tinha pensado para terminar o crime da rua 43.
- Por falar nisso, Já tem título?
- Bom, um crime… é um «Crime …»
- Eu estou é a perguntar-lhe pelo tríptico Crime da rua
43 – Histórias de Constantino e Ismael – Conto das ilhas de lá.
-Tenho alguns nomes provisórios. Gostas de “Hoje há
pezinhos de coentrada”?
- E eu tenho dúvidas se será suficientemente apelativo.
Ainda vão pensar que é um livro de culinária.
- Lá isso não é, mas que não se safa de ser uma grande
caldeirada, isso não!
Convidei-a para almoçar. Aceitou. Chamamos o empregado e
pedimos caldeirada para dois. Enquanto degustávamos um branco da península de
Setúbal, acordamos os detalhes para o final do crime que vitimou Isabella
Vicentini. No fim, depois da sobremesa, ainda me disse que teve pena de nunca
ter conhecido Ismael Gusmán. Com certeza que os petiscos dele dariam um bom
livro de culinária. E eu respondi-lhe que não me meteria nisso. E enquanto dois
tratores alisavam o areal da Caparica eu, decididamente, achei que seria muita
areia para a minha camioneta.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
142. Ismael (55) - Angústia para o almoço
O esplendor da tasca do meu amigo Ismael deu-se na segunda
metade dos anos oitenta do século passado. Para se almoçar na sua tasca, que
não era muito grande, diga-se em abono da verdade, era necessário fazer fila à
porta. Ismael, que respeitava todos os seus clientes por igual, não aceitava
marcações, tinha um serviço rápido e eficaz, trazia um rapazito a biscate, que
lá ia apenas fazer os almoços, mas que era muito despachado, simpático e
diligente. Lembro-me de ele gritar para a cozinha «uma laranja descascada ao
momento, para o senhor Constantino» e a cozinheira, a velhota, a que já me
conhecia desde os meus tempos de universidade, por passar por lá aos fins de
tarde quase sempre para petiscar, chegava a cabeça no passa-pratos, olhava para
mim, dava um sorriso e dizia ao Ricardo, «aqui está a laranja do senhor Constantino».
Mais do que ficar na bicha (*), custava-me estar a comer, com os olhos famintos
daqueles que tinham chegado depois e que olhavam para as mesas quase como que a
suplicar «despachem-se, pá, que a gente também quer comer». Lia-se-lhes nos
olhos a frase «despachem-se, pá, que a gente também quer comer», pareciam trazer
na testa um post-it colado em que se
lia em letra impressa «despachem-se, pá, que a gente também quer comer»,
traziam na lapela dos casacos, nos colarinhos do polos, nas mangas das
camisetas, néones que acendiam e apagavam com a dilacerante frase, para o meu
coração de manteiga, «despachem-se, pá, que a gente também quer comer».
Tatuagens, grafitis, cartazes, etiquetas, livros de instruções, bilhetes de
elétrico, estampagens, anúncios classificados, publicidade estática, bonés,
bulas de medicamentos, capas de discos, badanas de livros, caixas de jornais,
subtítulos, sinalização horizontal, cupões de concursos de TV, talões de
desconto em supermercado, identificadores dos polícias, placas de matrícula,
campainhas das portas, em tudo e em todo o lado, aparecia a frase,
«despachem-se, pá, que a gente também quer comer». Agora podem os leitores,
destes momentos que eu passei com o meu amigo Ismael ou na sua tasca e que aqui
vos costumo relatar, imaginar se um almoço pode cair bem a alguém, que está a
comer uma posta barrosã grelhada ao ponto, com batata frita, dois ovos
estrelados, duas fatias de bacon na chapa, estaladiças, uma travessa de arroz e
uma salada mista e que está a acompanhar esta refeição, mais ou menos ligeira,
com uma garrafa de vinho tinto do Douro, colheita selecionada ou garrafeira do
enólogo, e os outros, coitados, famintos, desesperados a olharem para um tipo,
com aquela cara de onde sobressaem dois olhos de carneiro mal morto, olhos de
quem está com uma vontade inebriante de chegarem junto a nós e suplicarem de
joelhos, de mãos postas, «despachem-se, pá, que a gente também quer comer».
