terça-feira, 15 de maio de 2012

139. Ismael (52) - Exposições



Não seria fácil. Na tasca do meu amigo Ismael, já bem entrados nos anos setenta, talvez em 1976 ou 1977 não me recordo bem, ainda o meu amigo galego decorava as paredes da taberna com réstias de alhos e de cebolas, ramagens de loureiro atados com um cordel e até molhos de orégãos, estes em sacos plásticos para não se espalharem pelo chão. Esta decoração era alternada com pratos de barro, de cerâmica regional representando também em barro moldado, uma morcela, um papo-seco, um garfo e uma faca. Alguns azulejos típicos podiam ver-se pendurados nas paredes, com frases do tipo “hoje não se fia e amanhã também não” ou com quadras populares, onde por vezes a métrica não estava certa, mas que deixavam o cliente com um sorriso “se aqui vens de boa-fé / para seres servido com agrado / bebas cerveja ou café / nunca me peças fiado”. Esta acabou de ser inventada, mas eram do género, só que a minha memória já não dá para tudo. O bom e simpático Ismael Gusmán tinha também nas paredes uns fundos de pipa com publicidade ao produtor, recordo-me que dois deles eram de vinho do Porto, um da Offley e outro da Kopke. Quando lá entrava, uma das conversas que tínhamos frequentemente era que, um dia, ainda iriamos mudar toda a decoração daquelas paredes. Mas não seria fácil. Eu, provavelmente utópico para a época, falava-lhe que ele poderia aproveitar as paredes para fazer exposições de pintura ou de fotografia. Mas era cedo demais. Hoje entendo isso. O problema era, primeiro mudar mentalidades, inclusive a de Ismael, segundo, o sempre presente, ontem e hoje, dinheiro. Quem entra numa tasca para um pastel de bacalhau e um copo de três, às vezes, muitas vezes, a contar os tostões, iria investir em quadros? E muito menos em fotos. Não seria fácil.

Terminava a conversa quase sempre a incriminá-lo, coitado, que ele era um bota-de-elástico, que era mesmo um galego, que só via presunto fatiado, saladas de atum e pratinhos de burrié, que não dispensava o cheiro do louro e dos refogados, que para ele a cultura era o hóquei em patins do Liceo da Coruña e ele a chamar-me intelectual de merda, que se não fossem os tordos fritos às sete da tarde lá na tasca eu passava uma fominha do caraças e nem força tinha para jogar à bola e eu a querer levantar-me e arrancar e a dizer não «me ofenda senhor Ismael» e ele a chamar-me «puto mimado com pancada de intelectual de esquerda». Bom na verdade todo este período foi inventado, eu e o Ismael Gusmán eramos unha com carne, amigos como é difícil encontrar, nunca nos zangámos na vida, ele era uma belíssima pessoa e eu, um miúdo bem respeitador e comportado. Mas olhem que se aquela discussão nunca aconteceu, bem podia ter acontecido. E depois, para apaziguar, vir de lá a Fernandinha, sim porque foi exatamente naqueles anos setenta, que Fernandinha regressou de França, onde foi abusada por um barão francês, filho da mãe, fez ela muito bem em dar-lhe cabo da garrafeira, mas estava eu a dizer, vir de lá a Fernandinha, para acalmar os nossos ânimos, com uma travessa de salgadinhos, e como ela fazia bem os pastéis de bacalhau, mon Dieu!,  e um canjirão, se bem que nessa época eu fosse mais gasosas, mas de vez em quando virava um copinho e sendo na tasca do Ismael, não havia dúvida que era pinga de qualidade. Quanto eu não pagaria por uma discussão assim, só para ter por perto a presença da roliça, da sempre rubra, da decotada, e como ela se inclinava e deixa ver-se entre sutiãs, com mais ou menos rendas, bom vocês sabem, não digo mais nada a não ser de novo oh mon Dieu, da fresquíssima Fernandinha, não me lembro bem, mas com pouco mais de vinte anos. Mas não. Eu inventei isto tudo e sabem porquê? Para vos falar de uma outra coisa, prestem atenção ao parágrafo seguinte.

Ontem dia 14 de Maio foi inaugurada uma exposição coletiva de fotografia onde eu também estou presente. É a primeira vez que eu exponho uma foto impressa ao público, pois por aqui, quer no blog, quer em outros sites como o Facebook, o Flickr ou o Olhares, exponho diariamente fotos minhas. Mas assim em papel impresso é de facto a minha primeira vez. É no Fórum Picoas, em Lisboa e estará patente ao público até dia 18. Está a ver, amigo Ismael, quem é que se armou ao pingarelho, quem foi? 


domingo, 13 de maio de 2012

138. Noventa por cento



Sapatos I

Mais de  noventa por cento dos dias do ano, uso ténis. É uma vingança. Anos e anos seguidos usei sapatos, muito mais de noventa por cento dos dias. E de atacadores. Mas tenho de confessar que os sapatos são mais higiénicos. E não tem nada que ver com a qualidade dos ténis que uso, pois aqui o Constantino é rapazinho para calçar Adidas, Nike, Sketchers, New Balance e outras mariquices. Mas o cheiro dos pézinhos quando saem dos ténis não tem nada a ver com o que sai de um belo par de sapatos de couro genuíno, fabricado em S. João da Madeira. Acho que vou ter mais cuidado a escolher as meias.


