
Com apenas dois toques, nem um, nem três, mas realmente com
apenas dois toques, se bateu à porta fechada, naquele fim de tarde, da tasca do
galego Ismael Gusmán. Se Fernandinha não tivesse sido mandada embora daquele
período histórico e apenas autorizada a voltar à novela lá para meados dos anos
setenta do século XX, sob pena de graves consequências para a sua integridade
física e, principalmente, para a integridade mental do narrador e dos leitores
desta trapalhada, teria sido ela e levantar-se prontamente daquele banco de
pernas altas, em que se costumava sentar por detrás do balcão, onde assentava
um cotovelo e, de palma da mão em concha virada para cima, pousava o queixo nas
horas mortas e espreitava de viés para a televisão a preto e branco, colocada numa
prateleira por cima de um quadro com a fotografia de D. Ismael de Gusmán y
Toledo, o falecido pai do meu amigo Ismael. Teria sido ela a levantar-se, como
dizia, a encaminhar-se célere para a porta, para, corrido que fosse o ferrolho
e entreaberta a dita, espreitar no lusco-fusco que àquela hora já era, sim
porque a reunião se estava a alongar e a perguntar quem seria que tão
despropositadamente batia assim na porta de uma taberna, sem usar a aldraba
para o fazer. Teria sido, portanto e volto a repetir, Fernandinha que se iria inteirar
do motivo de tão inesperada, para ela, quanto inoportuna visita, principalmente
sendo aquela uma reunião da iniciativa de um inspetor muito conceituado da
nossa polícia Judiciária. Muitos anos se haveriam de passar para que a eficaz e
necessária polícia de investigação criminal viesse a ter um outro Flores, tão
proeminente como o nosso Ismael Sacadura Flores, esse que um dia ainda
presidiria a uma Câmara Municipal, quem haveria de dizer, deixando mais pobre a
produção telenovelesca. Mas isso são coisas do futuro e nós cá continuamos em
1956 que foi quando Isabella Vicentini foi, efetivamente e, nunca é demais
repetir, barbaramente assassinada. Com Fernandinha, coisa que muitas leitoras e
principalmente leitores ainda hoje não perdoam ao escritor, fora de cena, quem
teve que ir abrir a porta foi o nosso anfitrião, Ismael Gusmán, caramba que o
narrador é chato, já lhe conhecemos o nome. Mais chato é o escritor ripostaria
o narrador, sabendo de antemão que os outros também o sabem. Ora quem bate
apenas duas vezes, nem uma, nem três, apenas duas, querendo com a sua presença
inteirar-se de tudo e dos porquês das coisas, fazendo toc toc em todas as portas, não poderia deixar de
ser outra senão a comissária de polícia Alexandra Semião, mais conhecida nos
meios policiais por Xana, só não podendo ser chamada de Xana Toc Toc porque essa
já é uma marca registada, que os miúdos, vá-se lá saber porquê, gostam de ver
no Canal Panda.
Apresentada que foi a comissária Alexandra Semião aos
presentes, que ficaram a saber por quem seriam depois acompanhados à Esquadra
da Mouraria e já com a porta da taberna novamente fechada, serviu à senhora, o
nosso Ismael, o Gusmán, porque o outro é polícia, um café em chávena de vidro
de onde exalava um cheirinho a bagaço mas que, por mor da senhora comissária
Xana estar de serviço, todos comeram e calaram, não fosse o diabo tecê-las. E
continuou então o inspetor Ismael Sacadura Flores, a quem Xana tratava por, «Ó Sacadura
isto», «Ó Sacadura aquilo», só faltando mesmo tratá-lo por Sacadura filho,
Sacadura amor ou Sacadura querido, tal era a intimidade que aparentava ter com
o, efetivamente chamado, Sacadura, que com a sua dedução racional e linear, que
como sabem, leitoras e leitores, já vos tive ocasião de dizer antes, conduziu à
descoberta da careca do pilantra, que é como quem diz, conduziu a quem cometeu
tão horrendo crime e que, se não fosse aviltante para a própria natureza do
crime, dir-se-ia, quem molhou a sopa no peito da bela, elegante, simpática e também
sexualmente poderosa, bailarina italiana, só que isso do sexualmente poderosa
não está nas cogitações do escritor revelar neste livro. E é neste contexto que,
virando-se para o Dr. Castro Ribeiro lhe perguntou se este não teria nada a
dizer aos presentes sobre a sua relação familiar com o marinheiro Sebastião,
não tendo contudo a intenção de deixar o juiz de direito jubilado, Castro
Ribeiro, falar, já que aquilo não era um interrogatório, mas sim uma preleção.
E abrindo um caderninho pouco maior do que um bloco de
apontar números de telefone, leu em voz baixa num murmúrio que nem um tísico
conseguiria apanhar uma só palavra, duas ou três linhas, tendo-o voltado a
fechar, guardando-o de seguida no bolso do lado direito do casaco. E continuou
agora em discurso direto, apenas para deixar descansar o narrador, que já lhe dói
a garganta de tanto narrar, dando, por sua vez, a vez ao escritor, que está
folgado das pontas dos dedos, de continuar a escrever, pois que ainda é jovem,
apresentável e de boas famílias. Só que por causa das tosses e talvez fazendo
birra por causa desta inesperada atitude do narrador, isto hoje está bonito,
está, resolveu o escritor dar um salto no discurso e passar quase para os
finalmente.