Eram tempos em que o governo não tinha ainda proibido que se fumasse nos
restaurantes. Antes de serem pedidas as farófias ou o leite-creme, os morangos
com chantili, o doce da avó, o bolo de bolacha, a manga de avião fatiada, o
melão de Almeirim ou a maçã reineta assada com vinho do Porto, não para mim
porque eu comia «laranja descascada ao momento para o senhor Constantino», como
dizia o Ricardo, havia sempre um ou dois no grupo que tiravam o seu cigarro do
maço. E antes que chegassem á mesa as sobremesas, o queijo da serra, o
requeijão com mel, a sericaia com ameixas de Elvas, o toucinho-do-céu, o pudim
flan, as cerejas, a tarte de amêndoa, já havia uma nuvem de fumo, ligeiramente
acima das nossas cabeças que nos impedia de ficarmos olhos nos olhos com os
olhos de desespero, os post-its nas cabeça, os néones nas lapelas dos casacos
ou nas mangas das camisetas, as tatuagens, os cartazes, suplicando quase em delirium tremens, os rótulos das
garrafas, o remetente da carta, o bordado de Viana, a frase, a frase, a frase,
«despachem -se, pá, que a gente também quer comer». Ou então não. Talvez que em
vez a carne das terras do Barroso, o bife do Alto Minho, o naco na pedra, a
posta mirandesa, o bife à casa com ovo a cavalo, o prego especial à moda da
Tasca, estivéssemos a comer uma posta de bacalhau na brasa acompanhada de brócolos
e batata a murro, temperada com azeite quente e alho fervido no próprio azeite
e com umas rodelas de cebola fininhas por cima e, quem sabe, acompanhado por um
vinho branco de Borba, de Reguengos ou da Vidigueira e aqueles olhos
suplicantes, aqueles post-its na cabeça, aqueles néones nas lapelas, as
tatuagens, os grafitis, os cartazes, a publicidade estática, as senhas de
almoço, o verniz das unhas, os monogramas do lenço de assoar, a capa do último
LP dos Led Zeppelin, os versos do Ary dos Santos, a canção do Sérgio Godinho, a
campanha eleitoral às sete da tarde na RTP, os toldos das esplanadas, os outdoors nas paragens de autocarros, a
voz rouca da Kim Karnes, o Passeio dos Alegres e a frase, sempre a frase, a
dilacerante, a desesperada, a suplicante … Também não me parece que fosse
necessário tanto desespero, tanta angústia. A gente só ia demorar mais um
bocadinho. Assim que tomássemos a bica. E além disso a gente já pediu a conta.
(*) – Fila de espera
Nota:
A foto foi tirada à mesa do almoço na Casa do Xisto, que
fica num desvio (5 kms), na estrada entre Paredes de Coura e Extremo
(entroncamento com a Nacional entre Arcos de Valdevez e Monção). Além da
simpatia do dono, o sr. Délcio e do empregado, o senhor António, come-se bem,
mas é mesmo bem, bebe-se bom vinho e se quiserem podem pescar nos lagos de
trutas.