Televisão I

Cá em casa há sete aparelhos, sete, agora parecia o anúncio aos toiros de uma ganadaria situada algures no Alto Alentejo, aparelhos de televisão. Quatro deles recebem emissão digital de um operador de cabo e as outras três é direto do coax. Destas três, duas estão avariadas. As digitais são também emissões HD. Com ou sem digital, com ou sem HD noventa por cento das vezes que os televisores estão ligados sintonizam o canal Panda. O neto merece tudo, digam cá se é ou não é verdade senhores avôs que me leem?


Tiques

Devo ter mais, mas este é aquele que até eu reparo. Dobro o dedo indicador da mão esquerda e aperto a narina esquerda. Ato contínuo aperto com o mesmo dedo a narina direita. Em ambos os casos aperto as narinas contra a cana do nariz. Mais de noventa por cento das vezes, passo depois o dedo por debaixo do mesmo nariz, quer dizer, do nariz, pois só tenho esse. Este gesto que é feito todo de seguida não é para limpar o nariz. Acho que não se limpa o nariz assim. Mas quando me apanharem a fazê-lo dêem-me um toque. Pode ser com o cotovelo ou só com um olhar. Pode ser que eu, aos poucos, perca o tique.

Sapatos 2

As solas dos sapatos devem ter mais bactérias do que os ares condicionados dos nossos hospitais. Andam pelo chão, pisam tudo, lixo, beatas de cigarro, pastilhas elásticas, o que é, rigorosamente, uma porcaria, cocó de cães, o que é, rigorosamente, uma grande porcaria e até... não digo, porque é, rigorosamente, um grandessíssima porcaria. Não é por acaso que me descalço à porta de casa, antes de entrar e só me volto a calçar para ir à rua. Isto, eu faço quase 100 por cento das vezes e também já o considero um tique. Só é pena que as minhas visitas não tenham o mesmo tique. Se calhar é porque elas não pisam cocó de cão.
 ♣

Leite

Esta nem a minha mulher sabe. Eu tenho um tique tetrapak. Depois de abrir um pacote de leite só gosto do primeiro copo. Se cada copo de leite não me acabasse por ficar mais caro do que uma água sem gás num café qualquer e sem fatura (a propósito, hoje paguei 75 cêntimos por uma garrafa de 33cl, que no supermercado custa menos de 10, leram bem, dez), só bebia o primeiro. Dá-me tanta raiva não ser rico, mas mais raiva me dá ser um incorrigível militante anti desperdício.

Sapatos 3

Os sapatos que mais gosto têm os cordões pequenos de mais. Os ténis que mais gosto têm os cordões compridos demais.




Tive um colega de trabalho que passava mais de noventa por cento do dia a sacudir o pó do casaco, da gravata, da camisa, das calças, da gravata, do casaco, da camisa, das calças, das calças, da gravata, do casaco, da camisa, do casaco, das calças, da camisa, da gravata. Eu sempre pensei que dobrar o dedo indicador esquerdo e apertar a narina esquerda, a narina direita e passar o dedo dobrado por debaixo do nariz era um tique.


Sapatos III

Será que os meus amigos não pisam cocó de cão?


Resulta

"Compraste pão?"
"Não, amor. Esqueci-me".
"Importas-te de ir comprar?"
"Ooohhh amor, já estou descalço"
"Então deixa. Eu vou lá".

Noventa por cento das vezes, resulta.


Televisão II

Desculpem acabar assim abruptamente o post mas tenho de ir ver as histórias do rei Babar.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