«… E é assim, que vamos encontrar Francisca, a tratar como
irmã a pobre Raquel Baruch, a quem chamavam Rosa da Madragoa, pois todas as
manhãs saía do cais de Santos com uma canastra à cabeça a apregoar sardinha viva
da costa. Nunca o senhor Ishmail perdoou ao Nuno, que era assim, por Nuno, que a
sua sobrinha se referia a ele quando escrevia em cartas de papel fininho e, não
menos de baixa gramagem, envelopes circundados com as cores nacionais, vermelho
e verde e que traziam já pré impressos a menção “por avião” quando escrevia
para seu tio Ishmail Baruch, que na época ainda vivia na Áustria». Neste
momento Castro Ribeiro baixou a cabeça e olhou para o chão, que é para onde
olham as pessoas que baixam a cabeça,
desde que não estejam de olhos fechados. Continuou Sacadura ou seja, mais
formalmente como o momento exige, Ismael Sacadura Flores: «Quando o jovem
Sebastião nasceu, ainda não se notava que iria ser coxo como o seu tio-avô
Ishmail, mas via-se logo que era a cara chapada de Castro Ribeiro, seu pai.
Nuno Castro Ribeiro vinha com alguma frequência a Lisboa por mor da sua paixão
por Raquel, que conheceu um dia que teve de escolher um rodovalho para grelhar
numa paródia de comes e bebes com outros colegas advogados num congresso em
Lisboa, deixando vazios, por dois ou três dias por semana, os seus aposentos em
Vila Nova de Gaia onde em tempos teve um escritório de advogados, mas isso foi
antes de se ter tornado juiz, mas nunca foi capaz de assumir a paternidade do
futuro marinheiro». O narrador ousa interromper o escritor para informar que
naquele dia, não só o rodovalho era fresquíssimo mas também a salada mista
estava magnífica, com tudo o que tinha direito, incluindo os pimentos assados e
para perguntar aos leitores se isto não está a ficar romântico, digno de uma
novela radiofónica, onde um juiz de direito, ex-advogado de nome e créditos
firmados na praça nortenha, que até come rodovalho que é um peixe fino e caro, se
apaixona por uma simples peixeira, vendedora de carapaus e de sardinhas, vá lá
de chicharros também e, uma vez por outra, rodovalhos. Voltando de novo ao
escritor e ao discurso direto do inspetor Sacadura: «Quando Raquel morreu, após ter escorregado
numa rampa de acesso ao Mercado da Ribeira e batido com a canastra numa montra
e com a cabeça no chão, pensa-se mesmo que a canastra só serviu para a
desequilibrar ainda mais, Nuno veio a conhecer Francisca que era como que uma
perceptora de Raquel e foi amor à primeira vista». Cá está mais uma cena
romântica, tão linda, que faz até chorar, ousa interromper de novo, o narrador.
E continua o inspetor da polícia: «Casaram pouco tempo depois e Castro Ribeiro
pode assim ajudar a criar o filho, a quem tratava carinhosamente por Sebas,
este que sempre tratou afetuosamente Francisca por tia e esta, por sua vez, que
sempre tratou, carinhosa e afetuosamente, para poder usar os mesmos adjetivos,
Sebastião, como um filho. E porque é que o senhor Ishmail Baruch, nunca perdoou
o Dr. Nuno Castro Ribeiro?» perguntou o inspetor Ismael à assistência, ciente
que, apesar do discurso um bocado enrolado do polícia, não se tinham esquecido
ainda de que foi praticamente assim que o inspetor, pela mão do escritor, já
que o narrador nem se quer meter nisso, começou este pedaço de texto. Pois continuou
então o reputado Ismael Sacadura: «Nunca lhe perdoou porque não gostou nada,
ouso até dizer, não gostou mesmo nada, mas mesmo nada, friso, repito e
acrescento que poderá ter sido ou terá mesmo sido a gota de água que fez
transbordar o copo, ou seja, o que conduziu ao corte de relações entre os dois homens,
de saber que um homem de tantos recursos, como era e ainda é o Dr. Castro
Ribeiro, e com aquela afinidade familiar, ex-namorado da sua sobrinha, que
sabe-se lá por que razão teria escolhido Portugal para viver, sem se saber
ainda se naquele tempo, em meados dos anos trinta do século passado, Portugal
iria entrar ou não na Segunda Grande Guerra e também não se saber ainda se
viria a haver alguma Segunda Grande Guerra e se o Hitler iria perseguir ou não os
judeus ou quiçá outro povo, pai, embora não oficialmente assumido do seu sobrinho-neto,
se abastecia de charutos marados num quiosque rasca do Cais do Sodré em vez de
os comprar na sua loja, a genuína casa havanesa, a única importadora autorizada
dos mais puros charutos cubanos. E se Castro Ribeiro tinha recursos para os
comprar! E se eles eram de primeira qualidade! Primeiríssima! E se quisessem
uma testemunha, não do crime, mas sim da qualidade dos seus puros, era chamarem
o Dr. Ismael ben-Avraham, o seu mais conhecido consumidor».
Aqui chegados, o escritor começa a entrar com as ideias em
parafuso, quer continuar a escrever um livro mas está a sair-lhe uma coisa
embrulhada em folha de tabaco e, por isso, pede ao narrador para tomar ele as
rédeas do texto antes que ninguém fique a não perceber patavina da história. E
é assim que Constantino, outra vez no comando da narrativa, se vê obrigado,
para rematar, a dizer que isto que acabamos de ler explica muita coisa.