terça-feira, 22 de maio de 2012
141. Ismael (54) - The Nutcracker ou a tristeza de Ekatrina ou Isto para mim são facadas
«Ekatrina», começou por dizer o inspetor Ismael Sacadura
Flores, fazendo com que todas as cabeças rodassem em direção à bailarina
clássica bielorussa, umas virando-se para a direita e outras para a esquerda
sem contar com aqueles que estavam praticamente defronte da jovem que apenas a
fixaram com mais atenção, «andava triste nos dias que antecederam a morte da
sua companheira de quarto», continuou o inspetor Flores, sem que esta frase
impressionasse quem quer que fosse. «A
verdade é que Ekatrina Smirnova tinha razões para isso», frisou dramatizando,
Ismael Sacadura Flores, inspetor chefe da brigada de homicídios da Polícia
Judiciária, ao acrescentar o apelido da, apesar de magra, ainda assim elegante
bailarina. E dito isto, fazendo uma pequena pausa para apalpar o ambiente,
questionou os presentes, quase como que declamando a pergunta, «E será que vos
interessa saber o motivo dessa tristeza?» A assistência vai trocando olhares
entre si, uns vão abanando a cabeça no sentido do assentimento, outros
encolhendo os ombros tentando demonstrar uma falsa indiferença, outros um
sorriso nervoso e outros até uma expressão de cumplicidade, mas Francisca, essa
não, essa estava empolgada. E ainda mais empolgada ficou quando o inspetor se
virou para o jovem Espinheira e lhe disse «Ó Espinheira, esta reunião está a
cansar-me, resuma você o meu relatório sem se esquecer de referir que Francisca
teve papel preponderante na descoberta do enredo». Não é, portanto, de admirar,
que só faltou ela levantar-se, fechar os dois punhos como faz o Cristiano
Ronaldo e festejar com os restantes. Ou então dar um beijo na testa do inspetor.
Espinheira, não obedeceu, em rigor, ao inspetor Sacadura
Flores. Em vez de resumir como ele pediu, leu tudo com todo o detalhe. Leu
mesmo coisas que para os meus leitores e principalmente leitoras, não interessam
para nada, como, por exemplo, aquele dia em Ekatrina Smirnova encharcou a
camisa de dormir com suor devido a um estado febril, derivado de uma gripe
apanhada na praia do Meco. Ela, cujo corpo fora talhado e esculpido para as
baixas temperaturas do clima continental europeu, onde ventos siberianos
congelam até os bicos dos fogões, não aguentou os trinta e quatro graus que se
fizeram sentir naquele dia. E porque é que eu digo que isto nada interessa às
minhas leitoras? É porque no suor da crise, no culminar do delírio, vejam
quanta poesia, aliás similar ao congelamento dos bicos do fogão, no ardor da
leitura do termómetro, na efervescência da derme tisnada pelo sol, na cambraia
branca da sua veste, deixava que os seios, não grandes como apraz a uma bailarina
da Companhia Nacional, pouco maiores que dois limões, não raro a caberem sem
excesso nas delicadas mãos do seu amado Ismaelix, deixassem desenhar dois
escuros e salientes mamilos. Ora isto, como é bom de ver, não traz nenhum
avanço para a divulgação, se bem que para a descoberta do crime já não seja
assim tão linear, do autor de tão arrepiante crime que, como todos sabem,
vitimou Isabella Vicentini. E se não o resumiu Espinheira, vai o escritor
tentar fazer o melhor que sabe e pode, para que não fiquem nem confusos, nem
com qualquer espécie de dúvida no contributo que Ekatrina aportou no desfecho
desta novela.
Ekatrina andava triste. Recebera uma carta da União
Soviética que o KGB conseguira fazer passar pelos canais clandestinos,
escapando assim ao crivo da PIDE, em que se lhe anunciava que a sua missão
tinha terminado. Sendo ela uma especialista em ouro, não ter descoberto onde
Isabella Vicentini guardara a medalha original, fazendo-se passear com uma
pequena joia de imitação, comprada algures num quiosque da Rua Barros Queiroz e
comendo as papas na cabeça de uma espiã soviética, não abonava nada em seu
favor pelo que teria de regressar de imediato à base. Este imediato, com uma
condescendência inacreditável em serviços secretos, mas sabe-se também que o
pai de Ekatrina tinha sido um homem muito influente no aparelho o que lhe dava
uma pequenina margem de manobra, ressalvava o tempo que Ekatrina teria de
gastar para poder partir sem dar nas vistas e muito menos que alguém
desconfiasse, renunciasse ao seu contrato com a Companhia, fizesse uma pequena
mala, adquirisse uma passagem para Paris e, não sabendo mais pormenores porque
o Espinheira, apesar de detalhar não os referiu, atreve-se o escritor a dizer,
etecetera e tal.