137. Ismael (51) - Seria ela capaz de uma coisa dessas?



Poderia Isaurinha ter sido ela a autora do execrável crime? Isaurinha era uma moça acima dos trinta anos, mas de ar jovial. Sebastião andava pelos vinte e tal e, claro está, mais jovial ainda. Isaurinha era alta e esbelta. Sebastião, embora coxeando ligeiramente, era alto e bem constituído. Isaurinha tinha o seu palminho de cara. Sebastião, para homem, poder-se-ia dizer que era um pedaço. Isaurinha não era culta talvez o suficiente pra se apresentar a um concurso de televisão, se naquele tempo já houvesse concursos de televisão, mas não era nenhuma bruta. Era mesmo capaz de escrever uma frase com sujeito, predicado e complemento direto, ou mesmo com nome predicativo do sujeito, mas era voz corrente, discurso direto e por vezes comentado em voz passiva, entre o pessoal da Quinta do Conde de que ela não fazia a menor ideia do que era um sintagma. Sebastião também não, apesar de falar qualquer coisinha de inglês e arranhar o italiano. E o que é que tudo isto poderá contribuir para responder à questão inicial? Poderia Isaurinha ser a autora de crime tão hediondo? Isaurinha tinha já uma considerável experiência de vida. Não só vivera largos anos com o nosso taberneiro Ismael Gusmán, o galego, bem como, o que já é do conhecimento geral, andou enrolada com o filho do senhor Ismael da farmácia. Sebastião, por seu turno, não terá frequentado apenas os bares de má fama do Cais do Sodré. Embarcadiço, dos sete mares marinheiro, de todos os portos vadio, de mulheres de vida fácil, meretrizes de esquina e bailarinas de varão e de uma noite amantes, de uma noite Sebastião lhes era amante também, em uma noite só que fosse, Sebastião lhes frequentava as alcovas. Esta frase foi mesmo poética, reflete o narrador. Quites, diria Sebastião, se o confrontassem com Isaurinha. Poderia, então, Isaurinha ter perpetrado tão arrepiante desenlace? Isaurinha morava na Quinta do Conde, com seu pai, um honesto trabalhador manual, artífice dos coiros e dos fios ensebados, do martelo e da bigorna, das formas, do formão e da sovela, da arte de bem coser e martelar, de bem colar e de bem pregar e para bem da verdade, da nobre arte de bem engraxar e de bem puxar lustre, um, por assim dizer, artista, trabalhador e honesto sapateiro. Sebastião morava na Quinta do Conde, na casa de sua tia, emprestada porém tia, uma viúva respeitada e respeitadora que se, por acaso, o escritor lhe inventou um caso com um inspetor de polícia era caso que só pela cabeça do escritor podia passar para além do jovem Espinheira que sempre desconfiou de que ali haveria moira na costa, dado os embrulhinhos, ora de chamuças, bem denunciadas pelo seu cheirinho a caril, ora croquetes de atum de lata, ora dos dois, que o inspetor sempre levava quando apanhava o autocarro em Cacilhas, uma mulher de vários talentos, mormente a de contista e criadora de ficções de caráter erótico ou, para ser mais preciso, de textos para mentes desempoeiradas mas um tanto ou quanto safadas, uma anotadora de factos do dia-a-dia, uma observadora de olhares, de movimentos e de silêncios, em suma uma criativa. Isaurinha frequentava a mesma farmácia que Sebastião, Sebastião ia ao mesmo lugar de frutas que Isaurinha, Isaurinha comprava castanhas quentes e fumegantes ao homem do carrinho com assador, Sebastião era perdido por castanha assada. Isaurinha fazia um bacalhau à Braz como não existe, ainda hoje, um único restaurante que o faça. Sebastião encostava-se ao parapeito da janela de Isaurinha, sem que esta alguma vez o desconfiasse, a saborear o cheiro dos seus cozinhados. Isaurinha vestia vestidos colados ao corpo, realçando glúteos, excrescências peitorais, curvas perigosas. Sebastião usava calça à boca-de-sino e boina basca. Isaurinha ouvia o Tide na telefonia do carvoeiro, durante a semana, Sebastião ouvia o relato da bola na mesma telefonia, aos domingos. Poderia Isaurinha Bate-Sola ter consumado um crime que tem tanto de sanguinário como de horrível? Isaurinha viajava de cacilheiro de Cacilhas para o Cais das Colunas no Terreiro do Paço, só que era rara a viagem em que não se nauseava. Sebastião fazia o mesmo percurso mas nunca, em toda  a sua vida, Sebastião enjoou numa vigem. Sebastião conhecia perfeitamente a tasca de Ismael Gusmán, amigo do escritor, como já várias vezes aqui foi referido. Isaurinha era ela própria a concubina, a amante, a esposa que Ismael estimava desde que a cantadeira Lucrécia, um dia, se finou e se juntou ao Criador. Sebastião comia com gosto pataniscas de bacalhau com arroz malandrinho de feijão. Isaurinha garantia, embora em surdina, que um dia haveria de ser a sua patanisca, o seu caldo do arroz, o seu feijão encarnado. Sebastião olhava para Isaurinha como que lhe suplicando isso e ainda um arroz de lingueirão com alcabozes ou jaquinzinhos fritos. Isaurinha ripostava olhando para Sebastião oferecendo-lhe tudo e a ainda a sobremesa. Poderia Isaurinha ser tão vil que cravara não uma, nem duas, mas sim sete vezes a faca no peito de uma modesta bailarina de revista? Era esta a pergunta, nestes ou em termos parecidos, alguns deles já aqui usados pelo escritor, que o inspetor Ismael Sacadura Flores fazia aos presentes na célebre reunião da tasca de Ismael, na rua do Correeiros, enquanto entre ela e Sebastião o inspetor dissecava semelhanças e cumplicidades. E, tendo Isabella Vicentini se atravessado no caminho dos dois, pois se Sebastião já convergia com Isaurinha, que necessidade havia de se formar ali um entroncamento? É neste mar de ciúmes e paixões, de amores e ódios, de fados e romantismos, de músicas e silêncios, de nuvens e de cacimbo, que Ismael Sacadura Flores navega, onde Sebastião flutua e onde, provavelmente Isaurinha Bate-Sola se poderá afundar. Mas o escritor fundeia aqui. Mandou parar a máquina e baixar a fateixa. Não ficará à deriva, mas só responderá à pergunta se poderá ter sido Isaurinha a execrável criminosa, mais tarde, lá pelo virar da maré.