Ekatrina andava triste, mas a grande tristeza de Ekatrina nada tinha que ver com o
facto de não ter descoberto a medalha; nada tinha que ver com o ter de terminar
assim abruptamente a sua carreira de bailarina, onde ela tinha investido quase
tudo, nada tinha que ver com o ter de romper o namoro com o chefe de brigada
Ismaelix, um homem que usava uma trança até ao meio das costas e um bigode à
Chalana, porém branco, fosse naquela época, Chalana quem fosse, mesmo que ainda
não tivesse nascido, que não tinha mesmo; não tinha que ver com a quantidade de cisnes que o lago
tinha nem com a proteção do lobo e do Pedro; não tinha, também, que ver com a
tasca do Ismael, que embora situada na mesma rua onde morava, servia uns carapaus de
escabeche que lhe faziam lembrar o arenque de cebolada em conserva, mas para o
bom, que ela não comia, como também não comia o arenque, por mor de manter a
linha; não tinha nada que ver com o facto de em Belém se comerem pastéis de Belém; não tinha que ver com deixar uma cidade com marchas populares na avenida, com
fado nas tascas e nas vielas, com pregões matinais ao figo da capa-rota e à
fava-rica; não tinha nadinha, mesmo nadinha, que ver com a graça do amarelo da Carris nem com o
azul do céu, espelho do azul reflexo do incomparável estuário, toalha do nosso contentamento. A
sua tristeza prendia-se com uma coisa bem mais triste. Uma tristeza triste. Uma
tristeza sombria. Uma tristeza pressagiada. Uma tristeza mais do que
pressagiada, sabida. A tristeza que ela partiria para Paris e que Isabella
partiria para nunca mais ser vista. Isso, ela sabia-o, não perguntem ao
escritor porquê, porque o escritor acha que ainda não é tempo de o dizer.
Quanto ao inspetor Ismael Sacadura Flores, virou-se para Ismael Gusmán,
pediu-lhe para que ele servisse um copo de água ao jovem Espinheira, pois este
estaria com certeza com a boca seca e virando-se para os assistentes, disse-lhes,
com um embargo de voz, como se fosse uma noz a quebrar-se, que antes de saberem
se Ekatrina iria ou não acompanhar a comissária Xana até aos calabouços da
esquadra da Mouraria, o melhor era comerem todos um caldo-verde com uma rodela
de chouriço, que era mesmo acabadinho de se fazer e escutarem o que ele tinha
que dizer sobre a velha e misteriosa senhora de Trás-os-Montes.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
140. Ismael (53) - O rececionista
Como se pode verificar sem muito custo e após o que o
inspetor já disse sobre Fernandinha, o capítulo 32 está todo errado. E se
Francisca tem muito mérito nas suas notas e apontamentos que nos deixou no
manuscrito, tem também grandes responsabilidades nos erros aqui cometido, pois
a péssima caligrafia não deixa muita margem de manobra ao jovem Espinheira na
sua leitura e interpretação. É assim que, quando se diz que Fernandinha recebe
um telefonema de um primo de Lajeosa da Beira, uma análise mais atenta teria
levado o cabeça-de-vento do Espinheira a interpretar que Fernandinha recebeu um
telefonema de um primo, em Lajeosa da Beira. Isto é, não era o primo que estava
em Lajeosa da beira, mas sim Fernandinha que estava em Lajeosa da Beira quando
recebeu o telefonema do primo, que por acaso também era natural de Lajeosa da Beira,
facto que não é relevante. E tudo teria sido diferente. Fernandinha iria
emigrar para França, como aliás foi, e não teria ido dormir, como Espinheira
nos quis fazer querer e, diga-se em abono da verdade, Francisca rabiscou, com
um senhor rico da alta finança, como aliás, não foi. Coitadinha, embora isto
não seja uma novela lamecha, permite-se-me que lhe chame coitadinha, desta
roliça e coradinha menina que, no ano em que faleceu, não de morte morrida mas,
como sabemos, de morte matada, a nossa protagonista Isabella Vicentini, ainda
não tinha conhecido Lisboa. Sendo assim, e reposta que foi a verdade dos
factos, não é de estranhar que alguns de vocês recuem algumas páginas, tracem a
lápis toda a parte da história que deita Fernandinha na cama de uma pensão da
Mouraria com um ricaço da época ou que tomem ainda a decisão mais radical de
rasgar a página e destruí-la na lareira desvalorizando assim uma obra-prima
como a que aqui se está a produzir, mas isso é decisão vossa, o escritor lava
daí as suas mãos e tão pouco vai deitar mais achas nas fogueiras, nem na do
Espinheira e tão pouco na de Francisca.
Interrogam-se agora, como aliás é de se esperar e nem de
outra coisa o escritor está à espera que vos passe pela mente, que se não
dormiu Fernandinha com o homem da alta finança, que mais tarde se descobriu ser
pedófilo, mas que Constantino não quer revisitar nesta história, com quem
dormiu o capitalista? Ou melhor, porque nos parece muito mais importante do que
aqui andar com coscuvilhices de quem dorme com quem, quem anda a meter chifres
a quem, se Sebastião gostava da Isaurinha ou da Isabella, se Castro Ribeiro fez
um filho à Raquel Baruch, bem esta já é importante, é saber se essa tal pensão
com águas quentes e frias, existiu ou não existiu mesmo no contexto do que aqui
se romanceia. E para não vos deixar na expetativa, oiçamos o que o inspetor
apresentou nas suas congeminações, quando se anunciou quem matou Isabella. E
depois digam-me se eu não tinha razão em ter vindo a arrastar a trama até aqui.
«Pois então, minhas senhoras e meus senhores, posto que
Fernandinha não existe nesta fase do enredo e, portanto, ninguém a conhece, ou
melhor, é uma pacata rapariguinha que vai emigrar para França e talvez só daqui
a uns vinte anos é que venha fritar pastelinhos nesta tasca onde nos
encontramos», Ismael Sacadura Flores fez uma pausa, molhou os lábios num copo
de tinto, e esperou que o narrador interviesse para dizer que este mix literário que já passou e continuará
a passar por histórias da sua vida, romance policial, conto romanesco com
palavras difíceis e cena eróticas, tem também o seu quê de fantasia, aparecendo
Fernandinha e desaparecendo, como se fosse a fada madrinha do Espinheira, da Francisca,
do galego Ismael, do inspetor Ismael, do Rogério e mesmo do filho do senhor
Ismael da farmácia e, quiçá, do escritor. Continuou, então, já com a garganta
clareada, o inspetor da Judiciária, «posto isto, interessa ou não saber quem
dormiu com o homem do papel, que é como quem diz com o ricaço que gosta de
meninas e de rapazinhos, interessa ou não saber se existe a tal pensão logo ali
em cima, na nossa querida Mouraria, interessa ou não saber se jantaram no João
do Grão, interessa ou não saber se na receção um rapazinho esperou a hora de
silêncio, para sair à socapa do seu posto de trabalho?». E ante a admiração
geral, a propósito de nada ou, pelo menos, de nada descortinável pelo próprio
escritor, ouve-se o inspetor soltar uma sonora gargalhada, virar-se para o Espinheira,
perguntar-lhe se desta vez pode confiar na sua interpretação do manuscrito de
Francisca, pelo que recebeu desta um verdadeiro olhar fulminante, se o que iria
agora ser lido poderia ou não ser considerado fidedigno ou se o escritor terá
de vir daqui a mais uns quinze o dezasseis capítulos, dar o dito por não dito e
arranjar desculpas de interpretação do manuscrito e jogar aos bichos
Espinheiras e Fransciscas, quando ele, ele sim, o escritor, é que é o
responsável por todo este emaranhado. Espinheira levantou-se, dirigiu-se ao
inspetor, deu-lhe uma palmadinha nas costas como que a sossega-lo, pigarreou
uma vez, pigarreou outra vez, ia começar a ler, mas talvez o nervosismo lhe