terça-feira, 8 de maio de 2012

136. Genoveva




Gabo-lhe a paciência, mas também a ingenuidade. A primeira pessoa que lê o que escrevo é a minha mulher. Não publico nada que ela não tenha lido primeiro. Nunca me propôs alterar o sentido de um texto, mas dá-me sugestões para as continuidades. E faz comentários.

"amor, a nossa empregada não se chama Genoveva"
"eu sei"
"mas escreveste várias vezes Genoveva"
"mas também não digo que é a empregada. A propósito, se fosse a empregada não seria despropositado eu gabar-lhe a beleza das mãos?"
"então sou eu amor?"
"não"
"não?"
"não"
"porque não?"
"não tens cabelos loiros e compridos"
"pois não"
"logo não podes ser a Genoveva"
"pois não... inventaste a Genoveva?"
"inventei"
"ah"
"..."
"e quem é a Genoveva?"
"não te disse que inventei?"
"disseste"
"então..."
"podias ter-lhe dado outro nome..."
"podia"
"porque é que não deste?"
"porque não me apeteceu"
"apeteceu-te Genoveva?"
"apeteceu"
"se quiseres deixo crescer o cabelo"
"para quê?"
"e posso pintá-lo de loiro"
"para quê?"
"para amarrares a brisa"
"mas hoje nem uma aragem corre”,
"não estás a ser romântico"
"desculpa"
"posso ser a tua Genoveva?"
"podes"
"posso mesmo?"
"eu disse que sim"
"posso amarrar-te com os meus cabelos loiros?"
"só depois de me fazeres um sumo de ancoras selvagens"

Fiquei com a impressão que a minha mulher não vai querer ler mais nenhum dos meus posts

domingo, 6 de maio de 2012

135. Ismael (50) - Estes não são os suspeitos do costume



Com apenas dois toques, nem um, nem três, mas realmente com apenas dois toques, se bateu à porta fechada, naquele fim de tarde, da tasca do galego Ismael Gusmán. Se Fernandinha não tivesse sido mandada embora daquele período histórico e apenas autorizada a voltar à novela lá para meados dos anos setenta do século XX, sob pena de graves consequências para a sua integridade física e, principalmente, para a integridade mental do narrador e dos leitores desta trapalhada, teria sido ela e levantar-se prontamente daquele banco de pernas altas, em que se costumava sentar por detrás do balcão, onde assentava um cotovelo e, de palma da mão em concha virada para cima, pousava o queixo nas horas mortas e espreitava de viés para a televisão a preto e branco, colocada numa prateleira por cima de um quadro com a fotografia de D. Ismael de Gusmán y Toledo, o falecido pai do meu amigo Ismael. Teria sido ela a levantar-se, como dizia, a encaminhar-se célere para a porta, para, corrido que fosse o ferrolho e entreaberta a dita, espreitar no lusco-fusco que àquela hora já era, sim porque a reunião se estava a alongar e a perguntar quem seria que tão despropositadamente batia assim na porta de uma taberna, sem usar a aldraba para o fazer. Teria sido, portanto e volto a repetir, Fernandinha que se iria inteirar do motivo de tão inesperada, para ela, quanto inoportuna visita, principalmente sendo aquela uma reunião da iniciativa de um inspetor muito conceituado da nossa polícia Judiciária. Muitos anos se haveriam de passar para que a eficaz e necessária polícia de investigação criminal viesse a ter um outro Flores, tão proeminente como o nosso Ismael Sacadura Flores, esse que um dia ainda presidiria a uma Câmara Municipal, quem haveria de dizer, deixando mais pobre a produção telenovelesca. Mas isso são coisas do futuro e nós cá continuamos em 1956 que foi quando Isabella Vicentini foi, efetivamente e, nunca é demais repetir, barbaramente assassinada. Com Fernandinha, coisa que muitas leitoras e principalmente leitores ainda hoje não perdoam ao escritor, fora de cena, quem teve que ir abrir a porta foi o nosso anfitrião, Ismael Gusmán, caramba que o narrador é chato, já lhe conhecemos o nome. Mais chato é o escritor ripostaria o narrador, sabendo de antemão que os outros também o sabem. Ora quem bate apenas duas vezes, nem uma, nem três, apenas duas, querendo com a sua presença inteirar-se de tudo e dos porquês das coisas, fazendo toc  toc em todas as portas, não poderia deixar de ser outra senão a comissária de polícia Alexandra Semião, mais conhecida nos meios policiais por Xana, só não podendo ser chamada de Xana Toc Toc porque essa já é uma marca registada, que os miúdos, vá-se lá saber porquê, gostam de ver no Canal Panda.

Apresentada que foi a comissária Alexandra Semião aos presentes, que ficaram a saber por quem seriam depois acompanhados à Esquadra da Mouraria e já com a porta da taberna novamente fechada, serviu à senhora, o nosso Ismael, o Gusmán, porque o outro é polícia, um café em chávena de vidro de onde exalava um cheirinho a bagaço mas que, por mor da senhora comissária Xana estar de serviço, todos comeram e calaram, não fosse o diabo tecê-las. E continuou então o inspetor Ismael Sacadura Flores, a quem Xana tratava por, «Ó Sacadura isto», «Ó Sacadura aquilo», só faltando mesmo tratá-lo por Sacadura filho, Sacadura amor ou Sacadura querido, tal era a intimidade que aparentava ter com o, efetivamente chamado, Sacadura, que com a sua dedução racional e linear, que como sabem, leitoras e leitores, já vos tive ocasião de dizer antes, conduziu à descoberta da careca do pilantra, que é como quem diz, conduziu a quem cometeu tão horrendo crime e que, se não fosse aviltante para a própria natureza do crime, dir-se-ia, quem molhou a sopa no peito da bela, elegante, simpática e também sexualmente poderosa, bailarina italiana, só que isso do sexualmente poderosa não está nas cogitações do escritor revelar neste livro. E é neste contexto que, virando-se para o Dr. Castro Ribeiro lhe perguntou se este não teria nada a dizer aos presentes sobre a sua relação familiar com o marinheiro Sebastião, não tendo contudo a intenção de deixar o juiz de direito jubilado, Castro Ribeiro, falar, já que aquilo não era um interrogatório, mas sim uma preleção.

E abrindo um caderninho pouco maior do que um bloco de apontar números de telefone, leu em voz baixa num murmúrio que nem um tísico conseguiria apanhar uma só palavra, duas ou três linhas, tendo-o voltado a fechar, guardando-o de seguida no bolso do lado direito do casaco. E continuou agora em discurso direto, apenas para deixar descansar o narrador, que já lhe dói a garganta de tanto narrar, dando, por sua vez, a vez ao escritor, que está folgado das pontas dos dedos, de continuar a escrever, pois que ainda é jovem, apresentável e de boas famílias. Só que por causa das tosses e talvez fazendo birra por causa desta inesperada atitude do narrador, isto hoje está bonito, está, resolveu o escritor dar um salto no discurso e passar quase para os finalmente.