tenha apanhado a voz e pigarreou pela terceira vez. Depois leu o manuscrito de
Francisca e todos ficaram a saber que às três da manhã já não se ouvia um único
ruído proveniente do amoroso enlace entre um depravado financeiro e, sabe-se lá
quem, talvez uma meretriz. Ficou-se a saber também, mas desconfia o escritor
que isto é invenção do Espinheira ou brejeirice do inspetor, que o obrigou a
referir, pois de Francisca não viria uma coisa destas, que o jantar de bacalhau
com grão fez das suas, pois vários traques foram ouvidos, alguns arrotos,
eventualmente com cheiro a alho ou cebola, também e umas risadas cúmplices, até
que tudo sossegou. E posto isto, diz-nos Espinheira que não há dúvida nenhuma
no que Francisca escreveu, recebendo desta, desta vez, um olhar sorridente e
cúmplice, que pouco depois a receção da pensão ficou vazia. Que o rapaz saiu
sorrateiro e nem precisou de dar duas voltas à chave. Que desceu a Rua do
Capelão, virou as costas à senhora da Saúde, atravessou o Martim Moniz, entrou
na Barros Queiroz, subiu as Portas de Santo Antão, entrou no Jardim do Regedor,
atravessou os Restauradores e, ao som dos saltos altos que pisavam a calçada,
se escondeu atrás de um candeeiro na Avenida da Liberdade. Nessa noite, quando
Isabella regressou a casa, sentiu medo. Sentiu muito medo.
terça-feira, 15 de maio de 2012
139. Ismael (52) - Exposições
Não seria fácil. Na tasca do meu amigo Ismael, já bem
entrados nos anos setenta, talvez em 1976 ou 1977 não me recordo bem, ainda o
meu amigo galego decorava as paredes da taberna com réstias de alhos e de
cebolas, ramagens de loureiro atados com um cordel e até molhos de orégãos,
estes em sacos plásticos para não se espalharem pelo chão. Esta decoração era alternada
com pratos de barro, de cerâmica regional representando também em barro
moldado, uma morcela, um papo-seco, um garfo e uma faca. Alguns azulejos
típicos podiam ver-se pendurados nas paredes, com frases do tipo “hoje não se
fia e amanhã também não” ou com quadras populares, onde por vezes a métrica não
estava certa, mas que deixavam o cliente com um sorriso “se aqui vens de boa-fé
/ para seres servido com agrado / bebas cerveja ou café / nunca me peças
fiado”. Esta acabou de ser inventada, mas eram do género, só que a minha
memória já não dá para tudo. O bom e simpático Ismael Gusmán tinha também nas
paredes uns fundos de pipa com publicidade ao produtor, recordo-me que dois
deles eram de vinho do Porto, um da Offley e outro da Kopke. Quando lá entrava,
uma das conversas que tínhamos frequentemente era que, um dia, ainda iriamos
mudar toda a decoração daquelas paredes. Mas não seria fácil. Eu, provavelmente
utópico para a época, falava-lhe que ele poderia aproveitar as paredes para
fazer exposições de pintura ou de fotografia. Mas era cedo demais. Hoje entendo
isso. O problema era, primeiro mudar mentalidades, inclusive a de Ismael,
segundo, o sempre presente, ontem e hoje, dinheiro. Quem entra numa tasca para
um pastel de bacalhau e um copo de três, às vezes, muitas vezes, a contar os
tostões, iria investir em quadros? E muito menos em fotos. Não seria fácil.
Terminava a conversa quase sempre a incriminá-lo, coitado,
que ele era um bota-de-elástico, que era mesmo um galego, que só via presunto fatiado,
saladas de atum e pratinhos de burrié, que não dispensava o cheiro do louro e
dos refogados, que para ele a cultura era o hóquei em patins do Liceo da Coruña
e ele a chamar-me intelectual de merda, que se não fossem os tordos fritos às
sete da tarde lá na tasca eu passava uma fominha do caraças e nem força tinha
para jogar à bola e eu a querer levantar-me e arrancar e a dizer não «me ofenda
senhor Ismael» e ele a chamar-me «puto mimado com pancada de intelectual de esquerda».
Bom na verdade todo este período foi inventado, eu e o Ismael Gusmán eramos
unha com carne, amigos como é difícil encontrar, nunca nos zangámos na vida,
ele era uma belíssima pessoa e eu, um miúdo bem respeitador e comportado. Mas
olhem que se aquela discussão nunca aconteceu, bem podia ter acontecido. E
depois, para apaziguar, vir de lá a Fernandinha, sim porque foi exatamente
naqueles anos setenta, que Fernandinha regressou de França, onde foi abusada
por um barão francês, filho da mãe, fez ela muito bem em dar-lhe cabo da
garrafeira, mas estava eu a dizer, vir de lá a Fernandinha, para acalmar os
nossos ânimos, com uma travessa de salgadinhos, e como ela fazia bem os pastéis
de bacalhau, mon Dieu!, e um canjirão, se bem que nessa época eu fosse
mais gasosas, mas de vez em quando virava um copinho e sendo na tasca do
Ismael, não havia dúvida que era pinga de qualidade. Quanto eu não pagaria por
uma discussão assim, só para ter por perto a presença da roliça, da sempre
rubra, da decotada, e como ela se inclinava e deixa ver-se entre sutiãs, com
mais ou menos rendas, bom vocês sabem, não digo mais nada a não ser de novo oh mon Dieu, da fresquíssima
Fernandinha, não me lembro bem, mas com pouco mais de vinte anos. Mas não. Eu
inventei isto tudo e sabem porquê? Para vos falar de uma outra coisa, prestem
atenção ao parágrafo seguinte.
Ontem dia 14 de Maio foi inaugurada uma exposição coletiva
de fotografia onde eu também estou presente. É a primeira vez que eu exponho
uma foto impressa ao público, pois por aqui, quer no blog, quer em outros sites
como o Facebook, o Flickr ou o Olhares, exponho diariamente fotos minhas. Mas
assim em papel impresso é de facto a minha primeira vez. É no Fórum Picoas, em
Lisboa e estará patente ao público até dia 18. Está a ver, amigo Ismael, quem é
que se armou ao pingarelho, quem foi?
domingo, 13 de maio de 2012
138. Noventa por cento
Sapatos I
Mais de noventa por cento dos dias do ano, uso ténis. É uma vingança. Anos e anos seguidos usei sapatos, muito mais de noventa por cento dos dias. E de atacadores. Mas tenho de confessar que os sapatos são mais higiénicos. E não tem nada que ver com a qualidade dos ténis que uso, pois aqui o Constantino é rapazinho para calçar Adidas, Nike, Sketchers, New Balance e outras mariquices. Mas o cheiro dos pézinhos quando saem dos ténis não tem nada a ver com o que sai de um belo par de sapatos de couro genuíno, fabricado em S. João da Madeira. Acho que vou ter mais cuidado a escolher as meias.
Mais de noventa por cento dos dias do ano, uso ténis. É uma vingança. Anos e anos seguidos usei sapatos, muito mais de noventa por cento dos dias. E de atacadores. Mas tenho de confessar que os sapatos são mais higiénicos. E não tem nada que ver com a qualidade dos ténis que uso, pois aqui o Constantino é rapazinho para calçar Adidas, Nike, Sketchers, New Balance e outras mariquices. Mas o cheiro dos pézinhos quando saem dos ténis não tem nada a ver com o que sai de um belo par de sapatos de couro genuíno, fabricado em S. João da Madeira. Acho que vou ter mais cuidado a escolher as meias.