«… E é assim, que vamos encontrar Francisca, a tratar como irmã a pobre Raquel Baruch, a quem chamavam Rosa da Madragoa, pois todas as manhãs saía do cais de Santos com uma canastra à cabeça a apregoar sardinha viva da costa. Nunca o senhor Ishmail perdoou ao Nuno, que era assim, por Nuno, que a sua sobrinha se referia a ele quando escrevia em cartas de papel fininho e, não menos de baixa gramagem, envelopes circundados com as cores nacionais, vermelho e verde e que traziam já pré impressos a menção “por avião” quando escrevia para seu tio Ishmail Baruch, que na época ainda vivia na Áustria». Neste momento Castro Ribeiro baixou a cabeça e olhou para o chão, que é para onde olham as pessoas que baixam  a cabeça, desde que não estejam de olhos fechados. Continuou Sacadura ou seja, mais formalmente como o momento exige, Ismael Sacadura Flores: «Quando o jovem Sebastião nasceu, ainda não se notava que iria ser coxo como o seu tio-avô Ishmail, mas via-se logo que era a cara chapada de Castro Ribeiro, seu pai. Nuno Castro Ribeiro vinha com alguma frequência a Lisboa por mor da sua paixão por Raquel, que conheceu um dia que teve de escolher um rodovalho para grelhar numa paródia de comes e bebes com outros colegas advogados num congresso em Lisboa, deixando vazios, por dois ou três dias por semana, os seus aposentos em Vila Nova de Gaia onde em tempos teve um escritório de advogados, mas isso foi antes de se ter tornado juiz, mas nunca foi capaz de assumir a paternidade do futuro marinheiro». O narrador ousa interromper o escritor para informar que naquele dia, não só o rodovalho era fresquíssimo mas também a salada mista estava magnífica, com tudo o que tinha direito, incluindo os pimentos assados e para perguntar aos leitores se isto não está a ficar romântico, digno de uma novela radiofónica, onde um juiz de direito, ex-advogado de nome e créditos firmados na praça nortenha, que até come rodovalho que é um peixe fino e caro, se apaixona por uma simples peixeira, vendedora de carapaus e de sardinhas, vá lá de chicharros também e, uma vez por outra, rodovalhos. Voltando de novo ao escritor e ao discurso direto do inspetor Sacadura:  «Quando Raquel morreu, após ter escorregado numa rampa de acesso ao Mercado da Ribeira e batido com a canastra numa montra e com a cabeça no chão, pensa-se mesmo que a canastra só serviu para a desequilibrar ainda mais, Nuno veio a conhecer Francisca que era como que uma perceptora de Raquel e foi amor à primeira vista». Cá está mais uma cena romântica, tão linda, que faz até chorar, ousa interromper de novo, o narrador. E continua o inspetor da polícia: «Casaram pouco tempo depois e Castro Ribeiro pode assim ajudar a criar o filho, a quem tratava carinhosamente por Sebas, este que sempre tratou afetuosamente Francisca por tia e esta, por sua vez, que sempre tratou, carinhosa e afetuosamente, para poder usar os mesmos adjetivos, Sebastião, como um filho. E porque é que o senhor Ishmail Baruch, nunca perdoou o Dr. Nuno Castro Ribeiro?» perguntou o inspetor Ismael à assistência, ciente que, apesar do discurso um bocado enrolado do polícia, não se tinham esquecido ainda de que foi praticamente assim que o inspetor, pela mão do escritor, já que o narrador nem se quer meter nisso, começou este pedaço de texto. Pois continuou então o reputado Ismael Sacadura: «Nunca lhe perdoou porque não gostou nada, ouso até dizer, não gostou mesmo nada, mas mesmo nada, friso, repito e acrescento que poderá ter sido ou terá mesmo sido a gota de água que fez transbordar o copo, ou seja, o que conduziu ao corte de relações entre os dois homens, de saber que um homem de tantos recursos, como era e ainda é o Dr. Castro Ribeiro, e com aquela afinidade familiar, ex-namorado da sua sobrinha, que sabe-se lá por que razão teria escolhido Portugal para viver, sem se saber ainda se naquele tempo, em meados dos anos trinta do século passado, Portugal iria entrar ou não na Segunda Grande Guerra e também não se saber ainda se viria a haver alguma Segunda Grande Guerra e se o Hitler iria perseguir ou não os judeus ou quiçá outro povo, pai, embora não oficialmente assumido do seu sobrinho-neto, se abastecia de charutos marados num quiosque rasca do Cais do Sodré em vez de os comprar na sua loja, a genuína casa havanesa, a única importadora autorizada dos mais puros charutos cubanos. E se Castro Ribeiro tinha recursos para os comprar! E se eles eram de primeira qualidade! Primeiríssima! E se quisessem uma testemunha, não do crime, mas sim da qualidade dos seus puros, era chamarem o Dr. Ismael ben-Avraham, o seu mais conhecido consumidor».

Aqui chegados, o escritor começa a entrar com as ideias em parafuso, quer continuar a escrever um livro mas está a sair-lhe uma coisa embrulhada em folha de tabaco e, por isso, pede ao narrador para tomar ele as rédeas do texto antes que ninguém fique a não perceber patavina da história. E é assim que Constantino, outra vez no comando da narrativa, se vê obrigado, para rematar, a dizer que isto que acabamos de ler explica muita coisa.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

134. Temporal



Quando hoje acordei senti uma vontade inexpugnável de escrever. Por outro lado, o narrador que há em mim, divertia-se com este impulso e saía de mansinho para se assomar à janela. Lá fora chovia e fazia um vento pré-ciclónico. Eu, escritor, queria dizer que as gotas que me cobriam, como se de uma diáfana cortina se tratasse, os vidros da minha janela, auguravam que lá fora chovia. Eu, escritor, queria escrever que o zumbido que pelas frinchas das janelas e das portas me penetrava os tímpanos, sugeria-me que lá fora o vento enrolava nuvens, transportava pólenes, beijava gaivotas e acariciava os ramos do meu plátano. Eu, narrador, abri um pouco a janela e fechei-a de seguida. Constatei e transmiti ao escritor, como se lhe fizesse um favor, que lá fora chovia a cântaros e que um vendaval arrasava árvores e telhas. Sem querer, estive quase a deixar escapar um palavrão, mas o escritor reprimiu-o. Eu, escritor, que hoje pela manhã acordei cedo com uma inexpugnável vontade de escrever, terrível vontade essa, obsessiva compulsão para o papel e a caneta, reprimi o palavrão do narrador e não o escrevi. Com palavrões não se faz poesia e a chuva que bate em pancadas no zinco do telhado da garagem em frente à minha janela, umas vezes fortes, outras irregulares, mas suaves, pode não ser poesia mas escreve pautas de fás sustenidos e bemóis de sol e de dó, em compasso ordenado numa sinfonia concorrente com a do cantar do rouxinol. Eu, narrador, preocupei-me em contar ao escritor que hoje os pássaros não saíram dos ninhos, não abandonaram o resguardo das folhagens, não espreitaram para fora das chaminés, não colocaram asas fora dos telheiros. Eu, escritor, depressa compreendi que o pica-pau não sairia do buraco da sua árvore para acompanhar a sinfonia das águas cadentes no telhado de zinco da garagem em frente à minha janela, nem o silvar da flauta de vento que me entrava pela frincha da janela do quarto de dormir. Eu, narrador, quis que o escritor soubesse e disse-o em voz alta, que aquela frincha precisava de conserto e não de concerto e que existiam fitas isoladoras apropriadas. Talvez que hoje fosse um dia bom para os arranjos, talvez que hoje fosse o dia certo para que saísse à rua e na loja de ferragens procurar remédio para as frinchas da minha janela do quarto de dormir. Eu, escritor, pensei que isso não seria muito conveniente se bátegas de água fustigavam campos e estradas, enchiam represas e barragens, lavavam almas empoeiradas, molhavam mais a imensidão do mar, se o vento sacudia para-chuvas. Eu, escritor, olhei-me de pantufas e de pijama de cetim, acendi o cachimbo, dei duas baforadas e preparei-me para descrever o pequeno-almoço, que em breve Genoveva me serviria, de crepes de centeio com doce de mirtilo e amoras, de leite de cabra em jarro da Companha das Índias, de café quente de São Tomé (que Genoveva preparava primorosamente), cujos aromas se misturavam com âmbares do perfume de Genoveva, com as rosas do seu odor a sabonete e com os pólenes transportados pela brisa que, agora sim, amainara o vento, prendera-o com amarras feitas com fios dos cabelos loiros de Genoveva e beijava o fumo exalado da minha pipa de antigo marinheiro. E a tosta morna já aguardava o foie-gras, a melancia e o ananás, descascados pelas finas e brancas mãos de Genoveva, cobriam por completo um desenhado prato de porcelana, o sumo de ancoras silvestres resplandecia nos resplandecentes cristais que a cristalina Genoveva parecia beijar quando lhe tocava com os veludos. Eu, narrador, gritei para mim próprio, escritor, que as torradas já se estavam prontas na torradeira, que o copo de leite tinha de ir de imediato para o micro-ondas de forma a evitar as torradas, acabadas de sair, não viessem a arrefecer. Eu, escritor cheguei à cozinha, não sem antes ouvir a crítica do narrador que me censurou do meu aspeto desgrenhado, com a barba por fazer, embora de cara lavada, olhei para o leite no pacote tetra-pak brotei-o alvo para um copo de vidro, olhei para a amarela cor de margarina que a manteigueira de plástico continha, dei de caras com azul anil da toalha de mesa que tinha deixado de véspera, reparei no cor-de-laranja dominante que emanava da fruteira repleta de laranjas e tangerinas, tomei nota do vermelho doce de morangos ainda no frasco de supermercado e deslumbrei-me coma o roxo das glicínias que da floreira me trepavam o candeeiro de jardim. Eu, escritor, sabia que aquela seria uma manhã de arco-íris. Eu, narrador, tomei o pequeno-almoço, vesti uma inenarrável gabardina, penteei os cabelos, fixei-os com brilhantina e saí para comprar o isolamento para as frinchas da janela. E se vos narrei, narrado está.


terça-feira, 1 de maio de 2012

133. Ismael (49) - Isaurinha Bate-Sola saiu-se bem



«Ó homem, deixe-se disso», vociferou Isaurinha Bate-Sola. «Isso agora não interessa para nada», rematou. Afinal a célebre frase da televisiva Teresa Guilherme não passa, aparentemente, de um plágio. Decorria o ano de 1956 e, reunidos na tasca de Ismael Gusmán, na Rua dos Correeiros em Lisboa, os suspeitos e não suspeitos, os inspetores da polícia e até o taberneiro, ouviam a preleção de Ismael Sacadura Flores. Afinal quem teria matado com sete facadas uma pobre, infeliz, desgraçada, desditosa, desventurada, infortunada, malfadada corista italiana que ganhava, parece que honestamente, o pão, mostrando as pernas e fazendo realçar as nádegas, sobre sapatos de salto muito alto, num teatro de revista no Parque Mayer, em Lisboa, era o que se pretendia saber e vinha agora o jovem Espinheira ainda imberbe, quiçá eivado de pensamentos malinos que à época eram deveras, feroz, assanhada e diga-se que, para bem da moral e dos costumes, justamente censuráveis, propor à assembleia que se fizesse uma pausa para que ele pudesse ler mais um capítulo, mais propriamente o VII, do conto de Francisca, apelidado com algum a propósito, diria o narrador, quiçá porque adora a palavra quiçá, quiçá desanuviador do pesado ambiente que entretanto se gerara, apelidado, dizia o narrador, como um conto de perdição. «Isso agora não interessa para nada» é pois a frase chave deste intermédio que surgiu no referido meeting, frase que hoje estamos a ver terá sido proferida pela primeira vez por Isaurinha Bate-Sola. O escritor ainda pesquisou alguma literatura antiga desde Estrabão até Sófocles, passando por Platão e Aristóteles, lendo minuciosamente o antigo testamento, procurando em Émile Zola e Eça de Queiroz, em Camões e Cervantes, em Jean-Paulo Sartre e António Damásio, de Pessoa e Álvaro de Campos a Drummond de Andrade, de Jorge Amado a Erico Veríssimo, de Descartes a Lavoisier, de Martinho Lutero a João XXIII, não se encontrou elocução similar, pelo que «Isso agora não interessa para nada», à falta de melhor, vai ser atribuída a Isaurinha Bate-Sola, já que neste relambório ainda não teve qualquer mérito, tendo encornado até, passe o calão de circunstância para dizer o mesmo que colocar um par de chifres, o meu amigo Ismael Gusmán, o que para o escritor é imperdoável e procedido, em várias ocasiões e situações, como uma puta, que é o que ela era na verdade, coitado do pai, um honesto sapateiro. Quem não gostou muito disto tudo foi, claro está, a nossa romancista surpresa, a nossa contista de eleição, a nossa anotadora de serviço, a inesperada amante de Ismael Sacadura Flores, a parte-corações, pois até o Rogério ficou dececionado, a tia, talvez emprestada, de um marinheiro sem sextante nem rumo, mas acima de tudo a grande inspiradora do escritor que aqui modestamente se apresenta, como Constantino Guardador de Vacas, já que não tem mais idade para sonhar, a nossa bem conhecida Francisca. E se não chegaram a vias de facto foi por causa de Ismael Gusmán.