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Televisão I
Cá em casa há sete aparelhos, sete, agora parecia o anúncio aos toiros de uma ganadaria situada algures no Alto Alentejo, aparelhos de televisão. Quatro deles recebem emissão digital de um operador de cabo e as outras três é direto do coax. Destas três, duas estão avariadas. As digitais são também emissões HD. Com ou sem digital, com ou sem HD noventa por cento das vezes que os televisores estão ligados sintonizam o canal Panda. O neto merece tudo, digam cá se é ou não é verdade senhores avôs que me leem?
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Tiques
Devo ter mais, mas este é aquele que até eu reparo. Dobro o dedo indicador da mão esquerda e aperto a narina esquerda. Ato contínuo aperto com o mesmo dedo a narina direita. Em ambos os casos aperto as narinas contra a cana do nariz. Mais de noventa por cento das vezes, passo depois o dedo por debaixo do mesmo nariz, quer dizer, do nariz, pois só tenho esse. Este gesto que é feito todo de seguida não é para limpar o nariz. Acho que não se limpa o nariz assim. Mas quando me apanharem a fazê-lo dêem-me um toque. Pode ser com o cotovelo ou só com um olhar. Pode ser que eu, aos poucos, perca o tique.
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Sapatos 2
As solas dos sapatos devem ter mais bactérias do que os ares condicionados dos nossos hospitais. Andam pelo chão, pisam tudo, lixo, beatas de cigarro, pastilhas elásticas, o que é, rigorosamente, uma porcaria, cocó de cães, o que é, rigorosamente, uma grande porcaria e até... não digo, porque é, rigorosamente, um grandessíssima porcaria. Não é por acaso que me descalço à porta de casa, antes de entrar e só me volto a calçar para ir à rua. Isto, eu faço quase 100 por cento das vezes e também já o considero um tique. Só é pena que as minhas visitas não tenham o mesmo tique. Se calhar é porque elas não pisam cocó de cão.
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Leite
Esta nem a minha mulher sabe. Eu tenho um tique tetrapak. Depois de abrir um pacote de leite só gosto do primeiro copo. Se cada copo de leite não me acabasse por ficar mais caro do que uma água sem gás num café qualquer e sem fatura (a propósito, hoje paguei 75 cêntimos por uma garrafa de 33cl, que no supermercado custa menos de 10, leram bem, dez), só bebia o primeiro. Dá-me tanta raiva não ser rico, mas mais raiva me dá ser um incorrigível militante anti desperdício.
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Sapatos 3
Os sapatos que mais gosto têm os cordões pequenos de mais. Os ténis que mais gosto têm os cordões compridos demais.
Os sapatos que mais gosto têm os cordões pequenos de mais. Os ténis que mais gosto têm os cordões compridos demais.
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Pó
Tive um colega de trabalho que passava mais de noventa por cento do dia a sacudir o pó do casaco, da gravata, da camisa, das calças, da gravata, do casaco, da camisa, das calças, das calças, da gravata, do casaco, da camisa, do casaco, das calças, da camisa, da gravata. Eu sempre pensei que dobrar o dedo indicador esquerdo e apertar a narina esquerda, a narina direita e passar o dedo dobrado por debaixo do nariz era um tique.
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Sapatos III
Será que os meus amigos não pisam cocó de cão?
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Resulta
"Compraste pão?"
"Não, amor. Esqueci-me".
"Importas-te de ir comprar?"
"Ooohhh amor, já estou descalço"
"Então deixa. Eu vou lá".
Noventa por cento das vezes, resulta.
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Televisão II
Desculpem acabar assim abruptamente o post mas tenho de ir ver as histórias do rei Babar.
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