Ismael Gusmán era uma boa pessoa. Disso creio que o narrador já conseguiu levar a mensagem aos leitores deste conto de Constantino, cuja biografia já teve ocasião de ser publicada. O narrador, neste momento e uma vez já conhecem detalhadamente o escritor, apenas pode acrescentar que ele é benfiquista e que isso não foi incluído na biografia para não criar divisões entre os seus leitores, pois consta que há pelo menos dois que são do Atlético e um que é adepto do Carrazeda Futebol Clube, uns seis que torcem pelo Sesimbra e, ainda outro, pelo Quarteirense. Ismael Gusmán era um homem pacífico, apaziguador e absolutamente nada presunçoso. Quando soube que o escritor iria referir estas suas caraterísticas de homem comedido, desempoado, simples, humilde, encabulado, recatado, falou ao ouvido do escritor para que ele não gastasse todos os sinónimos num só texto ao que o narrador acedeu e nem vai aqui reproduzir o que mais sobre Ismael Guzmán o escritor se espraiou. Pois Ismael Gusmán, apagou a luz e no silêncio repentino que se instalou, o jovem, o imberbe, o mancebo, fez ouvir a sua voz e leu para quem quis ouvir, que foram todos menos Isaurinha Bate-Sola, o sétimo capítulo de “Contos da ilha de lá”  de cuja autora, Francisca, só não se notou que estava ruborizada porque as luzes continuavam apagadas.

“Os membros da tribo só saíam da aldeia por dois motivos. Caçar e, quando se tornava necessário, iniciar o ritual do casamento. Era da tradição que qualquer jovem da tribo, antes de casar, fosse desvirginada por um ‘estrangeiro’. Por um lado, a jovem nunca seria acusada pelo futuro marido de que tivera tido um romance antes com alguém do mesmo grupo. Isso diminuía drasticamente as relações de desconfiança. Por outro lado, uma vez que a cerimónia era pública, haveria a certeza que a jovem era virgem antes do casamento. Desta vez, o estrangeiro escolhido fora eu. Quando a jovem parou de lacrimejar, respirei fundo. Abstraí-me da plateia e fiz amor com ela. Para ser preciso, o ato durou apenas o tempo de a desflorar. Uma ladainha ecoou em todo o anfiteatro e como que por magia, as nuvens, que desde há horas cobriam os céus, desapareceram e o luarejar misturou-se com a luz dos archotes. Foi um ato lancinante. Para mim, por me ter prestado a tão lapuz ritual. Para a implume jovem, porque o seu rosto se contorceu de dor no momento da penetração. Quando a ladainha que as anciãs entoavam em uníssono terminou, o chefe ergueu alto o lábaro com as armas da tribo - um falcão com focinho de jacaré. Numa lemniscata desenhada no chão, onde num dos círculos me sentei e, no outro, se sentou o futuro noivo, o tratado que antes haveria assinado com sangue, foi-nos lido em voz alta, por uma espécie de feiticeiro. Teria de ficar na aldeia até que a gravidez da jovem se consumasse”. 

E depois de lido mais um capítulo do conto de Francisca, Ismael Sacadura Flores recomeçou a sua preleção tendo-se vindo a saber no final da mesma quem teria morto Isabella Vicentini. E correndo o risco de que algum dos meus leitores me ameace a mim, Constantino, com sete facadas por não revelar o autor material de tão horrendo e indescritível crime pede o escritor ao narrador que vos comunique que isso fica para mais tarde. Na sua incomensurável bondade trouxe Ismael Gusmán ao escritor duas bolachas torradas e um copo de leite. E assim continuou este a escutar atentamente o inspetor Ismael Sacadura Flores até que adormeceu de cansaço.